Entre o êxodo e a perda de vidas

No decorrer dos últimos 20 anos, cerca de 2,5 milhões de afegãos perderam suas vidas em diversos conflitos. Atualmente, o Afeganistão é o país de maior êxodo do mundo e estima-se que a maior parte dos refugiados afegãos se encontre em países vizinhos, como o Irã e o Paquistão, e que representem 6,3 milhões de pessoas

Luciana Garcia de Oliveira

No decorrer dos últimos 20 anos, desde a ocupação soviética, cerca de 2,5 milhões de afegãos perderam suas vidas por diversos fatores

É difícil, estando no Ocidente, obter informações precisas e confiáveis sobre a região que abarca o Afeganistão e o Paquistão. Somente em 1988, teríamos imagens vindas do filme Rambo III, mas a produção de Hollywood não teria nem posto “os pés” no deserto afegão, apenas utilizou fotografias e usou técnicas de estúdio, já que o local vivia em forte conflito com os soviéticos.

No filme estrelado por Sylvester Stallone, os afegãos são os caras bons; contudo, a imagem que persiste no Ocidente é diferente. Por exemplo, o fato de as mulheres afegãs não “possuírem rosto” (em razão do uso da burca); outra é referente ao fato de o Afeganistão não exercer um papel positivo no mundo globalizado e de ter como principal produto de exportação algo muito atrativo para o setor ilícito de business.

Segundo o diretor do Serviço Federal da Rússia para o Controle de Drogas, Víktor Ivanov, em entrevista ao site Voz da Rússia, o Afeganistão é responsável pela produção de 90% a 95% da heroína consumida no mundo. Toda essa produção, muito surpreendentemente, possui justificativa religiosa utilizada de modo pragmático pelos detentores do poder nessa localidade. Para eles, é válido e necessário enviar uma quantidade máxima de venenos mortais a quem eles consideram os inimigos do islã na Europa e no continente americano.

ÊXODO AFEGÃO
No decorrer dos últimos 20 anos, desde a ocupação soviética, cerca de 2,5 milhões de afegãos perderam suas vidas por diversos fatores, quais sejam: em decorrência dos frequentes assaltos militares, pela fome e pela falta de cuidados médicos adequados nos poucos hospitais disponíveis na região. O Afeganistão é o país de maior êxodo da atualidade. Estima-se que a maior parte de seus refugiados se encontre nos países vizinhos, como o Irã e o Paquistão, e que representem 6,3 milhões de pessoas, ou seja, o número total de refugiados e de pessoas mortas equivale ao total de toda a população da Palestina.

A grande quantidade de imigrantes afegãos no Paquistão e no Irã gera preocupação para ambos os países. Muito embora acarretem inúmeros prejuízos, o Paquistão, em especial, fundou algumas escolas de treinamento para os mujahedins, com ajuda financeira proveniente de alguns países árabes, como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. Nesses locais, a comunidade sunita paquistanesa encontra alimento e abrigo seguro em meio a uma realidade de muita miséria e pouca oferta de emprego.

O quadro atual desse triste contexto sob o domínio taleban é a presença de 10 milhões de mulheres debaixo de burcas, analfabetas e em situação de miséria e opressão. Um quadro muito diferente, quando comparado a uma conjuntura de 70 anos atrás, período no qual Amanullah Khan governou o Afeganistão (em 1919), influenciado por um programa de reformas ao estilo europeu, após uma longa viagem pelo Velho Continente. Logo ao regressar, Khan ordenou um plano de mudanças culturais que incluía um projeto tendente a influenciar as mulheres a retirarem o véu de maneira progressiva, os homens a trocarem suas roupas típicas afegãs por ternos à moda ocidental e ainda decretou publicamente a proibição da prática da poligamia no país.

RAMBO III
O filme Rambo III (1988) pode ser considerado uma referência de como a política norte-americana mudou. Na época em que Rambo III foi filmado, os mujahidin eram conhecidos como “soldados” que lutavam contra uma ocupação soviética. Esse cenário agradava aos EUA e é sabido que, naquela época, os mujahidin, hoje mais conhecidos comotalebans – os mesmos que, anos mais tarde, foram caçados pelos EUA – receberam apoio militar norte-americano.
OS MUJAHEDINS
No sentido laico, são aqueles que combatem pela pátria, por seu povo ou Estado. No religioso, são combatentes dispostos ao sacrifício da própria vida em nome de Deus e da religião. Quem entrega a própria vida ao martírio deve ser uma pessoa solteira, sem filhos, sem família e sem posses.
SHARIA
Nome dado ao código de leis do islamismo. Em muitas sociedades islâmicas, não há separação entre a religião e o direito. A sharia lida com diversos aspectos da vida cotidiana, como a política, a economia, a família, a sexualidade, a higiene e questões sociais.

