ESPECIAL NELSON MANDELA – 9 matérias sobre o líder africano

O Evangelho segundo Mandela

Não podemos nos esquecer que países como Israel, EUA e Inglaterra apoiaram durante décadas o regime do apartheid. Se dependesse deles, Mandela teria morrido na prisão, a África do Sul ficaria afundada no caos e o mundo não teria a oportunidade de fabricar a lenda do novo Messias

por Alain Gresh

Um herói do nosso tempo”, afirmava o Courrier Internacional de junho de 2010. “Ele mudou a história”, valoriza ainda mais a revista Le Nouvel Observateur de maio de 2010. Acompanhadas de fotos de Nelson Mandela sorridente, essas duas capas são o testemunho de uma adoração quase unânime, a qual o filme Invictus, do diretor Clint Eastwood, levou à apoteose. Com a Copa do Mundo de futebol, se intensifica o culto ao profeta visionário que rejeitou a violência e guiou seu povo em direção a uma terra prometida onde vivem, em harmonia, negros, mestiços e brancos. O presídio de Robben Island, onde ele ficou encarcerado por 18 anos, passou a ser lugar de visitação obrigatória para turistas estrangeiros, e lembra um passado um pouco nebuloso, do tempo em que oapartheid desonra e suscita condenação universal, em primeiro lugar, a dos democratas ocidentais.

Cristo foi morto na cruz há aproximadamente dois mil anos. Muitos pesquisadores se perguntam sobre a correspondência entre o Jesus dos Evangelhos e o Jesus histórico. O que conhecemos da vida terrestre do “filho de Deus”? De quais documentos dispomos para definir sua pregação? Os testemunhos resgatados no Novo Testamento são realmente confiáveis?

Diante de tantas questões, podemos presumir que é mais fácil definir o “Mandela histórico”, já que temos um Evangelho escrito por seu próprio punho1, além de várias testemunhas diretas. A lenda Mandela pareceria, então, um tanto quanto distante da realidade, como essa do Jesus dos Evangelhos, uma vez que seria intolerável admitir que o novo messias tivesse sido um “terrorista”, “aliado dos comunistas” e da União Soviética (aquela do “gulag”), um revolucionário determinado.

O Congresso Nacional Africano (CNA), aliado estratégico do partido comunista sul-africano, se lançou na luta armada, em 1960, depois do massacre em Sharpville, que deixou dezenas de mortos entre os negros que protestavam contra o sistema de pass(espécie de passaportes internos do país). Mandela, até então adepto da luta legal, acabou persuadido: jamais a minoria branca renunciaria pacificamente ao seu poder, às suas prerrogativas. Tendo, num primeiro momento, privilegiado as sabotagens, o CNA utilizou também, de maneira limitada, a arma do “terrorismo”, não hesitando em colocar algumas bombas em cafés.

Preso em 1962 e condenado, Mandela rejeitou, a partir de 1985, várias ofertas de libertação em troca da sua renúncia à violência. “Sempre é o opressor, e não o oprimido, quem determina a forma da luta. Se o opressor utiliza a violência, o oprimido não tem outra escolha do que responder com violência”, escreve ele em suas Memórias. E somente a violência, apoiada por mobilizações populares crescentes e sustentada por um sistema internacional de sanções cada vez mais coercitivas, pôde, com o passar do tempo, demonstrar a ineficiência do sistema repressivo e levar o poder branco ao arrependimento moral. Com o princípio “um homem, uma voz”, Mandela e o CNA souberam então mostrar flexibilidade na implementação da “sociedade arco-íris” e nas garantias concedidas à minoria branca.

A estratégia do CNA se beneficiou do apoio material e moral da União Soviética e da “facção socialista”. Vários dos seus dirigentes foram formados e treinados em Moscou e Hanói. O combate se estendeu por toda a África Austral, onde o exército sul-africano tentou estabelecer sua hegemonia. A intervenção das tropas cubanas em Angola, em 1975, e as vitórias que alcançaram, especialmente em Cuito-Cuanavale, em janeiro de 1988, contribuíram para desestabilizar a máquina de guerra do poder branco. A batalha de Cuito-Cuanavale constituiu, segundo Mandela, “um momento decisivo na libertação do nosso continente e do meu povo2”. Anos depois, em 1994, Fidel Castro foi um dos convidados de honra na posse de Mandela na presidência.

No choque entre a maioria da população e o poder branco, os Estados Unidos, o Reino Unido, Israel e a França (esta última até 1981) combateram do “lado errado”, o lado dos defensores do apartheid, em nome da luta contra o perigo comunista. Chester Croker, principal homem da política de “compromisso construtivo” do presidente Ronald Reagan na África Austral, escreveu à época: “Por sua natureza e história, a África do Sul faz parte da experiência ocidental e é parte integrante da economia ocidental”. Washington, que tinha apoiado Pretória em Angola, em 1975, não hesitou em contornar o embargo sobre as armas e colaborar estreitamente com os serviços de informação sul-africanos, rejeitando qualquer medida coercitiva contra o poder branco. Esperando uma evolução gradual, a maioria negra teve que adotar uma postura moderada.

Em 22 de junho de 1988, 18 meses antes da libertação de Mandela e da legalização do CNA, o subsecretário do Departamento de Estado americano, John C. Whitehead, ainda explicou para a comissão do Senado: “Nós devemos reconhecer que a transição para uma democracia não racial na África do Sul tomará inevitavelmente mais tempo do que gostaríamos”. Ele pretendia que as sanções não tivessem nenhum “efeito desmoralizador sobre as elites brancas” e que penalizassem, em primeiro lugar, a população negra.

No último ano do seu mandato, Ronald Reagan tentou uma última vez – e sem sucesso – impedir o Congresso americano de punir o regime do apartheid. Foi na época em que ele celebrava “os combatentes da liberdade” afegãos e nicaraguenses e denunciava o terrorismo do CNA e da Organização para a Libertação da Palestina (OLP).

Terroristas?

O Reino Unido não ficou de fora; o governo de Margaret Thatcher recusou qualquer encontro com o CNA até a libertação de Mandela, em fevereiro de 1990. Na reunião internacional do Commonwealth em Vancouver, Canadá, em outubro de 1987, ela se opôs à adoção de sanções. Interrogada sobre as ameaças do CNA em prejudicar os interesses britânicos na África do Sul, respondeu: “Isso mostra o quão banal é esse grupo terrorista [CNA]”. Nesse período, a associação de estudantes conservadores filiados ao seu partido, distribuiu panfletos proclamando: “Enforquem Nelson Mandela e todos os terroristas do CNA! São carniceiros”.

Agora, em 2010, o novo primeiro-ministro conservador, David Cameron, decidiu enfim se desculpar por esse comportamento. Mas, rapidamente, a imprensa britânica refrescou sua memória, lembrando que ele mesmo foi à África do Sul, em 1989, a convite de um lobbyantissanções.

Já Israel permaneceu até ao fim como aliado indefectível do regime racista de Pretória, fornecendo-lhe armas e ajudando em seu programa militar nuclear e de mísseis. Em abril de 1975, o atual presidente israelense, Shimon Peres, então ministro da Defesa, assinou um acordo de segurança entre os dois países. Um ano mais tarde, o primeiro-ministro sul-africano, Balthazar J. Vorster, antigo simpatizante nazista, foi recebido com todas as honras em Israel. Os responsáveis pelos dois serviços de informação se reuniam anualmente e coordenavam a luta contra “o terrorismo” do CNA e da OLP.

E a França? Bem, aquela do general De Gaulle e de seus sucessores de direito teceu relações tranquilas com Pretória. Numa entrevista publicada no Nouvel Observateur, Jacques Chirac se glorificava do seu antigo apoio a Mandela. Ele tem, assim como muitos políticos da direita, memória curta. Primeiro-ministro em 1974 e 1976, Chirac sancionou, em junho de 1976, o contrato com a Framatome para a construção da primeira central nuclear na África do Sul. Nessa ocasião, o editorial do Le Monde observou: “A França está em curiosa companhia entre o pequeno pelotão de parceiros julgados ‘de confiança’ por Pretória”. “Viva a França. A África do Sul se torna uma potência atômica”, dizia na ocasião o jornal sul-africano Sunday Times. Se, claramente sob pressão dos países africanos, Paris decidiu, em 1975, não vender mais armas diretamente à África do Sul, a França honrou por muitos anos ainda os contratos em andamento, enquanto seus blindados Panhard e helicópteros Alouette e Puma eram construídos localmente com a devida autorização.

Apesar do discurso oficial de condenação ao apartheid, Paris manteve, até 1981, várias formas de cooperação com o regime racista. Alexandre Marenches, o homem que dirigiu o serviço de documentação exterior e de contraespionagem (SDECE) entre 1970 e 1981, resume a filosofia da direita francesa: “O apartheid é, certamente, um sistema que devemos lastimar, mas é preciso fazê-lo evoluir calmamente”3. Se o CNA tivesse escutado seus conselhos de “moderação” (ou aqueles do presidente Reagan), Mandela teria sido morto na prisão, a África do Sul teria se afundado no caos e o mundo não teria a oportunidade de fabricar a lenda do novo messias.

Alain Gresh é jornalista, do coletivo de redação de Le Monde Diplomatique (edição francesa).

Ilustração: Daniel Kondo

“1Long walk to freedom, Little Brown, Estados Unidos, 1995.

2 Ronnie Kasrils, “Turning point at Cuito Cuanavale”, 23 de março de 2008, www.iol.co.za/.

3 Christine Ockrent, Alexandre de Marenches, Dans le secret des princes (Dentro do segredo dos príncipes), Stock, Paris, 1986.

Fonte: http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=735

50 verdades sobre Nelson Mandela

As grandes potências ocidentais se opuseram até o último instante à sua luta dele e apoiaram o governo racista de Pretória
O herói da luta contra o apartheid marcou para sempre a história da África. No crepúsculo de sua existência, Nelson Mandela é venerado por todos. Ainda assim, as grandes potências ocidentais se opuseram até o último instante à sua luta pela emancipação humana e apoiaram o governo racista de Pretoria.

1.       Nascido no dia 18 de julho de 1918, Nelson Rolihlahla Mandela, apelidado de Madiba, é o símbolo por excelência da resistência à opressão e ao racismo na luta pela justiça e pela emancipação humana.

2.       Procedente de uma família de treze filhos, Mandela foi o primeiro a estudar em uma escola metodista e a cursar direito na Universidade de Fort Hare, a única que aceitava, então, pessoas de cor no governo segregacionista do apartheid.

3.       Em 1944, aderiu ao Congresso Nacional Africano (CNA) e, particularmente, à sua Liga da Juventude, de inclinação radical.

4.       O apartheid, elaborado em 1948 depois da vitória do Partido Nacional Purificado, instaurava a doutrina da superioridade da raça branca e dividia a população sul-africana em quatro grupos distintos: os brancos (20%), os índios (3%), os mestiços (10%) e os negros (67%). Esse sistema segregacionista discriminava 4/5 da população do país.

5.       Foram criados “bantustões”reservas territoriais destinadas às pessoas de cor, para amontoar as pessoas não brancas. Assim, 80% da população tinha de viver em 13% do território nacional, muitas vezes sem recursos naturais ou industriais, na total indigência.

6.       Em 1951, Mandela se transformou no primeiro advogado negro de Johanesburgo e assumiu a direção do CNA na província de Transvaal um ano depois. Também foi nomeado vice-presidente nacional.

