Consumo humano opera no vermelho

De acordo com a Global Footprint Network, à medida que aumenta o consumo, cresce o débito ecológico, traduzido em redução de florestas, perda da biodiversidade, escassez de alimentos, diminuição da produtividade do solo e acúmulo de gás carbônico na atmosfera. Essa sobrecarga acelera as mudanças climáticas e tem reflexos na economia

Maurício Barroso

“Segundo pesquisas da Global Footprint Network, os atuais padrões de consumo médio da humanidade demandam a área de um planeta e meio para sustentá-los.”

PEGADA ECOLÓGICA CARNE BOVINA
A pegada ecológica é uma metodologia de contabilidade ambiental que avalia a pressão do consumo da população humana sobre os recursos naturais. Expressada em hectares globais (gha), permite comparar diferentes padrões de consumo e verificar se eles estão dentro da capacidade ecológica do planeta. Um hectare global significa um hectare de produtividade média mundial para terras e águas produtivas em um ano.

Fonte: WWF

O Brasil lidera o ranking de maior exportador de carne bovina do mundo desde 2008, e as estatísticas mostram crescimento também para os próximos anos. A exportação de carne bovina crescerá 2,15% ao ano; a de carne de aves, 3,64%. O clima tropical e a extensão territorial do Brasil contribuem para esse resultado, uma vez que permitem a criação da maioria do gado em pastagens.

Fonte: Ministério da Agricultura

A cota de recursos naturais que a natureza poderia oferecer em 2013 se esgotou no último no dia 20 de agosto deste ano. A data, inclusive, assinalou o Dia da Sobrecarga da Terra, marco anual de quando o consumo humano ultrapassou a capacidade de renovação do planeta. O cálculo foi divulgado pela Global Footprint Network (Rede Global da Pegada Ecológica), organização não governamental (ONG) parceira da rede WWF.

O levantamento compara a demanda sobre os recursos naturais empregados na produção de alimentos e o uso de matérias-primas com a capacidade da natureza de regeneração e de reciclagem dos resíduos, a chamada pegada ecológica. Em menos de oito meses, o consumo global extrapolou tudo o que a natureza consegue repor em um ano e, entre setembro e dezembro, o planeta vai operar no vermelho, o que causa danos ao meio ambiente.

De acordo com a Global Footprint Network, à medida que aumenta o consumo, cresce o débito ecológico, traduzido em redução de florestas, perda da biodiversidade, escassez de alimentos, diminuição da produtividade do solo e acúmulo de gás carbônico na atmosfera. Essa sobrecarga acelera as mudanças climáticas e tem reflexos na economia.

NO VERMELHO
Segundo os cálculos dessa contabilidade ambiental, a Terra está entrando “no vermelho da conta bancária da natureza” cada vez mais cedo. No ano passado, o Dia da Sobrecarga ocorreu em 22 de agosto. Em 2011, em 27 de setembro.

Foto: Thomas La Mela
SOMOS 7,2 BILHÕES DE PESSOAS
Hoje, somos 7,2 bilhões de pessoas e, se a população ainda está crescendo, as tecnologias da informação e de transporte permitem multiplicar a economia mundial num ritmo ainda mais acelerado. Apesar disso, em muitos casos, as restrições legais e os cuidados ambientais são vistos como obstáculos ao crescimento econômico, ainda traduzido diretamente em desenvolvimento social e progresso.

Fonte: WWF

Para o diretor-executivo da Conservação Internacional, André Guimarães, a humanidade vai pagar a conta desse consumo excessivo na forma de perda de qualidade de vida, de mais pobreza e doenças, caso não mude esse quadro. “Esse ritmo de consumo, no longo prazo, vai culminar na exaustão dos recursos naturais. Estamos colocando nossa qualidade de vida e nosso futuro em risco. Se consumirmos a natureza em excesso, em algum momento, vamos ter que pagar essa conta na forma de poluição, doenças, menor quantidade de água disponível para nosso desenvolvimento e nosso uso, pobreza e falta de alimentos”, disse Guimarães.

Para o ambientalista, o desafio para as nações é achar uma maneira de se desenvolver, reduzindo a demanda pelo capital natural. “Assim, conseguiremos fechar a equação de meio ambiente preservado e economia sustentável”.

MERCADO INTERNO
O Brasil é um grande produtor mundial de proteína animal e tem no mercado interno o principal destino de sua produção. Considerando a produção brasileira de carnes (bovina, suína e de aves) em 2010, estimada em 24,5 milhões de toneladas, observamos que 75% dessa produção é consumida no País.