Ao analisar mais atentamente o caso das mulheres, a situação torna-se muito mais trágica. A sociedade afegã é absolutamente patriarcal e os direitos das mulheres são pífios, se comparados aos de qualquer outra tribo desconhecida, o que torna, nesse contexto, a proibição do voto feminino um componente não tão grave.

Desde o advento dos talebans, as escolas de meninas foram fechadas, o que contribuiu para que muitas delas ocupassem as ruas. Mesmo nessa situação de calamidade, nota-se que as mulheres afegãs não perderam a vaidade feminina. Nas calçadas das maiores cidades, é possível deparar-se com mulheres pintando as unhas das mãos por debaixo das burcas. Isso ocorre frequentemente, para que elas não sejam esquecidas por seus maridos, em meio a um cenário onde a poligamia é bastante comum, capaz de transformar muitos lares em verdadeiros haréns.

A situação é ainda mais crítica, ao levarmos em consideração que, atualmente, não existem mulheres médicas no Afeganistão, de modo que, se alguma afegã precisar consultar um médico, ela é obrigada a levar como acompanhante o filho, o marido ou o pai. Isso ocorre porque a conversa com o médico é feita somente por intermédio de uma figura masculina. Algo muito semelhante aos casamentos no Afeganistão, quando é o pai ou o irmão da noiva que diz o “sim”.

QUEM SÃO OS TALEBANS?
Logo após a retirada soviética, insurgiu uma intensa guerra civil, gerando problemas graves de insegurança por todo o Afeganistão. Por isso, a solução imediata encontrada pelos talebans foi a estratégia do desarmamento da sociedade civil, então iludida com a imagem dos “mensageiros da paz”. Decretada a prática de desarmamento, foi outorgada a punição severa no cometimento de crimes como roubos e furtos. Para esses casos, foi estabelecida a amputação das mãos, de maneira a tornar a sociedade traumatizada e refém dos talebans. Por outro lado, os problemas enfrentados na região não se resumiam a roubos, sequestros e furtos. Havia diversos casos de assédio contra as mulheres e, para reprimi-los, foi institucionalizada a pena de apedrejamento.

Todas essas medidas conduziram a uma realidade marcada por muitas tragédias. Assim, de acordo com os relatórios das Nações Unidas, 1 milhão de afegãos deverão morrer de fome nos próximos anos. Isso porque a população já não tem mais forças nem armas para lutar e o medo das punições impede a ocorrência de furtos e roubos de alimentos.

A situação atual teve início nas ofensivas norte-americanas contra o terrorismo (2001) e, diferentemente do discurso, houve a expansão dos grupos extremistas na região do Afeganistão e do Paquistão, além do grupo taleban. As táticas utilizadas por todos esses grupos incluem explosivos sofisticados, homens-bomba e carros-bomba, ao mesmo tempo em que predominam conflitos entre os inimigos internos muçulmanos.

De acordo com o Pakistan Institute for Peace Studies, existem em torno de 2.148 terroristas no Paquistão, o que denota um crescimento dramático de 746% dos ataques, com um saldo de 2.267 pessoas mortas e 4,5 mil feridos até o ano de 2009. E, não bastando todos os prejuízos, não é de modo algum exagero constatar um crescente processo de “Islamisation agenda” no Paquistão. Isso porque a Suprema Corte do Paquistão declarou a sharia como lei suprema, o que deve contribuir para uma maior influência da religião nas áreas da educação, da economia e da legislação.

PONTO DE VISTA GEOGRÁFICO
Muito além de todos esses fatores, sob o ponto de vista geográfico, o Afeganistão possui uma área de 70 mil quilômetros quadrados; 75% desse território é ocupado por montanhas, o que torna a natureza inóspita e impede o desenvolvimento do comércio. A difícil travessia nesse território dificulta, sobretudo, as chamadas intervenções internacionais no país. De acordo com o cineasta Mohsen Makhmalbak (cineasta iraniano, produtor dos premiados filmes O Ciclista e Caminho para Kandahar): “Tente imaginar um soldado que tenha que constantemente subir e descer montanhas. Suponhamos que ele conquistasse todo o Afeganistão. Teria de reconquistar constantemente os picos para prover o seu exército com suprimentos”.