7.       À frente do CNA, lançou a defiance campaign, contra o governo racista do apartheid, e utilizou a desobediência civil contra as leis segregacionistas. Durante a manifestação do dia 6 de abril de 1952, data do terceiro centenário da colonização da África do Sul pelos brancos, Mandela foi condenado a um ano de prisão. De sua prisão domiciliar em Johanesburgo, criou células clandestinas do CNA.

8.       Em nome da luta contra o apartheid, Mandela preconizou a aliança entre o CNA e o Partido Comunista Sul-africano. Segundo ele, “o CNA não é um partido comunista, mas um amplo movimento de libertação que, entre seus membros inclui comunistas e outros que não o são. Qualquer pessoa que seja membro leal do CNA, e que respeite a disciplina e os princípios da organização, tem o direito de pertencer às suas filas. Nossa relação com o Partido Comunista Sul-Africano como organização é baseada no respeito mútuo. Nos unimos ao Partido Comunista Sul-Africano em torno daqueles objetivos que nos são comuns, mas respeitamos a independência de cada um e sua identidade visual. Não houve tentativa alguma por parte do Partido Comunista Sul-Africano de subverter o CNA. Pelo contrário, essa aliança nos deu força política.”

9.       Em dezembro de 1956, Mandela foi preso e acusado de traição com mais de uma centena de militantes antiapartheid. Depois de um processo de quatro anos, os tribunais o absolveram.

10.   Em março de 1960, depois do massacre de Sharperville, perpetrado pela polícia contra os manifestantes antisegregação, que custou a vida de 69 pessoas, o governo do apartheid proibiu o CNA.

11.   Mandela fundou então o Umkhonto we Sizwe (MK)  e preconizou a luta armada contra o governo racista sul-africano. Antes de optar pela doutrina da violência legítima e necessária, Mandela se inspirou da filosofia da não violência de Gandhi: “Embora tenhamos pegado em armas, não era nossa opção preferida. Foi o governo do apartheid que nos obrigou  a pegar em armas. Nossa opção preferida sempre foi a de encontrar uma solução pacífica para o conflito do apartheid.”

12.   O MK multiplicou, então, os atos de sabotagem contra os símbolos e as instituições do apartheid, preservando ao mesmo tempo as vidas humanas, lançou com sucesso uma greve geral e preparou o terreno para a luta armada com o treinamento militar de seus membros.

13.   Durante sua estada na Argélia, em 1962, depois da intervenção do presidente Ahmed Ben Bella, Mandela aproveitou para aperfeiçoar seus conhecimentos sobre a guerra de guerrilhas. A Argélia colocou à disposição do CNA campos de treinamento e deu apoio financeiro aos residentes antiapartheid. Mandela recebeu ali uma formação militar. Inspirou-se profundamente na guerra da Frente de Libertação Nacional do povo argelino contra o colonialismo francês. Quando libertado, Mandela dedicaria sua primeira viagem ao exterior à Argélia, em maio de 1990, e renderia tributo ao povo argelino: “Foi a Argélia que fez de mim um homem. Sou argelino, sou árabe, sou muçulmano! Quando fui ao meu país para enfrentar o apartheid, me senti mais forte”. Recordaria ter sido “o primeiro sul-africano treinado militarmente na Argélia.”

14.   Mandela estudou minuciosamente os escritos de Mao e de Che Guevara. Transformou-se em um grande admirador do guerrilheiro cubano-argentino. Depois de ser libertado, declararia: As “façanhas revolucionárias [de Che Guevara] — inclusive no nosso continente — foram de tal magnitude que nenhum encarregando de censura na prisão pôde escondê-las. A vida do Che é uma inspiração para todo ser humano que ame a liberdade. Sempre honraremos sua memória.”

15.   Cuba foi uma das primeiras nações que deu sua ajuda ao CNA. A esse respeito, Nelson Mandela destacou: “Que país solicitou a ajuda de Cuba e lhe foi negada? Quantos países ameaçados pelo imperialismo ou que lutam pela sua libertação nacional puderam contar com o apoio de Cuba? Devo dizer que quando quisemos pegar em armas nos aproximamos de diversos governos ocidentais em busca de ajuda e somente obtivemos audiências com ministros de baixíssimo escalão. Quando visitamos Cuba fomos recebidos pelos mais altos funcionários, os quais, de imediato, nos ofereceram tudo o que queríamos e necessitávamos. Essa foi nossa primeira experiência com o internacionalismo de Cuba.”

16.   No dia 5 de agosto de 1962, depois de 17 meses de vida clandestina, Mandela foi levado à prisão em Johanesburgo, graças à colaboração dos serviços secretos dos Estados Unidos com o governo de Pretoria. A CIA deu às forças repressivas do apartheid a informação necessária para a captura do líder da resistência sul-africana.

17.   Acusado de ser o organizador da greve geral de 1961 e de sair ilegalmente do território nacional, ele foi condenado a cinco anos de prisão.

18.   Em julho de 1963, o governo prendeu 11 dirigentes do CNA em Rivonia, perto de Johanesburgo, sede da direção do MK. Todos foram acusados de traição, sabotagem, conspiração com o Partido Comunista e complô destinado a derrubar o governo. Já na prisão, Mandela foi acusado das mesmas coisas.

19.   No dia 9 de outubro de 1963, começou o famoso julgamento de Rivonia na Corte Suprema de Pretoria. No dia 20 de abril de 1964, frente ao juiz africâner Quartus de Wet, Mandela desenvolveu sua alegação brilhante e destacou que, frente ao fracasso da desobediência civil como método de combate para conseguir a liberdade, a igualdade ou a justiça, frente aos massacres de Sharperville e à proibição de sua organização, o CNA não teve outro remédio senão recorrer à luta armada para resistir à opressão.

20.   No dia 12 de junho de 1964, Mandela e seus companheiros foram declarados culpados de motim e condenados à prisão perpétua.

21.   O Conselho de Segurança das Nações Unidas denunciou o julgamento de Rivonia. Em agosto de 1963, condenou o governo do apartheid e pediu às nações do mundo que suspendessem  o fornecimento de armas à África do Sul.

22.   As grandes nações ocidentais, como Estados Unidos, Grã-Bretanha e França, longe de respeitarem a resolução do Conselho de Segurança, apoiaram o governo racista sul-africano e multiplicaram o fornecimento de armas.

23.   De Charles de Gaulle, presidente da França de 1959 a 1969, até o governo de Valéry Giscard d’Estaing, presidente da França de 1974 a 1981, a França foi um fiel aliado do poder racista de Pretoria e se negou sistematicamente a dar apoio ao CNA em sua luta pela igualdade e pela justiça.

24.   Paris nunca deixou de fornecer material militar para Pretoria, provendo até mesmo a primeira central nuclear da África do Sul, em 1976. Sob os governos de De Gaulle e de Georges Pompidou, presidente entre 1969 e 1974, a África do Sul foi o terceiro maior cliente da França em matéria de armamento.

25.   Em 1975, o Centro Francês de Comércio Exterior (CFCE) disse que “a França é considerada o único verdadeiro apoio da África do Sul entre os grandes países ocidentais. Não apenas fornece ao país o essencial em matéria de armamentos necessários para sua defesa, mas também tem se mostrado benevolente, ou, mais ainda, um aliado nos debates e nos votos das organizações internacionais.”

26.   Preso em Robben Island, com o número 466/64, Mandela viveu 18 anos de sua existência em condições extremamente duras. Não podia receber mais de duas cartas e duas visitas ao ano e esteve separado de sua esposa Winnie — que não tinha permissão para visitá-lo — durante 15 anos. Foi condenado a realizar trabalhos forçados, o que afetou seriamente a sua saúde, sem conseguir jamais quebrar sua força moral. Dava cursos de política, literatura e poesia a seus camaradas de destino e clamava pela resistência. Mandela gostava de recitar o poema Invictus de William Ernest Henley: “It matters not how strait the gate/How charged with punishments the scroll./I am the master of my fate:/I am the captain of my soul”. (Não importa quão estreito é o portão/ E quantas são as punições listadas/ Eu sou o mestre do meu destino/ Eu sou o capitão da minha alma)

27.   No dia 6 de dezembro de 1971, a Assembleia Geral das Nações Unidas qualificou o apartheid como crime contra a humanidade e exigiu a libertação de Nelson Mandela.

28.   Em 1976, o governo sul-africano propôs a Mandela sua libertação em troca de que ele renunciasse à luta. Madiba negou firmemente a proposta do governo segregacionista.

29.   Em novembro de 1976, depois das revoltas de Soweto e da sangrenta repressão que o governo do apartheid desatou, o Conselho de Segurança das Nações Unidos impôs um embargo sobre as armas destinadas à África do Sul.

30.   Em 1982, Mandela foi transferido para a prisão de Pollsmoor, perto de Cape Town.

31.   Em 1985, Pieter Willen Botha, presidente de fato da nação, propôs libertar Mandela se ele se comprometesse, em troca, a renunciar à luta armada. O líder da luta antiapartheid recusou a proposta e exigiu a democracia para todos: “um homem, um voto.”

32.   Frente ao recrudescimento das operações de guerrilha do MK, o governo segregacionista criou esquadrões da morte com a finalidade de eliminar os militantes do CNA na África do Sul e no exterior. O caso mais famoso é o de Dulci September, assassinada em Paris no dia 29 de março de 1988.

33.   A mobilização internacional a favor de Nelson Mandela culminou em um show em Wembley, em junho de 1988, em homenagem aos 70 anos do resistente sul-africano, que foi assistido por 500 milhões de pessoas pela televisão.

34.   O elemento decisivo que pôs fim ao apartheid foi a estrepitosa derrota militar que tropas cubanas infringiram ao exército sul-africano em Cuito Cuanavale, no sudeste de Angola, em janeiro de 1988. Fidel Castro enviou seus melhores soldados a Angola depois da invasão do país pelo governo de Pretoria, apoiada pelos Estados Unidos. A vitória de Cuito Cuanavale também permitiu à Namíbia, até então ocupada pela África do Sul, conseguir sua independência.

35.   Em um artigo intitulado “Cuito Cuanavale: a batalha que acabou com o apartheid”, o historiador Piero Gleijeses, professor da Universidade John Hopkins, de Washington, especialista na política africana de Cuba, aponta que “a proeza dos cubanos nos campos de batalha e seu virtuosismo na mesa de negociações foram decisivos para obrigar a África do Sul a aceitar a independência da Namíbia. Sua exitosa defesa de Cuito foi o prelúdio de uma campanha que obrigou o exército sul-africano a sair de Angola. Essa vitória repercutiu para além de Namíbia.”

36.   Nelson Mandela, durante sua visita história a Cuba, em julho de 1991, lembrou-se daquele episódio: “A presença de vocês e o reforço enviado para a batalha de Cuito Cuanavale têm uma importância verdadeiramente histórica. A derrotada esmagadora do exército racista em Cuito Cuanavale constituiu uma vitória para toda a África! Essa contundente derrota do exército racista em Cuito Canavale deu a Angola a possibilidade de desfrutar da paz e de consolidar sua própria soberania. A derrota do exército racista permitiu que o povo combatente da Namíbia alcançasse finalmente a sua independência! A decisiva derrota das forças agressoras do apartheid destruiu o mito da  invencibilidade do opressor branco! A derrota do apartheid serviu de inspiração para o povo combatente da África do Sul! Sem a derrota infringida em Cuito Cuanavale nossas organizações não teriam sido legalizadas! A derrota do exército racista em Cuito Cuanavale possibilitou que hoje eu possa estar aqui com vocês! Cuito Cuanavale é um marco na história da luta pela libertação da África austral! Cuito Cuanavale marca a virada da luta para libertar o continente e nosso país do flagelo do apartheid! A decisiva derrota infringida em Cuito Cuanavale alterou a correlação de forças da região e reduziu consideravelmente a capacidade do governo de Pretoria para desestabilizar seus vizinhos. Este feito, em conjunto com a luta do nosso povo dentro do país, foi crucial para fazer Pretoria entender que tinha de se sentar à mesa de negociações.”

