ESPECIAL OPERA MUNDI SOBRE OS 30 ANOS DA GUERRA DAS MALVINAS – 4 reportagens a respeito do conflito

Disputa pelas Malvinas ainda coloca Argentina e Reino Unido em jogo de orgulho e conveniência

Para analistas, guerra atrasou negociações, que agora estão em um beco sem saída; autodeterminação dos moradores deverá ser considerada

Um mapa da América do Sul estampa um grande cartaz na entrada de um supermercado das ilhas Malvinas. No entanto, o espaço entre o Chile e as fronteiras do Uruguai, Brasil e Paraguai é preenchido em azul, sem delimitação com o sul do Oceano Atlântico, sob a inscrição “Shit Sea”. Um bar chamado “Victory” confeccionou canecas com a imagem, mas traduziu a provocação: “Mierda Sea”.

Confeccionadas especialmente às vésperas do aniversário da guerra, as mensagens deixam clara a posição majoritária entre os habitantes da capital Porto Stanley: não querem ser as Malvinas Argentinas e sim as Falklands britânicas.

Nesta segunda-feira (02/04), o conflito entre Argentina e Reino Unido pela soberania das ilhas completa 30 anos, em meio à escalada retórica dos últimos meses, que agora opõe a presidente Cristina Kirchner e o primeiro-ministro David Cameron. Os motivos são semelhantes aos que culminaram com o confronto militar de 1982: orgulho, soberania, nacionalismo e interesses políticos.

Vista da praça das Malvinas, em Ushuaia, que deverá receber grande manifestação nesta segunda-feira

Vista da praça das Malvinas, em Ushuaia, que deverá receber grande manifestação nesta segunda-feira

Há algumas décadas, somente um punhado de ingleses sabia onde ficava este pequeno arquipélago do Atlântico Sul, ocupado pela coroa britânica em 1833, após a expulsão dos espanhóis que colonizavam as ilhas. Logo após a vitória na guerra contra a Argentina pela soberania do território em 1982, as Malvinas (ou Falklands) passaram a fazer parte do singular imaginário político do Reino Unido.

Com cacife incrementado, o alvo de disputa de apenas 12 mil quilômetros quadrados tornou-se cartada de um jogo que, ainda hoje, envolve blefes, bacias inexploradas com suposto potencial petrolífero e discursos com ranço colonialista. A pauta, concordam analistas britânicos e argentinos, é uma solução diplomática que obrigatoriamente passa pela soberania dos seus 2,5 mil habitantes.

No final das contas, são eles que decidem: Malvinas ou Falklands? As recentes manifestações dos “kelpers”, como são chamados na Argentina, indicam que a segunda opção continua fortíssima. O jornal local, Penguin News, crítico à presidente argentina Cristina Kirchner, chegou a classificá-la de “bitch” em seu site, o que foi rapidamente retirado do ar.

Para o Reino Unido, o preço para manter as ilhas como território ultramarino é alto e a crise econômica bate à porta. A “era da austeridade” implantada pelo primeiro-ministro David Cameron, conservador como sua predecessora no cargo durante a guerra, Margaret Thatcher (1979-1990), aumentou impostos e cortou gastos, expondo uma fraqueza no poderio britânico e dando margem a especulações. Com um grande porém: negociar as Malvinas envolve questionar a validade de uma campanha que deixou 255 mortos e, conseqüência disso, rancor em centenas de famílias britânicas.

Orgulho e conveniência

“As Falklands, em grande medida, não tinham qualquer valor antes da guerra. Depois dela, bilhões de libras esterlinas foram gastas em sua defesa. Hoje, o governo britânico não tem escolha, a não ser continuar defendendo as ilhas. Não é politicamente aceitável devolvê-las porque, em primeiro lugar, foram o cenário de um guerra recente, e também pelo dinheiro que já foi gasto em mantê-las”, afirmou ao Opera Mundi o pesquisador Benjamin Jones, do departamento de Defesa da King’s College, em Londres.

O sentimento é bastante diferente da dubiedade do período pré-guerra, quando as ilhas eram tratadas como relíquias de um império em decadência. A vontade dos moradores, durante a década de 1970, não estava na mesa. Defender as Malvinas, a 14 mil quilômetros de distância, era uma tarefa considerada impossível pelos britânicos, que assistiam a uma crise sem precedentes em seu próprio território no início dos anos 1980, com níveis de desemprego acima da casa dos três milhões.

