O novo padrão de consumo

Brasileiros compram mais; contudo, o êxito em relação aos indicadores econômicos não se traduziu em melhoria no perfil da distribuição de renda e na redução das desigualdades regionais no País

Jefferson Mariano

O recente processo de crescimento da economia brasileira (veja gráfico abaixo), especialmente a partir de 2004, provocou mudanças importantes no que se refere ao padrão de consumo da população. Esse desempenho deveu-se à combinação de fatores como a reversão da política monetária até então vigente e ao processo de valorização das matérias-primas, aspectos que beneficiaram o setor externo da economia brasileira.

O êxito em relação aos indicadores econômicos não se traduziu em melhoria no perfil da distribuição de renda e na redução das desigualdades regionais no País. Números divulgados pelo Censo Demográfico 2010 (tabela seguinte) sinalizam que ocorreu uma tímida reversão desse processo. Houve aumento da participação da população que se encontrava na base da pirâmide de distribuição de rendimentos e uma redução daqueles que se encontravam no topo.

De acordo com esses números, em 2000, os 50% mais pobres ficavam com 12,69% da renda nacional e, em 2010, passaram a auferir 17,73%. No outro extremo, os 10% mais ricos ficavam com 51,29% da renda em 2000 e, em 2010, apropriaram-se de 44,41%. Esse fenômeno pode ser atribuído, dentre outros aspectos, ao dinamismo da economia e à política de valorização do salário mínimo.

O quadro de melhora no desempenho da atividade econômica trouxe mudanças importantes no que se refere ao padrão de consumo de parte da população brasileira.

NOVOS HÁBITOS

A leitura da evolução do padrão de consumo no País pode ser realizada por meio da Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE. Esse levantamento de periodicidade quinquenal investiga os hábitos de consumo das famílias no Brasil, subsidiando o cálculo dos índices de preços ao consumidor.

A mudança do perfil do consumo das famílias brasileiras foi muito debatida, especialmente devido à nova ponderação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) divulgada em janeiro de 2012. Essa mudança na ponderação revelou a queda na participação dos gastos com alimentação e expansão de outros grupos de consumo, como habitação e transportes.

Sabe-se que, na medida em que ocorre aumento da renda das famílias, há menor comprometimento no percentual dos gastos com alimentação, pois parte dos recursos acaba tendo como destino a aquisição de bens de consumo duráveis. Além disso, nas famílias de maior poder aquisitivo, parcela significativa dos rendimentos auferidos não tem como destino o consumo.

Existem diferenças entre as regiões do País no que se refere à aquisição de gêneros alimentícios. O consumo de produtos industrializados é mais intenso nas regiões de maior poder aquisitivo. Por exemplo, na região Sul, o consumo per capita de laticínios chegava a 67 kg em 2009; e, na Sudeste, 50,5 kg. Já nas regiões Norte e Nordeste, os números eram 23 kg e 27 kg respectivamente, como pode ser observado na tabela 2.

Um aspecto que evidencia a sofisticação no padrão de consumo refere-se ao aumento dos gastos com alimentos processados industrialmente. Se analisarmos alguns dados, é possível perceber a expansão no consumo de bebidas e infusões e também de alimentos preparados entre 2003 e 2009. Em alguns casos, como, por exemplo, as bebidas na região Norte, houve aumento em torno de 65%.

Assim, é lícito afirmar que, no caso específico do consumo de alimentos, entre 2003 e 2009, há uma tendência de sofisticação do consumo em todas as regiões do País.

Em relação aos demais grupos de despesa das famílias, ocorreram algumas alterações importantes.

Houve aumento na participação do gasto com transportes e com habitação em praticamente todas as regiões do País no intervalo entre 2003 e 2009. Apenas na região Sul, no caso específico do grupo Habitação, não se observa alteração significativa.

Na região Nordeste, há, inclusive, aumento em termos monetários dos gastos com habitação (além do aumento na participação total), decorrente da expansão dos mecanismos de crédito.

Ainda em relação ao grupo Habitação, é interessante observar, nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, a maior ocorrência de imóveis ocupados na modalidade alugados. Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro são localidades nas quais o índice é muito superior à média nacional, devido ao dinamismo da economia e à elevada mobilidade da força de trabalho. Além disso, são regiões que apresentam preços mais altos dos imóveis.

No que se refere aos gastos com os transportes, o aumento na participação foi intensificado pelo consumo de veículos novos.

As despesas com veículos também evidenciam as diferenças no que se refere ao potencial de consumo por região. As regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste apresentam elevadas participações, em contraste com Norte e Nordeste. Nesse caso, o consumo do item depende não só do nível de renda, mas da capacidade de crédito, por sua vez, associada à estrutura produtiva e de oferta de emprego.

Nas despesas com eletrodomésticos e eletroeletrônicos, também ocorreu um incremento expressivo no período. Há que se destacar que parte do consumo desses itens está diretamente associada às condições de infraestrutura existentes.

Impressiona, no intervalo em questão, o comportamento relacionado ao consumo de celulares e acessórios. Em 2003, no Nordeste e no Norte do País, houve expressiva expansão no consumo desses itens. Em contrapartida, houve significativa retração no Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste. O boom do consumo de telefonia celular observado nas regiões Nordeste e Norte em 2009 aconteceu em momentos anteriores nas demais regiões do País.

