A crise da Ucrânia dispara a tensão entre a Rússia e o Ocidente

Moscou critica a Europa pela tentativa de impor uma decisão a Kiev.

Kerry prevê se reunir neste domingo com os opositores ucranianos na Conferência de Segurança de Munique

Ban Ki-moon, John Kerry, Sergei Lavrov e Lakhdar Brahimi, em Munique.

crise ucraniana e o conflito sírio estão disparando a tensão entre a Rússia e o Ocidente. A Conferência de Segurança de Munique foi palco esta manhã de um intercâmbio extraordinariamente explícito de censuras e recriminações entre representantes da Otan, a União Europeia (UE) e Moscou. O ministro de Relações Exteriores russo, Serguei Lavrav, respondeu com veemência a um discurso do presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, no qual esse afirmou que “o futuro da Ucrânia pertence à Europa” e que Kiev deve poder decidir livremente seu caminho, em referência às supostas pressões russas. Lavrov, em contraposição, disse que a Europa é que está “impondo uma decisão” a Kiev e que depois do suposto apoio ao desenvolvimento democrático do país, a UE de fato mantém protestos violentos e antidemocráticos. Continuar lendo

À beira da guerra civil

Viktor Yanukovych tenta evitar o pior, mas a tensão cresce dia a dia

Os opositores ainda ocupam 4 prédios governamentais e exigem a demissão do presidente

Na noite de quinta-feira 30, a Ucrânia parecia à beira de uma guerra civil. Com problemas respiratórios e febre alta em seu palácio de cinco andares 40 quilômetros ao norte de Kiev, o presidente Viktor Yanukovych, de 63 anos, postou no website presidencial: “O governo cumpriu todas as suas obrigações”. E emendou: mas a oposição política continua a protestar. E como. Na Praça da Independência, imagens televisivas mostravam uma catapulta apenas, construída pelos manifestantes. Objetivo: arremessar paralelepípedos contra o Parlamento. Mais conhecido como Rada, nessa semana aprovou uma lei para anistiar centenas de manifestantes detidos ao sabor de leis draconianas a proibir protestos públicos e censurar a mídia, impostas pelo presidente. Continuar lendo

As perspectivas da economia mundial para 2014

Carta Maior conversou com John Bowler, diretor de Análise de Países da Unidade de Inteligência da The Economist, que apontou um panorama complicado em 2014

Marcelo Justo

Londres – Como todo começo de ano, este início de 2014 é rico em previsões para a economia mundial.  A maioria fala de um crescimento global de 3,6%, cerca de 0,7% mais que no ano passado. As análises econômicas se caracterizam por não acertar no alvo nesta arte quase impossível das previsões, mas para além das porcentagens manuseadas está claro que o mundo segue sem se recuperar da crise de 2008. Em 2013, a zona do euro ficou estagnada e os Estados Unidos cresceram um pouco com altos e baixos. A China desacelerou seu crescimento e até as chamadas economias emergentes, que tinham sustentado o crescimento em 2012, tiveram um desempenho modesto.

A Carta Maior conversou com John Bowler, diretor de Análise de Países da Unidade de Inteligência da revista The Economist, que apontou um panorama complicado para este 2014. Continuar lendo

Os legados geopolíticos de 2013

Aprofunda-se declínio dos EUA e União Europeia. Primavera Árabe reflui. China amplia suas ambições. Persiste ameaça climática. Francisco reintroduz debate da desigualdade

Por Roberto Savio

No momento de esperança que o ano novo pode oferecer, seria útil examinar o legado que recebemos dos doze meses que terminam. Foi um ano cheio de acontecimentos: guerras, aumento da desigualdade social, sistemas financeiros sem controle social, decadência das instituições políticas e erosão da governança global.

