Não há ameaça de golpe!

Fala-se em ameaça de golpe, retrocesso democrático e outras coisas piores. A direita que foi aos protestos dos últimos dias tem gás para tanto? Grupos semelhantes articularam o movimento “Cansei”, em 2007. É pouco provável que arrastem, por eles mesmos, turbas numerosas atrás de seus slogans hoje em dia.

Gilberto Maringoni

A noite desta quinta abre um cenário preocupante. A direita veio para a disputa física das manifestações iniciadas há duas semanas. E o fez de forma ruidosa e truculenta em várias cidades, com destaque para São Paulo.

Pelo que vi, na avenida Paulista, essas forças não parecem ser uniformes. Minha descrição é puramente impressionista. Há provocadores vinculados à polícia, mauricinhos engravatados, patricinhas variadas, lúmpens em busca de confusão e um grande contingente de curiosos.

Este último grupo parece ser constituído por jovens que nunca participaram de atividades políticas. Vieram às ruas por um misto de revolta “com tudo o que está aí” e por um saudável desejo de participação. Acabam engrossando um coro que tem muito de conservador e moralista. São contra a corrupção, contra os impostos, contra a PEC 37 (que poucos sabem exatamente do que se trata), contra o bolsa-família, os mensaleiros, Lula, Dilma e os partidos de uma maneira geral.

São bandeiras que não estavam presentes – ou pelo menos não apareciam de forma ostensiva – nas passeatas anteriores. E pegaram carona numa luta concreta: a redução dos preços das passagens.

Vitória retumbante
A luta das passagens foi vencida. De forma rápida e retumbante, desgastando governantes que, burocraticamente, se colocaram contra uma demanda catalisadora de várias insatisfações populares. As coisas são assim.

A grande greve de 1917 – que parou cerca de 100 mil trabalhadores numa São Paulo com população seis vezes maior – não começou com reivindicações salariais. As trabalhadoras de uma fábrica queriam creches para os filhos e pararam a produção. A partir daí a mobilização começou e uma extensa pauta de demandas foi formulada, entre elas redução de jornada e aumentos dos ordenados, após uma disputa entre os trabalhadores. A paralisação foi vitoriosa e acabou por gerar mobilizações em várias regiões do país.

As demandas adicionais do atual movimento das passagens estão em disputa. É bom atentar para o fato de que as bandeiras brandidas por grupos de direita – alguns fascistas – entraram de forma postiça e tardia nas ruas. Ninguém levantava a voz contra o bolsa-família nos dias anteriores, como aconteceu nesta quinta.

Contra o comunismo-ô!
Vejo pela internet e na própria marcha muita gente assustada. Não é para menos. Brutamontes encapuzados ou engravatados metem medo a qualquer hora do dia. Ainda mais se essas pessoas investem contra militantes de partidos e movimentos sociais, arrancando e colocando fogo em bandeiras.

Em seguida, urram seus gritos de guerra: “Sem partido-ô!”, “Sem governo-ô!”, Meu partido é o Brasi-il!”. Convocam um “Ato contra o comunismo” para as próximas semanas, no melhor estilo Guerra Fria.

Apareceram para roubar a festa. Em São Paulo conseguiram, em parte. Vieram disputar nas ruas.

A dúvida é: conseguirão, com suas bandeiras, arrastar multidões e criar um movimento fascista de massas? Farão uma versão cabocla da Marcha sobre Roma, mobilização que, em 1922, teve força para colocar Benito Mussolini no poder?

Fala-se em ameaça de golpe, retrocesso democrático e outras coisas piores.

Eles têm gás para tanto?

Grupos semelhantes articularam o movimento “Cansei”, em 2007 e reuniram poucos gatos pingados. É pouco provável que arrastem turbas numerosas atrás de seus slogans hoje em dia.

Caráter nacional
O alcance, tamanho e caráter nacional das manifestações é algo inédito entre nós. Entre a segunda (17) e a quinta (20), tivemos manifestações gigantescas em dezenas de cidades, cada uma maior que a anterior. Analistas não conseguem entender o que se passa.

