O protesto, a baderna e o resto

Não há nada de interessante no ‘despertar do gigante’. Na verdade, ele só despertará mesmo se mudarem as caras dos manifestantes e os meus vizinhos começarem a reclamar da falta de dinheiro. O que me incomoda, fora o discurso da mídia conservadora, é que tem uma brisa fascista circulando pelo Brasil. Por Najar Tubino, de Porto Alegre

Najar Tubino

Porto Alegre – Vou começar pelo resto. Dia 20 de junho, uma quinta-feira, pensei em assistir a um filme na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre. Quinta é o dia da promoção – R$5,00 por cabeça. Eu raramente vou ao centro da cidade. Sou totalmente radical quanto a pagar passagem de ônibus. Dependendo da distância a ser percorrida, vou a pé. Por exemplo, de onde moro, no alto da Avenida Oscar Pereira, um bairro de periferia, ou como se diz em Porto Alegre, uma vila, até o centro são duas horas de caminhada. Até a casa da minha mãe, que fica no bairro Teresópolis, são 50 minutos, sempre considerando apenas a ida. Lógico que não tenho carro, muito menos dirijo. Considero esta invenção da sociedade industrial uma das maiores causas da crise ambiental que vivemos.

Continuando no relato da quinta-feira. Eram 15h20, entramos em um bazar na Rua da Praia, perto da Casa de Cultura para comprar bala de hortelã. Junto com minha mulher, que está de férias. Na porta do bazar um segurança já com a mão na porta, a meio pau. Claro que eu sabia que estava marcado mais um protesto na cidade, em frente à sede da prefeitura. Mas fora do trajeto normal de manifestações. Os veículos de comunicação da cidade anunciavam desde cedo que o comércio fecharia às 16h. Quando chegamos à Casa de Cultura, a funcionária da portaria da sala de cinema estava abrindo a porta.

A correria aumentava
Perguntei: ainda não abriu a bilheteria? Ela respondeu: não haverá sessão. Qual o motivo: hoje tem protesto. Prejuízo total, gastamos quatro passagens de ônibus, e não veremos o filme. Restaram as balas, ainda brinquei com a Lucy. Vamos voltar. E aí começaram os problemas. Já eram 15h40. A correria aumentava. Todos queriam chegar aos terminais, que no nosso caso ficam na calçada na principal via que chega ao centro, onde os manifestantes depois percorrerão. Não existe integração de ônibus como em Campo Grande, onde os terminais recebem o grande fluxo de passageiro, depois as linhas de bairro levam até os pontos mais distantes. Só se paga uma passagem. Em POA, paga-se metade da passagem na próxima meia-hora, se o sujeito entrar em um ônibus. Passando disso, pagam-se duas passagens.

É claro que nesta hora as empresas começam a retirar os ônibus de circulação. Não querem prejuízo com a “baderna”, como dizem meus vizinhos. Dia de protesto virou “dia de baderna”, para o povo simples do bairro, onde a maioria das mulheres trabalha no setor de serviços, como dizem os economistas. Ou seja: ou são diaristas, ou são domésticas. O ônibus demorou cerca de 20 minutos. As paradas estavam lotadas, como ocorre normalmente no horário de pico, no final da tarde, ao redor de 18 horas. A Lucy volta para casa nesta hora – depois de chegar ao centro, usando o trem de superfície de POA, porque ela trabalha do outro lado da cidade.

Vai bombar
Para encurtar: a paranoia estava solta. Todo mundo assustado, porque o protesto, ou “a baderna”, como a toda hora repetia o cobrador, já ia começar. O cobrador do ônibus conhece os moradores. Cita os casos dos outros protestos, quando o veículo deles ficou parado no meio da passeata. No banco de trás, um casal de jovens falava que o protesto ia “bombar”. E ficavam comentando as fotos no celular. Pelo jeito, eles abdicaram de participar, porque iam para algum lugar namorar. Ficavam ligando: dá para ir prá aí, dizia o namorado, estou com a Jamile. Em seguida, comentava: “o meu iphone ainda não chegou, a mulher da loja, queria que eu fizesse o depósito da entrada”.

O ônibus está com 152 passageiros anunciava o cobrador e pedia para o pessoal ir para o fundo do corredor. O trânsito parado. Porto Alegre tem 1,3 milhão de habitantes e por volta de 700 mil carros. A viagem, normalmente dura 30 minutos, no máximo. Levamos o dobro.

Fiquei impressionado com a associação: dia de protesto é dia de baderna. Se tinha 15 mil no protesto, nos bairros vizinhos daqui, a população deve ser muito maior. E aqui não tem burguês, embora muita gente apresente um perfil de classe média, não apenas de classe C. No mercadinho do bairro, hoje, o comentário era: será que haverá “baderna” novamente. Muita gente só conseguiu chegar em casa às 20h30min. Levaram três horas. Na volta assisti o desfile de “Expressos”, veículos que estavam recolhendo para a garagem.

Investigação primária
A questão é a seguinte: o protesto é justo, a organização e a participação de jovens, de velhos, de meia-idade, de crianças, fazem bem para o país. Mas e o resto? Não só quem não quer participar, mas quem está com medo. E o resultado está nas imagens da televisão. Mais de 25 lojas saqueadas, agências destruídas, a mesma loja na esquina da Avenida Ipiranga com a Rua Azenha destruída pela segunda vez, a poucos metros da sede da Polícia Federal, e também da sede do grupo RBS, o conglomerado que comanda a comunicação nos estados do RS e SC.