Talvez nada haja de novo nisso, já que tais tendências nos acompanham há bastante tempo. No entanto, alguns acontecimentos têm impacto mais profundo e duradouro. Vamos apresentá-las brevemente, em forma de lista para recordar e conferir (mas não em ordem de magnitude) Continuar lendo

De nazismo a fascismo

A extrema-direita cresce em vários países, a começar pelo Aurora Dourada na Grécia. Hoje o FN de Marine Le Pen é o maior partido da França

Apoiadores do partido Aurora Dourada protestam em Atenas contra a acusação a membros do partido de crime organizado, em 2 de outubro

Nikos Michaloliakos, o líder do partido grego Aurora Dourada, aguarda julgamento atrás das grades. Se provados elos diretos do deputado extremista com a morte do músico Pavlos Fyssas a 18 de setembro em Atenas, o sombrio matemático de 56 anos e mais uma caterva de colegas passarão anos atrás das grades.

Enquanto isso, na quinta-feira 10 a capa do semanário francês Le Nouvel Observateur estampou a foto de Marine Le Pen, líder da legenda de extrema-direita Frente Nacional (FN), com outra espantosa notícia: segundo uma sondagem do Ifop para o semanário, 24% dos franceses votarão na FN nas eleições europeias, em maio de 2014. Portanto, a FN terá mais votos do que as duas maiores legendas francesas, o Partido Socialista e a conservadora União por um Movimento Popular (UMP). Marine Le Pen poderá se tornar a líder do maior partido da França. Nesse caso seria previsível uma nova eleição presidencial semelhante àquela de 21 de abril de 2002, quando o pai de Le Pen, Jean-Marie, disputou o segundo turno contra o conservador Jacques Chirac. Detalhe: Marine Le Pen terá mais chances de levar a melhor nas próximas presidenciais.

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O que sobrou do império?

Uma sociedade de classes que, em economia, nega hipocritamente o legado de John Maynard Keynes. Por Gianni Carta

O primeiro-ministro britânico David Cameron

Encerrado o tempo de um império que dominou o mundo até o século XIX, os britânicos ainda são tidos como guardiões de uma eficaz política econômica, bem-sucedidos administradores e líderes governamentais. O sistema de classes na loura Albion permanece intacto. Boris Johnson, o prefeito de Londres, recomenda impávido: “A ganância e o espírito de inveja devem ser celebrados”. Colega do premier conservador David Cameron em Eton (escola para privilegiados onde estudaram os príncipes William e Harry), e com ambições de substituí-lo nas legislativas de 2015, Johnson acredita em uma sociedade de classes. Aqueles com QI mais elevado saem-se melhor em busca do lucro. Já quem dispõe de menor capacidade tem de aceitar seu papel medíocre. A desigualdade faz parte do jogo, para gerar o crescimento econômico, diz Johnson.

Cameron pertence à elite, embora às vezes use o termo “compaixão”. No entanto, não se manifestou com seu sotaque empastado de Eton e Oxford sobre os infelizes comentários de Johnson. Já os tories, assumidamente elitistas, certamente sentiram-se revigorados pelo discurso do prefeito. Por ora, Ed Miliband, o líder na oposição do Partido Trabalhista, está na dianteira das pesquisas eleitorais, ganharia se o pleito fosse hoje. Miliband haverá de focar sua campanha em uma sociedade igualitária, não de classes. Para que serve o desenvolvimento? Continuar lendo

Xenofobia em nome do Estado de bem-estar social

Uma vez que as finanças públicas vão mal, é preciso resguardar o sistema de proteção social rastreando os fraudadores, mas também os estrangeiros. Esse raciocínio, martelado por diversos dirigentes políticos europeus, ganha cada vez mais legitimidade

por Alexis Spire

Enquanto as soluções para tirar a União Europeia da crise econômica despertam ásperos debates, há um assunto que é consenso entre os líderes políticos do Velho Continente: a luta contra aqueles que estariam abusando dos sistemas de proteção social. Os imigrantes da África e do Magrebe, e mais recentemente os ciganos, são o foco principal dessa nova cruzada contra os “assistidos”. Em uma carta de 23 de abril de 2013, os ministros do Interior alemão, inglês, austríaco e holandês apresentaram queixa à Presidência da Irlanda denunciando “fraudes e abusos sistemáticos do direito à livre circulação proveniente dos outros países da União Europeia”. Teríamos passado de uma imigração econômica para um turismo de benefícios sociais. Continuar lendo

O jogo de ‘morde e assopra’ da Rússia com a Ucrânia

Dmitri Trenin

Especial para a BBC*

Presidente ucraniano, Viktor Yanukovych, recebeu propostas de incentivos da Rússia

Para o presidente da Rússia, Vladimir Putin, relações internacionais significam competição, que se intensifica a cada dia. A relação com a Ucrânia não deixaria de ser diferente.

