O golpe consumado

No Paraguai, tudo parece apontar para uma volta do Partido Colorado ao poder. A regressão é facilitada pela divisão da esquerda

por Gerhard Dilger

(O favorito Horacio Cartes, do Partido Colorado, durante carreata em Luque)

“As eleições já estão praticamente perdidas.” Para o pa’í (padre, em guarani) Francisco Oliva, jesuíta de 84 anos, militante social, comunicador e um dos mais reconhecidos analistas da sociedade paraguaia, “só um deus ex machina, como nas tragédias gregas”, poderá impedir a volta ao poder do Partido Colorado, que governou o Paraguai de 1947 até 2008. “E eles vêm para ficar por dez ou talvez vinte anos, com todo tipo de armadilhas”, acrescenta. “Estão muito bem organizados. Seu governo será totalmente vertical, direitista, clientelista; o atraso do Paraguai no contexto mundial só vai aumentar.”

O sacerdote de origem espanhola, que já foi expulso do país em 1969, no auge da ditadura do general Alfredo Stroessner, para voltar em 1996, descreve as eleições presidenciais e parlamentares de 21 de abril de 2013 como “o grande golpe”: terminariam legitimando o “golpe parlamentar” de 22 de junho de 2012, quando o presidente Fernando Lugo foi deposto pelo Parlamento depois de um julgamento político esdrúxulo.1

Para Francisco Oliva, o golpe2 é a última “obra-prima” da oligarquia paraguaia. Foi preparado pelo massacre de Curuguaty, quando onze camponeses e seis policiais morreram em circunstâncias ainda não esclarecidas oficialmente. Mas um informe da Coordenadoria de Direitos Humanos do Paraguai revela falhas profundas na investigação oficial.3 O fiscal encarregado se limitou a investigar as mortes dos policiais, responsabilizando alguns camponeses. O massacre foi o “pretexto perfeito” para o golpe, diz Oliva, apontando novas contradições, como a possibilidade de que os tiros mortais possam ter partido de um helicóptero que estava no local. Um vídeo com imagens aéreas desapareceu.

Uma semana depois, Fernando Lugo foi deposto pelos partidos da direita, liderados pelos colorados e seus antigos parceiros no governo, os liberais. Dessa forma, as forças tradicionais, que já haviam obstaculizado sistematicamente o labor de Lugo a partir do Congresso, melhoraram definitivamente suas condições para disputar as eleições de abril de 2013.

A avaliação mais contundente veio do presidente uruguaio José Mujica. Segundo ele, o golpe foi dado pelo “narcocoloradismo”.4 O liberal Federico Franco, vice-presidente de Lugo, tornou-se chefe de Estado e deu livre trânsito ao agronegócio, cuja força o governo Lugo tampouco conseguiu quebrar. Nos primeiros sete meses do novo governo foram liberadas oito variedades de transgênicos – soja, milho e algodão. Finalmente, o novo quadro favorece os interesses geoestratégicos dos Estados Unidos, que, durante o governo Lugo, aumentaram sua influência por meio da “assistência ao desenvolvimento”.5

Para o pa’íOliva, o maior êxito nos quatro anos de governo Lugo foi a conscientização da população paraguaia. “À medida que Lugo ajudava os mais pobres, eles abriam os olhos. Pela primeira vez, receberam acesso gratuito ao sistema de saúde, a um pouco de educação e a programas sociais parecidos com os dos brasileiros. Foram muitas coisas pequenas, mas o essencial foi que Lugo abriu a porta. Se tivessem deixado, provavelmente teria ganhado as eleições.”

Hoje, a esquerda está longe disso. Oliva vê duas razões principais para sua divisão: a “fraqueza” de Lugo, que se negou a apoiar o jornalista Mario Ferreiro, candidato presidencial da esquerda mais bem posicionado, e o candidato colorado, o empresário Horacio Cartes, que teria “comprado” um grupo de esquerda para forçar a divisão da aliança progressista Frente Guasu.

“Foi absurdo”, lembra-se Oliva, “durante quatro meses, eles disputaram os primeiros postos da lista para o Senado. Durante esse período, os movimentos sociais pressionaram pela união. Houve um momento em que estávamos muito perto. Lugo e Ferreiro vieram acompanhados de mais duas pessoas cada um. Nós dissemos: ou vocês se juntam, ou contamos tudo que sabemos. No dia seguinte, Lugo nomeou Aníbal Carrillo o presidente do seu grupo e fechou a janela que ainda havia para negociar… Depois de Curuguaty, do golpe, da divisão, haverá o grande golpe em 21 de abril.”

A quatro semanas das eleições, as pesquisas preveem a vitória do empresário Horacio Cartes e seus colorados, seguidos pelos liberais com Efraín Alegre, ex-ministro de Lugo. Mesmo dividida, a esquerda se transformaria em terceira força política do país, com Mario Ferreiro, da lista Avanza País, como candidato mais forte, e, no Senado, com a lista da Frente Guasu, liderada por Fernando Lugo.

Das cinco outras listas esquerdistas, destacam-se as mulheres de Kuña Pyrenda (Plataforma de Mulheres, em guarani), que criticam a cultura política “machista” e “caudilhista” que, segundo elas, caracteriza a esquerda. “Esses políticos já se posicionaram dentro do sistema colorado, agarram-se a suas posições de poder e não as soltam mais”, concorda Oliva.

E a comunidade internacional? Há vários meses, a direita neoliberal na União Europeia vem exigindo o reconhecimento do regime de facto paraguaio. Em março, José Félix Fernández Estigarribia, chanceler de Federico Franco, foi recebido por seus colegas em Berlim6 e Londres. Já em 23 de junho, Dirk Niebel, ministro alemão da Cooperação, fora o primeiro político estrangeiro a ser recebido por Franco.

Tudo parece indicar que, mais cedo ou mais tarde, o Paraguai será readmitido na Unasul [União de Nações Sul-Americanas] e no Mercosul, provavelmente depois de o Senado paraguaio ratificar a entrada da Venezuela.

As legiões de observadores eleitorais no país se preocupam com detalhes técnicos. Os variados mecanismos bem conhecidos de compra de votos não impedirão que os resultados sejam aceitos – o golpe estará consumado.

Gerhard Dilger

Diretor do escritório regional da Fundação Rosa Luxemburgo em São Paulo

Ilustração: Reuters/ Stringer

Fonte: http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1391

 

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