Para compreender as novas ciberguerras

Novo tipo de confronto bélico já começou. Como Estados e exércitos capacitam-se para bloquear capacidade militar de adversários, atingir instalações industriais e própria população civil

Por Cauê Seignemartin Ameni

O general prussiano Carl von Clausewitz ficou conhecido pela frase em que apontava a associação entre guerra e política: “A guerra é a continuação da política por outros meios”. Um século e meio depois, o filósofo francês Michel Foucault inverteu a equação, afirmando que “a política é a continuação da guerra por outros meios”, ao alegar ser a guerra civil o paradigma da sociedade moderna. Há controvérsias sobre qual das formulações é mais adequada, razão, mas algo parece certo: está surgindo uma nova modalidade de conflito, que pode transformar, nas próximas décadas, tanto a natureza dos conflitos bélicos quanto suas implicações políticas.

Trata-se da ciberguerra. Segundo um estudo recente, todos os quinze países com maior orçamento militar do planeta estão desenvolvendo capacidades para este tipo de confronto. Já não se trata de mera defesa contra nações ou grupos terroristas interessados em roubar senhas ou segredos de Estado. Trabalha-se agora para sabotar sistemas de informação ou mesmo instalações físicas de outros países. Quatro textos recentes podem ajudar a conhecer melhor (e, se possível, combater) o fenômeno.

Um editorial recente do New York Times faz balanço das transformações provocadas pela ciberguerra no planos militares das potências e na própria ética da guerra. O texto retrata a liderança dos Estados Unidos nos planos para o novo conflito. Revela que em agosto último, a Força Aérea lançou concorrência pública, demandando tecnologias capazes “de destruir, bloquear, degradar, danificar, corromper ou usurpar” as capacidades de potenciais inimigos. O artigo frisa que o alcance dos novos conflitos vai além do ciberespaço. Determinados tipos de ataque poderão paralisar as comunicações militares de outra nação, ou mesmo atingir diretamente sua população civil – provocando, por exemplo, o colapso da rede elétrica que a abastece. O New York Times também chama atenção para as incertezas e riscos políticos relacionados às novas armas. Quem poderá lançar um ataque contra um país estrangeiro? – pergunta o texto. O presidente dos EUA? Ou até mesmo os comandantes militares?

O caso mais notório de um ciber-ataque militar já registrado ocorreu há alguns meses. Foi deflagrado conjuntamente por Estados Unidos e Israel. Vitimou o Irã e seu programa de energia nuclear, atingidos por um vírus que se tornou conhecido por Stuxnet. As linhas essenciais do ataque estão descritas num texto do Le Monde DiplomatiqueO Stuxnet foi introduzido por meio de um pen-drive na usina de enriquecimento de urânio de Natanz, onde estão instaladas sete mil centrífugas.

O vírus identificou rapidamente seu alvo (os sensores que controlam a velocidade dos equipamentos). Iludiu os operadores, mantendo aparência de normalidade nos controles de segurança. Mas provocou a elevação absurda no ritmo de rotação das centrífugas, provocando sua auto-destruição. O Stuxner não atingiu apenas o Irã, contudo. Espalhou-se pela internet e acabou afetando máquinas em outros países. Segundo um estudo do fabricante de antivírus Kaspersky, com sede em Moscou, a Índia foi a mais atingida, com 8.565 máquinas infectadas.

Uma vasta reportagem no New York Times, que teve acesso a fontes da própria Casa Branca, revela os bastidores da decisão do presidente Obama, que optou em 2010 por manter o desenvolvimento do Stuxnet. O vírus surgiu de um projeto originado no governo de seu antecessor, George Bush (e curiosamente denominado Olimpic Games). A ação foi mantida mesmo depois que versões anteriores e mais brandas do Stuxnet vazaram. Nesse momento, chegou-se a cogitar a interrupção do programa. Obama recusou tal alternativa. Assinada por David Sanger, a matéria foi a primeira a identificar claramente os EUA e Israel como responsáveis diretos pelo ataque ao Irã.

Por fim, mais um texto do New York Times indica os possíveis próximos passos da ciberguerra. Os EUA estariam desenvolvendo o vírus Flame. Quarenta vezes mais complexo que o Stuxnet, já estaria infectando computadores em diversos países do Oriente Médio, sendo o Irã, novamente, o mais infectado. Poderia ser também mais nocivo que o Stuxnet, pois teria a capacidade de ativar o microfone interno do computador para gravar todas as conversas, ou o bluetooth para se ligar a todos os aparelhos ao seu redor e obter números de telefones e senhas , por exemplo. Segundo um especialista da Kaspersky, este vírus “reescreve a definição de ciberguerra e ciberespionagem”.

Líderes atuais na ciberguerra, os EUA continuarão a manter esta dianteira? O próprio NYTimes lembra que a resposta é incerta. Washington estaria preocupada com a China, aponta o jornal, acusada de roubar segredos militares norte-americanos e provavelmente capaz de revidar aos ataques.

O que todos os textos sugerem é a importância de ações decisivas das sociedades civis para frear as ciberguerras. Caso contrário, o espaço virtual, reconhecido pela larga ampliação de relações culturais, conhecimento e integração social, poderá se converter em local de violência, destruição, perseguição e sabotagem. Em outras palavras, terrorismo de Estado.

 

Fonte: http://rede.outraspalavras.net/pontodecultura/2012/09/28/para-compreender-as-novas-ciberguerras/

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