As Malvinas contavam em 1982 com uma guarnição insignificante, muito diferente do que se vê hoje. A população é de 2.500; hoje os militares são outros 1.700. Antes da guerra os custos eram ínfimos, na década de 1980 passaram das 4 bilhões de libras esterlinas (cerca de R$ 11 bilhões).

Em uma entrevista ao jornal La Nación em 2006, Carlos Ortiz de Rozas, ex-embaixador argentino no Reino Unido durante a guerra pelas ilhas e ex-presidente da Assembleia Geral da ONU, conta que antes do golpe de Estado que deu início à ditadura militar argentina (1976-1983), Buenos Aires e Londres estavam “muito perto” de chegar a uma solução diplomática para o conflito.

Segundo ele, em 1971, o governo de Juan Domingo Perón assinou um “acordo de comunicações” que previa a permissão para que os habitantes das ilhas estudassem em colégios ingleses na Argentina e que a YPF (Yacimentos Petroliferos Estatales), então estatal, se estabelecesse nas ilhas.

Três anos depois, a embaixada britânica em Buenos Aires propôs a Perón um convênio – aprovado pelos conselhos legislativo e executivo das ilhas – que daria dupla nacionalidade aos habitantes das Malvinas, que teriam governadores nomeados alternadamente pelo Reino Unido e pela Argentina. Perón aceitou, mas morreu duas semanas depois e o documento não chegou a ser assinado.

Sua esposa e sucessora, María Estela Martínez de Perón, conhecida popularmente como “Isabelita”, acreditava não ter força política para convencer a opinião pública dos benefícios da “soberania dividida”. O confronto armado levado a cabo em 1982 pela ditadura – iniciada após o golpe que derrotou Isabelita em 1976 – arruinou as possibilidades de acordo. Para Ortiz de Rozas, a guerra foi uma decisão política “equivocada e dramática” que “atrasou o relógio da história por muitíssimo tempo”.

Desde então, a soberania britânica continua uma questão “emotiva”, acima da econômica. A administração das ilhas é deficitária. A economia gira em torno de um parco turismo e pesca de lula. A maior parte dos empregos é gerada pelo governo britânico. A exploração de petróleo nas bacias do Atlântico Sul trariam um alto custo, com o qual o Reino Unido já afirmou que não arcará sozinho.

“O governo britânico adoraria reduzir os gastos com a guarnição, por exemplo. Mas não há resolução do problema de soberania enquanto os moradores das ilhas queiram permanecer submetidos ao Reino Unido. Para a atual administração britânica, a autodeterminação da população das Falklands é ponto-chave, enquanto para os argentinos trata-se de uma área física, que poderia ser parte de seu território”, apontou Jones. “Eu não vejo solução”.

Tensão crescente

A disputa pela soberania das ilhas ganhou novos capítulos com a proximidade do aniversário da guerra. Durante seu discurso na 66ª Assembléia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), em setembro do ano passado, a argentina Cristina Kirchner afirmou que os recursos naturais pesqueiros e petroleiros das Malvinas são “subtraídos e apropriados ilegalmente por quem não tem nenhum direito”.

A presidente peronista acusou o governo britânico de ignorar resoluções da Assembleia da ONU e da OEA (Organização dos Estados Americanos) de que a soberania das ilhas deveria ser dialogada: “Diversos fóruns (…) do mundo inteiro reclamam através de resoluções e declarações o tratamento desta questão e o Reino Unido se nega sistematicamente a cumpri-lo e obviamente utilizando sua condição de membro do Conselho de Segurança com direito a veto para isso”, alegou.

Cristina Kirchner chegou a ameaçar a permanência da permissão dos voos que partem do Chile em direção às ilhas sobrevoando o território argentino. Também afirmou que “não é necessário ressaltar que ninguém pode alegar domínio territorial a mais de 14.000 km de ultramar”, queixando-se das “verdadeiras provocações, ensaios de mísseis em maio e julho” do ano passado.

O agravante da troca de faíscas foi a acusação feita pelo primeiro-ministro britânico de “colonialismo” argentino pela insistência em reivindicar as Malvinas, informando que convocou o Conselho Nacional de Segurança de seu país para abordar a situação nas ilhas. O aumento do tom se deveu ao apoio recebido pela Argentina de países do Mercosul, da Unasul e da Celac, que concordaram em bloquear a passagem de embarcações que ostentem a bandeira ‘ilegal’ das Malvinas por seus portos.

