O drama dos seres humanos ilegais — e como interrompê-lo

Antropólogo iraniano escreve sobre imigrantes, trabalhadores que o capital simultaneamente deseja e exclui. E aposta que controles migratórios podem se tornar obsoletos…

Por Roberto Almeida, no Opera Mundi

Hoje o iraniano Shahram Khosravi é antropólogo, professor da Universidade de Estocolmo. Mas há 30 anos ele era um imigrante sem documentos, pagando contrabandistas para ajudá-lo a fugir de sua terra natal. Ele peregrinou, deixou os dólares da família com policiais corruptos para escapar do serviço militar obrigatório, que o levaria ao front da guerra Irã-Iraque.

Khosravi transformou sua “rica” experiência em livro. ‘Illegal Traveller’ – An Auto-Ethnography of Borders (‘Viajante Ilegal’ – Uma autoetnografia de fronteiras, US$ 27, Amazon.com) é um guia de sobrevivência pelas linhas porosas que dividem o atlas global. “Fronteiras são símbolos e rituais de uma comunidade. Ter controle é mostrar a identidade e legitimidade do Estado”, disse o autor ao Opera Mundi.

Em meio à disputa de deportações entre Brasil e Espanha, que levanta suspiros patrióticos em ambos os lados, sem falar no limbo jurídico em que caíram imigrantes haitianos, que aguardam no Acre e em Rondônia documentação para trabalhar, Khosravi vê tudo como um grande “espetáculo” que prioriza a soberania de um país e se esquece das pessoas.

São palavras de um homem que viveu como “deportável” anos a fio até encontrar asilo político na Suécia, onde vive hoje. “Uma pessoa sem documentos não sabe o que vai acontecer amanhã. Tem medo até de se apaixonar”, contou. Veja a entrevista.

* * *

O sr. é contra fronteiras?
É preciso voltar na história e rever o assunto. Criamos nações-Estado há menos de 200 anos. Não tínhamos esse tipo de fronteiras. É algo criado e, por isso, podemos mudá-las. Não deu certo. Pessoas morrem todos os dias, vivem na miséria por causa das fronteiras que temos hoje. Você poderia dizer que um sistema sem fronteiras é totalmente utópico. Mas se voltarmos no tempo até a década de 1960, por exemplo, ninguém acreditaria se dissesse que um dia não haveria mais controle de fronteiras entre França e Alemanha. Pois hoje não existe mais esse controle. As pessoas atravessam para lá e para cá. E se voltasse 30 anos no tempo, ninguém acreditaria se dissesse que não haveria mais fronteiras entre países do leste europeu e o resto da Europa. Mas hoje as pessoas podem viajar. Quando dizemos que um sistema sem fronteiras é possível, tem gente que ri da nossa cara. Mas nunca se sabe. Quem sabe daqui a 50 anos não teremos mais essas fronteiras que temos hoje?

O sr. é um crítico do modo que a mídia em geral retrata os contrabandistas de pessoas. Por quê?
Acho que muitos jornalistas e políticos têm idéias bastante simplistas sobre contrabandistas de pessoas. É preciso lembrar que eles são produto de uma política dura de fronteiras. Quanto mais fechadas, mais geram contrabandistas.

Pode dar um exemplo?
Nos anos 1980 era muito mais fácil obter visto ou asilo em países europeus. E também era mais fácil ir à Europa ilegalmente. Muita gente era ajudada por primos, irmãos, e foram para a França, Suécia e outros países. Hoje é muito difícil ir para a Europa. É preciso de ajuda profissional de gente que gerencie esse tipo de imigração. É o que digo. Essas políticas criaram um mercado lucrativo para grupos criminosos. Mas é preciso ressaltar que, quando se fala em contrabandistas de pessoas, há muitos atores em questão. Há o agricultor na fronteira entre Irã e Turquia que ajuda pessoas a cruzar por 50 dólares. Ao mesmo tempo há o grupo criminoso que coloca pessoas em uma barca perigosa e manda pelo Mar Mediterrâneo e não está nem aí se elas vão morrer ou não. Todos são chamados de contrabandistas e, por isso, precisamos ter cuidado com essa terminologia. Fato é que tudo isso é parte da criminalização da migração, que cria uma cultura de desconfiança. Todos acreditam que pessoas que foram contrabandeadas não são de confiança, assim como candidatos a asilo, que não são considerados legítimos porque tiveram de pagar para chegar onde chegaram.  Há dois anos um famoso político sueco disse: “deveríamos deportar todos os candidatos a asilo que foram contrabandeados para a Suécia”. Isso é contra todas as convenções de refugiados ou de direitos humanos. Se você é candidato a asilo, não importa se você chegou legal ou ilegalmente.

