O Ensino da Geografia

O ensino da geografia e da história nos coloca uma considerável responsabilidade: a formação dos futuros cidadãos. Assim, acredito que o problema de ensinar essas disciplinas é muito complexo e delicado. Falo de duas especialidades diferentes e penso que a Escola Geográfica Francesa nesse sentido teve um mérito, ao contrário do que ocorreu com as geografias soviética e anglo-saxônica, pois ela manteve os laços com a história. Laços que devem ser vistos com clareza como contratuais. Essas relações interdisciplinares não são apenas relações de utilidade mútua, mas também relações de força. Nós vivemos, na França, sob a hegemonia dos economistas e dos sociólogos, com conseqüências desastrosas para as demais ciências humanas que em muitos casos reproduzem modelos oriundos da economia e da sociologia. Faço alusão a esse problema porquê estive recentemente envolvido por ele num assunto de alcance nacional. Em 1982 o Presidente da República Francesa, F. Miterrand, que tem uma grande preocupação pela história, afirmou que era perigoso essa perda de cultura histórica por parte dos franceses e encarregou um historiador especialista em relações internacionais para estudar o tema e propor soluções. Encarregou o professor René Girauld de realizar uma pesquisa sobre o ensino da história nas escolas elementares, médias e superiores. Então Girauld comprovou com espanto que desde há vários anos, quase dez, que a escola fundamental já não ensinava nada de geografia e de história. Segunda constatação: que no Liceu [ensino médio] existe uma situação de mal estar; os professores de geografia e história buscam outra coisa, uma saída, por exemplo, engenharia ecológica, combate à poluição, estudos de economia… Até a própria Revolução francesa era um assunto cada vez mais negligenciado. E a geografia? Como disse o professor Giraud, como os estudantes tinham uma grande aversão a um certo tipo de geografia [descritiva, mnemônica], acabou-se por condenar todo e qualquer estudo geográfico. Então René Girauld me chamou e perguntou se eu poderia ajudá-lo quanto ao problema da geografia, e aceitei devido à importância disso. Logo me dei conta que estava numa equipe que pretendia liquidar a geografia escolar, e sabia que na Itália tinham feito algo semelhante. Assim, travei uma primeira batalha com os historiadores, que eram bons historiadores, para lhes mostrar que era necessário submeter a geografia a uma crítica — que ela não podia continuar a ser ensinada do jeito tradicional –, mas que se tratava antes de tudo de reanimá-la. Depois eles mesmos perceberam que se suprimirem a geografia do sistema escolar, tampouco a história iria durar muito tempo. Disso surgiu uma espécie de aliança entre ambas as disciplinas. O ministro da educação acabou por assentir nesse acordo e disse: OK, vocês podem também investigar a geografia… Enfim, falei tudo isso para vocês para que percebam que é assim que as coisas se desenvolvem na prática. A teoria normalmente surge depois do desenrolar dos acontecimentos.

Quando participamos dos encontros entre Girauld e seus conselheiros, quando elaboramos determinadas conclusões razoáveis, devo dizer, o Ministério como máquina organizativa fez de tudo para não aplicá-las. Percebemos que muitos burocratas haviam sido anteriormente professores de história ou de geografia e que tinham opiniões pré-concebidas; alguns como professores e outros como sidicalistas haviam ingressado no Ministério, inclusive na época em que a direita estava no poder. E por incrível que pareça, esse ensino do tipo marxista e economicista se desenvolveu enormemente sob os governos Pompidou e Giscard d’Estain, que tiveram ministros declaradamente de direita! Ou seja, as coisas são mais complicadas do que parecem… No final das contas, o Ministério há pouco, depois de muitos conflitos, fez um texto com novas diretrizes para o ensino da geografia e da história; mas só quando o texto saiu é que nos demos conta que várias linhas foram trocadas ou modificadas, o que deformou completamente o significado das coisas… Os problemas do ensino da história e da geografia são difíceis e não é fácil implementar o que se quer. Os professores constituem uma corporação numerosa e na qual as representações ideológicas ocupam um lugar importante, muito maior do que em outras disciplinas, como por exemplo a matemática ou até mesmo a língua e a literatura.