37.   No dia 2 de fevereiro de 1990, o governo segregacionista, moribundo depois da derrota de Cuito Cuanavale, viu-se obrigado a legalizar o CNA e aceitar as negociações.

38.   No dia 11 de fevereiro de 1990, Nelson Mandela foi finalmente libertado, depois de 27 anos de prisão.

39.   Em junho de 1990 foram abolidas as últimas leis segregacionistas depois da pressão feita por Nelson Mandela, pelo CNA e pelo povo.

40.   Eleito presidente do CNA em junho de 1991, Mandela recordou os objetivos: “No CNA sempre estaremos ao lado dos pobres e dos que não têm direitos. Não apenas estaremos junto deles. Vamos garantir antes cedo que tarde os pobres e sem direitos rejam a terra onde nasceram e que — como expressa a Carta da Liberdade — seja o povo que governe.”

41.   Fortemente criticado por sua aliança com o Partido Comunista Sul-Africano por causa das potências ocidentais que seguiam apoiando o governo do apartheid durante o processo de paz, Mandela replicou de modo contundente. “Não temos a menor intenção de fazer caso aos que nos sugerem e aconselham que rompamos essa aliança [com o Partido Comunista]. Quem são os que oferecem esses conselhos não solicitados? Provêm, em sua maioria, dos que nunca nos deram ajuda alguma. Nenhum desses conselheiros fez jamais os sacrifícios que fizeram os comunistas pela nossa luta. Essa aliança nos fortaleceu e a tornaremos ainda mais estreita.”

42.   Em 1991, Mandela condenou o persistente apoio dos Estados Unidos ao governo do apartheid:  “Estamos profundamente preocupados com a atitude que a  administração Bush adotou sobre esse assunto. Este foi um dos poucos governos que esteve em contato habitual conosco para examinar a questão das sanções e lhe fizemos ver claramente que eliminar as sanções seria prematuro. No entanto, essa administração, sem nem nos consultar, simplesmente nos informou que as sanções estadunidenses seriam anuladas. Consideramos isso totalmente inaceitável.”

43.   Em 1993, Mandela recebeu o Prêmio Nobel da Paz por sua obra a favor da reconciliação nacional.

44.   Durante a primeira votação democrática da história da África do Sul, no dia 27 de abril de 1994, Nelson Mandela, de 77 anos, foi eleito presidente da República com mais de 60% dos votos. Governou até 1999.

45.   No dia 1 de dezembro de 2009, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, em votação unânime de seus 192 membros, uma resolução que decreta o dia 18 de julho como Dia Internacional Nelson Mandela, em homenagem à luta do herói sul-africano contra todas as injustiças.

46.   Se hoje Mandela é cumprimentado por todos, por décadas as potências ocidentais o consideraram um homem perigoso e o combateram apoiando o governo do apartheid.

47.   Estados Unidos, França e Grã-Bretanha foram os principais aliados do governo do apartheid, o qual apoiaram até o último momento.

48.   Se os Estados Unidos veneram hoje em dia Nelson Mandela, de Clinton a Bush passando por Obama, é conveniente lembrar que ele foi mantido na lista de membros de organizações terroristas até o dia 1 de janeiro de 2008.

49.   Nelson Mandela lembrou varias vezes dos lanços inquebrantáveis que atavam a África do Sul a Cuba. “Desde seus primeiros dias, a Revolução Cubana tem sido uma fonte de inspiração para todos os povos amantes da liberdade. O povo cubano ocupa um lugar especial no coração dos povos da África. Os internacionalistas cubanos deram uma contribuição para a independência, para a liberdade e a justiça na África que não tem paralelo pelos princípios e pelo desinteresse que a caracterizam. É muito o que podemos aprender da sua experiência. De modo particular, nos comove a afirmação do vínculo histórico com o continente africano e seus povos. Seu invariável compromisso com a erradicação sistemática do racismo não tem paralelo. Somos conscientes da grande dívida que existe hoje com o povo de Cuba. Que outro país pode mostrar uma história mais desinteressada que a que teve Cuba em suas relações com a África?

50.   Thenjiwe Mtintso, embaixadora da África do Sul em Cuba, lembrou-se da verdade histórica a propósito do compromisso de Cuba na África. “Hoje a África do Sul tem muitos amigos novos. Ontem, estes amigos se referiam aos nossos líderes e aos nossos combatentes como terroristas e nos acusavam enquanto apoiavam a África do Sul do apartheid. Esses mesmos amigos hoje querem que nós denunciemos e ilhemos Cuba. Nossa resposta é muito simples, é o sangue dos mártires cubanos e não destes amigos que corre profundamente na terra africana e nutre a árvore da liberdade em nossa pátria.”
*Doutor em Estudos Ibéricos e Latino-americanos da Universidade Paris Sorbonne-Paris IV, Salim Lamrani é professor-titular da Universidade de la Reunión e jornalista, especialista nas relações entre Cuba e Estados Unidos. Seu último livro se chama The Economic War Against Cuba. A Historical and Legal Perspective on the U.S. Blockade [A Guerra Econômica contra Cuba. Uma Perspectiva Histórica e Legal do Bloqueio dos EUA], New York, Monthly Review Press, 2013, com prólogo de Wayne S. Smith e prefácio de Paul Estrade.

Contato: lamranisalim@yahoo.fr ; Salim.Lamrani@univ-reunion.fr

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Fonte: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/32812/50+verdades+sobre+nelson+mandela.shtml

Nelson Mandela: 15 curiosidades sobre a vida do líder sul-africano

Ex-presidente da África do Sul treinou táticas de guerrilha fora do país e emprestou o nome a uma orquídea e um pica-pau
1. O nome de nascimento de Mandela – Rolihlahla – tem origem na língua Xhosa e significa “aquele que ergue o galho da árvore”. Coloquialmente, também significa “encrenqueiro”. Seu nome em inglês, Nelson, foi dado por uma professora.
2. Mandela foi expulso da Universidade de Fort Hare após se juntar a uma manifestação estudantil. Mais tarde, ele completou o ensino superior na Unisa (Universidade da África do Sul), se formando em Direito.
3. Ele fugiu do Cabo Oriental para Johanesburgo após Jongintaba Dalindyebo, líder do povo Tembu, tentar arrastá-lo para um casamento arranjado. Após chegar à cidade, ele encontrou trabalho como vigia noturno de uma mina.
4. Mandela viveu na township de Alexandra em princípio, mas depois se mudou para a casa do amigo Walter Sisulu e da mãe dele em Orlando, Soweto.

Favela de Alexandra, township em Joanesburgo, África do Sul, primeiro lugar onde Mandela morou após sair de seu vilarejo

5. A primeira esposa de Mandela, Evelyn Mase, era enfermeira e prima de Sisulu. Ela sustentava a família e também apoiou Mandela enquanto ele estudava Direito e se envolvia cada vez na política. Eles tiveram quatro filhos e se divorciaram em 1958.

6. Ele não só foi o primeiro comandante-em-chefe do braço armado do CNA (Congresso Nacional Africano), como também, junto com Oliver Tambo, co-fundou ao primeiro escritório de advocacia negro, Mandela & Tambo, que defendia pessoas afetadas pelas leis do apartheid.

7. Em 1962, ele saiu do país para angariar apoio para a luta armada. Durante esse tempo, ele recebeu treinamento de guerrilha no Marrocos e na Etiópia.

8. As circunstância em torno de sua prisão em uma blitz policial nos arredores de Howick naquele ano permanecem sem explicação, mas há a tese de que um agente da CIA avisou sobre sua movimentação. Em seguida, Mandela foi condenado à prisão perpétua e passou 27 anos na cadeia.

Trecho do diário de Mandela quando o jovem sul-africano foi treinar táticas de guerrilha em Oujda, Marrocos

9. Durante o tempo que passou na prisão, Mandela permaneceu em uma cela de 2m x 2.5m, onde havia um colchonete no chão e um balde para as necessidades. Ele foi obrigado a trabalhar em uma pedreira de calcário e, no início, podia receber somente uma visita e uma carta a cada seis meses.

10. O governo do apartheid ofereceu soltar Mandela por seis vezes, mas ele se recusou. Em uma das ocasiões, ele soltou um comunicado onde disse: “Eu me preocupo com a minha própria liberdade, mas eu me preocupo ainda mais com a de vocês. Que tipo de liberdade me está sendo oferecida enquanto a organização do povo [o CNA] permanece banida?”.

11. Mandela escreveu um livro de memórias nos anos 1970, cujas cópias foram embrulhadas em plástico e enterradas em uma horta que ele mantinha na prisão. Ele esperava que seu companheiro de cadeia Mac Maharaj, que estava prestes a ser libertado, conseguiria contrabandear os textos. Porém, as autoridades carcerárias descobriram os papéis quando começaram a construir um muro. Como punição, a permissão de estudar foi tirada de Mandela.

12. Após se separar da segunda esposa, Winnie Madikizela-Mandela, ele perguntou à ativista Amina Cachalia (foto à esquerda), com quem mantinha um antigo relacionamento, se queria se casar, mas ela disse “não”. Em seu 80º aniversário, Mandela se casou com Graça Machel, viúva do presidente moçambicano Samora Machel.

13. O CNA foi classificada como organização terrorista pelo governo do apartheid, sendo depois acompanhado pelos governos dos Estados Unidos e Reino Unido. Somente em 2008 os EUA finalmente retiraram Mandela e outros membros do CAN da lista de terroristas.

14. A ONU (Organização das Nações Unidas) declarou 18 de julho, data do aniversário dele, Dia Internacional Nelson Mandela. Foi a primeira vez que as Nações Unidas dedicaram uma data em particular a uma pessoa.

15. Centenas de prêmios e honras foram entregues a Mandela. Dentre elas, a de cidadão honorário do Canadá, membro honorário do Partido Trabalhista britânico e membro honorário do time de futebol Manchester United. Ele também dá nome a uma partícula nuclear, a um pica-pau pré-histórico (Australopicus nelsonmandelai) e a uma orquídea (Paravanda Nelson Mandela).

Fonte: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/29660/nelson+mandela+15+curiosidades+sobre+a+vida+do+lider+sul-africano.shtml

Os caminhos inesperados de Nelson Mandela

Recusou papel de santo. Viveu intensamente. Enfrentou inferno sem perder humanidade. Poderá inspirar outros projetos de mundo, no século 21?

Por Achille Mbembe, no Le Monde Diplomatique francês | Tradução: Cristiana Martin

Só quando Nelson Mandela morrer, teremos o direito de declarar o fim do século XX. O homem que hoje encontra-se no crepúsculo de sua vida terá sido uma figura emblemática. Com exceção de Fidel Castro, é provavelmente o último de uma linha de grandes líderes em extinção, já que vivemos numa época apressada em terminar, de uma vez por todas, com os mitos.

Mais do que o santo – algo que ele próprio afirma jamais ter pretendido ser –, Mandela terá sido um mito vivo antes, durante e depois de sua longa prisão. Nele, a África do Sul, este acidente geográfico que é difícil conceituar, encontrou sua Ideia. E se não houve pressa em se separarem, é porque, em sua nova vida pós-apartheid, a sociedade sul-africana não pode conviver, sem riscos, com o mito de uma sociedade sem mitos.