Naquele ano, o consumo per capita de carnes aumentou em relação ao ano anterior, chegando a 37,4 kg de carne bovina; 43,9 kg de carne de aves e 14,1 kg de carne suína, refletindo o bom desempenho da economia brasileira. Também as carnes ovina e caprina, assim como a produção de leite e seus derivados, são consumidos majoritariamente no mercado interno brasileiro.

Fonte: Ministério da Agricultura

DUAS TERRAS PARA O CONSUMO
Segundo pesquisas da Global Footprint Network, os atuais padrões de consumo médio da humanidade demandam a área de um planeta e meio para sustentá-los. As projeções indicam que, se o estilo de vida continuar no ritmo atual, o homem precisará de duas Terras antes de 2050.

Estudos da ONG internacional mostram que, no início da déca- da de 1960, a humanidade gastou apenas dois terços dos recur- sos ecológicos disponíveis no planeta. Esse panorama começou a mudar na década seguinte, quando o aumento das emissões de gás carbônico e a demanda humana por recursos naturais passaram a exceder a capacidade de produção renovável do planeta.

Atualmente, mais de 80% da população mundial vive em países que usam mais recursos do que seus próprios ecossistemas conseguem renovar. Os países devedores ecológicos já esgotaram seus pró- prios recursos e têm de importá-los. No levantamento da Global Footprint Network, os japoneses consomem 7,1 vezes mais do que têm, e seriam necessárias quatro Itálias para abastecer os italianos.

Nesse cenário desenhado pela Global Footprint Network, o Brasil aparece ao lado das nações que ainda são credoras ambientais, com reservas naturais abundantes. Esse quadro, porém, está mudando.

O presidente da ONG, Mathis Wackernagel, lembra que o País tem uma grande riqueza natural que está sob pressão, devido ao aumento populacional e aos padrões de consumo. “O Brasil precisa reconhecer sua riqueza e como pode fazer uso dela sem gastá-la. O capital natural vai se tornar cada vez mais importante, em um mundo com restrições de recursos”, disse Mathis, que enfatiza a importância de se investir em energia solar e eólica.

Segundo o diretor-executivo da Conservação Internacional, o Bra- sil ainda tem abundância de capital natural e espaço para crescer. “Os países desenvolvidos já ultrapassaram o limite de consumo de matérias-primas naturais. Se todos os habitantes da Terra tivessem o mesmo padrão de consumo dos norte-americanos, nós precisaría- mos de quase cinco planetas para dar conta das demandas da popu- lação. O padrão de consumo dos países desenvolvidos desorganiza essa balança, e o Brasil está na posição intermediária, caminhando a passos largos para ser um alto consumidor de capital natural”, de- clarou André Guimarães.

REPENSAR O ESTILO DE VIDA
Para ambientalistas, a sociedade precisa repensar seu estilo de vida. Nesse contexto, segundo dizem, a educação e a informação são ins- trumentos importantes para uma mudança de valores. De acordo com a secretária-geral do WWF-Brasil, Maria Cecília Wey de Bri- to, cidadãos e governos têm papel fundamental na redução dos im- pactos do consumo sobre os recursos naturais. “Políticas públicas voltadas para esse fim, como a oferta de um transporte público de qualidade e menos poluente, construção de ciclovias e o estímulo ao consumo responsável são essenciais para reduzir a pegada ecológica”, disse Maria Cecília.

Ela lembra que as pessoas podem fazer a sua parte. Reduzir o des- perdício de água e energia, o consumo de carne bovina e de alimen- tos altamente processados, usar mais transporte coletivo e adquirir produtos certificados são algumas das atitudes recomendadas. “É importante que as pessoas se lembrem de que qualquer desperdício de energia, por menor que pareça, está sendo feito à custa do planeta, ao gastar mais combustível fóssil. Podemos fazer nossas escolhas, lem- brando que a Terra é finita, como é a nossa conta no banco. A gente só tem esse planeta, por que não cuidar dele?”, ressaltou a secretária-geral da ONG Internacional.

Em Campo Grande, as ações de mitigação para ajudar a reduzir a pe- gada ecológica estão em curso e o estudo de São Paulo, lançado em 2012, durante a Rio+20, ainda carece de uma ação concreta dos po- deres estadual e municipal. “O cálculo traz informações importantes, que ajudam no planejamento da gestão ambiental das cidades, com o direcionamento das políticas públicas, de forma a reduzir esses im- pactos”, afirma o superintendente de Conservação do WWF-Brasil, Michael Becker, responsável pela condução dos estudos.

Fonte: http://conhecimentopratico.uol.com.br/geografia/mapas-demografia/52/consumo-humano-opera-no-vermelho-de-acordo-com-a-301583-1.asp

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