Tudo isso que falei aponta para o tema de “Que geografia ensinar?”. Pois existem diferentes geografias e diferentes maneiras de as ensinar. Da minha parte, estou contente com o meu trabalho pedagógico; passei vinte anos fazendo uma coleção de livros didáticos, nos quais muitas vezes disse coisas que não haviam ainda sido publicadas em revistas e publicações científicas. Penso que a pedagogia não é necessariamente um subproduto da ciência; muitas vezes a resolução de problemas pedagógicos obriga a se enfrentar de outra maneira os problemas científicos… Creio que se deve dar à pedagogia um sentido mais popular do que é dado por muitos especialistas, tendo-se em conta que os alunos não são torpes e que muitas vezes, especialmente na geografia, há que se partir da sua experiência e de problemas concretos para se chegar a coisas mais elaboradas. Um aspecto fundamental que infelizmente os geógrafos universitários esqueceram é a ação. A geografia se faz na prática, não serve para aprender coisas que “devem ser aprendidas”. Curiosamente ocorre um paradoxo: os geógrafos dizem “deve-se fazer isto”, como se fossem eles quem decidissem. Ou seja, algumas vezes eles julgam, talvez insconscientemente, que são chefes de Estado; imaginam que basta a ciência para compreender os fenômenos e automaticamente todo mundo vai aplicar as conclusões e todos vão estar de acordo com elas(…) Essa relação entre a geografia e a ação é algo secular. E a expressão fundamental dela é o mapa. O mapa é uma representação de uma porção do espaço terrestre, que era um imperativo em outro tempo. Hoje temos as fotos aéreas, a teledeteccão e outros aparatos que fazem tudo praticamente sozinhos, graças a avanços técnicos, científicos e tecnológicos. E os geógrafos universitários não utilizam a teledetecção somente por prazer. A geografia conhece um momento de prodigiosa expansão dos conhecimentos. Apesar de estarem destinados aos Estados maiores [dos Estados e das grandes empresas], chegam até nós algumas contribuições(…) Mas é lógico que o ensino da geografia não consiste somente na leitura de mapas. Por que se ensina aos cidadãos? Por que aos alunos? Quanto mais consciência tiverem os cidadãos da geografia, mais fácil será a existência de formas autônomas e pessoais de comportamento. E não quero falar apenas da guerras, que infelizmente ocorrem… Hoje na França, e suponho que também na Espanha, existem projetos de melhoria de bairros e mesmo dos municípios, que se expressam através de mapas, assim como por livros, os quais devemos saber ler. A população deve tomar contato e conhecer os projetos de seus políticos…, de seus locais de moradia. Pois bem: se quisermos expressar qual é a função da geografia, eu a definiria como o “saber pensar o espaço”. E saber pensar o espaço, ou ter um raciocínio geográfico, não é sonhar com as estrelas e sim pensar o espaço com uma visão política, saber pensar o espaço com vistas a nele atuar mais eficazmente. O espaço terrestre, convém enfatizar, que é importante é complexo; por ele devemos abandonar a noção de espaço abstrato, que é totalmente normal nas matemáticas e na geometria. É muito difícil estabelecer grandes teorias sobre o espaço geográfico, porém ele existe. Nele atuamos como pessoas(…)

