Negros no Brasil

Resistência sempre foi a palavra de ordem de quem era forçado ao trabalho escravo. Os negros foram caçados, perseguidos e, ainda hoje, são, muitas vezes, hostilizados, conforme revela pesquisa do Ipea

Maurício Barroso

Desde que os colonizadores portugueses chegaram ao Brasil, há mais de quinhentos anos, eles exploraram, inicialmente, a mão de obra indígena. Entretanto, o contato com os homens brancos foi péssimo para a saúde dos índios. Além disso, os nativos conheciam muito bem o território e fugiam com facilidade.

Por razões econômicas e também em busca de mão de obra qualificada, os portugueses começaram a trazer africanos escravizados para o Brasil. Os negros eram obrigados a vir para um país estranho, numa travessia de barco que levava meses, em condições precárias, para trabalhar forçadamente.

No entanto, as regras duras da chibata não foram aceitas sem luta. Os negros escravizados resistiram da forma que puderam. “Falar das lutas negras é falar disso, dos enfrentamentos, dos embates do outro lado do Atlântico, da travessia, ‘do lado de cá’ do Atlântico. Eu costumo pensar na resistência de uma forma muito ampla”, destaca o professor Nelson Inocêncio, do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade de Brasília.

Para ele, o termo que define a retirada dos negros do continente africano é sequestro. “Esse sequestro realmente foi algo absurdo, inominável. O Brasil foi o País que mais importou população africana. Dentro daquele universo de extrema violência, existiam articulações coletivas para, de alguma forma, tentar minar o sistema”, observou.

RESISTÊNCIA
Resistência sempre foi a palavra de ordem de quem era forçado ao trabalho escravo. Os negros foram caçados e perseguidos, por isso, procuravam não ficar sozinhos. Em comunidade, era mais fácil sobreviver. Os locais de refúgio começaram a se formar logo após a chegada dos primeiros navios negreiros ao Brasil. Nasciam, assim, os chamados quilombos. O mais famoso deles, o Quilombo dos Palma- res, em Alagoas, data do final do século 16. Isso quer dizer que, pouco depois do início da escravidão, os primeiros negros já começaram a fugir de seus senhores.

A herança de quem fugiu da escravidão ainda é viva entre os quilombolas. Sirilo Rosa, presidente da Associação Quilombo Kalunga, comunidade no interior de Goiás, conta um pouco da história que já escutou. “Eu ouvia nossos antepassados falarem que tinha um lugar chamado quilombo, mas que eles não sabiam onde era. [Diziam] que esse lugar chamado de quilombo era onde o pessoal que foi escravo fugia e ia para lá”, lembra. “Era um lugar isolado e que não tinha nem estrada para acesso. Eles saíam das casinhas deles, mas não deixavam trilha. Saíam de um lado e chegavam por outro”.

MANDELA
Faleceu, em 5 de dezembro de 2013, Nelson Mandela, aos 95 anos. Ele foi o responsável pelo  m do regime de segregação racial na África do Sul, o Apartheid. Mandela conquistou o respeito de adversários e críticos, devido aos esforços em busca da paz. Ele foi o primeiro presidente negro da África do Sul, de 1994 a 1999, e recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1993.
O líder  cou conhecido como “Madiba” (reconciliador), devido ao clã ao qual pertencia, e recebeu o título de “O Pai da Pátria”. A Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu o Dia Internacional Nelson Mandela, em defesa da luta pela liberdade, justiça e democracia. A eleição de Mandela foi um marco na história do país, de nindo a nova África do Sul, com um processo de reconciliação entre oprimidos e opressores. Em 1992, o resultado do referendo entre os brancos deu ao gover- no, com mais de 68% de votos, o aval para as reformas e permitiu uma futura constituinte.

Fonte: Agência Brasil

 

KALUNGA
Calunga ou kalunga é o nome dos descendentes de escravos fugidos e libertos das minas de ouro do Brasil central, que formaram comunidades autossu cientes e viveram, aproximadamente, mais de duzentos anos isolados em regiões remotas, próximas à Chapada dos Veadeiros. São três comunidades, nos municípios de Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre de Goiás.

 

IPEA
Fundação pública vinculada à Secretaria de Assuntos Estratégicos, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada fornece suporte técnico e institucional às ações governamentais, possibilitando a formulação de inúmeras políticas públicas e programas de desenvolvimento brasileiro, disponibilizando, para a sociedade, pesquisas e estudos realizados por seus técnicos.

A jovem quilombola Edmeia Batista Costa, da Comunidade Kaonge, em Cachoeira, na Bahia, também conhece a história de quem veio antes dela. “A gente sabe que os antepassados lutaram muito. Muitos apanharam no chicote. Agora, a gente não tem mais isso. Graças a Deus, a escra- vidão já acabou e eles passaram para a gente o seu trabalho e a sua luta, para darmos continuidade a isso”, conta.

