O trânsito da Grande Vitória tem saídas. Veja por onde elas passam

Especialistas e autoridades avaliam os projetos que prometem desafogar o trânsito da Região Metropolitana. E você? Acha que vai melhorar?

LEONARDO SOARES

Nos últimos tempos não são apenas os protestos dos estudantes pela redução das passagens de ônibus que estão parando o trânsito em pontos-chave da Grande Vitória. Engarrafamentos viraram rotina na vida de quem vive ou anda pela região. Tem saída? Para prefeitos e secretários de trânsito das cidades que apresentam os maiores problemas, sim. São pelo menos cinco projetos, que estão longe de ser unanimidade, como a Quarta Ponte até Cariacica e o túnel até Vila Velha Velha.

Três especialistas em mobilidade urbana avaliaram os prós e contras das propostas, depois que os prefeitos de Vitória, Vila Velha, Serra e Cariacica discutiram o assunto no ciclo Debate CBN. Confira o que dizem sobre cada um dos projetos a engenheira, Mestre em Estradas e Aeroportos e Pós-Doutora em Transportes Maria Inês Faé, a professora e coordenadora de Engenharia da Produção Gesiane Pereira Silveira, e a subsecretária de Estado de Mobilidade Urbana, Luciene Becacici.

QUARTA PONTE
A nova ponte faria a ligação entre os municípios de Vitória e Cariacica utilizando a Rodovia Serafim Derenzi, em São Pedro, Vitória, até o bairro Porto Santana, em Cariacica. O objetivo é tirar parte do fluxo de veículos do Centro de Vitória e da Segunda Ponte (foto). Ainda não há um estudo pronto de viabilidade técnica sobre o projeto. Depois de pronto o estudo, outra avaliação será feita para medir o impacto ambiental da obra. Apenas o projeto final deve indicar detalhes como a implantação de ciclovias, por exemplo.

“Defendo a quarta ponte ligando Vitória a Cariacica, que nos parece o caminho mais fácil de reduzir o fluxo no Centro da Capital e o engarrafamento na Segunda Ponte e nas Cinco Pontes”João Coser (PT), prefeito de Vitória, durante debate da Rádio CBN Vitória sobre os desafios da Região Metropolitana

“Do nosso ponto de vista (Governo do Estado), a Quarta Ponte requer um eixo de ligação que não seja a Serafim Derenzi. Esse trecho a gente já vê como uma nova fase do BRT mais à frente. Tendo um novo eixo viário que ligue o fluxo da Quarta Ponte à região Norte de Vitória – sem utilizar a Serafim Derenzi – com certeza vai desafogar a área central do município. 
Mas é um projeto mais caro, com prazo um pouco maior. É fundamental para a mobilidade urbana e permite desviar o tráfego antes que ele chegue até o gargalo da Segunda Ponte. Aí só vai para o Centro quem quiser”. Luciene Becacici

“Todo projeto desse gera muitos impactos. Pode desafogar o trânsito no Centro, mas afogar em outra área. Não sei se pode melhorar. Os técnicos têm essa análise e devem ter essa resposta. É um projeto bastante caro. É o que mais chama atenção nesse projeto. Além de não ser um projeto feito da noite para o dia”
Gesiane Pereira

“A região Sul da capital é complicada, e isso é de longa data. Os acessos à Segunda Ponte já alcançaram a capacidade faz bastante tempo e os engarrafamentos são quilométricos. Quer seja com ampliação da Segunda Ponte ou a construção de uma Quarta Ponte, é necessária uma atenção especial em fazer melhorias inclusive para os pedestres. É uma região de rodoviária, precisa melhorar. O ideal seria que já tivesse acontecido um reforço naquela área”. Maria Inês Faé

“Ajudaria muito Cariacica e toda a Grande Vitória. A ponte tem importância por algumas razões. Primeiro, teríamos deslocamento do trânsito da BR 262 para a BR 101. Deslocaríamos o trânsito intenso no Centro de Vitória para a Serafim Derenzi. Ao diminuir a intensidade no Centro e na BR 262, nós diminuiríamos a intensidade do tráfego na Segunda Ponte”
Helder Salomão, prefeito de Cariacica