Placa indica proibição para navios com bandeira britânica das Malvinas em portos argentinos

Placa indica proibição para navios com bandeira britânica das Malvinas em portos argentinos

Em fevereiro, o envio de um navio de guerra do Reino Unido à região, quase ao mesmo tempo em que o príncipe William, herdeiro da coroa britânica, chegou às ilhas para a realização de exercícios militares como piloto de caça, foi classificado de “irresponsável” pela presidente argentina, que pediu a Cameron que desse, “pela primeira vez, uma chance à paz e não à guerra”.

Dias depois, a diplomacia argentina denunciou a militarização do Atlântico Sul às Nações Unidas, argumentando que a Grã-Bretanha não cumpre com o tratado de Tlatelolco, que proíbe armas nucleares na América Latina, devido ao envio de um submarino nuclear à região em disputa.

“O Atlântico Sul é, talvez, o último refúgio de um império em decadência. É o último oceano que controlam”, disse, na ocasião, o chanceler argentino Héctor Timerman, denunciando que a capacidade militar britânica nas Malvinas tem alcance para atingir todo o território argentino e uruguaio, a metade do chileno e o sul brasileiro.

Visão alternativa

Como reação ao aumento das tensões, um grupo de intelectuais, jornalistas e políticos argentinos – entre os quais se encontram a socióloga Beatriz Sarlo e o jornalista fundador do Página 12 – , assinaram uma carta aberta, há um mês e meio, em que propõe uma “visão alternativa” para resolver o conflito.

“A afirmação obsessiva do princípio ‘As Malvinas são argentinas’ e a ignorância ou desprezo do avassalamento que este supõe debilitam a reivindicação justa e pacífica de retirada do Reino Unido e sua base militar, e fazem impossível avançar em uma gestão dos recursos naturais negociada entre argentinos e habitantes das ilhas”, escreveram, propondo não a incursão ao patriotismo, mas sim o abandono da “causa Malvinas” para “elaborar uma visão alternativa que supere o conflito e contribua para sua resolução pacífica”.

Um dos autores, Vicente Palermo, pesquisador principal do Conicet (Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas) e membro do Clube Político Argentino, acredita que a estratégia diplomática de chegar à ação conjunta regional para impedir a passagem de barcos às Malvinas é “um erro”. “Governos como Chile, Uruguai e Brasil estão reticentes em relação a esta medida, que poderia implicar em custos econômicos e políticos. Esta não seria a melhor solução para desmilitarizar a região”, explicou ao Opera Mundi.

Para o pesquisador, a resistência dos habitantes das ilhas aos avances argentinos é compreensível e a saída para neutralizar o conflito seria uma redefinição global da questão, “uma mudança de 180º”. “A alternativa supõe a oferta de uma cooperação multidimensional que deixe de lado a soberania e inclua os recursos econômicos, energéticos, pesca, turismo, preservação do meio ambiente”, disse.

Fonte: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/reportagens/20904/disputa+pelas+malvinas+ainda+coloca+argentina+e+reino+unido+em+jogo+de+orgulho+e+conveniencia.shtml

 

Guerra das Malvinas marcou queda da ditadura argentina e renascimento de Thatcher

Enquanto a Argentina vivia os anos de chumbo, a Dama de Ferro buscava manter o controle do Reino Unido

Aqueles dias de abril e maio são lembrados até hoje por muitos habitantes das províncias litorâneas do sul argentino. Os que eram crianças, menos, mas sempre com o discernimento de que passaram a vivenciar uma estranha rotina ao longo daqueles meses em que, durante as noites, os carros quase não circulavam e, quando o faziam, tinham os faróis tapados com fita opaca isolante, deixando somente um centímetro de abertura, para a saída de um rastro de luz.

Às vezes no meio das aulas, soava um alarme que sinalizava o início das simulações de evacuação, bem parecidas às vistas em escolas japonesas para terremotos. Cada criança tinha sua tarefa definida, como desligar o aquecedor a gás, antes de se enfiar debaixo das cadeiras, ou ser levada, com os demais, para o porão da escola. Todos sabiam o que deveriam fazer no caso de um bombardeio inglês ao território argentino, naquele ano de 1982, o da Guerra das Malvinas.

O cenário mais atípico foi visto em Río Gallegos que, segundo relatos, “parecia uma cidade fantasma”. Por ser um dos pontos do continente mais próximos às ilhas Malvinas e abrigar a base de onde decolavam constantemente aviões que atacariam as frotas inimigas no Atlântico Sul, o município era visto como o principal alvo caso os ingleses decidissem atacar a Argentina para tentar definir a guerra.

Com a cidade completamente às escuras, o limite territorial não seria identificável. As cidades vizinhas também se uniam ao operativo, que passava a ser menos exigido, como um exercício intermitente, nas cidades mais distantes de Río Gallegos, tanto para o extremo sul como para o norte.