É possível traçar a origem dessa criminalização?

No início dos anos 1990, as pessoas passaram a discutir imigração em termos de segurança. Antes disso, era discutida em termos de demografia, mobilidade. Mas desde então, vemos uma conexão entre segurança de Estado e imigração. Você cria atos criminosos e cria grupos criminosos, assim como foi com a homossexualidade e com a pobreza, que sofreram punições durante a história. Os sem documentos acabaram de entrar nessa categoria. Eles não apenas não são cidadãos, como são uma ameaça aos cidadãos. Se você olhar historicamente para o que aconteceu com outros grupos marginalizados, você vê similaridades no tratamento dado hoje aos não-documentados.

Isso é algo que acompanha o crescimento econômico? Estou falando aqui especificamente do Brasil, que se tornou um pólo de imigração. Há casos recentes de haitianos sem documentação.
Crescimento econômico tem a ver com mobilidade de capital, commodities e empregos. Mas não com a mobilidade de trabalhadores. Veja que esse crescimento estimula e criminaliza a imigração ao mesmo tempo. O Brasil precisa de trabalhadores de outros países, e isso você também vê no Irã, na Malásia. São países que precisam de mão de obra barata, mas ao mesmo tempo têm de mostrar sua soberania e dizer que controlam as fronteiras. Na Malásia eles deportam gente de vez em quando para o Vietnã, para a Indonésia, mas eles sabem que vão voltar no dia seguinte. No Irã, eles deportam afegãos, que chegam a voltar no mesmo dia. Há demanda pela mão de obra deles. O mesmo acontece no Brasil. O crescimento econômico e o desenvolvimento têm tudo a ver com imigração. Veja, a Europa discute hoje a ajuda econômica para países pobres com o intuito de interromper a migração. Isso é nonsense! Há evidências que mostram que projetos de desenvolvimento na verdade causam imigração.

Como?
Acontece de várias maneiras. Primeiro, esses Estados estão construindo prédios, barragens, estradas, e isso força as pessoas a se mudarem e, em muitos casos, destrói a economia local. Agricultores são obrigados a procurar trabalhos em grandes cidades ou em outros países. Você vê no México, onde o desenvolvimento econômico trouxe o colapso da produção local, o que levou as pessoas a migrarem para os Estados Unidos. Então por isso não é tão simples quando um político diz que é só mandar dinheiro para interromper os fluxos de migração. Não. Não é assim.

Imigração causa desemprego?
Sim e não. Se você olhar para migrantes sem documentos, não existe competição. As condições de trabalho dos não-documentados requerem uma flexibilidade extrema, que nenhum outro trabalhador legal aceitaria. Você trabalha hoje e não sabe se tem emprego amanhã, o empregador cria suas próprias regras. Não é o mesmo tipo de emprego que os locais aceitariam. Por outro lado, claro que há o impacto da migração em acordos coletivos entre empregadores e empregados, mas acho que esse discurso, acima de tudo, é um mito. Senão não teríamos a situação que temos hoje, com 12 milhões de mexicanos não-documentados nos Estados Unidos. Se não houvesse demanda, esse número não existiria. É preciso lembrar também que o discurso não passa de um jeito de criar sentimentos anti-imigração. Nos anos 1980, por exemplo, lembro de pessoas dizendo que imigrantes vinham à Suécia para tomar empregos. Hoje, eles reclamam que imigrantes vão à Suécia ou outros países e não trabalham! Que vivem à custa de benefícios sociais. Ou seja, se trabalham é um problema. Se não trabalham, também é problema. Aliás, é interessante notar como isso não se trata apenas de emprego, mas de mulheres também. A sexualidade também é um problema. Um tempo atrás diziam que o imigrante tomava empregos e as mulheres suecas. Hoje, eles reclamam que os imigrantes trazem consigo suas mulheres de seus países – Paquistão, Somália, Irã. Isso significa que tudo o que fazem, no final das contas, é um problema.

Então como ele se sustenta? Racismo?
Temos diferentes tipos de sentimentos anti-imigração. O primeiro é falta de informação. Você não sabe quem são as pessoas, não sabe o que fazem, se trabalham ou não, você só tem uma ideia. O que você ouve da mídia alimenta isso, e a solução é informação, claro. Mas há um sentimento anti-imigração ainda mais forte, que não tem a ver com falta de informação, mas com racismo. As pessoas têm bastante informação sobre migração e mesmo assim odeiam migrantes. Isso é outra coisa. Não é cognitivo, é racismo. Por exemplo, não importa se muçulmanos na Europa têm emprego, nem se falam a língua fluentemente, eles são odiados simplesmente por serem muçulmanos.