AQUAVIÁRIO
O projeto prevê reduzir a quantidade de automóveis na rua circulando entre os municípios da Grande Vitória. O governo estuda a construção de dois píeres, inicialmente. Três lanchas rápidas, com capacidade para 100 pessoas cada uma, fariam a travessia entre a Enseada do Suá, em Vitória, e o Parque da Prainha, em Vila Velha. Tudo em caráter experimental. O sistema já existia na Grande Vitória desde 1978 e foi paralisado em 2000. Já chegou a atender a 424.526 usuários por mês, com 11 barcos, um terminal aquaviário e quatro pontos para embarque entre Vitória, Vila Velha e Cariacica.

“Será feito um novo estudo de viabilidade sobre esse projeto. Se ele se mostrar viável sob alguma condição, ele vai precisar se adequar de alguma forma aos modais já existentes, como o Transcol, por exemplo. Mas é preciso reavaliar os dados técnicos antes de impantar um projeto piloto. Acredito que um ‘teste’ não será feito. Mas já tem estudo levantado sobre o aquaviário”Luciene Becacici

“Apesar de ter uma flexibilidade muito pequena e precisar de uma integração para ter um volume maior de pessoas, ele precisa do aporte de algum outro tipo de mobilidade. É mais barato e é bem interessante. Vitória é uma ilha, então a via já está feita, já está pronta. Com o aquaviário você ganha tempo e liga a capital a todos os outros municípios”
. Gesiane Pereira

“Os estudos de mobilidade urbana mostram que você provê a infraestrutura de acordo com as demandas que se fazem. Vitória é ilha”. Maria Inês Faé

“Sou favorável, primeiro porque desloca pessoas rapidamente. Isso reduz o número de veículos, o que é bastante importante. Mas também podemos pensar no turismo utilizando a Baía de Vitória. É preciso que pensemos no Aquaviário. Esse pode ser um ponto de avanço”Helder Salomão, prefeito de Cariacica

TÚNEL
Túnel passando por baixo da Baía da Vitória e ligando o bairro Ilha de Santa Maria, na capital, à Glória, em Vila Velha. A obra já tem projeto executivo, estudos, concepção e alternativas de acessibilidade concluídos. Estão previstos dois túneis neste projeto. Enquanto o que liga as duas cidades será subaquático, passando por baixo da Baía de Vitória, o segundo vai perfurar o Morro da Garoto, já em Vila Velha, permitindo a ligação do primeiro túnel aos demais acessos da cidade: Avenida Carlos Lindenberg e Canal Bigossi.

“É outro projeto já definido. Já até lançaram o edital dele. Está em andamento. A hora que for tudo viabilizado, o túnel tem potencialidade para criar um novo caminho no tráfego geral. Isso é muito positivo para a mobilidade. Mas o túnel também precisa ser pensado de forma integrada. Nenhuma solução viária pode ser pensada separadamente. A hora em que estiver pronta a ligação entre Vitória e Vila Velha, o túnel vai precisar se inserir de algum jeito ao plano de mobilidade”Luciene Becacici

“Esse é um projeto ‘bonitão’. Mas é um projeto muito caro e muito demorado de se tirar do papel. Seria uma solução, mas é preocupante esperar ficar pronto, com os problemas de trânsito que estamos enfrentando todos os dias”. Gesiane Pereira

“O túnel vai ser apenas uma passagem a mais. Nós não precisamos ficar mais fazendo ligações entre Vila Velha e Vitória. Temos é que desconcentrar os investimentos só em Vitória. Se Vila Velha pudesse escolher, pediríamos ao invés do túnel, as estações de bombeamento para encerrar os alagamentos. Vila Velha alagada congestiona Vitória toda e não há túnel que resolva. É só mais um buraco”Neucimar Fraga, prefeito de Vila Velha