Mas se é preciso aceitar em Mandela a recusa da santidade, que ele não deixou de proclamar – às vezes, com certa malícia –, deve-se reconhecer que ele esteve longe de ser um homem banal. Por não ter sido uma forma comum de opressão colonial ou racial, o apartheid provocou o surgimento de uma classe de mulheres e homens incomuns, sem medo, que ao preço de sacrifícios incríveis, precipitaram a abolição do regime. Se Mandela tornou-se um nome entre eles foi porque, em cada encruzilhada de sua vida, soube percorrer, mesmo sob a pressão das circunstâncias e frequentemente de maneira voluntária, caminhos inesperados.

No fundo, sua vida se resume a algumas palavras: um homem constantemente em vigília, sentinela na hora do toque de partida e cujos retornos, todos tão inesperados quanto miraculosos, apenas contribuíram para que se transformasse em mito.

Nos alicerces de um mito, não há somente o desejo do sagrado e a sede de segredo. Ele floresce pela primeira vez na proximidade da morte, esta forma primeira de partida e separação. Muito cedo, Mandela teve essa experiência, quando seu pai, Mphakanyiswa Gadla Mandela, morreu quase diante de seus olhos. Tinha o cachimbo na boca e tossia de maneira tão irreprimível que mesmo o tabaco, do qual ele gostava tanto, pouco serviu para consolá-lo. É então que esta primeira partida provoca uma outra. Acompanhado de sua mãe, o jovem Mandela sai de Qunu, o lugar de sua infância e do início de sua adolescência e que ele descreve com uma infinita ternura em sua autobiografia. Ele voltará à cidade apenas no fim de seus longos anos na prisão, depois de construir uma casa, toda ela uma réplica da última prisão em que esteve antes de obter novamente sua liberdade.

Recusando-se a se conformar com os costumes, ele vai partir uma dúzia de vezes até o final da adolescência. Príncipe fugitivo, vira as costas para uma carreira como chefe dos Thembus, seu clã de origem. Ele partirá então para Johannesburgo, cidade dos minérios então em plena expansão e expoente das contradições sociais, culturais e políticas engendradas pela semelhança barroca entre capitalismo e racismo, que em 1948 tomou forma e nome de apartheid. Chamado a se tornar chefe da ordem e do costume, Mandela se converterá ao nacionalismo como outros se convertem à religião, e a cidade das minas de ouro tornar-se-á o teatro principal do reencontro com seu destino.

Começa então um longa e dolorosa via sacra, feita de privações, de repetidas prisões, de perseguições intempestivas, vários comparecimentos diante do tribunal, de passagens regulares pelos presídios com sua prática de torturas e rituais de humilhação, períodos mais ou menos prolongados de clandestinidade, de inversão da vida noturna e diurna, de disfarces mais ou menos espontâneos, de uma vida familiar deslocada, de casas abandonadas – um homem em luta, rastreado, fugitivo contantemente de partida, guiado unicamente pela certeza de um dia futuro, o dia do retorno.

Mandela assumiu enormes riscos. Em sua própria vida, que viveu intensamente, como se tudo fosse sempre um recomeço e cada vez fosse a última. Mas também com a vida de muita gente, a começar pela de sua família, que inevitável e consequentemente pagou um preço inestimável às custas de seu engajamento e convicções. Ela o vinculou a uma dívida insondável que ele nunca sentiu-se capaz de reembolsar, o que apenas agravou seu sentimento de culpa.

Ele evitou a pena de morte. Foi em 1964. Junto a outros acusados, estava preparado para ser condenado. “Nós previmos essa eventualidade”, afirma ele em entrevista com Ahmed Kathrada, muitos anos depois de sair da prisão. “Se tínhamos que desaparecer, que fosse com um ar glorioso. Nos agradou muito saber que nossa condenação à morte representava a última oferta ao nosso povo e à nossa organização.”(1) Essa visão eucarística, no entanto, estava longe de ser desejo de martírio. E, contrariamente a todos os outros, de Ruben Um Nyòbe a Patrice Lumumba, passando por Amilcar Cabral, Martin Luther King e até Mohandas Karamchand Gandhi, ele escapou falsamente.

É na prisão de Robben Island que ele colocará em prova esse desejo de vida, no limite do trabalho forçado, da morte e do banimento. A prisão tornou-se o lugar da extrema provação, a do confinamento e do retorno do homem à sua expressão mais simples. Nesse lugar de destituição máxima, Mandela aprendeu a habitar a cela na qual passou mais de vinte anos como um ser vivo forçado a viver num caixão (2).

No decorrer de longas e atrozes horas de solidão, empurrado à beira da loucura, ele redescobrirá o essencial, aquilo que gira em torno do silêncio e do detalhe. Tudo para ele falará de novo: uma formiga que corre para não sei onde, a semente enterrada que morre e ressuscita dando a ilusão de um jardim, um pedaço de coisa, não importa qual; o silêncio dos dias sombrios que parecem não se mover, o tempo que se estende indefinidamente; a lentidão dos dias e o frio das noites; a fala rara; o mundo exterior do qual não se ouvem senão murmúrios, o abismo que foi Robben Island, e os traços da penitenciária agora na sua face esculpida pela dor, em seus olhos apertados pela luz do sol refletida no quartzo, nas suas lágrimas que não vertem mais, a poeira sobre a face transformada em espectro fantasmático e em seus pulmões, na ponta dos pés, e acima de tudo este sorriso alegre e brilhante, esta postura altiva, ereta, de pé, o punho cerrado, pronto a abraçar novamente o mundo e fazer sussurrar a tempestade.

Privado de quase tudo, ele lutará passo a passo para não ceder o resto de humanidade que seus carcereiros queriam a todo custo extrair dele e exibir como o último troféu. Reduzido a viver com quase nada, ele aprende a economizar tudo, mas também a cultivar um profundo desapego das coisas da vida profana, inclusive os prazeres da sexualidade. Até o ponto em que, prisioneiro de fato, confinado entre pouco mais que dois muros, ele não é, contudo, escravo de ninguém.

Homem de carne e osso, Mandela viveu no entanto próximo ao abismo. Ele penetrou na noite da vida, o mais perto da escuridão, à procura de uma ideia, de como aprender a viver livre da raça e da dominação do mesmo nome. Suas escolhas o levaram à beira do precipício. Ele fascinou o mundo por ter saído vivo do país das sombras, jorrando vigor ao anoitecer de um século envelhecido e que não soube mais sonhar.

Tudo, como os movimentos operários do século XIX, ou ainda as lutas das mulheres, nossa modernidade enfrentou pelo sonho da abolição que antes sustentou os escravos. É este sonho que prolonga, no início do século XX, os combates pela descolonização. A práxis política de Mandela se inscreve nesta história específica das grandes lutas africanas pela emancipação humana.

Tais lutas assumiram, desde as origens, uma dimensão planetária. Seu significado jamais foi unicamente local. Ela foi sempre universal. Mesmo quando mobilizaram atores sociais em um país ou território nacional bem circunscrito, elas tiveram como ponto de partida a solidariedade forjada em escala planetária e transnacional.

Estas são as lutas que, a cada vez, permitiram a extensão ou ainda a universalização de direitos que, até então, haviam sido o privilégio de uma raça. É o triunfo do movimento abolicionista ao longo do século XIX que dá fim à contradição que representavam as democracias escravagistas modernas. Nos Estados Unidos, por exemplo, as lutas pelos direitos civis abrem passagem ao aprofundamento da ideia e da prática de igualdade e cidadania.

Encontramos a mesma universalidade no movimento anticolonialista. Que visa ele, de fato, senão tornar possível a manifestação de um poder próprio de gênese – o poder de colocar-se de pé, de viver numa comunidade, de se autodeterminar? Tornando-se o símbolo de uma luta global contra o apartheid, Mandela prolonga essas significações. Aqui, o objetivo é fundar uma comunidade para além da raça. Ainda que o racismo retorne a formas mais ou menos inesperadas, o projeto de igualdade universal encontra-se mais do que nunca à nossa frente.

É preciso ainda dizer algo sobre a África do Sul que Mandela deixa para trás. A passagem de uma sociedade de controle a uma sociedade de consumo representa, sem dúvida, uma das transformações mais decisivas desde sua libertação e o fim do apartheid. Sob o apartheid, o controle consistia em rastrear e restringir a mobilidade dos negros. Passava pela regulação dos espaços nos quais eles eram confinados, o objetivo era extrair deles a maior quantidade de trabalho possível. Foi esta a razão pela qual surgiram micro ambientes que serviam tanto como recintos quanto como reservas. O contato entre os indivíduos eram ou proibidos, ou regidos por leis estritas, sobretudo se esses indivíduos pertencessem a categorias raciais diferentes. O controle passava pela modulação da brutalidade ao longo de linhas raciais que o poder queria rígidas.

No apartheid a brutalidade tinha três funções. De um lado, ela visava diminuir a capacidade dos negros de assegurar sua reprodução social. Eles não estavam jamais capacitados para reunir os meios indispensáveis a uma vida digna, com acesso a alimentação, moradia, educação, saúde ou ainda direitos elementares de cidadania.

Esta brutalidade tinha, por outro lado, uma dimensão somática. Ela visava a imobilizar os corpos, a paralisá-los e feri-los se fosse necessário. Enfim, ela atingia o sistema nervoso e tendia a exterminar a capacidade de suas vítimas de criar seu próprio mundo simbólico. Sua energias estava, a maior parte do tempo, voltada para as tarefas de sobrevivência. Eles eram forçados a viver suas vida sempre no modo da repetição. Este era, na verdade, o trabalho que o racismo devia supostamente cumprir.

Essas formas de violência e de brutalidade foram objeto de uma internalização mais profunda do que gostaríamos de admitir. Elas são, desde 1994, reproduzidas de maneira molecular no nível da existência comum e pública. Elas se manifestam em todos os níveis de interação social cotidiana, quer se trate das esferas íntimas da vida, das estruturas do desejo e da sexualidade, ou ainda da irreprimível vontade de consumir todos os tipos de mercadoria.

O desejo frenético de consumir é tomado pela essência e substância da democracia e da cidadania. A passagem de uma sociedade de controle a uma sociedade de consumo tem lugar num contexto marcado por diversas formas de privação pela maioria dos negros. Extrema opulência e extrema privação coexistem, e o fosso que separa os dois estados tende mais e mais a ser negociado pela violência e pelas diversas formas de apropriação.

A democracia pós Mandela é composta em sua maioria por negros sem trabalho e outros desempregados, que não exercem o direito de propriedade sobre quase nada. A longa história do país é ela própria marcada pelo antagonismo entre dois princípios, o governo do povo para o povo e a lei dos proprietários.

Até pouco tempo atrás, estes últimos eram quase que exclusivamente brancos e era isso que dava às lutas a conotação racial. Este não é mais inteiramente o caso. A classe média negra emergente, no entanto, não está na posição de desfrutar com toda segurança dos direitos de propriedade recentemente adquiridos. Eles não estão certos de que a casa comprada a crédito não será retomada amanhã, seja pela força, seja por circunstâncias econômicas desfavoráveis. Este senso de precariedade constitui uma das marcas da sua psicologia de classe.

O velho movimento de liberação, o Congresso Nacional Africano (African National Congress, ANC), acaba preso nas armadilhas de um processo de mutação ainda mais contraditório. O cáculo feito pelas classes no poder e pelos proprietários do capital é que a pobreza da massa e os níveis elevados de desigualdade poderiam, em determinadas condições, conduzir a problemas, a greves episódicas e numerosos acidentes violentos. Mas isso não resultou senão numa grande contracoligação capaz de questionar o compromisso fundamental de 1994, que transferiu o poder político ao ANC, e consagra a supremacia econômica e cultural da minoria branca.