Enquanto neste ponto do mapa a tensão foi inserida na rotina da população, em Buenos Aires o clima era mais festivo – pelo menos no começo da guerra.

Quando em 2 de abril correu a notícia de que os soldados conseguiram desembarcar nas ilhas, içando a bandeira celeste e branca, uma multidão inimaginável tomou conta da Praça de Maio para aclamar ao general Leopoldo Galtieri, então presidente da ditadura militar argentina (1976-1983). Em um entorpecimento nacionalista, bandeiras eram agitadas e uma massa humana saltava do chão aos gritos de “quem não pula é inglês” e “viva a pátria!”.

Ao longo dos dias, bandeiras foram penduradas nas varandas de inúmeros edifícios, colorindo a capital argentina de azul e branco. Oito dias depois da primeira comoção popular da praça celebrando a guerra, Galtieri discursou novamente para o público que se reunia em frente à sede do governo, alentando a euforia popular, com as famosas palavras: “Se quiserem vir que venham, que apresentaremos batalha”.

Vídeo de Galtieri ovacionado na Praça de Maio:

Crise de autoestima

Às 9h45 daquele 2 de abril, a então primeira-ministra britânica Margaret Thatcher já informara seu gabinete de que uma invasão às Malvinas era iminente. Desde janeiro daquele ano, os governos de Reino Unido e Estados Unidos, do ex-presidente Ronald Reagan, mantiveram laços estreitos nas negociações com Galtieri – sem êxito. A Operação Rosario, codinome para atacar a guarnição das ilhas, estava em curso.

No fim daquela tarde, a população britânica recebia as primeiras notícias da tomada das Malvinas, às quais denominam como Falklands. Mesmo que muitos nem soubessem onde ficavam as ilhas – incluindo membros do alto escalão do governo e do exército – uma foto foi o bastante para despertar a ira dos britânicos. Nela, oficiais argentinos mantêm deitados, de barriga para baixo, um grupo de fuzileiros da realeza.

Despertar a ira dos britânicos no início da década de 1980 era tarefa simples. Thatcher, que assumira o mandato há três anos, via seu país passar por uma profunda crise econômica e social – e especialmente de autoestima.

No verão de 1981, o Reino Unido assistiu, pasmo, a uma série de graves distúrbios em 40 cidades. O mais famoso, em Brixton, sul de Londres, é comparado aos distúrbios que eclodiram na capital britânica no ano passado. Carros e edifícios queimados eram cenário de uma cidade tensa, que implodia após forte fricção racial.

Margaret Thatcher e Leopoldo Galtieri usaram a Guerra das Malvinas para consertar problemas internos em seus países

Margaret Thatcher e Leopoldo Galtieri usaram a Guerra das Malvinas para consertar problemas internos em seus países

Em janeiro de 1982, o número de desempregados passou pela primeira vez da marca de três milhões e Thatcher balançava no cargo. Sua situação era cada vez mais delicada até que as Malvinas, antes vistas como uma relíquia esquecida e incômoda do império britânico, tornaram-se uma boia de salvação.

Em 3 de abril, 24 horas após a Argentina de Galtieri ter tomado as Malvinas, a Dama de Ferro perdeu seu secretário de Relações Exteriores, Lord Carrington, que decidiu renunciar. No fio da navalha, Thatcher decidiu lançar a Operação Corporate: mobilizar as tropas e expulsar os argentinos. Oficiais do exército, que estavam se preparando para passar o feriado de Páscoa com familiares, tiveram de deixar os planos para trás e embarcar para uma guerra a 13 mil quilômetros de casa.

Nacionalismo contra crise

Além das concentrações multitudinárias na Praça de Maio, a população argentina passou a hostilizar qualquer referência à terra da monarca Elizabeth II na capital do país. Um dos vitimados por representarem o “inimigo” foi o histórico Bar Británico, em Buenos Aires, na esquina das ruas Defensa e Brasil, cujas vidraças foram apedrejadas. Apesar de pertencer a espanhóis, o bar teve as três primeiras letras de seu nome suprimidas e se camuflou temporalmente sob pseudônimo “Bar Tánico”.

A eclosão nacionalista parecia ser a salvação para os problemas internos da Argentina, gerados por uma intensa crise econômica, falta de apoio a Galtieri e crescente descontentamento popular com a repressão. Pressionados internacionalmente por milhares de denúncias de violações aos direitos humanos contra civis, os militares no poder transformam a permanência da ditadura em uma questão de soberania nacional.