VEÍCULO LEVE SOBRE TRILHOS (VLT)
Também conhecido como metrô de superfície, o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) virou uma marca da campanha do prefeito de Vitória, João Coser (PT). O projeto é cogitado nos projetos de mobilidade urbana, assim como o BRT. De acordo com os estudos iniciais, seriam gastos R$ 920 milhões, segundo divulgou a Prefeitura de Vitória na época. O metrô, movido a energia elétrica, ligaria os municípios da Serra, Vitória, Vila Velha e Cariacica, percorrendo um trajeto de 31,1 quilômetros e contando com 30 estações.

“Sobre esse projeto digo que o Governo abraçou o BRT para atender o perfil da Região Metropolitana no nível de agilidade e curto prazo, pensando também no preço acessível. Os estudos mostram que os VLTs costumam ser muito mais caros e de difícil implantação. Entendemos que precisamos de um projeto metropolitano, que não dê benefícios principalmente a uma só cidade. Então as prioridades são envolver todos os municípios em igualdade”. Luciene Becacici

“Com poucas vias principais existentes, é complicado. O VLT para ser economicamente viável, ele precisa ter uma demanda muito grande de gente. Talvez a integração com mais algum modal ou a substituição de um por outro”. Gesiane Pereira

“Não há como afirmar se não está para vir por aí. Mas a tônica do momento é em utilizar outros recursos do ônibus, e não do metrô. A aposta o BRT. O problema que eu vejo – que não é só do projeto, mas de qualquer infraestrutura – é que existe um prazo para se conceber, um prazo para implantar, um prazo para o recurso chegar. O VLT teria um prazo médio de cinco anos no mínimo para ser implantado. Por outro lado, ele teria uma vida útil mais longa, de cerca de 30 anos”. Maria Inês Faé

“Nós dependemos de serviços. A Região Metropolitana é diferente. É uma capital pequena com cidades maiores no entorno. Se não existir proposta ousada, nada vai à frente. É muito difícil o trabalhador sair da Serra e chegar a Vila Velha ou Cariacica. Eu perdi a ideia sem ter o direito de debater. O governo, na época, tinha uma opinião diferente. Mas não houve um instrumento de debate. Você tem uma bela ideia, apresenta e ela nem sequer é debatida corretamente”. João Coser, prefeito de Vitória, durante debate da Rádio CBN

BUS RAPID TRANSIT (BRT)
O projeto é o preferido do Governo do Estado e deve estar funcionando dentro de três anos. Considerado um upgrade do Sistema Transcol, pretende criar faixas exclusivas para os coletivos nas principais vias. A expectativa é de que 1,1 milhão de usuários utilizem o modelo diariamente. Os primeiros 31 quilômetros de corredores exclusivos devem priorizar as áreas mais afogadas da cidade, como o Centro de Vitória e a Reta da Penha, na capital, e a avenida Carlos Lindemberg, em Vila Velha. O modelo, de acordo com o governo, permitirá uma melhoria imediata da fluidez do trânsito nessas regiões. Outros 70km de BRT devem ser postos em operação até 2018.

“De tudo o que estudamos para melhorar a mobilidade, é o mais barato e de implantação mais rápida. É uma solução que pode ser aplicada em um tempo muito menor. Tirar o ônibus do congestionamento e deixar onde apenas ele circule. O BRT é, resumidamente, melhorar o Transcol. Para deixá-lo mais rápido, pontual, confortável e acessível”. Luciene Becacici

“Essa é uma saída bem mais rápida. O corredor exclusivo para fluir o trânsito do transporte público é interessante. Pode ajudar bastante. É uma alternativa que não precisa retirar das ruas o transporte rodoviário, mas dá uma prioridade a ele, para que se torne mais rápido e eficiente. É uma solução muito mais fácil para implementar de acordo com o que já existe”. Gesiane Pereira