A POSSE DE BENS

Além do gasto das famílias, a posse de bens é outra variável que possibilita compreender o comportamento do consumo no Brasil ao longo dos últimos anos. Em 2000, de acordo com o Censo Demográfico, menos de 10% dos domicílios da região Nordeste possuíam máquinas de lavar e menos de 5% possuíam forno de micro-ondas. No Sudeste, esses números chegavam a 44% e a 15%, respectivamente. No caso do automóvel, menos de 15% dos domicílios possuíam esse bem na região Nordeste.

Em 2010, houve aumento expressivo do consumo na região Nordeste e, no caso das máquinas de lavar, passam ao aumento de 10% para 19% dos domicílios. Apesar do expressivo aumento, ainda é muito baixa a presença desse bem de consumo nos domicílios, quando comparado com as regiões Sul e Sudeste, nas quais os valores chegaram a mais de 60% em 2010. No caso dos domicílios com automóvel, todas as regiões apresentaram crescimento. No entanto, na região Nordeste, o crescimento ainda foi relativamente pequeno. Norte e Nordeste apresentaram, em 2010, cerca de 20% dos domicílios com automóvel.

No Censo de 2010, foi inserida uma questão a respeito da presença do bem de consumo motocicleta nos domicílios. Observou-se que, nas regiões Norte e Nordeste do País, há maior presença dessa modalidade de veículo em comparação com os automóveis. Muitos municípios localizados nessas regiões e também no Centro-Oeste do País apresentam grande dependência desse meio de transporte. O mapa Posse de Automóveis por domicílios – 2010 (acima, na página ao lado) destaca a distribuição geográfica da posse desse bem. Observa-se que Rondônia, Roraima, Mato Grosso e Piauí apresentam taxas elevadas no que se refere à presença desse meio de transporte nos domicílios.

57,3 MILHÕES DE DOMICÍLIOS

A posse de computador também reflete esse comportamento. Nota-se o desequilíbrio entre as regiões no que se refere à aquisição desse bem. É verdade que a ocorrência de domicílios com computador e, especialmente, com acesso à internet ainda é baixa, quando se realizam comparações internacionais e entre as unidades da Federação. No entanto, é inconteste que, em um período muito curto, ocorreu um significativo avanço na posse desse bem por parte dos domicílios brasileiros. Por fim, vale destacar que a ênfase da análise está direcionada para o consumo domiciliar.

De acordo com o Censo Demográfico em 2010, o Brasil possuía 57,3 milhões de domicílios. Desses, 25 milhões estavam no Sudeste e 14,9 na região Nordeste, as duas maiores concentrações do País. No Nordeste, cerca de 7 milhões de domicílios, ou quase 50%, auferiam renda domiciliar per capita de até meio salário mínimo e o contingente com renda até dois salários mínimos representava 5,8 milhões. Em contrapartida, no Sudeste, 13,9 milhões de domicílios possuíam renda domiciliar per capita na faixa de dois salários mínimos e 4,7 milhões estavam na faixa até dois salários mínimos. Ou seja, as desigualdades na apropriação da renda explicam o mapa do consumo no Brasil. Em síntese, é possível afirmar que há expansão do consumo e um tímido processo de sofisticação especialmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste; porém, esse processo se dá com mais intensidade no consumo popular ou de itens de menor valor adicionado.

IPCAO Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) é produzido pelo IBGE desde 1979 e tem o objetivo de medir a inflação de um conjunto de produtos e serviços comercializados no varejo, referentes ao consumo pessoal das famílias, cujo rendimento varia entre 1 e 40 salários mínimos, qualquer que seja a fonte de rendimentos. Desde junho de 1999, é o índice utilizado pelo Banco Central do Brasil para o acompanhamento dos objetivos estabelecidos no sistema de metas de inflação, sendo considerado o índice oficial de inflação do País.

SOFISTICAÇÃO DO CONSUMO

Os resultados da Pesquisa de Orçamentos Familiares e do Censo Demográfico 2010 possibilitam observar um quadro significativo de mudança no padrão de consumo da população brasileira. Pode-se afirmar que, ao longo do período investigado, ocorreu um processo de “sofisticação” do padrão de consumo. Houve um aumento no consumo de itens industrializados, em detrimento de gêneros in natura. Também ocorreu a incorporação na cesta de consumo dos trabalhadores, de modo cada vez mais intenso, de itens considerados supérfluos, especialmente no grupo higiene pessoal e limpeza.

Aumentaram também, de modo expressivo, despesas com consumo de bens de consumo duráveis, que apresentaram expansão facilitada pela incorporação de inovações tecnológicas. Além disso, o barateamento de alguns itens, decorrentes da escala de produção, foi outro elemento a contribuir para o estabelecimento desse novo padrão.

Alterações na política monetária levaram à expansão do crédito, incrementando as despesas em bens de consumo duráveis e no mercado imobiliário.

No entanto, cabe destacar que os números apresentados ainda evidenciam profundas desigualdades regionais no que se refere ao padrão de consumo. Ainda existe um grande fosso que separa o padrão de consumo apresentado no eixo Sul/Sudeste em relação ao padrão apresentado nas regiões Norte, Nordeste e, em menor medida, no Centro-Oeste. Desse modo, acredita-se na necessidade de se pensar estratégias de desenvolvimento para o País que não sejam meras reedições de experiências pretéritas.

JEFFERSON MARIANO é Analista Socioeconômico do Instituto Brasileiro de Geogra a e Estatística (IBGE). Leciona em cursos de graduação em Economia e Administração e pós-graduação em Comércio Exterior.

Fonte: http://conhecimentopratico.uol.com.br/geografia/mapas-demografia/47/artigo277251-1.asp ; http://conhecimentopratico.uol.com.br/geografia/mapas-demografia/47/artigo277251-2.asp

 

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