Saída de cena do Subcomandante Marcos reflete nova etapa do EZLN em Chiapas

O personagem, uma das ferramentas de comunicação dos zapatistas desde o levante de 1994, evidenciou a invisibilidade dada à população indígena mexicana

“Queria pedir paciência, tolerância e compreensão às companheiras, companheiros e companheiroas, porque essas serão minhas últimas palavras em público antes de deixar de existir”. Já era madrugada de 25 de maio quando os milhares de milicianos, insurgentes e bases de apoio do EZLN (Exército Zapatista de Libertação Nacional), perfilados e encapuzados no centro do caracol de La Realidad, puderam ouvir o discurso do Subcomandante Insurgente Marcos. Marcos falou sobre a morte do zapatista Galeano, assassinado durante ataques paramilitares no dia 2 de maio.

O que ninguém esperava é que a cerimônia de homenagem a mais um combatente que cai desde que o EZLN declarou guerra ao Estado mexicano, em 1º de janeiro de 1994, fosse marcar também a saída de cena de seu porta-voz e principal figura pública. A substituição pelo indígena Moisés, também Subcomandante, representa mais do que o fim de um “personagem”, como o próprio Marcos se define.

Ela é resultado de uma série de transformações pelas quais os neozapatistas passaram desde 17 de novembro de 1983, data em que o movimento foi fundado na Selva Lacandona de Chiapas. Na época, contavam com apenas seis membros –  cinco homens e uma mulher, sendo três indígenas e três mestiços – como Marcos, que só chegaria à Selva em 1984. Continuar lendo

Sensibilizando sem tomar o poder

Os cinco dias de vivência que tive no mundo zapatista não foram suficientes para uma compreensão plena da complexidade de seu funcionamento, da relação entre as instituições armadas e políticas e da dinâmica de liderança. Pude ver, porém, o comprometimento da luta dos indígenas chiapanecos

por Felipe Addor

O contexto histórico

Há pouco mais de trinta anos, um grupo de seis militantes de esquerda, sendo três indígenas,1 embrenharam-se nas selvas do estado de Chiapas, um dos mais ricos e desiguais do México, com um único objetivo: constituir um foco de resistência aos avanços das políticas que atentavam contra o bem-estar da população mexicana e promoviam a privatização e a concentração das propriedades rurais. Graças à convivência de aprendizado mútuo com as comunidades indígena descendentes dos povos maias, começou a consolidar-se uma nova luta, que misturava a formação socialista daqueles militantes com a cultura indígena, baseada na organização comunitária, nas decisões coletivas e na luta pela autonomia. Não menos importante, desenvolveu-se uma sólida formação militar, que tinha como estratégia o conhecimento dos meandros do território da Selva Lacandona. Continuar lendo