“Parece que para a nossa demanda, geometria e situação geográfica, parece que ele é mais fácil. Já existe, a população já pratica. E como já temos a cultura de transporte através de terminais. Existe a tendência para que isso faça sucesso. Não se planta um projeto integralmente. O BRT ficaria pronto em dois anos, em média, dentro do que já está funcionando, como os terminais”. Maria Inês Faé

“Eu apoio o BRT, principalmente porque tira os carros da rua e coloca as pessoas nos coletivos. O número de veículos cai, por consequência. Assim como também concordo com a volta do Aquaviário, que vem sendo discutida entre as cidades”Neucimar Fraga, prefeiro de Vila Velha

Futuro?

No fim das contas, o que parece estar mais próximo do capixaba é a chegada dos corredores exclusivos para ônibus. Opiniões são divergentes, principalmente entre prefeitos, sobre o que é mais eficaz para a mobilidade urbana. O sistema tem previsão de já funcionar dentro de três anos, além de ter custo mais em conta. É o que defende Luciene Becacici.

“O que nós esperamos é virar uma página na história do transporte com a chegada do BRT. O sistema beneficia quem usa ônibus e também quem usa o carro, trazendo maior qualidade de vida para os usuários. Eu sonho com o dia em que o ônibus esteja fluente no trânsito e o motorista do carro no meio do engarrafamento fique com inveja, arrependido de não ter tomado o ônibus”.

Na visão de Gesiane Pereira, independente do que realmente sair do papel, é importante que as soluções encontradas tragam principalmente conforto ao passageiro, para que eles sintam vontade de deixar o carro em casa. “Ninguém tira o carro da garagem porque quer dar uma voltinha na rua. Há trabalho nisso e há custo também. Existe problema de trânsito, de vagas para estacionar. Tendo um modelo de qualidade, as pessoas pensariam duas vezes antes de sair de casa de automóvel”, conclui.

Maria Inês Faé avalia o caos no trânsito como um problema sistêmico. Para a especialista, as soluções ajudam. Mas as pessoas vão continuar colocando os carros na rua enquanto não encontrarem o que necessitam perto de casa. “É preciso pensar nas políticas de educação, de saúde e de trabalho também. Sem descentralização, não há solução. Se você cria polos, concentra, consequentemente há fluxo. Não precisa existir uma política do transporte. Mas uma política englobada. Se todos tivessem um sistema de saúde funcionando, uma boa escola e um bom trabalho perto de casa, ninguém precisaria se deslocar tanto”, conclui.

 

Fonte: http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2011/06/noticias/especiais/874947-o-transito-da-grande-vitoria-tem-saidas-veja-por-onde-elas-passam.html

Um pensamento sobre “O trânsito da Grande Vitória tem saídas. Veja por onde elas passam

  1. Não é todo mundo que pode ter moradia e local de trabalho próximos um do outro. É um privilégio de poucos.
    Muitos trabalhadores ou estudantes não possuem condições financeiras de adquirir ou alugar um imóvel no bairro onde trabalham ou onde estudam, por isso se opta mais pelos bairros periféricos e pelas “cidades-dormitório”.
    Por outro lado, conseguir vagas de emprego perto de sua casa, na sua área de atuação, também não é uma tarefa fácil, dependendo do bairro. Nas repartições públicas, até pode haver postos de trabalho próximos a residência do trabalhador – escolas, postos de saúde, etc. -, mas para se efetivar a transferência de setor, geralmente, é preciso que haja uma permuta entre funcionários, o que torna ainda mais complicado o processo.
    Eu, particularmente, já estou acostumado a passar uma fração de tempo do meu dia me deslocando na cidade entre casa-trabalho-faculdade-casa. Ando de ônibus. Não é a melhor coisa do mundo, às vezes tem seus “apertos”, mas, de certo modo, o serviço é bom.
    Ainda não tenho CNH, mas em breve terei. Serei mais um a “inchar” o trânsito da minha cidade (risos). Mas, sempre que possível, recorrerei ao transporte público.

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