O processo de adesão popular à agenda fundamentalista desses grupos é facilitado, em razão de um articulado projeto assistencialista então desenvolvido nesse local. O taleban e os demais grupos costumam disponibilizar o serviço de ambulância para a população paquistanesa, a construção de várias escolas e a ajuda financeira para as famílias afetadas pelas calamidades naturais, na incidência de terremotos e enchentes. A influência desse grupo na vida social permite constatar uma perigosa tendência de transcendência ao sectarismo.

Diante disso, o Paquistão passou a ser considerado um local extremamente inseguro também para as comunidades muçulmanas xiitas e para as demais minorias existentes, como os cristãos e os budistas. Em algumas regiões, sobretudo, são propagadas ações reveladoras de um verdadeiro processo de limpeza étnica.

OPORTUNISMO E SUBVERSÃO
No mês de outubro do ano passado, a mídia internacional recebeu a notícia do trágico atentado contra Malala Yousufzai, uma menina de 14 anos de idade. O tiro partiu de um dos integrantes do grupo taleban, em represália às opiniões que a adolescente postava em seu blog, no qual defendia o direito à educação das mulheres. Qualquer atentado à vida humana é absolutamente deplorável, no entanto, a história de Malala tem sido demasiadamente explorada como propaganda, contribuindo para omitir os acordos do governo paquistanês com o governo norte-americano.

Logo após o incidente contra a ativista, Laura Bush pronunciou-se publicamente nos Estados Unidos contra o que ela considera “regimes totalitários daquela região”. Ainda, nesse mesmo sentido, em um recente concerto da cantora Madonna em Los Angeles, era possível deparar-se com o nome de Malala escrito em suas costas. Em ambos os casos, é possível constatar quanto essa questão, em particular, elevou o status de Malala, que passou de uma adolescente militante paquistanesa para uma espécie de heroína dos direitos das mulheres.

Toda essa atenção gerada suprimiu outra realidade, muito além das atividades exercidas por um grupo fundamentalista. As relações políticas existentes entre Estados Unidos e Paquistão, sobretudo com relação aos acordos de cooperação e opressão, são questões que Malala criticava frequentemente em sua página na internet. Assim, de acordo com o site Afghans for Peace, em 2010, o governo de Washington enviou mais de US$ 7 bilhões para o Paquistão. Desse montante, cerca de US$ 2,5 bilhões foram destinados para fins militares, em um país conhecido internacionalmente por seu governo criminoso (desrespeitador dos direitos humanos da população civil) e com altos índices de corrupção. De modo que não é, de forma alguma, surpreendente constatar que o regime paquistanês utiliza essa mesma ajuda financeira para manter um Estado policial, brutal, perseguidor das minorias étnicas e religiosas e que realiza (de modo extrajudicial) extermínios de seus opositores de maneira indiscriminada. O território considerado mais perigoso seria justamente a região na qual Malala residia.

O apoio internacional a Malala esconde, por sua vez, todos os prejuízos causados pelos ataques perpetrados pelos Drones (aviões não tripulados), que, a princípio, tinham a tarefa de eliminar os militantes do grupo terrorista Al Qaeda e do Taleban, sem arriscar vidas de soldados norte-americanos. Ocorre que as vidas paquistanesas, em grande parte dos ataques, têm sido demasiadamente atingidas, o que tem causado uma paralisação das atividades e da rotina no Paquistão. Muitos médicos têm se negado a atender nas zonas de ataque. A população civil tem medo de ir aos supermercados próximos a essas regiões e as crianças frequentemente se recusam a ir às escolas. A vida, nos espaços públicos no Paquistão, já não é mais a mesma; agora, a população é obrigada a conviver com uma realidade de violência e incertezas.

SECTARISMO
O termo pode ser definido como a visão estreita, intolerante ou intransigente. Classifica-se de sectário aquele que é praticante de uma seita, ou apresenta comportamento típico do sectarismo ideológico.
LINHA DURAND
Linha Durand é a fronteira entre os territórios do Afeganistão e do Paquistão.

LUCIANA GARCIA DE OLIVEIRA é geógrafa e faz parte do Grupo de Trabalho sobre o Oriente Médio e o Mundo Muçulmano – Laboratório de Estudos sobre a Ásia (USP).

Fonte: http://conhecimentopratico.uol.com.br/geografia/mapas-demografia/49/artigo290243-1.asp

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