Não adianta os governantes atribuírem as depredações aos vândalos e baderneiros, como costuma definir a rede Globo. Eles também são brasileiros, tem endereço fixo. Pela rapidez que desaparecem só posso concluir que moram nos bairros centrais. Para ficar até às 2 horas da manhã na rua, qualquer cidadão simples, sem carro, vai ter que esperar até às 5horas, no mínimo, para poder voltar. No caso da minha região. Em outros bairros circulam os ônibus chamados de “madrugadão”. Ou seja, qualquer investigação primária localizaria os responsáveis.

Se os protestos atuais levaram a uma onda de mobilização de “jovens”, de brasileiros que estavam “dormindo” e acordaram agora, em pleno século XXI, depois de 30 anos de democracia, vou confessar uma coisa. Tenho quase 58 anos, já morei em Maceió, Natal, São Paulo, Campo Grande, e estou de volta a Porto Alegre, cidade onde nasci. Enfim, me considero realmente um brasileiro, nem por isso, fico cantando toda hora o refrão da parada de sucesso. Considero demagógico. Trabalho muito por esse país, desde a época da ditadura, quando aos 20 anos iniciei na profissão de jornalista, em 1975. Em 1979, aos 24 anos, ganhei três prêmios reportagem e vivia ameaçado de morte.

Recordações da ditadura
Ganhei um Prêmio Esso, pelo COOJORNAL, órgão da Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, pela entrevista com o coronel Jefferson Cardim Alencar Osório e o sargento Albery Silva. Os dois haviam liderado a primeira tentativa de guerrilha no Brasil em 1965, quando entraram em Três Passos (RS) e declararam o início da “Revolução”. Conseguiram chegar até o Paraná. O depoimento foi gravado na COOJORNAL junto com os jornalistas Elmar Bones e Osmar Trindade, já falecido. O contato foi feito pelo historiador Décio Bergamaschi Freitas, também falecido, ex-procurador do governo João Goulart. Convivi muito com ele. E, durante 15 dias, com o sargento Albery, que na época ainda continuava clandestino, com nome falso e uma carteira de inspetor de quarteirão do Paraná. Ele tinha perdido um irmão e um tio naquele episódio. Albery conhecia todos os movimentos de guerrilha da América Latina e tinha contatos em todo o país. Foi morto no Paraná, posteriormente, acredito eu que por agentes das forças de segurança do Brasil. Isso ocorreu depois da anistia.

Também ganhei um Prêmio Vladimir Herzog porque reescrevi a história da morte do primeiro preso político no Brasil, o chamado “Caso Mãos Amarradas”, sobre a história do sargento Manoel Raimundo Soares, morto em Porto Alegre e jogado no Guaíba, com as mãos atadas. O terceiro foi um prêmio de Agricultura da Associação Rio-Grandense de Imprensa. Trabalhei com jornalismo investigativo até o início dos anos 1980. Parei porque não havia mais alternativas, nem emprego, embora nunca tenha me interessado por este tipo de ligação profissional.

Nesta época também publicava minhas reportagens na revista ISTO É, na época do Mino Carta. Duas provocaram reação do aparato de segurança da ditadura: sobre o sequestro dos uruguaios Liliam Celiberti e Universindo Dias, onde citava a família Reis como uma dinastia que dominava a polícia gaúcha – Marco Aurélio Reis era diretor do DOPS e Leônidas da Silva Reis o Superintendente da Polícia Civil. E um perfil da “Escuderia Falcão”, um grupo de policiais ligado a “Escuderia Le Coq”, do Espírito Santo, conhecida por assassinatos generalizados e atribuídos sempre ao “Esquadrão da Morte”. Em consequência disso fiquei na linha de tiro durante muito tempo. A reportagem sobre os uruguaios era realizado por um “pool” de jornalistas. A minha participação maior foi ir à casa de um policial da Divisão de Informações da Secretaria de Segurança, junto com o tenente da Aeronáutica, Mário Ranciaro, que tinha uma obsessão por revelar a participação de outro militar na morte do sargento Manoel Raimundo Soares. Ranciaro me apresentou como amigo de um sobrinho dele, que era advogado. No meio da conversa, ele perguntou sobre a operação.

O policial respondeu: “eles montaram um bureau de informações com o DOI-CODI e vieram dois majores do Uruguai”. A informação foi publicada na revista VEJA citando uma “alta fonte da Secretaria de Segurança”, e distribuída pelas agências de notícias. Na segunda-feira seguinte, o delegado Edgar Fuchs, da Polícia Federal ligou para mim no COOJORNAL:

“Tubino, tu queres vir aqui amanhã às 9h ou quer que eu mande um convite”.

Claro que fui bastante assustado. Eles queriam saber quem era a fonte que havia me informado sobre o “bureau”. Disseram que seguiam meus passos, literalmente, local por local, junto com o Ranciaro. Depois de três horas de pressão, às vezes, com consultas ao coronel, acho que era Maksem de Castro, superintendente da Federal na época. A certa altura até o advogado do Sindicato dos Jornalistas, Werner Becker queria que eu falasse o nome do sujeito. Não falei, e não falo ainda hoje, porque fonte não se revela nunca.

Lembro-me disso agora porque não estou achando nada de interessante esse “despertar do gigante”, que conta com uma população 200 milhões de habitantes, e por enquanto, ainda tem desemprego baixo e economia em crescimento. Se mudarem as caras dos manifestantes e os meus vizinhos começarem a reclamar da falta de dinheiro, aí certamente o gigante vai se apresentar. O que me incomoda, fora o discurso da mídia conservadora, é que tem uma brisa fascista circulando pelo Brasil.

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=22234

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