Brasil muda de fisionomia

O País conseguiu, ao longo dos últimos 20 anos, melhorar em 11,24% sua expectativa de vida. A região Nordeste saiu dos piores indicadores, chegando à margem de 71,2 anos em 2010. Em termos gerais, houve um ganho de pouco mais de 12 anos

Pedro Félix Vital Jr.*

IDOSOS: LESÕES CAUSADAS POR QUEDAS
Três idosos são internados por hora em hospitais públicos do Estado de São Paulo, em decorrência de lesões causadas por quedas, de acordo com o levantamento feito pela Secretaria Estadual da Saúde. Segundo os dados, em 2012, houve 27.817 internações de pessoas com 60 anos ou mais em serviços hospitalares do SUS (Sistema Único de Saúde). Do total, 60% das internações foram de mulheres com mais de 60 anos.
Fonte: Agência Brasil

“Brasil conseguiu, ao longo dos últimos 20 anos, melhorar em 11,24% sua expectativa de vida. A região Nordeste saiu dos piores indicadores (58,25 anos, em 1980), chegando à margem de 71,2 anos em 2010.”

Como acontece naturalmente, em todo processo de crescimento e desenvolvimento, o indivíduo tende a mudar seus traços, carregando consigo algumas marcas do tempo relacionadas ao amadurecimento. Entretanto, características determinantes em sua gênese podem necessitar de elementos concretos e tangíveis para justificar mudanças de estilo e comportamento.

Dados recentemente publicados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram, surpreendentemente, o País num sentido de desenvolvimento humano que, apesar de não acompanhar literalmente semelhanças com outras nações de iguais características, estimula em cada um de nós um espírito otimista, numa perspectiva de aproximação nas diferenças regionais, favorecendo o reconhecimento e a inclusão de um grupo populacional marginalizado ao longo da história.

O Brasil conseguiu, ao longo dos últimos 20 anos, melhorar em 11,24% sua expectativa de vida. A região Nordeste saiu dos piores indicadores (58,25 anos, em 1980), chegando à margem de 71,2 anos em 2010. Em termos gerais, houve um ganho de 12,95 anos.

APOSENTADORIAS
A maioria das aposentadorias concedidas no País, de janeiro a setembro de 2012, foi por idade. Os dados são do Regime Geral da Previdência Social (RGPS). Segundo o balanço, 55,8% das mais de 831 mil aposentadorias, do acumulado do ano, foram concedidas devido à idade do trabalhador – que pode parar de trabalhar aos 65 anos (homem) ou aos 60 anos (mulher).Fonte: Agência Brasil

CARÊNCIA DE RECURSOS HUMANOS
Apesar de convivermos com a moléstia da dificuldade de acesso nos mais diversos níveis de complexidade da assistência, gerados pela longa história de poucos investimentos e de mau gerenciamento, compartilhamos, hoje, um cenário de carência de recursos humanos e estruturais na saúde que impactam qualquer tentativa de melhora a curto e médio prazos, principalmente quando falamos da maioria dos Estados das regiões Norte e Nordeste, assim como das periferias das grandes metrópoles. Ainda assim, tivemos melhoras consideráveis, no que diz respeito à taxa de óbito infantil até 1 ano de idade, passando o Brasil dos seus 75,8 óbitos para cada mil crianças, em 1980, para 16,7 óbitos nesse mesmo grupo em 2010.

Nesse quesito, a região Sudeste apresentou a maior taxa de redução percentual, enquanto a Nordeste mostrou a maior taxa em valores absolutos. Alagoas mantém-se com valores aproximados de 30,2 óbitos por mil habitantes entre 0 e 1 ano, enquanto Santa Catarina apresenta 9,2 (IBGE – 2010).

Quanto à expectativa de vida até 5 anos de idade, saímos do patamar de 84 mortes em cada mil habitantes para 19,4, representando uma redução de 76,9%. Na região Nordeste, migramos de uma zona sombria de 120,2 mortes para 26 óbitos, apresentando queda de 78,3%. Fatores como melhora na escolaridade, saneamento básico adequado, menor grau de desnutrição infantojuvenil, maior acesso ao sistema de saúde e acompanhamento pré-natal favoreceram significantemente o quadro atual.