No Rio de Janeiro, a brutalidade policial acontece numa escalada irrefreável. Estudantes são cercados em universidades e jovens ficam confinados em estabelecimentos comerciais, ameaçados pelas forças de segurança. Em Brasília, a massa atacou o Itamaraty e avançou sobre o Congresso e o Palácio do Planalto. Há uma fúria difusa – e justificada – contra a corrupção, contra oligarcas e obras da Copa, passando pela presidenta da república e outros administradores. Em algumas capitais, sedes de governo e do poder Legislativo conhecem a ira de turbas indignadas.

A direita tenta capitalizar a indignação, trazendo suas bandeiras, há muito pautadas pela grande imprensa. As palavras de ordem contra os impostos têm tudo a ver com o impostômetro da Associação Comercial de São Paulo. A aversão aos políticos em geral foi captada por personalidades como Marina Silva e Joaquim Barbosa, que se valem disso para articular seus discursos. A ideia de que tudo que vem do Estado não presta compõe a base do ideário político de lideranças como FHC, Geraldo Alckmin, Aécio Neves, Sergio Cabral e outros, que promoveram as privatizações dos anos 1990. E que agora ganham nova roupagem nas privatizações levadas a cabo pelo governo Dilma.

Há um surto conservador no terreno dos costumes, patrocinado pelo fundamentalismo religioso.

Os grupos que estão nas ruas não inventaram sozinhos boa parte de seu ideário.

Mas o surto conservador também é uma reação a conquistas sociais dos últimos dez anos, como aumento de renda e níveis de emprego, políticas de cotas, lei do trabalho doméstico, entre outras.

Competência do MPL
Os jovens do Movimento Passe Livre trabalharam anos a fio com afinco e deflagraram o maior movimento de massas em muitas décadas. Não sei se tinham noção de que isso poderia acontecer.

Têm uma idéia aparentemente generosa e sedutora: as mobilizações não têm líderes, não tem hierarquias ou organizações. Pelas entrevistas veiculadas nos últimos dias, são gente de esquerda.

O problema é que a horizontalidade tem suas armadilhas. Uma delas é a total falta de organicidade ou controle. Exemplo disso foram as marchas de segunda-feira, em São Paulo. Após reunir quase 100 mil pessoas no Largo da Batata, ninguém sabia o que fazer. Iniciou-se uma marcha ao longo da avenida Faria Lima, uma das maiores da cidade. No caminho, a multidão foi se subdividindo, o que resultou em quatro passeatas com dois objetivos diferentes, traçados no calor da hora.

É no calor da hora que os grupos fascistas entram e disputam os rumos do movimento.

Serenar ânimos
Penso que agora não é hora de mais marchas (eu dizer isso e nada é a mesma coisa, é apenas uma opinião).

Mas a hora é de avaliar o que está ocorrendo de forma coletiva, articular novos passos, tendo em mente que a jornada foi vitoriosa. E que a vitória não foi do fascismo.

Faltam elementos nessa equação. Falta o poder de Estado, na figura de seus líderes.

No caso de São Paulo, Fernando Haddad se desmoralizou. Poderia ser o grande vencedor, juntamente com o movimento, se não estivesse mais preocupado com planilhas, rubricas e procedimentos de gabinete. Pode ter uma sobrevida como líder, mas não está a altura do cargo. Geraldo Alckmin, por sua vez, parece querer ver o circo pegar fogo para tirar proveito mais tarde. Deu um samba no prefeito, sem muita dificuldade.

A incógnita é Dilma Rousseff. Neste dia de fúria, ela sumiu. Olha para as ruas, mas vê também as turbulências no mercado de câmbio, com o dólar perto de R$ 2,30. Se a elevação se mantiver, logo chegará nos preços. Insatisfação rima com inflação, mas não é solução.

Ma quarta-feira, a mandatária se reuniu com o ex-presidente Lula e com seu marqueteiro. Não se sabe a campanha publicitária que daí virá ou para que serviria a presença de tal profissional na conversa.

Dilma precisa falar ao país em rede nacional, explicar a posição de seu governo e serenar os ânimos.

Não há golpe no ar, como propagam alarmistas.

Mas há golpistas à solta e aos montes. É bom não vacilar.

Gilberto Maringoni, jornalista e cartunista, é professor de relações internacionais da Universidade Federal do ABC. Doutor em história pela Universidade de São Paulo, é autor de “A Venezuela que se inventa – poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez” (Editora Fundação Perseu Abramo).

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=6157

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