As manifestações das ruas e o mal-estar da sociedade

É interessante que o movimento liderado pelos jovens brasileiros – com a esmagadora maioria de extratos da classe média – se faça num ambiente em que o governo tem uma pauta bastante progressista, se comparada com outras administrações.

Enio Squeff

Certos historiadores que estudaram a Revolução Francesa fizeram algumas constatações paradoxais: o encaminhamento de muitas reivindicações populares, à época, estavam para ser atendidas; era quase certo que a Assembléia Constituinte, parte da qual formada principalmente pela pequena burguesia – talvez alcançasse bons êxitos em suas demandas. No entanto, tudo se precipitou. No dia 14 de julho os populares assaltaram a Bastilha, prisão política do regime, só que, ao contrário do que se imaginava numa Monarquia repressiva como a francesa, libertaram apenas sete prisioneiros. Nada de comparações – mas é interessante que o movimento liderado pelos jovens brasileiros – com a esmagadora maioria de extratos da classe média – se faça num ambiente em que o governo tem uma pauta bastante progressista se comparada com outras administrações. E que um aumento da passagem de ônibus, até bem pouco considerado irrisória, fosse capaz de mobilizar tanta gente.

Claro, como disse alguém pela internet – as demandas são muitas, vão muito além de alguns vinténs. Numa cidade como São Paulo, em que o governo do Estado construiu míseros 70 quilômetros de metrô em vinte anos, não será pelo aumento das linhas de ônibus que o problema e o mínimo de conforto dos passageiros dos coletivos serão resolvidos. Logo, o papel da prefeitura – um dos alvos do protesto – será sempre restrito. Entrementes, porém, “la nave và”, como diz um dos filmes de Fellini, ou seja, a história continua: enquanto as massas berravam nas ruas, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal, contra o consenso da ONU, referendou a decisão de considerar a homossexualidade “uma doença”, coisa de certos evangélicos, mas, igualmente, tudo, talvez, como o diabo goste. Pois, na outra ponta, o governo da presidenta Dilma vem, há muito, tendo de se sentar com os ruralistas – que não representam mais que 10% da população (embora detenham muito mais parlamentares no Congresso) para discutir temas que interessam ao latifúndio, enquanto a questão da reforma agrária, é empurrada com a barriga, pelo seu governo, como se não fosse um escândalo, ainda hoje, que uma minoria detenha mais de 50% das terras brasileiras. Aliás, uma das líderes das manifestações, de São Paulo, uma mocinha, quando perguntada, pela TV, referiu-se à questão. Para ela, depois da “Tarifa Zero”, as pessoas marchariam pela “reforma agrária”. (sic) O restante de sua entrevista, dada a um canal de TV, foi, como se pode calcular, devidamente interrompido.

Não se imagina que a imensa pauta de reivindicações seja posta nas ruas com qualquer sucesso. Mesmo assim, a grande imprensa já se adiantou (dá-se que os manifestantes exijam a “Lei dos Médios”?) e insiste em que a questão da PEC 37 é o que mais interessa. Quase ninguém sabe do que se trata, mas como a mídia resolveu colocar o seu cardápio na conta do que ela, no começo, chamou de “baderneiros”, “rebeldes sem causa,” e outros afins, ficam as perguntas.

Freud num de seus ensaios, acertou na mosca, quando aludiu a um certo “mal-estar da cultura (ou da civilização)”, título de um de seus ensaios e que se estendido à sociedade, é uma realidade em plena evidência. O mal-estar da sociedade brasileira é inegável: a distância entre o legislativo, o executivo, o judiciário e a população é um espécie de fosso intransponível. Tudo se dá, pelo menos na aparência, como megas conchavos em que, em nome da governabilidade, as mais importante decisões, para o país, se fazem, às escondidas. Afora isso, o que fica, é a constatação de Mark Twain, no século XIX, sobre o legislativo americano, da época: “Temos o melhor parlamento que o dinheiro pode comprar”.

Evidentemente, é disso também que se trata no Brasil, no ano da graça de 2013. A educação? Talvez o governo federal possa responder que nunca em momento algum, se fez tanto em tão pouco tempo. A saúde? Toda a classe média saudou o fim da CPMF, como o corte de “Mais um imposto “- o mais justo deles por sinal – com o que, porém, o dinheiro para a saúde teve de sair de alguma fatia do orçamento ordinário do governo.

A questão, enfim, talvez seja outra. A pauta de reivindicações assumiu um caráter de urgência incompatível com a precariedade do tempo e pior, com a realidade política em que vivemos. No governo de Luisa Erundina, por exemplo, cogitou-se de se chegar à tarifa zero para o transporte público de São Paulo. Foi um Deus nos acuda, com a mesma mídia de sempre, a escorar as decisões contrárias da Câmara do vereadores da cidade. Explica-se. O exemplo certamente se estenderia a outras capitais e muitos políticos, de São Paulo e de outras cidades, não contariam com as empresas de transportes e seus donos, para suas campanhas eleitorais. Que obviamente também respondem por uma representação muito pouco compatível com os extratos e os interesses da maioria da população não apenas em São Paulo, já que as eleições exigem uma circulação de dinheiro – só condizente com a constatação de Mark Twain. Aqui também temos os melhores parlamentos que o dinheiro pode comprar. Como modificar isso sem uma reforma política, que evidentemente a maior parte dos políticos não quer nem ouvir falar?

Em 1789, na França, os acontecimentos se precipitaram antes que o dilúvio previsto por Luis XV, pai de Luis XVI – que teve a cabeça devidamente decapitada pela guilhotina – pudesse, quem sabe, ser evitado.

Mas existem outras questões, a começar pela surpresa dos que sempre imaginaram um receituário para qualquer crise social ou política. Um dos princípios que sempre foi negado pela esquerda tradicional – do espontaneísmo das massas – nunca foi levado na devida conta: sempre haveria um motivo para a mobilização de milhares – ou milhões de pessoas. E o motivo teria de ser forte – não, certamente, os vinte centavos de aumento da passagem dos ônibus.

Essa talvez a razão do silêncio e do estupor de quem se considera “de esquerda”( digamos que isso ainda exista), sejam indivíduos ou governantes.

Talvez, enfim, haja quem sinta também, ainda que difusamente, como afirmou o professor Wanderley Guilherme dos Santos, um certo cheiro nauseabundo no ar. Ele e a sua geração viram a “Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade”, dirigidos por um padre agente da CIA, chamado Patrik Payton. Ele mobilizou milhões pelo Brasil, brandindo um terço na mão. Havia, à época, como hoje, um indefinível mal-estar na sociedade brasileira. No caso, porém, o padre e seus empregadores foram diretos: tratava-se de derrubar um governo, e João Goulart foi, de fato, deposto, um ano depois, em 1964. O resto é o mais lamentável de toda a nossa história, como País.

Enio Squeff é artista plástico e jornalista.

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=6156

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