PROGRAMA DE TURISMO PARA TERCEIRA IDADE
Para incentivar os brasileiros a viajarem mais pelo País, foi relançado, em setembro deste ano, o Pro- grama Viaja Mais Melhor Idade, durante o congres- so da Associação Brasileira das Agências de Viagens (Abav) em São Paulo. De acordo com o ministro do Turismo, Gastão Vieira, a nova versão da iniciativa, voltada às pessoas com mais de 60 anos, trará “pra- zos e condições de fi nanciamento mais favoráveis”. Vieira enfatizou que o acesso ao crédito se dará por meio de um cartão – em moldes semelhantes ao que ocorre com fi nanciamentos para a compra de material de construção – operacionalizado por instituições públicas, como o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal. O programa prevê prazo de até 48 vezes para pagamento dos pacotes de viagem, que poderão incluir passagens, traslado, estadias em hotel e entradas em parques.

Indicadores relacionados à renda per capita também mostram tendências regionais distintas, sendo a da região Sul duas vezes em média maior que a do Norte e do Nordeste. Convivemos com mais de 2 milhões de brasileiros em situação de miséria plena. Programas governamentais, como Brasil sem Miséria e Bolsa Família, independentemente de quanto possam gerar críticas relacionadas ao planejamento, execução e perenidade, têm sua importância no sentido de oferecer condições mínimas de subsistência a um grupo populacional, reti- rando-os de uma linha crítica de pobreza, favorecendo, mesmo que de forma singular, sua inclusão social.

AMPLIAÇÃO DA EXPECTATIVA DE VIDA
Essa nova face do Brasil traz consigo uma intensifi cação das marcas de senilidade (processo de envelhecimento) e um país com aumento da taxa de sobrevida, com um número de idosos que atinge valores médios de 20 mi- lhões de habitantes. Dados do IBGE de 2010 reconhe- ceram 449.129 indivíduos com idade superior ou igual a 90 anos. Apresentamos uma taxa média de longevidade de 73,4 anos, mas ainda inferior a países latinos, como Argentina (75,8 anos) e México (76,89 anos), assim como países desenvolvidos, como Reino Unido, Canadá e Japão, com 80,75, 80,93 e 82,59 anos, respectivamente. Segundo o IBGE, em 1980, tínhamos uma esperança de vida, aos 60 anos, de mais 16 anos, 4 meses e 6 dias. Já em 2010, nessa mesma idade, a esperança de vida au- mentou para 21 anos e 6 meses. Também com base nes- ses dados, apresentamos divergências regionais, com menor expectativa no Maranhão (68 anos) e maior no Estado de Santa Catarina: 75 anos.

A ampliação da esperança de vida verdadeiramente representa um grande progresso para a sociedade; entretanto, como nos preparamos para esse envelhe- cimento? Como nos preparamos para receber esse novo fenômeno brasileiro? Já temos estratégias de políticas públicas e de iniciativas privadas que equili- brem suas consequências?

Países desenvolvidos, que já viveram ou ainda convi- vem com esse contingente populacional, reconhecem a grande vitória representada pela melhora dos indica- dores de qualidade de vida. Contudo, percebem outros fenômenos intrínsecos a essa faixa etária, como queda da renda familiar ou individual, isolamento, maior necessidade de assistência à saúde, maior inatividade e dependência de terceiros. Consequências econômicas são facilmente percebidas, pelo aumento das demandas dos gastos públicos com aposentadorias, redução da força de trabalho e crescimento econômico, mudanças nos perfis das doenças, prevalecendo as enfermidades crônicas e demenciais, com aumento dos custos do financiamento à saúde.

Apesar dos inúmeros contrastes comuns ao Brasil e aos brasileiros, temos que comemorar as etapas con- quistadas e nos debruçar em busca de novas ações que proporcionem a jovens e velhos, dependentes ou in- dependentes, uma vida com dignidade, no exercício pleno da cidadania.

* PEDRO FÉLIX VITAL JR. é coordenador do curso de Medicina da Faculdade Santa Marcelina – FASM.

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