Putin reiterou esses principais no discurso do Estado da Nação, na semana passada. Os principais competidores são “grandes unidades geopolíticas”: os Estados Unidos, a China e a Europa, ainda que os europeus não tenham uma estratégica unificada.

Para ganhar competitividade, a Rússia precisa expandir seu poder, criando uma união econômica, política e militar na Eurásia. Continuar lendo

Entenda o que está acontecendo na Ucrânia

Protestos no centro de Kiev já duram semanas. Oposicionistas se rebelam contra a linha pró-Rússia e antieuropeia do governo e se recusam a ceder às intimidações da polícia.

“O tempo de duração dos protestos de rua em Kiev vai depender somente do governo”, profetizou o deputado do partido de oposição Aliança Democrática Ucraniana para a Reforma (Udar), Rostyslav Pavlenko, em entrevista à Deutsche Welle no início de dezembro.

De fato, até agora as forças de segurança ucranianas fracassaram em todas as tentativas de reprimir os protestos. Apesar do frio congelante, os manifestantes permanecem há vários dias na Praça da Independência, no centro da capital. Eles cantam, oram, erguem barricadas de madeira. Nem as investidas noturnas da polícia nem as ameaças desta puderam expulsá-los até agora. Continuar lendo

O fóssil não vai acabar

Se esse tipo de combustível está a anos-luz de desaparecer, qual deve ser a estratégia brasileira para um planeta limpo? O pré-sal tem condições de virar pós-sal? E o etanol?

José Luiz Tejon Megido*

GÁS DE XISTO
É um gás natural, encontrado em rocha sedimentar que recebe o mesmo nome. O gás encontra-se comprimido em pequenos espaços dentro da rocha, o que requer a criação de fraturas por meio da pressão hidráulica, em um processo conhecido como fraturamento. Desta maneira, permite que o gás  ua e seja coletado.
UNIÃO EUROPEIA
A União Europeia é uma parceria econômica e política com características únicas, constituída por 28 países europeus, que, em conjunto, abarcam uma grande parte deste continente. A UE teve início no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, com o intuito de incentivar a cooperação econômica na Europa, partindo-se do pressuposto de que os países com relações comerciais se tornam economicamente dependentes, reduzindo, assim, os riscos de con ito. Dessa cooperação econômica resultou na criação da Comunidade Econômica Europeia (CEE), em 1958, inicialmente constituída por seis países: Alemanha, Bélgica, França, Itália, Luxemburgo e Países Baixos. Desde então, assistiu-se à criação de um enorme mercado único, em permanente evolução.Fonte: europa.eu
MERCADO DE CARBONO
Crédito de carbono é a compensação  nanceira de projetos que realizam a redução de emissão de gases que provocam o aquecimento global em países em desenvolvimento (como o Brasil) e que é comprado por empresas em países desenvolvidos que não conseguiram cumprir suas metas de redução e emissão de gases.Fonte: AGF Consultores

A proposta deste texto é comentar o brilhante artigo de Evaristo Miranda, doutor em Ecologia pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), publicado no Estadão do dia 30 de setembro deste ano: “Descréditos de carbono”. Nele, uma autoridade saudita declara: “A prioridade é vender as reservas de petróleo antes da emergência de novas tecnologias, a idade da pedra não acabou por falta de pedra”. Enquanto olhamos para a agricultura brasileira e para os seus elos fracos – os agricultores sem seguro, sem silos (benfeitoria agrícola destinada ao armazenamento de produtos agrícolas, geralmente depositados no seu interior sem estarem ensacados), sem logística, condenados às precificações internacionais (ora para cima e ora para baixo) e todo o etc. antes e pós-porteira das fazendas –, o mundo dos países ricos dá um show antiecológico espetacular. Continuar lendo