A África do Sul entra em um novo período de sua história, no qual os modos de acumulação não operam mais por meio da desapropriação direta como nas guerras de despossessão do século XIX. Elas passam pela captura e apropriação privada dos recursos públicos, pela modulação da brutalidade e por uma relativa instrumentalização da desordem. A constituição de uma nova classe dirigente multiracial se faz então por uma síntese híbrida dos modelos russo, chinês e africano pós-colonial.

Nesse meio tempo, o espaço público se rebalcaniza progressivamente. A geografia demográfica do país se fragmenta. Abandonando o interior do país, inúmeros brancos se aglutinam nas costas, notadamente na província de Cabo-Oeste. Eles têm medo do processo excessivo de africanização do país e sonham em reconstruir aqui o alicerce de uma república branca, livre das armadilhas do apartheid mas dedicada à proteção dos privilégios de outros tempos.

O paradoxal apego aos padrões psíquicos da época da segregação racial constitui uma resposta parcial ao processo de transformação do país em uma nação de cidadãos armados, uma espécie de nação-organização dotada de uma polícia profundamente corrompida e militarizada. Os ricos se beneficiam de uma aparência de proteção comprada de milhares de guardas e empresas de segurança privada, propriedade em parte dos barões no poder e de seus comparsas (3).

Este novo regime de controle da mercadoria se consolida ao fundo de uma redistribuição drástica dos recursos da violência. Uma sociedade armada é tudo, menos uma sociedade civil. É ainda menos uma verdadeira comunidade. Ela é um aglomerado de indivíduos autônomos, isolados face ao poder, separados pelo medo e pela suspeição, incapazes de integrar uma massa, mas prontos a colocar-se sob o domínio de uma milícia ou de um demagogo, ao invés de construir organizações disciplinadas essenciais para o funcionamento de uma sociedade democrática.

No mais, da vida como a prática de Mandela, duas lições merecem ser aprendidas. A primeira é que só existe um mundo, ao menos por enquanto, e esse mundo abarca tudo o que ele é. O que, consequentemente, é comum a nós é o sentimento ou, ainda, o desejo de sermos seres humanos inteiros. Este desejo de plenitude na humanidade é alguma coisa que todos partilhamos.

Para construir este mundo que nos é comum, será preciso restituir àquelas e àqueles que sofreram um processo de abstração e de coisificação na história, a parte de humanidade que lhes foi roubada. Não haverá consciência de um mundo comum enquanto os que foram imersos em uma situação de extrema pobreza não escaparem das condições que os confinam à noite da infravida. No pensamento de Mandela, reconciliação e reparação estão no coração da própria possibilidade de construção de uma consciência comum do mundo, ou seja, da conquista de uma justiça universal. A partir de sua experiência carcerária, ele conclui que há alguma humanidade intrínseca de que é depositária cada pessoa humana. Esta parte irredutível pertence a cada um de nós. Ela faz com que, objetivamente, nós sejamos talvez distintos uns dos outros e, ao mesmo tempo, semelhantes. A ética da reconciliação e da reparação implica, consequentemente, o reconhecimento daquilo que poderíamos chamar “a parte do outro”, que não a minha, da qual sou portanto o fiador, quer queira quer não. Desta “parte do outro” eu não poderei me furtar sem consequências pela ideia de si mesmo, da justiça, do direito e até da humanidade inteira, ou ainda pelo projeto de universalidade, se for este, realmente o destino final.

Nestas condições é inútil erguer fronteiras, construir muros e cercas, dividir, classificar, hierarquizar, procurar refúgio no rebaixamento da humanidade daqueles que tínhamos subjugado, errado, como se não parecessem conosco ou com os quais pensamos que não nos entenderíamos jamais. Há um só mundo, e todos nós somos herdeiros dele, mesmo que as maneiras de habitá-lo não sejam as mesmas – donde, justamente a real pluralidade de culturas e de modos de vida. Dizer não significa absolutamente ocultar a brutalidade e o cinismo que ainda caracterizam o reencontro de povos e nações. É simplesmente relembrar um dado imediato, inexorável, cuja origem se situa sem dúvida no início dos tempos modernos: o irreversível processo de mestiçagem e de entrelaçamento de culturas, povos e nações.

Frequentemente, o desejo de diferenciar-se emerge precisamente ali onde se vive de maneira mais intensa a experiência de exclusão. A proclamação da diferença é então a linguagem reversa do desejo de reconhecimento e de inclusão. Para os que sofreram a dominação colonial ou para aqueles cuja humanidade foi roubada em um dado momento da história, a recuperação desta humanidade passa frequentemente pela proclamação da diferença.

Mas, como vemos numa parte da crítica africana moderna, este não é senão um momento de um projeto maior: o projeto de um mundo em devir, de um mundo à nossa frente, cuja destinação é universal; um mundo desvencilhado do fardo das raças e do ressentimento e do desejo de vingança que domina toda situação de racismo.

(*) O autor é professor de história e de ciência política na Universidade de Witwatersrand em Johannesburgo. Autor de Crítica da razão negra, das edições La Découverte, lançado em outubro 2013.

(1) Nelson Mandela, Conversasões comigo mesmo, Seuil, coleções “Points”, Paris, 2011.

(2) Cf. Nelson Mandela, Um longo caminho para a liberdade, Le Livre de Poche, Paris, 1996

(3) Ler Sabine Cessou, “Três tumultos por dia na África do Sul”, Le Monde Diplomatique, março 2013.

Fonte: http://outraspalavras.net/capa/os-caminhos-inesperados-de-nelson-mandela/

Nelson Mandela (1918-2013)

O “Madiba”, cuja vida é inspiração de dias melhores, morreu aos 95 anos em sua casa, em Johannesburgo
por José Antonio Lima — publicado 05/12/2013 19:50, última modificação 05/12/2013 20:27

Mandela em imagem de outubro de 2005, ano seguinte a sua aposentadoria oficial da política

“Durante a minha vida, me dediquei à luta do povo africano. Lutei contra a dominação branca, e lutei contra a dominação negra. Eu defendi o ideal de uma sociedade democrática e livre, na qual todas as pessoas vivem juntas em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal para o qual espero viver e conseguir realizar. Mas, se preciso for, é um ideal para o qual estou disposto a morrer.”

Nelson Mandela, na abertura de sua declaração de defesa no Julgamento de Rivonia, em Pretória, em 20 de abril de 1964

***

Em 12 de fevereiro de 1990, quando Nelson Mandela foi solto, após 27 anos encarcerado, a África do Sul estava à beira de uma guerra civil entre brancos e negros. A libertação de Mandela era fruto de negociações entre o regime segregacionista do Apartheid e a resistência negra, mantidas em segredo para não estimular ainda mais violência por parte dos extremistas de ambos os lados. Havia uma imensa desconfiança a respeito das intenções de Mandela, mas mesmo após séculos de opressão e de seu sofrimento pessoal, Mandela tomou as decisões que fazem muitos considerá-lo o maior líder político de todos os tempos. Ao levar a todo o país uma mensagem em defesa da democracia e da igualdade, o Madiba, como é conhecido no país, se tornou o artífice da reconciliação entre brancos e negros sul-africanos, evitando o que poderia ser uma sangrenta guerra civil. Foi esse homem que a humanidade perdeu decorrente de uma infecção pulmonar, nesta quinta-feira 5. O anúncio oficial foi feito em rede nacional pelo presidente da África do Sul, Jacob Zuma.

A morte de Mandela era a má notícia que os sul-africanos esperavam há anos, desde que a saúde debilitada do ex-presidente começou a preocupar. A cada internação, o país entrava em apreensão, inúmeros boatos circulavam, o governo divulgava notas oficiais, até que vinha a notícia da alta. Desta vez, foi diferente. A morte de Mandela deve jogar boa parte do país em depressão.

Violência e o fim do Apartheid

O luto não se dá à toa. Após anos lutando contra o regime da supremacia branca de forma institucional, Mandela ajudou a fundar, em 1961, o Umkhonto weSizwe, braço armado do Congresso Nacional Africano (CNA). Dois anos depois de entrar na luta armada, Mandela foi preso e condenado à prisão perpétua no famigerado Julgamento de Rivonia. Ele deixaria a prisão apenas nos anos 1990, quando se juntaria a algumas poucas figuras que tentariam colocar fim ao Apartheid.

Como o regime beneficiava diversos grupos, a resistência às mudanças seria ferrenha. Logo após a soltura de Mandela, uma onda de violência tomou conta da África do Sul. Chacinas foram cometidas várias vezes por dia em trens e outros locais públicos. Líderes comunitários e outras figuras públicas foram executados. Massacres nos guetos negros se tornaram comuns. A execução do “colar”, por meio da qual um pneu com gasolina era colocado no pescoço da vítima e incendiado, se tornou a horrenda face da violência no país. Isso sem contar a repressão violenta da polícia contra as manifestações de populações negras. Era uma época que os sul-africanos “morriam como moscas”, nas palavras do arcebispo anglicano Desmond Tutu, Nobel da Paz.

A violência daquele período era atribuída a uma guerra entre o Congresso Nacional Africano, grupo liderado por Mandela, que pregava a igualdade entre brancos e negros, e o Inkatha, movimento nacionalista zulu, um dos diversos povos sul-africanos. Essa era apenas parte da explicação. A violência generalizada era uma ação orquestrada pelas forças de seguranças do regime e pelos extremistas de direita do Inkatha. Milhares de membros da facção zulu foram treinados em campos secretos e receberam armas e dinheiro das forças de segurança do regime e de líderes brancos de extrema-direita. Alguns policiais, brancos e negros, chegavam a coordenar e participar dos massacres. Quando não havia gente do Inkatha, mercenários de países como Angola e Namíbia eram contratados. Em silêncio, para não serem identificados como estrangeiros pelo sotaque, matavam sul-africanos a esmo.

Para o Inkatha, aquela era uma luta para manter a autonomia da terra KwaZulu e buscar a independência. Para os extremistas brancos, era uma estratégia dupla: primeiro manter a argumentação de que os negros eram incapazes de se autogovernar. Caso isso não desse certo, o CNA, de Mandela, ao menos ficaria enfraquecido para a eleição presidencial que se seguiria, a primeira na qual brancos e negros poderiam votar e ser votados livremente.

A estratégia de desestabilização não deu resultados graças à força de caráter de inúmeras pessoas, entre elas o então presidente sul-africano, Frederik Willem de Klerk, e de Mandela. Entre 1990 e 1993, a África do Sul revogou leis que davam amparo jurídico ao Apartheid, desmantelou seu arsenal nuclear e convocou eleições livres para 1994. Ao contrário do que pensavam os extremistas, o CNA não estava enfraquecido por conta da violência. Nas urnas, o partido obteve uma vitória massacrante, e Mandela se tornou o primeiro presidente negro na história do país.

“Nação Arco-Íris”

No poder, Mandela operou um milagre político. O Madiba fez os sul-africanos acreditarem no seu sonho, o de que a África do Sul poderia ser mesmo uma “Nação Arco-Íris”, na qual todas as “cores” poderiam conviver de forma harmônica. Mandela conseguiu contemplar os anseios das minorias brancas e conter a ânsia por justiça de líderes negros, muitos dos quais desejavam vingança após décadas de abusos e arbitrariedade.

A face mais visível do esforço de reconciliação feita por Mandela foi o apoio à seleção de rúgbi da África do Sul, os Springboks, na Copa do Mundo de 1995. Mandela não permitiu a mudança de nome e uniforme da equipe e tornou a seleção, símbolo de orgulho dos brancos, em orgulho nacional. A empreitada teve um fim épico com a improvável vitória da África do Sul sobre a Nova Zelândia, no hoje mítico Ellis Park, em Johannesburgo. A história foi registrada de forma magistral no livro Conquistando o Inimigo, de John Carlin, e no filme Invictus, de Clint Eastwood.

