Como a cisão sunita-xiita divide o mundo

A Arábia Saudita não se recusa a ocupar seu assento no Conselho de Segurança da ONU somente por causa da Síria, é também uma resposta à ameaça iraniana.

Robert Fisk

A petulante decisão da Arábia Saudita de não ocupar seu assento entre os membros sem direito a voto no Conselho de Segurança da ONU, algo sem precedentes entre os membros da Organização das Nações Unidas, tinha como objetivo expressar o descontentamento da monarquia ditatorial com Washington, que se recusou a bombardear a Síria depois do uso de armas químicas em Damasco. Mas também representou o medo dos sauditas de que Barack Obama possa responder às aberturas iranianas para uma melhor relação com o Ocidente.

O chefe da inteligência saudita, o príncipe Bandar Bin Sultan, amigão do presidente George W. Bush durante os 22 anos em que foi embaixador em Washington, já bateu no seu tamborzinho de lata para avisar os estadunidenses que a Arábia Saudita vai fazer uma “grande mudança” em sua relação com os EUA, não porque eles deixaram de atacar a Síria, mas pela inabilidade em promover um acordo de paz entre Israel e Palestina. Continuar lendo

Para obrigar os Estados a cumprir sua palavra

Repressão sangrenta no Egito e na Síria, espionagem generalizada dos EUA, esmagamento da oposição na China: são incontáveis os Estados que transgridem alegremente os princípios jurídicos que eles mesmos ratificaram nos tratados internacionais. É tempo de forçar a aplicação das regras recorrendo à arma do direito?

por Monique Chemillier-Gendreau

A Primavera Árabe, que alguns enterraram meio rápido demais, certamente não terminou de render seus frutos. Um dos mais surpreendentes e inesperados, dada a conjuntura, é o projeto de um tribunal constitucional internacional. A ideia nasceu do desgosto de Moncef Marzouki, atual presidente da República da Tunísia (até que instituições estáveis sejam estabelecidas no país pela Constituinte), diante dos impasses do direito internacional. Sob a ditadura de Zine al-Abidine ben Ali, ele viu uma sucessão de eleições se realizarem num contexto de fraude e terror, sem que os grandes textos internacionais que deveriam garantir as liberdades públicas e a democracia se mostrassem um recurso efetivo. Continuar lendo

Arábia Saudita recusa assento no Conselho de Segurança da ONU e pede “reformas”

Falhas em resolver conflitos sírio e palestino e questão nuclear iraniana motivaram governo saudita a rejeitar convite

A Arábia Saudita rejeitou nesta sexta-feira (18/10) assento como membro não permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, para o qual havia sido indicada no dia anterior junto a Chade, Chile, Nigéria e Lituânia.  É a primeira vez que um país se recusa a participar do órgão, composto por 15 assentos, dos quais apenas cinco são permanentes e pertencem aos Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido.

Citando as falhas do conselho em resolver a disputa entre Israel e Palestina, a guerra na Síria e a proliferação de armas nucleares na região, o governo saudita disse que o órgão mais perpetuou conflitos do que ajudou em sua solução. Era a primeira vez em que a Arábia Saudita era convidada a ocupar o posto.

“Nos abstemos de assumir o posto no Conselho de Segurança da ONU até que este seja reformado e possa, efetivamente, desenvolver suas funções e exercer suas responsabilidade em manter a segurança e a paz internacional”, diz o comunicado do Ministério de Relações Exteriores de Riad. “O reino acredita que o mecanismo e o método de trabalho além do padrão duplo adotado impede o conselho de arcar com suas responsabilidades”, acrescenta o texto. Continuar lendo

Conheça 7 ataques químicos que os EUA se negam a comentar

Às vésperas de uma possível ação militar sob a justificativa de uso de armas químicas, relembre episódios que Washington não faz questão de citar

Por Dodô Calixto

1. O Exército norte-americano no Vietnã. Durante a guerra, no período de 1962 até 1971, as Forças Armadas dos EUA despejaram cerca de 20 milhões de galões – 88,1 milhões de litros aproximadamente – de armamento químico no país asiático. O governo vietnamita estima que mais de 400 mil pessoas morreram vítimas dos ataques; 500 mil crianças nasceram com alguma deficiência física em função de complicações provocadas pelos gases tóxicos. E o dado mais alarmante: mais de um milhão de pessoas têm atualmente algum tipo de deficiência ou problema de saúde em decorrência do Agente Laranja – poderosa arma química disparada durante o conflito. Continuar lendo

Tragédias permanentes

Atualmente, 20 países mantêm arsenais de armas químicas e bacteriológicas

A área litorânea de Latakia a Tartús concentra os sírios alauítas. Caso caia o regime ditatorial de Bashar al-Assad, pode virar um enclave. Ao redor de Alepo até Daraa, passando pela capital Damasco, estão os sunitas. Encostado às Colinas de Golã e na fronteira com a Jordânia encontra-se o chamado “setor druso”, que engloba as cidades de Daraa e Suwayda. No norte, os curdos dominam o território conhecido como Curdistão sírio e cuja cidade principal é Hasaka. Ismaelitas estão ao lado do coração do país, formado, além da capital, pelas cidades de Hama e Homs. Os cristãos pipocam pelo território em médias concentrações e os beduínos circulam pelo deserto. O Estado sírio, nas suas fronteiras formais, vê-se por esse quadro, não existe mais unitariamente. No território estão presentes interesses de potências planetárias e regionais.

