O Brasil e a África negra

Para ampliar presença africana, país enfrentará dois grandes obstáculos: concorrência de potências globais e preconceito de nossas elites brancas

Por José Luís Fiori

Ao incluir a África dentro do seu “entorno estratégico”, e ao se propor aumentar sua influência no continente africano, o Brasil precisa ter plena consciência de que está entrando num jogo de xadrez extremamente complicado. Porque já está em pleno curso – na segunda década do século XXI – uma novas “corrida imperialista”, entre as “grandes potências”, e um dos focos desta disputa é, mais uma vez, a própria África. E não é impossível que as velhas e novas potências envolvidas na disputa pelos recursos estratégicos da África voltem a cogitar da possibilidade de estabelecer novas formas maquiadas de controle colonial sobre alguns países africanos, que eles mesmo criaram, depois da II Guerra Mundial.

A África é o segundo maior e mais populoso continente do mundo: tem uma área de 30.221.532 km² e cerca de 1 bilhão de habitantes, 15% da população mundial. O continente inclui a ilha de Madagascar, vários arquipélagos, nove territórios e 57 estados independentes. Os europeus chegaram à costa africana e iniciaram seu comércio de escravos negros nos séculos XV e XVI, mas foi só no século XIX que as grandes potências europeias ocuparam e impuseram sua dominação em todo continente, menos a Etiópia. Continuar lendo

Os náufragos africanos e o naufrágio moral da Europa

Eduardo Febbro

Paris – As máscaras do bem caem como maquiagem escorrida pela chuva. Atrás delas aparece o horripilante rosto de uma verdade oculta no papel presente de uma larga cultura declamatória. A União Europeia semeia seus valores com a palavra, mas os nega com os fatos. A realidade não resiste muito: segundo cifras da ONU, 1.500 pessoas morrem por ano no Mediterrâneo, em sua maioria nas costas do Norte da África. Cerca de 20 mil morreram tragadas pelo mar nas últimas duas décadas, cerca de 400 nos últimos 15 dias.

Há uma semana, os ministros do Interior da União Europeia foram incapazes de oferecer tanto uma estratégia como uma resposta humana comum ao drama cotidiano das milhares de pessoas que se lançam ao mar em barcos improvisados com destino às costas de Malta ou da Itália. Inação, racismo galopante, terror à palavra “imigração”, desacordos entre os Estados que compõem a União Europeia, miséria dos países africanos de onde fogem os imigrantes em busca de um destino melhor: tudo concorre para fazer do Mediterrâneo o que o presidente de Malta, Joseph Muscat, chamou de “cemitério”.

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O sal e a terra

Na depressão de Afar, na África, tribos pastoras e mercadores de sal sobrevivem em uma paisagem surreal de fissuras, falhas e um lago de lava borbulhante

por Virginia Morell Um

Antigos rios de lava lembram vertebras de um animal fossilizado

Antigos rios de lava lembram vertebras de um animal fossilizado

Parecia uma cena produzida por um estúdio de efeitos especiais em Hollywood. Em setembro de 2005, pastores afares do norte da Etiópia viram, estarrecidos, a terra abrir um bocejo e engolir suas cabras e seus camelos. Pedaços de obsidiana irromperam de cavernas e voaram pelos ares, “como enormes pássaros pretos”, disse uma testemunha. Por três dias, uma encrespada nuvem de cinzas obscureceu o sol durante a erupção do maior vulcão da região, o Erta Ale – “Montanha Fumacenta”, na língua afar. Continuar lendo

ESPECIAL CHIFRE DA ÁFRICA – coletânea de matérias da ONU, um vídeo e um mapa sobre a epidemia de fome que assola o Chifre da África

Entenda a maior e mais severa crise de insegurança alimentar dos últimos 20 anos

As Nações Unidas declararam uma epidemia de fome nas regiões de Bakool do Sul e Baixa Shabelle, no sul da Somália, em 20 de julho. Duas semanas depois, mais três regiões já haviam sido afetadas: Shabelle Central, Corredor de Afgoye e a capital, Mogadíscio. No dia 5 de setembro, a crise foi oficialmente anunciada também na costa sul do país. Continuar lendo