Nesse sentido, que resultado o sr. vê da Primavera Árabe e a reestruturação de fronteiras depois desses eventos?
Temos visto um aumento no número de migrantes cruzando o Mar Mediterrâneo depois da Primavera Árabe. Ano passado, de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), 1.500 pessoas se afogaram no Mediterrâneo a caminho da Europa. Se você olhar para números no passado, eram em torno de 700 ao ano. Mais que dobrou. É evidente que a Primavera Árabe causou mais migrações, agora a pergunta é: quem são essas pessoas? Eles não são líbios ou egípcios, mas sim de países sub-saarianos, como a Somália, que viviam nos países em que ocorreram as revoluções. Com a queda de Muammar Kadafi, há evidências de brutalidade extrema e racismo contra os grupos migrantes. Essas pessoas foram forçadas à escravidão, foram estupradas, foram acusadas de ajudar o regime e foram mortas por causa disso. Essas pessoas não têm escolha a não ser fugir da Líbia. Esse é um caso. Outros grupos, claro, são de pessoas pobres que não têm como viver no Egito, na Tunísia ou na Líbia. Outro ponto é que, com a Primavera Árabe, os acordos de colaboração entre esses países para controle de fronteira desapareceram. Kadafi tinha ótimo relacionamento com o governo de Silvio Berlusconi, na Itália, e tinham controles de fronteira que funcionavam. Agora que Kadafi se foi, o acordo também caiu. As pessoas acham que podem tentar agora, aproveitar a brecha.

Em seu livro, o sr. detalha como deixou o Irã sem documentos. Como é tomar a decisão de migrar? O sr. tinha escolha?
Você sempre tem escolha. Você pode ficar e ser morto, você pode ficar e ser pobre, você pode ficar e ser preso. Claro que você pode fazer isso. Mas quando olha para as opções que tem, acaba se perguntando: devo ir para a guerra ou devo buscar um futuro melhor para meus filhosÉ bastante complexo. Migração é um produto, ela tem todo um processo. E todo mundo faz isso. Suecos fazem! Eles pensam: aqui é muito frio, muito escuro, vou para a Tailândia. Bom, o segundo passo do processo, depois de avaliar o que fazer, é tomar a decisão. Depende do contexto, se é por causa da guerra, da pobreza, se é porque é perigoso ficar. No meu caso, não havia tradição de migração, o que tornou a decisão muito mais difícil. O contexto é bastante importante. História e contexto social vão dizer se a decisão é mais fácil ou difícil.

Qual o sentimento ao tomar a decisão?
Existe um sentimento de culpa. Você deixa seus pais, amigos, família e vai. A sensação é de vergonha. Você pode discutir imigração em termos de culpa e vergonha. Elas são parte do processo de decisão. Muita gente não vai embora por causa disso, não conseguem agüentar a culpa e a vergonha de deixar gente para trás.

O sr. poderia descrever sua experiência nas áreas de imigrantes? Em seu livro, fica clara a extrema desconfiança de tudo e de todos.
Você não pode confiar nas pessoas por causa da deportabilidade. Para esta discussão é preciso trazer o conceito de rede social e imigração, que andam de mãos dadas. Imigração cria redes que a facilitam. Para sobreviver, todos dependem dela para ter casa, para comer, para trabalhar. A primeira coisa é tentar encontrar amigos, gente de seu próprio país, gente na mesma situação que a sua para ajudar. Fazer uma rede de pessoas é crucial. É preciso lembrar, porém, que uma rede étnica não quer dizer que haja solidariedade étnica. Gente de seu país pode te explorar bastante. Mas você não tem escolha. É difícil. Encontrar informação hoje é bem diferente do passado. A internet e os celulares, por exemplo. Aliás, os celulares desempenham um papel crucial para os imigrantes. Os aparelhos são o único canal pelo qual conseguem informação, dizem onde estão e pedem ajuda.

E as polícias de fronteira? O sr. relata diversos casos de corrupção. Como isso funciona?
Conheci vários imigrantes na Ásia que tinham mais medo da polícia e do exército do que de contrabandistas e grupos criminosos, porque eles são corruptos. Vi policiais corruptos que tomam seu dinheiro para você passar. Os contrabandistas não conseguem trabalhar sem essa colaboração nas fronteiras. Eles estão, em muitos casos, envolvidos no contrabando de pessoas. E não estou falando apenas de países pobres, mas em muitos países europeus há casos em que policiais vendem passaportes para contrabandistas. A corrupção está lá. É uma mina de ouro.

 

Fonte: http://ponto.outraspalavras.net/2012/05/16/%E2%80%9Cfronteiras-contra-imigracao-sao-uma-mina-de-ouro%E2%80%9D-diz-antropologo-iraniano/

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