A Síria enfrenta acusações de uso de gás de ataca o sistema nervoso e que matou ao menos 1.400 rebeldes em agosto

Os cinco integrantes com poder de veto no Conselho de Segurança da ONU têm envolvimento. A França e a Grã-Bretanha, com a veleidade de reconquistarem papel ao tempo do domínio colonial, fornecem armas aos insurgentes e, por tabela, aos jihadistas que tentam derrubar Assad. Do lado oposto, e em apoio ao ditador, estão a China e a Rússia, esta que, nos portos sírios, mantém bases navais. Os atores regionais contra Assad são a ainda laica Turquia e os sunitas Catar e Arábia Saudita. A sustentar Assad estão os xiitas do Irã, com os grupos Pasdaran e o Basij a adestrar alauí-tas e xiitas sírios, como, por exemplo, as diversas milícias. Há ainda o braço armado do partido libanês Hezbollah. Enquanto isso, o outro ator, Israel, destaca o risco de o arsenal de armas químicas passar para as mãos de terroristas islâmicos. Continuar lendo

Agressão à Síria: a fraude, 12 objetivos e 8 consequências

Os dirigentes dos mesmos países que mataram centenas de milhares de inocentes com suas bombas de napalm, fósforo branco, projéteis de urânio empobrecido (ver Hijos del uranio, em espanhol), substâncias químicas desconhecidas que causaram a Síndrome do Golfo, agora derramam lágrimas de crocodilo pela morte de 350 sírios, vítimas ao que parece de armas químicas, como se a morte de 100.000 pessoas por armas convencionais e a fugida de cinco milhões de almas de seus lares não fossem motivos para se comover.

Guerra de bandeira falsa? É possível que os rebeldes utilizem essas substâncias contra sua própria gente e culpabilizem Damasco? O regime de Barack Obama, antes de uma investigação séria, assinalou o governo de Bachar Al Asad, apesar de os próprios insurgentes terem reconhecido seu crime à jornalista de Associated Press, Dale Gavlak: recebia essas substâncias de Arábia Saudita e foi um “acidente” por sua utilização negligente, dizem. O Governo iraniano revelou que faz nove meses avisou Washington de que os insurgentes tinham conseguido tais armas. Continuar lendo

Síria, entenda a crise e os conflitos.

Introdução

A mais sangrenta e violenta das Revoltas da chamada “Primavera Árabe” visando derrubar ditadores no mundo árabe (a luta teve início em março de 2011). 

Mais de 100 mil pessoas já morreram desde o início do conflito na Síria, há mais de dois anos, afirmou nesta quarta-feira o Observatório Sírio para Direitos Humanos, baseado em Londres. Segundo o grupo, um total de 100.191 pessoas morreram nos 27 meses de conflito. Desse número, 36.661 são civis.

No lado do governo, 25.407 são membros das forças armadas do presidente Bashar Assad, 17.311 são combatentes pró-governo e 169 são militantes do grupo libanês Hezbollah, que têm lutado ao lado das tropas do Exército. Entre os oponentes de Assad, morreram 13.539 rebeldes, 2.015 desertores do Exército e 2.518 combatentes estrangeiros.

No início do mês, a Organização das Nações Unidas afirmou que o número de mortos nos conflitos estava em 93 mil entre março de 2011 até o fim de abril deste ano.

O governo não divulgou números oficiais. A imprensa estatal publicava os nomes dos mortos no lado do governo nos primeiros meses de conflitos, mas depois interrompeu as publicações.  Continuar lendo

Síria: uma guerra de todos contra todos

Eleição do moderado Rowhani no Irã complica guerra civil na Síria, onde EUA e al-Qaeda estão do mesmo lado

Por Roberto Cattani

Até agora, sob a presidência de Mahmoud Ahmadinejjad, o Irã era o principal suporte econômico e financeiro do regime de Bashar al-Assad, o grande aliado estratégico, e o maior fornecedor de armas, por intermediário do movimento xiita libanês Hezbollah.

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Número de refugiados e deslocados no mundo supera 45 milhões, diz ONU

De acordo com relatório das Nações Unidas, uma pessoa se torna refugiada a cada quatro segundos no mundo

O número de refugiados e deslocados no mundo bate recorde em quase vinte anos e alcança uma cifra de 45,2 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas, que alerta para a crise na Síria como um dos principais fatores de deslocamento global.

Segundo o Relatório Tendências Globais 2012, divulgado nesta quarta-feira, (19/06), de 2011 para 2012, 2,6 milhões de novos refugiados e deslocados se somaram aos já existentes 42,5 milhões (2011). Dos quais, 28,8 milhões de pessoas foram forçadas a fugir dentro das fronteiras de seus próprios países e 15,4 milhões obtiveram o status de refugiado em outros países.

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Estão buscando um pretexto para guerra total contra Síria?

Os eventos daqui em diante demandam exames minuciosos. Obama pode estar planejando mais guerra

Novas acusações alegam o uso de armas químicas pela Síria. Nós escutamos coisas parecidas antes. Obama sinaliza que o seu uso é um “divisor de águas”. Ele também disse que tal uso cruza “uma linha vermelha.”

Os oficiais sírios são inequívocos. Semanas antes, o vice-ministro das Relações Exteriores sírio Faisal Miqdad falou por outros ao dizer: “A Síria volta a reforçar, pela décima, centésima vez, que se nós tivéssemos tais armas, elas não seriam usadas contra o nosso povo. Nós não cometeríamos suicídio.”

Crianças em acampamento de refugiados sírio em Zaatary, na Jordânia. Centenas de milhares fugiram desde início da guerra civil

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