O apoio aos Springboks era parte da estratégia de Mandela de liderar pelo exemplo. Para o sul-africano comum, branco ou negro, era inevitável se questionar: como pode um homem que ficou encarcerado por 28 anos deixar a prisão sem qualquer resquício de rancor e adotar um tom tão reconciliatório? Se Mandela podia, todos podiam.

O milagre da Nação Arco-Íris foi também institucionalizado. Sob Mandela, a África do Sul passou a ter programas de habitação, educação e desenvolvimento econômico para a população negra; instalou a Comissão da Verdade e da Reconciliação, que serviu como catarse coletiva para o país; e aprovou uma nova Constituição, vista até hoje como ponto central de estabilidade na África do Sul.

O legado de Mandela

Desde que assumiu a presidência, Mandela deixou claro que gostaria de ser apenas o responsável pela transição da África do Sul, e não o guia eterno do país. Ele fez isso pois desejava uma África do Sul independente, inclusive dele próprio. A África do Sul que Mandela imaginou, no entanto, não conseguiu completar o sonho do líder visionário durante sua vida. Contra a vontade de Mandela, e de sua família, sua imagem é usada persistentemente de forma política, às vezes por líderes que dilapidam seu legado. Esse processo foi agravado pelo silêncio ao qual Mandela foi obrigado a se recolher devido ao agravamento de sua doença.

Nos governos de Thabo Mbeki (1999-2007) e do atual presidente, Jacob Zuma, ambos do CNA, a África do Sul teve grande crescimento econômico, mas a desigualdade social é maior que a existente no fim do Apartheid. O CNA, por sua vez, deixou de ser o partido da liberdade para se tornar um amontoado de políticos acusados de corrupção e de agir em benefício próprio. A Liga Jovem do ANC, fundada por Mandela, passou a ser conhecida pelos atos e palavras de intolerância de seus líderes, um perigo para uma país onde a violência racial está contida, mas a tensão entre brancos e negros, não.

Apesar do uso político de sua imagem, Mandela continua sendo o bastião da democracia na África do Sul. Talvez, o distanciamento entre seu legado e a condição atual do país tenha servido para, nos últimos anos, tornar mais agudo o sofrimento da população a cada nova internação. Hoje, finalmente, chegou o dia de deixar Mandela descansar, e dos sul-africanos colocarem o país no rumo sem um exemplo vivo para guiá-los.

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/internacional/nelson-mandela-1918-2013-2660.html/view

Aqui jaz um homem que cumpriu seu dever na Terra

A nação perdeu seu maior filho. Mandela deve receber a lápide que pediu em vida: aqui jaz um homem que cumpriu o seu dever na Terra.

Antonio Lassance

“A nação perdeu seu maior filho”. Essa foi a mensagem do presidente sul-africano, Jacob Zuma, ao anunciar a morte de Nelson Mandela.

É praticamente impossível encontrar alguém que jamais tenha ouvido falar em Nelson Mandela, prova de sua importância histórica. É igualmente notável quantos conhecem bastante sua história, pelo menos, os fatos essenciais. O fato de ter sido ele o líder da luta contra o racismo e o sistema de apartheid, a segregação entre brancos e negros, na África do Sul. O fato de ele ter ficado preso por décadas e, depois, ter sido eleito presidente da República.

Menos pessoas, porém, sabem que Mandela era formado em Direito, tendo começado sua militância como advogado de presos políticos.

Esse foi o primeiro passo pelo qual se aproximou dos ativistas, acabando por tornar-se um deles. Como ativista, ele conheceu os militantes do principal partido da luta anti-apartheid, o Congresso Nacional Africano (CNA). Pelas mãos dos militantes do CNA, ele passou a organizar manifestações de massa de defesa dos direitos da população negra. Uma dessas primeiras manifestações foi, vejam só, contra o aumento de tarifas de ônibus.

Em 1960, após a chacina na localidade de Sharpeville, na qual a polícia dizimou uma multidão de manifestantes, os militantes do CNA passaram a viver na clandestinidade e ingressaram na luta armada. Mandela foi preso em 1962. Quase 20 anos depois, diante da pressão internacional por sua libertação, o presidente Peter Botha propôs soltá-lo, desde que Mandela renunciasse à luta armada como instrumento político. Mandela recusou. Em sua resposta, disse que só sairia da prisão quando todos os negros da África do Sul também estivessem livres.

A britânica Margaret Thatcher, primeira-ministra naquela época, se recusou a aderir à pressão mundial pelo boicote à África do Sul. Dizia que Mandela era um terrorista, o que nos ensina a que, toda vez que alguém for acusado de terrorista, é bom entendermos um pouco da história do país e das pessoas que sofrem esse tipo de acusação, antes de tirarmos conclusões apressadas.

Mandela saiu da cadeia em 1990. Em 1993, recebeu o prêmio Nobel da Paz. Em 1994,  foi eleito presidente da África do Sul, em uma política de conciliação entre negros e brancos. Sua autobiografia está contada em “Longa Caminhada para a Liberdade”. Em 5 de dezembro de 2013, sua longa caminhada chegou ao ponto final.

Mandela deve receber a lápide que pediu em vida: “aqui jaz um homem que cumpriu o seu dever na Terra”.

(*) Antonio Lassance é doutor em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB).

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Aqui-jaz-um-homem-que-cumpriu-seu-dever-na-Terra/6/29733

CIA foi decisiva para a prisão de Mandela em 1962

Agente infiltrado no Congresso Nacional Africano (CNA) deu todas as informações à polícia sul-africana, segundo o The New York Times.

O The New York Times revelou em 1990 que a CIA desempenhou um importante papel na prisão de Mandela em 1962. A agência, usando um agente infiltrado no Congresso Nacional Africano (CNA), deu à polícia sul-africana informações precisas sobre as atividades de Mandela. Segundo o diário norte-americano, um agente da CIA relatou: “Entregamos Mandela à segurança da África do Sul. Demos-lhes todos os detalhes, a roupa que ele estaria a usar, o horário, o exato local onde ele estaria”.

Thatcher e a terra do faz de conta

Em 1987, quando o então primeiro-ministro Cavaco Silva alinhou Portugal à Grã-Bretanha e aos Estados Unidos num voto contra o fim do apartheid e a libertação de Nelson Mandela, a então primeira-ministra britânica Margaret Thatcher dizia: “O CNA – Congresso Nacional Africano, partido de Mandela – é uma típica organização terrorista… Qualquer um que pense que ele vá governar a África do Sul está a viver na terra do faz de conta”.

Reagan dizia que apartheid era essencial para o mundo livre

Nos Estados Unidos, a opinião sobre Mandela não era diferente: o presidente Ronald Reagan inscreveu o CNA na lista de organizações terroristas. Em 1981, Reagan disse que o regime sul-africano – o regime do apartheid – era “essencial para o mundo livre”. Reagan explicou à rede de TV CBS que o seu apoio ao governo sul-africano se devia a que “é um país que nos apoiou em todas as guerras em que entrámos, um país que, estrategicamente, é essencial ao mundo livre na sua produção de minerais.”

Mandela precisava de autorização especial para entrar nos EUA

Só em 2008, Mandela e o CNA deixaram a lista americana de organizações e terroristas em observação. Até então, Mandela precisava de uma permissão especial para viajar para os EUA.

Outro país que se manteve ligado ao regime segregacionista sul-africano foi Israel. Durante muitos anos, o governo israelita manteve laços económicos e relações estratégicas com o regime do apartheid. Nesta sexta-feira, o governo israelita lamentou a morte de Mandela afirmando que o “mundo perdeu um grande líder que mudou o curso da história” e que ele foi um “apaixonado defensor da democracia”.

“Eu também era um terrorista ontem”

Em entrevista ao jornalista Larry King em 2000, o próprio Mandela falou sobre esta mudança de tratamento. “É verdade. Ontem, chamavam-me terrorista, mas quando saí da cadeia, muitas pessoas me abraçaram, incluindo os meus inimigos, e é isso que digo habitualmente às outras pessoas que dizem que os que lutam pela libertação dos seus países são terroristas. Digo-lhes que eu também era um terrorista ontem, mas, hoje, sou admirado pelas mesmas pessoas que me chamavam terrorista”.

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/CIA-foi-decisiva-para-a-prisao-de-Mandela-em-1962/6/29744

A força da reconciliação

A última vez que vi pessoalmente Nelson Mandela, falecido nesta quinta-feira em sua casa, aos 95 anos, foi no dia 8 de dezembro de 2009, em sua residência de Johanesburgo. Entrei pela porta, atravessei o vestíbulo e me dirigi até a grande sala de jantar. Mandela estava sentado à cabeceira de uma longa mesa, de costas para mim. Tinha 91 anos. Seu cabelo era branco e finalmente, percebi, começara a escassear.

Aquela primeira imagem me ficou gravada com tanta clareza como o restante da hora que passei com ele. Era por volta da uma da tarde, e na rua brilhava um sol reluzente; mas a sala estava na penumbra, e ele estava só e quieto como uma estátua. Reconheci aquela inimitável imobilidade dos numerosos atos públicos nos quais o havia visto durante meus seis anos como correspondente na África do Sul, entre 1989 e 1995, e na última entrevista que tinha feito com ele, oito anos antes, para um livro com o qual tentei, pelo prisma da Copa do Mundo de Rúgbi de 1995, captar a essência da sua grandeza.

Já na época daquela entrevista lhe custava um enorme esforço caminhar, mas ele conservava sua lucidez e toda a sua voz, ria com frequência, e ainda tinha o cabelo grisalho. Mas quando eu falava, ele parecia ficar petrificado. Seu rosto perdia toda a expressão, como o busto de um imperador romano ou um místico em pleno transe. Ou, talvez, como um homem que havia passado 23 horas por dia só, ano após ano, numa cela diminuta. A sensação era desconcertante, até que me respondia e me dava conta com alívio que ele havia estado absorto e concentrado, me escutando. Oito anos depois, em 2009, enquanto eu me aproximava da sala de jantar da sua casa de Johanesburgo, com os olhos fixos na nuca daquela cabeça que eu conhecia tão bem, o que me desconcertou foi o temor de que, nessa ocasião, a esfinge não ganhasse vida, que permanecesse perdido na névoa da velhice, como havia parecido estar durante as celebrações do seu 90º. aniversário, em Londres, um ano e meio antes.

“Minha gente dizia que eu era um covarde por estender a mão aosafrikaner. Mas eu  sabia que tinha razão”

Mas não. Não completamente. Não ao princípio. Incapaz de se colocar em pé, ele girou os ombros rigidamente na minha direção quando me anunciaram e me mostrou uma sombra do seu famoso e deslumbrante sorriso. Estendeu a mão – tão enorme e enrugada como eu a lembrava do nosso primeiro aperto, 19 anos antes – e disse: “Olá, John”. Quis acreditar que ele havia me reconhecido, porque havíamos tido muita relação, mas a verdade é que não posso ter certeza de que assim fosse. Talvez, durante um segundo, tenha havido um lampejo de lembrança. Se houve, extinguiu-se rapidamente. Desde então, até que nos despedimos, tive pouca sensação de que soubesse quem eu era.