Como alguém pode ensinar geografia sem levar em conta aquilo que os alunos recebem, como problemas políticos, através da televisão, dos jornais, etc? Se a geografia estiver separada de todos esses problemas, é natural que eles — os alunos — não se sintam motivados por ela. Quando falo em problema político, é bom ressaltar, emprego o termo no seu sentido etmológico: ele vem do grego “pólis”, cidade, e a cidade é um fenômeno essencialmente geográfico. O político, então, não é uma “instância” ao lado de outras (o econômico, o social, o cultural, o ideológico…), e sim um elemento que atravessa toda a atividade humana. Ele não se limita aos embates eleitorais ou às diferenças entre os partidos políticos, por mais interessantes que estas sejam. O conjunto da geografia, na minha opinião, é um saber voltado para a compreensão do espaço e da organização do poder(…) Existe ação tanto na história quanto na geografia, porém, neste última o drama acabou ficando esquecido. Temos que recuperar essa idéia de drama. Não há geografia sem drama, como disse Jean Dresch, que afirmou que o procedimento de investigação científica e filosófica deve buscar o drama, ver em que medida mesmo elementos que parecem tranquilos podem resultar em dramas. Vou mencionar um exemplo muito simples: a erosão. Nas salas de aula os alunos aprendem o que é a erosão (algo que normalmente os aborrece), porém se pode e se deve mostrá-la como drama. A erosão do solo é um drama e um drama político no sentido amplo do termo. Quando se sabe que existem países cujo solo é uma herança de épocas climáticas passadas, solos fósseis como se diz, cujas reservas não se renovam e que há toda uma série de fatores — crescimento demográfico, as condições climáticas, expulsão do sistema agrícola dos pequenos camponeses até as encostas, etc. — através dos quais se chega a um verdeiro drama, que não é imaginário e sim real. A partir do momento em que transformarmos uma série de conhecimentos livrescos em forma de drama, eu asseguro que os alunos entendem e gostam. Tudo em geografia pode e deve ser dramatizado. Volto à história. Os historiadores não perderam o sentido do drama. Quanto contam uma história, contam um drama: a sorte e as desgraças da pátria, as tentativas de uma facção política, os êxitos e os erros de um soberano, etc. Temos que fazer o mesmo. Ademais, isso é um procedimento pedagógico que funciona muito bem. Por exemplo: se estudarmos as falhas em geologia, falhas horizontais, verticais, etc. — e principalmente quando se estuda a tectônica das placas — existem certas falhas que adquirem um significado todo especial. E quando relacionarmos isso à distribuição da população, veremos que as grandes falhas de subducção deram vida a cidades como San Francisco, Los Angeles, México, Lima, Estambul, Lisboa, etc. São cidades condenadas à morte no tempo geológico. É assim que intervém a história (tempo longo, tempo curto) e que intervém o raciocínio geográfico. É aqui que se dá conta que uma série de informações produzidas pela geologia, pela climatologia, pela demografia, pela economia, etc., pode ser reunida, que existe alguém que faça isso, seja através de mapas, textos ou de um computador. Sabendo-se que dentro de 20 anos cidades como México, São Paulo, Rio, Shangai, vão alcançar os 30 milhões de habitantes, o problema espacial será gigantesco. É necessário pensar uma estratégia para evitar que essa explosão urbana vire uma tragédia. A partir daí, podemos perguntar aos alunos o que eles fariam para resolver — ou minimizar — essa tragédia. É uma técnica de jogo e creio que em geografia temos que aprender a jogar. O jogo é uma construção intelectual de antecipação, extremamente importante. Os militares nele se inspiram. E acredito que os cidadãos devem saber como podem ser feitos uma série de raciocínios de ação. Penso que esse método pedagógico que defendo não vai inteiramente contra a geografia tradicional. Porque o problema da geografia descritiva não consistia somente em descrever e sim em omitir a ação, o modo pelo qual esses fenômenos descritos podiam ser modificados ou podiam originar dramas. Penso que os métodos da geografia descritiva falharam ao não explicar o porque, para que e como podiam servir. Com uma série de estudos de caso, de simulações de ações, esses métodos podem ser integrados num outro sentido.