COMUNIDADES QUILOMBOLAS
O Brasil tem mais de 2,4 mil comunidades quilombolas certificadas pela Fundação Cultural Palmares. Elas estão espalhadas em 24 Estados e se organizam de forma diferente. A maioria vive da agricultura de subsistên- cia. Ou seja, eles produzem na roça praticamente tudo o que precisam. É o caso de dona Leotéria, lavradora kalunga. Ela planta mandioca, arroz, milho, cana, feijão de corda, além de frutas, hortaliças e ervas medicinais. Dona Leotéria diz que nem sempre é fácil, mas que já viveu dias mais difíceis no passado. “Já foi sofrida a nossa vida. Uma parte foi boa e outra sofrida, mas, graças a Deus, nós sobrevivemos. Não tinha rodagem [estrada] por aqui, não tinha médico. A pessoa adoecia, era levada para Cavalcante [cidade que compõe o território kalunga, distante 30 quilô- metros da comunidade] na rede”, recorda.

“Hoje, está melhor, porque já tem médico, já tem muitas coisas. Hoje, já tem até o posto de saúde aqui também. Uma hora tem médico, outra hora não tem, mas a hora que tem já serve”, resigna-se.

De acordo com a Fundação Cultural Palmares, apenas os Estados do Acre e de Roraima, além do Distrito Federal, não contam com esses remanescentes. Mais de 200 processos de certificação ainda estão sendo analisados e mais de 500 comunidades foram identificadas pela fundação como quilombolas, mas não solicitaram a Certidão de Autodefinição – o primeiro passo para ser quilombola é se reconhecer como tal.

“É o famoso sentimento de identidade”, como explica Juvani Jovelino, líder espiritual da Comunidade Kaonge na Bahia. “Ser quilombola é você saber a origem dos 50% do seu sangue. Não só o negro é quilombola; existe branco que também é quilombola, porque tem 50% do sangue que ele não procurou saber de onde vem.”

VIOLÊNCIA CONTRA NEGROS
De acordo com estudo publicado pela Fundação Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em Alagoas, os homicídios reduziram em quatro anos a expectativa de vida de homens negros. Entre não negros, a perda é de apenas três meses e meio. O Estado nordestino apresentou o pior resultado entre todas as Unidades da Federação. A “Nota Técnica Vidas Perdidas e Racismo no Brasil” apresentou o cálculo, para cada Estado do País, dos impactos de mortes violentas (acidentes de trânsito, ho- micídio, suicídio, entre outros) na expectativa de vida de negros e de não negros, com base no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM/ MS) e no Censo Demográfico do IBGE de 2010.

“Enquanto a simples contagem da taxa de mortos por ações violentas não leva em conta o momento em que se deu a vitimização, a perda de expectativa de vida é tanto maior quanto mais jovem for a vítima. Em segundo lugar, a expectativa de vida ao nascer é um dos principais in- dicadores associados ao desenvolvimento socioeconômico dos países”, explica o texto da pesquisa.

O estudo, de autoria do diretor de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e Democracia, Daniel Cerqueira, e de Rodrigo Leandro de Moura, da Fundação Getulio Vargas (IBRE/FGV), analisou ainda em que medida as diferenças nos índices de mortes violentas podem estar relacionadas a disparidades econômicas, demográficas e ao racismo. De acordo com os autores: “O componente de racismo não pode ser rejeitado para explicar o diferencial de vitimização por homicídios entre homens negros e não negros no País”.

O Brasil tem mais de 2,4 mil comunidades quilombolas certificadas pela Fundação Cultural Palmares. Elas estão espalhadas em 24 Estados e se organizam de forma diferente.

TAXA DE HOMICÍDIO
Considerando apenas o universo dos indivíduos que sofreram morte violenta no País entre 1996 e 2010, constatou-se que, para além das características socioeconômicas – como escolaridade, gênero, idade e estado civil -, a cor da pele da vítima, quando preta ou parda, faz aumentar a probabilidade de ela ter sofrido homicídio em cerca de oito pontos percentuais.

Novamente, Alagoas é o local onde a diferença entre negros e não negros é mais acentuada – a taxa de homicídio para a população negra atingiu, em 2010, 80 a cada 100 mil indivíduos. No Estado, morrem assassinados 17,4 negros para cada vítima de outra cor. Espírito Santo e Paraíba também são destaques negativos no ranking elaborado pelo Ipea, com, respectivamente, 65 e 60 homicídios de negros a cada 100 mil habitantes (no Espírito Santo, os assassinatos diminuem a expectativa de vida dos homens negros em 2,97 anos; na Paraíba, em 2,81 anos).

“O negro é duplamente discriminado no Brasil, por sua situação socioeconômica e por sua cor de pele. Tais discriminações combinadas podem explicar a maior prevalência de homicídios de negros vis-à-vis o resto da população”, afirma o documento.

Fontes: Agência Brasil e Ipea

 

Fonte: http://conhecimentopratico.uol.com.br/geografia/mapas-demografia/53/artigo308679-1.asp

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