Diante dele havia um prato de carne picada, intocado. Ele baixava os olhos até o garfo, como tentando decidir se seria capaz de levantá-lo até a boca. Estava magro e seu rosto havia encolhido, como o de um pássaro, desde a última vez que eu o havia visto de perto. Parecia agradecer a visita, mas estava confuso. De seus lábios não saía nem uma palavra. Com nervosismo, para tentar preencher o vazio, mencionei um filme que Hollywood acabara de fazer sobre ele. Respondeu-me com uma velha frase feita que ele costumava usar nas conversas: “Bem. Muito bem”; e depois, “Sei. Sei”. Mas não creio que soubesse de nada. Nem a menção a “Invictus” – nem o poema do século XIX que ele tanto havia amado, nem o filme que Clint Eastwood havia feito – provocou nenhuma reação nele.

O poema, que ele lia na prisão e que voltou a ler, muitos anos depois, no funeral de um de seus filhos, começa assim: “Da noite que me cobre,/ negra como um poço insondável,/ agradeço ao deus que seja / por minha alma inconquistável”. Teria ele sido por fim encoberto pela escuridão? Ou seria possível ver nele algum lampejo? Consegui, afinal, com a ajuda inicial de Zelda la Grange, a africâner que foi sua ajudante pessoal e certamente a pessoa com a qual passou mais tempo desde que se tornou o primeiro presidente democraticamente eleito de seu país, em 1994.

“Venha comer, khulu!”, disse La Grange. Khulu é um vocativo carinhoso em xhosa, a língua materna de Mandela, que pode querer dizer “avô” ou “grande homem”. “Vamos, khulu, o senhor precisa comer”, insistiu. Lembrei que ele gostava de fazer piadas sobre o quanto as mulheres o dominavam, então fiz um comentário nesse sentido, em voz alta, perto dele, porque não ouvia muito bem. Mostrou um pequeno sorriso, riu levemente e respondeu: “Sim, é verdade. Uma grande verdade”.

Ele tinha entendido. Sucesso. Eu havia me conectado com ele. Entrei pela fresta e comecei a evocar lembranças de seu passado político que eu confiava que ele continuasse atesourando em algum canto da sua mente. Funcionou.

Mencionei os nomes de três de seus mais temíveis adversários africâneres, com os quais havia mantido conversas – no início, secretas – que haviam contribuído de maneira fundamental para afastar a África do Sul do pesadelo da guerra racial que o mundo havia temido durante tanto tempo.

Um comentário sobre  mulheres  o fez  rir e permitiu evocar as lembranças políticas

O primeiro nome que eu disse foi o do general Constand Viljoen, chefe da Força Sul-Africana de Defesa entre 1980 e 1985, os anos mais violentos e repressivos da era do apartheid. “Ah, sim”, respondeu. “O militar…” Logo mencionei Niel Barnard, responsável pelo Serviço Nacional de Inteligência nos anos oitenta, considerado em todo o mundo como um dos homens mais sinistros da época, mas com quem Mandela se reuniu mais de 60 vezes na prisão, antes de sair em liberdade. “Sim”, replicou. E, por último, pronunciei o nome de Kobie Coetsee, o último ministro da Justiça do apartheid, e lembrei a ele que Coetsee havia sido o primeiro representante do governo que Mandela havia visto quando estava atrás das grades. “Ah, sim… Bem. Muito bem”, disse. E então me fez uma pergunta: “Esteve alguma vez na prisão?”. Respondi-lhe que não, embora tivesse visitado sua cela de Robben Island. Ao ouvir isso sorriu, e então aconteceu. Acendeu-se uma luz na sua mente e, num instante, resumiu a essência de sua proeza política.

A glória de Mandela foi conseguir que todo um país mudasse de opinião

“Minha gente dizia que eu tinha medo”, começou, com voz fina, mas segura. “Diziam que era um covarde por estender a mão aos africâneres. Mas eu não entrei naquela discussão com eles. Não lhes disse nada. Eu sabia que tinha razão. Sabia que esse era o caminho para a paz. E, ao cabo de algum tempo, compreenderam que eu tinha razão. Viram os resultados. Vivemos em paz”.

Lá estavam elas. A audácia e a visão que o inspiraram a entabular um diálogo com os senhores africâneres do Estado do apartheid, na prisão, em princípio sem dizer nada a nenhum de seus colegas da direção do Congresso Nacional Africano, pelo que recebeu numerosas críticas; e a convicção de que a única maneira de alcançar o objetivo da sua vida, construir uma democracia estável na África o Sul e evitar um banho de sangue no país, do qual – advertia ele com frequência – ninguém sairia vencedor, seria apelar às mentes e aos corações dos inimigos ancestrais de seu povo, e ao melhor de si mesmos.

E no final, de fato, todos compreenderam que tinha razão. Viram os resultados. A glória de Mandela, sem paralelo na história da liderança política, foi conseguir que todo um país mudasse de opinião. Sempre fiel aos seus princípios, ao seu sonho de uma “África do Sul não racial”, convenceu a maioria negra a reprimir seu ódio e seu impulso natural de vingança e assumir o espírito de reconciliação, e a seus opressores brancos a abandonarem seus velhos temores e suas armas e o aceitarem como presidente legítimo. Os sul-africanos brancos se renderam, quase sem exceção, ante seu encanto e seu poder de persuasão. A prova eu tive quando entrevistei aqueles três velhos inimigos seus, o general Viljoen, Niel Barnard e Kobie Coetsee, depois que Mandela deixou a presidência. Os três falaram dele com veneração, admiração e – sem exagero – amor.

Com uma vivacidade repentina, como se a inesperada reivindicação de seus triunfos lhe tivesse dado energia, Mandela começou a garfar sua carne picada, com a ajuda de Zelda la Grange. Aquele mágico estalo seria tudo que eu iria tirar dele. O desafio de alimentar seu frágil corpo ocupou a maior parte de seus pensamentos durante o resto do nosso encontro. Eu continuei tagarelando, conseguindo escassas respostas, e depois nos demos adeus.

Como presente de despedida me lançou uma vez mais seu fabuloso sorriso, o melhor sorriso do mundo, e saí pela porta da casa, mas não sem antes lançar uma última olhada para trás, para aquela cabeça branca, sozinha na grande mesa.

Foi terrivelmente triste porque sabia que nunca voltaria a vê-lo, e porque estava claro que não podia lhe restar muito tempo de vida. Mas também havia sido boa a visita. Muito boa.

John Carlin é autor de dois livros sobre Nelson Mandela, Conquistando o Inimigo: Nelson Mandela e o Jogo que Uniu a África do Sul e Knowing Mandela: a Personal Portrait.

Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2013/12/06/internacional/1386336074_864494.html

A morte de um libertador

Nelson Mandela, que comandou a emancipação da África do Sul do seu regime da minoria branca e foi o primeiro presidente negro do seu país, tornando-se um símbolo internacional de dignidade e tolerância, morreu na noite de quinta-feira, aos 95 anos, segundo anúncio feito pelo presidente sul-africano, Jacob Zuma.

Há muito tempo, Mandela havia dito que desejava sair de cena discretamente, mas seu período de hospitalização no último inverno em Pretória foi um clamor de disputas familiares, meios de comunicação ávidos por notícias, políticos em busca de atenção e uma efusão nacional de afeto e pesar. Ao final, Mandela faleceu em sua casa, às 20h50 (hora local; 16h50 em Brasília), e será enterrado, de acordo com seu desejo, na aldeia do Qunu, onde cresceu. No começo de julho, um mandado judicial determinou que os restos exumados de três filhos dele voltassem a ser sepultados ali, encerrando assim uma briga familiar que tinha causado sensação na imprensa.

A luta de Mandela pela liberdade o levou da realeza tribal para o movimento clandestino de libertação, e de lá para trabalhos forçados em uma pedreira, culminando no gabinete presidencial do país mais rico da África. E então, ao acabar seu primeiro mandato, diferentemente de tantos revolucionários vitoriosos os quais via como almas gêmeas, rejeitou disputar a reeleição, e de bom grado entregou o poder ao seu sucessor democrático.

A pergunta mais habitual a propósito de Mandela era como ele, depois de os brancos terem humilhado de forma sistemática o seu povo, torturado e assassinado muitos dos seus amigos e o encarcerado durante 27 anos, podia ter tal ausência de rancor.

O governo que formou quando teve a oportunidade de fazê-lo foi uma fusão inimaginável de raças e crenças, que incluía muitos de seus antigos opressores. Ao ser empossado presidente, convidou um de seus carcereiros brancos para a cerimônia. Mandela venceu a desconfiança pessoal, próxima do ódio, para compartilhar o poder e um Prêmio Nobel da Paz com o presidente branco que o antecedera, F. W. de Klerk.

Como presidente, entre 1994 e 1999, dedicou muitas energias a moderar o ressentimento do seu eleitorado e a tranquilizar os brancos que temiam a vingança.

A explicação dessa ausência de rancor, ao menos em parte, é que Mandela era algo que escasseia entre os revolucionários e os dissidentes morais: um hábil estadista, que não tinha problemas em fazer concessões e se impacientava com os doutrinários.

Quando se perguntou a Mandela em 2007 – depois de uma tortura tão selvagem, como controla o ódio? –, sua resposta foi quase desdenhosa: o ódio turva a mente. Impede de executar uma estratégia. Os líderes não podem se dar ao luxo de odiar.

Em seus cinco anos como presidente, Mandela, apesar de continuar sendo uma figura venerada no exterior, perdeu algo do brilho em seu próprio país, em seus esforços por manter unida uma população dividida e transformar um movimento de liberação rebelde em um governo crível.

Alguns negros – entre eles Winnie Madikizela-Mandela, sua ex-mulher, que angariou um importante grupo de partidários entre os mais descontentes – queixaram-se de que ele não havia tido suficiente pressa em reduzir a ampla disparidade entre a maioria negra pobre e a minoria branca acomodada. Alguns brancos disseram que ele não havia sabido controlar a criminalidade, a corrupção e o clientelismo.

Certamente, Mandela tinha começado a prestar menos atenção aos detalhes de governo e tinha transferido as responsabilidades diárias ao seu número 2, Thabo Mbeki, que lhe sucederia em 1999. Mas quase todos os seus compatriotas tinham claro que, sem sua autoridade patriarcal e sua astúcia política, a África do Sul poderia muito bem ter se afundado em uma guerra civil muito antes de alcançar a sua imperfeita democracia.

Depois de abandonar a presidência, Mandela levou essa estatura moral a outros lugares de todo o continente, como mediador de paz e como defensor da ampliação dos investimentos estrangeiros.

A ASCENSÃO DE UM “ARRUACEIRO”

Mandela já acumulava vários anos de prisão quando chamou a atenção do mundo como símbolo da oposição ao apartheid – literalmente “separação”, em africâner –, um sistema de criação de distritos raciais que arrebatava dos negros sua condição de cidadãos e os relegava a viverem em “territórios” e distritos semelhantes a reservas.

Por volta de 1980, os dirigentes exilados do principal movimento antiapartheid, o Congresso Nacional Africano, decidiram que aquele eloquente advogado era o herói perfeito para humanizar sua campanha contra um sistema que impedia 80% dos sul-africanos de terem voz e voto em seus próprios assuntos. Mandela destacou com certa ironia em sua autobiografia de 1994, O Longo Caminho para a Liberdade, que aquela congregação o transformou no preso político mais famoso do mundo sem saber exatamente quem ele era.

Na África do Sul, no entanto, e entre quem seguia a situação do país mais de perto, Nelson Mandela já era um nome a ser levado em conta.

Nasceu com o nome de Rolihlahla Mandela, em 18 de julho de 1918, em Mvezo, uma pequena aldeia com vacas, milharais e choças de barro, situada nas colinas do Transkei, um antigo protetorado britânico no sul. Adorava citar que seu nome tem o sentido coloquial de “arruaceiro”. Seu nome inglês, mais formal, foi dado por um professor quando começou a ir à escola, aos sete anos. Seu pai, Gadla Henry Mphakanyiswa, era um chefe da tribo Thembu, um subgrupo da nação xhosa.