O estudo das fronteiras é uma das tarefas mais importantes do geógrafo, tanto no passado como nos dias atuais. É muito interessante examinar as fronteiras em termos de interseção de conjuntos, porque em muitos Estados ela é exatamente isso. Por exemplo, o caso da Suíça (por sinal, muito tranqüilo, pois ao contrário do Líbano não originou intermináveis guerras). Em condições normais, as populações da área onde está a Suiça deveriam estar lutando continuamente, pois existe um conjunto com uma grande cadeia de montanhas, os Alpes, e a Suíça representa uma interseção desse conjunto. Continuando, podemos entrar em detalhes desse conjunto: existem uma série de cantões e essa divisão em cantões não coincide com as diferenças linguísticas: francês, alemão, italiano, romanche. Os limites dos cantões não coincidem com os limites linguísticos. E por outra parte as diferenças religiosas, que jogam um papel político importante entre católicos e protestantes, não correspondem nem com os limites linguísticos nem com os cantonais. Como conseqüência, a Suiça é um caso especialmente formativo na análise da não coincidência de toda uma série de conjuntos espaciais que segundo alguns , os que seguem um certo modelo, seria um caso simples de católicos franceses de um lado, germanófilos protestantes de outro, etc. Só que nada disso é verdade, esse conjuntos não casam, não coincidem. Um outro exemplo seriam os Estados africanos, cujas fronteiras recortam toda uma série de etnias. Para mencionar um caso que conheço bem, vamos falar da África Ocidental (Senegal, Costa do Marfim, Serra Leoa, etc.). Existem aí fronteiras que não foram traçadas por uma rivalidade imperialista e sim devido ao sentido do próprio império. Eram fronteiras administrativas e a partir do momento em que se converteram em fronteiras de Estados nacionais manifestaram uma série de problemas. Encontraremos aqui um povo com muita confiança no individualismo, o povo Xénoufau, que está dividido em três Estados. Até agora as coisas ainda não foram muito mal… No Oriente Médio temos o problema curdo. Típico desses problemas de interseção de conjuntos, os curdos estão espalhados por cinco Estados: URSS, Turquia, Irã, Iraque e Síria. Normalmente acusa-se o imperialismo, mas temos que levar em conta que as fronteiras entre o Irã e o Iraque, onde se luta com ardor atualmente, é muito antiga e não foi produzida pelo imperialismo europeu. Não podemos fazer recair sobre o imperialismo todos os problemas. Esses povos estão lutando numa velha fronteira que já era uma intersecção do conjunto curdo. Da mesma forma, esse conjunto curdo, se olharmos bem, está dividido em diferentes tribos que se entendem e não se entendem muito bem. Existem curdos semitas, xiitas, e isso coloca uma situação extremamente complicada(…)

Vejamos agora o estudo do meio local. Desde há uns 15 anos, na França, os professores de história e geografia foram instigados — no início por organizações sindicais e depois pelo Ministério da Educação — a fazer com os alunos um estudo do meio local. A meu ver, isso é uma coisa ao mesmo tempo boa e ruim. É boa porque é evidente que o estudo e a análise da situação concreta na qual se encontram os alunos e seus pais é algo absolutamente necessário. Deve-se encontrar uma aplicação útil desse método, levando-os a compreender a realidade local. Todavia, o estudo do meio local é extremamente difícil. Às vezes é mais difícil do que estudar o espaço dos estrangeiros, o espaço dos vietnamitas por exemplo, porque é um objeto no qual deve-se levar em conta uma série de fenômenos bastante emaranhados. É por isso que na França, mesmo tendo sido instigados há mais de 15 anos a fazer um estudo do meio local, até hoje os professores em geral não fazem nada. Houve alguns poucos estudos do meio local que foram bem feitos, pois eram professores que amavam verdadeiramente a história ou a geografia e a isso dedicavam todo o seu tempo livre, toda uma paixão pela realidade política local. Mas no que se refere à maioria, o resultado foi catastrófico. Os mestres levavam os alunos a ver uma igreja e simplesmente diziam: “Isso é uma igreja, tem um campanário e um um cemitério que se chama assim”. No ano seguinte eles voltavam com as mesmas classes para ver a mesma igreja. Os professores e os alunos apenas se aborreciam e tudo isso não servia para nada. Chegamos à conclusão, naquela referida Comissão para a renovação do ensino da história e da geografia, que o estudo do meio local é muito útil e ao mesmo tempo muito difícil, que é necessário uma intensa formação prévia dos docentes(…)

(Trechos selecionados de LACOSTE, YVES. La enseñanza de la geografia. Curso proferido dias 22 e 23 de março de 1985 na Universidade de Salamanca, Espanha, editado em 1986 pelo grupo CRONOS).

Fonte: http://www.geocritica.com.br/texto03.htm 

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