“A primeira coisa a lembrar em se tratando de Mandela é que ele procedia de uma família da realeza”, disse Ahmed Kathrada, um ativista que compartilhou cela com ele e era um de seus amigos mais íntimos. “Isso sempre lhe deu forças.”

A INCORPORAÇÃO A UM MOVIMENTO

Mandela começou a ampliar seus horizontes nas escolas dos missionários metodistas e na Universidade de Fort Hare, então a única faculdade residencial para negros em todo o país. Posteriormente, contaria que, quando chegou à universidade, se considerava acima de tudo um xhosa, mas que, quando saiu, tinha uma perspectiva africana mais ampla.

Quando estudava Direito em Fort Hare conheceu Oliver Tambo, outro futuro dirigente do movimento de libertação. Ao voltar para casa, soube que sua família tinha escolhido uma noiva para ele. Como a mulher não lhe pareceu atraente, e menos ainda a perspectiva de trabalhar na administração tribal, fugiu para a metrópole negra do Soweto.

Ali lhe disseram para falar com Walter Sisulu, que dirigia uma imobiliária e era uma personalidade do Congresso Nacional Africano (CNA). Sisulu observou aquele jovem alto, de porte aristocrático e olhar seguro, e, recordaria depois em uma entrevista, decidiu que suas preces tinham sido atendidas.

Mandela logo impressionou os ativistas com sua capacidade de convencer os céticos. “Seu ponto de partida é que ‘vou convencer essa pessoa seja como for’”, disse Sisulu. “É um dom que ele tem. Ele chega em qualquer um, onde for, com essa auto-confiança.”

Embora nunca tenha terminado a faculdade de Direito, Mandela abriu com Tambo o primeiro escritório jurídico de negros na África do Sul. Impaciente com a aparente impotência dos veteranos do CNA, Mandela, Tambo, Sisulu e outros militantes criaram a Liga Juvenil do CNA e orquestraram uma tomada do poder pela sua geração.

Durante seus anos de jovem advogado no Soweto, Mandela se casou com uma enfermeira, Evelyn Ntoko Mase, com quem teve quatro filhos, entre eles uma menina que morreu aos nove meses. Mas as exigências de seu trabalho político o mantinham afastado da família. O casamento esfriou e terminou bruscamente.

“Ele disse: ‘Evelyn, sinto que já não amo mais você”, contou ela em uma entrevista para um documentário. “Fique com as crianças e com a casa’.”

Pouco depois, um amigo o apresentou a Nomzamo Winifred Madikizela, uma bela e decidida assistente social que trabalhava no campo da medicina e tinha 16 anos menos que ele. Mandela se apaixonou perdidamente e declarou em seu primeiro encontro que pensava em se casar com ela. Foi o que fez em 1958, enquanto ele e outros ativistas estavam em um longo julgamento por traição.

DURANTE O JULGAMENTO, CRESCE A LENDA

Em 1961, com a paciência do movimento de libertação levada ao limite depois de a polícia matar 69 manifestantes pacíficos no bairro de Sharpeville, no ano anterior, Mandela direcionou o CNA para um novo caminho, o da insurreição armada.

Foi uma guinada para um homem que, poucas semanas antes, tinha proclamado que a não violência era um princípio inviolável do CNA. Mais tarde, explicou que renegar a violência “não era um princípio moral, e sim uma estratégia; não há nada de moralmente bom em usar uma arma ineficaz”. Mandela se tornou o primeiro comandante de um diversificado exército de libertação, com o pomposo nome de Umkhonto we Sizwe, “a Lança da Nação”.

Os governantes sul-africanos estavam obcecados em tirar Mandela e seus camaradas da frente. Em 1963, Mandela e outros oito chefes do CNA foram acusados de sabotagem e conspiração para derrubar o Estado, delitos punidos com a pena de morte. Foi o chamado julgamento de Rivonia, pelo nome da fazenda onde os acusados haviam conspirado.

Por sugestão de Mandela, os réus, seguros da condenação, decidiram transformar o julgamento em um drama moral que lhes vingasse no tribunal da opinião pública mundial. Reconheceram que haviam cometido atos de sabotagem e tentaram expor uma justificativa política para seus atos.

O discurso de quatro horas com o qual Mandela abriu os argumentos da defesa foi um dos mais eloquentes da sua vida.

“Luto contra a dominação branca, e luto contra a dominação negra”, assegurou ao tribunal. “Prezo o ideal de uma sociedade livre e democrática em que todas as pessoas vivam juntas em harmonia e com igualdade de oportunidades. É um ideal pelo qual espero viver e vê-lo tornado realidade. Mas, excelência, se for necessário, é um ideal pelo qual estou disposto a morrer.”

Sob enormes pressões dos liberais sul-africanos e de outros países (incluída uma votação quase unânime na Assembleia Geral das Nações Unidas) para que se respeitasse a vida dos acusados, o juiz absolveu um deles e condenou Mandela e outros à prisão perpétua.

FORMAÇÃO NA PRISÃO

Mandela tinha 44 anos quando o algemaram e o colocaram em uma balsa em direção à prisão de Robben Island. Sairia com 71.

Robben Island, uma ilha em águas infestadas de tubarões, a 12 quilômetros da Cidade do Cabo, tinha sido ao longo dos séculos guarnição naval, hospital psiquiátrico e leprosário, mas era famosa sobretudo como prisão. Para Mandela e outros, Robben Island foi uma universidade. Lá ele refinou seus dotes de líder, negociador e pregador, e seu encanto e sua vontade férrea se revelaram irresistíveis não só para as diversas facções de presos como também para alguns dos administradores brancos.

Talvez pelo respeito que inspirava, as autoridades o escolheram para nele aplicar crueldades desnecessárias. Seus amigos diziam que essas experiências reforçaram seu autocontrole e fizeram dele, ainda mais, um homem que enterrava muito fundo as suas emoções, e que começou a falar no “nós” coletivo da retórica da libertação.

Mesmo assim, Mandela dizia que a cadeia mitigou qualquer desejo de vingança ao colocá-lo em contato com guardas brancos solidários e com moderados dentro do Governo do Partido Nacional, que lhe estenderam a mão com a esperança de entabular um diálogo. Sobretudo, a cadeia o ensinou a ser um negociador sem igual.

A decisão do Mandela de empreender negociações com o Governo branco foi uma das mais transcendentais da sua vida, e ele a tomou sem consultar seus camaradas, plenamente consciente de que não estariam de acordo. Em seus últimos meses de encarceramento, enquanto as negociações ganhavam força, ele foi transferido para a Penitenciária Victor Verster, na periferia da Cidade do Cabo, onde residia em um bangalô para funcionários.

Desde que ficaram sabendo das conversas, os aliados de Mandela no CNA se mostraram desconfiados, e sua preocupação não se acalmou quando o Governo os autorizou a falar com Mandela. Ele lhes explicou sua opinião de que o inimigo estava moral e politicamente derrotado, que não lhe restava nada além do Exército, e que o país estava ingovernável. Sua estratégia, disse, era dar aos governantes brancos todas as facilidades possíveis para uma retirada ordenada.

UM CASAMENTO CHEIO DE PROBLEMAS

Em fevereiro de 1990, Mandela deixou a prisão. Durante os quatro anos seguintes, dedicou seus esforços a uma laboriosa negociação, não só com o governo branco, mas também com sua própria e turbulenta aliança. Enquanto Mandela apodrecia na cadeia, teve início uma campanha de desobediência civil. E a participante mais entusiasmada foi Winnie Mandela.

Quando Mandela entrou na prisão, o casamento já contava com duas filhas, mas ele tinha tido pouco tempo para desfrutar da vida familiar. Durante a maior parte de seus anos de casado, viram-se através do grosso painel de vidro na sala de visitas da prisão. A polícia a atormentava sem cessar, e Winnie acabou encarcerada e logo desterrada para um remoto povoado africâner, Brandfort, onde não deixou de desafiar seus guardiões.

Quando apareceu, livre, nos distúrbios de 1984 no Soweto, transformou-se em uma agitadora. Cercou-se de jovens capangas que aterrorizavam, sequestravam e matavam os negros que ela considerasse hostis à causa.

Os amigos diziam que Mandela se arrependeu frequentemente de colocar a causa acima da família, tanto que, muito depois de vir à tona que Winnie Mandela havia mantido um reinado do terror, Mandela se negou a pronunciar uma só crítica.

Quando era presidente, reconheceu a popularidade dela e a nomeou vice-ministra das Artes, cargo no qual se viu envolta em escândalos econômicos. Em 1995, Mandela pediu o divórcio, concedido no ano seguinte, depois de uma audiência pública dilacerante.

Depois, Mandela se apaixonou publicamente por Graça Michel, ativista de causas humanitárias e viúva do primeiro presidente de Moçambique. Casaram-se no dia em que Mandela completou 80 anos. Com sua morte, deixa-a como viúva, além de suas duas filhas com Winnie, Zenani e Zindziswa, de uma filha com sua primeira esposa, Makaziwe, 17 netos e 14 bisnetos.

LIMITAÇÕES COMO PRESIDENTE

Dois anos depois de Mandela sair da prisão, dirigentes brancos e negros se reuniram em um centro de convenções nos subúrbios do Johanesburgo para iniciar negociações que, apesar das dificuldades, desembocariam no final do governo branco. Enquanto extremistas, tanto brancos como negros, recorriam à violência para tentar influir no resultado, Mandela e o presidente branco, De Klerk, discutiam e manobravam para obter uma transferência de poder pacífica.

Afinal, porém, Mandela e sua equipe negociadora conseguiram alcançar o grande pacto que garantia eleições livres em troca da promessa de partilhar o poder com os partidos de oposição e de garantias de que os brancos não sofreriam represálias.

Durante as eleições de abril de 1994, em algumas seções as filas chegavam a vários quilômetros. O CNA obteve o 62% dos votos, e 252 dos 400 assentos na Assembleia Nacional, com o que ficou assegurado que Mandela, o líder do partido, seria presidente.

Mandela tomou posse em 10 de maio, e aceitou o cargo com um discurso de patriotismo para todos. “Nunca, nunca, jamais esta linda terra voltará a experimentar a opressão de uns pelas mãos de outros”, declarou.

Como presidente, Mandela mostrou um enorme talento para os grandes gestos de reconciliação. Mas havia um limite do que podia fazer – mediante exortações, simbolismos, chamadas ao melhor de cada um de seus cidadãos – para reduzir a distância entre os privilégios brancos e a pobreza negra. Durante seu mandato, avançou pouco rumo aos objetivos que havia estabelecido na questão de moradia, educação e emprego.

O jornalista sul-africano Mark Gevisser, na biografia do sucessor do Mandela, Thabo Mbeki, publicada em 2007, disse: “O legado fundamental da presidência de Mandela – dos anos entre 1994 e 1999 – é um país em que o Estado de direito se consolidou sob uma Carta de Direitos irrefutável, e no qual as previsões sobre conflitos étnicos e raciais não se tornaram realidade. Essas façanhas, por si só, fazem de Mandela um santo. Mas foi muito melhor como libertador e construtor de uma nação do que como governante”.

Em sua etapa de ex-presidente, Mandela emprestou seu carisma a uma série de causas no continente africano, interveio em conversações de paz para acabar com várias guerras e ajudou sua esposa, Graça, a arrecadar dinheiro para organizações beneficentes voltadas para crianças.

Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2013/12/06/internacional/1386356936_122339.html

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