Até mesmo opositores, que apenas três dias antes participaram da primeira grande manifestação massiva contra a ditadura, na qual cerca de 50 mil pessoas pediam “Paz, pão e trabalho”, naquela mesma Praça de Maio, aderiram às comemorações pela recuperação das Malvinas, então ocupada há 150 anos pelos ingleses.

Se as reivindicações argentinas representaram, nos anos anteriores à guerra, uma ameaça de incursão nas ilhas do Atlântico Sul pelo regime militar, o início imediato do operativo não era esperado pelos britânicos. Mesmo com o anúncio da contra-ofensiva inimiga, que acabou recebendo o apoio da ONU e do governo de Reagan, a euforia popular e a solidariedade com os “heróis” que partiram do continente “em apoio à pátria”, eram crescentes.

Propagandas governamentais eram veiculadas por rádio, TV e jornais, destacando como o país caminhava rumo à vitória. Mobilizada, a população doava dinheiro, jóias e alimentos para ajudar aos jovens combatentes enviados às ilhas, junto a cartas de apoio e agasalhos tricotados voluntariamente em milhares de casas nas diversas províncias do país. Soube-se mais tarde que a maioria das doações nunca chegou ao seu destino final.

Propaganda do governo argentino durante a guerra:

Cartada arriscada

Com graves problemas de logística, em virtude da distância, os britânicos usaram como base intermediária a ilha de Ascensão, no meio do Oceano Atlântico, a cinco mil quilômetros das Malvinas. Thatcher sabia que, sem superioridade aérea e a 650 quilômetros do continente inimigo, perderia navios. Foi o que aconteceu.

Os pilotos argentinos, classificados como “bastante audaciosos” pelo exército britânico, controlavam os céus das Malvinas e faziam usos de mísseis franceses Exocet, dedicados a romper cascos de navios de guerra. Assim foram a pique o destroyer HMS Sheffield e o navio mercante Atlantic Conveyor, também causando danos graves ao destroyer HMS Glamorgan.

Entre veteranos britânicos, é comum ouvir que a guerra começou de fato quando o HMS Sheffield afundou vítima do Exocet. E que, apesar de melhor preparados que os argentinos, cujas tropas eram formadas majoritariamente por recrutas, as dificuldades logísticas na ilha foram terríveis e as batalhas, tortuosas. Pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial foram usadas baionetas para duelos corpo a corpo.

A cartada de Thatcher era, portanto, muito mais arriscada do que imaginavam. Mas o tempo fechou, os caças Harrier entraram em operação, bloqueando o avanço dos aviões argentinos, o que possibilitou o arriscadíssimo desembarque das tropas britânicas em Porto San Carlos, na costa oeste da ilha principal.

Os agrupamentos caminharam mais de 80 quilômetros, em uma empreitada traumática no frio das Malvinas, até Porto Stanley, sede do governo britânico, chamado de Puerto Argentino pelos argentinos. As batalhas nos arredores da cidade foram cruciais e deixaram centenas de mortos.

Mas a grande polêmica da guerra foi o torpedeamento do General Belgrano, navio argentino que estava fora da zona de exclusão da guerra e rumando para noroeste, ou seja, saindo da área de combate em direção ao continente. O agravante é que o Belgrano foi atingido por um submarino nuclear horas depois de um novo plano de paz ter sido oferecido pelo governo peruano e pela ONU. Morreram 323 pessoas. O tablóide The Sun usou a polêmica manchete ‘Gotcha’, dizendo que os britânicos tinham colocado “os argentinos de joelhos”.

A Guerra das Malvinas só acabou mais de um mês depois, em 14 de junho de 1982, com a tomada de Porto Stanley. Em 74 dias, morreu um total de 907 pessoas. Tombaram 649 argentinos, 255 britânicos e três mulheres civis, atingidas, segundo relatos, por fogo amigo. Com a autoestima do ex-império recuperada, Thatcher permaneceu no poder até 1990, muito em virtude do sucesso da operação. Entre analistas, é notável o reposicionamento do Reino Unido no jogo global depois da guerra.

Enquanto os veteranos britânicos foram recebidos com pompa, soldados argentinos entraram no país quase escondidos pelas Forças Armadas e foram alvo de desdém. Eram mais de 11 mil prisioneiros sobreviventes deportados de volta ao continente. A alegada irresponsabilidade da operação aumentou o desprestigio da junta militar, que dois dias depois inicia uma transição à democracia.

O fracasso argentino nas Malvinas também adianta a queda de Galtieri, removido do cargo no dia 18 de junho, apenas quatro dias depois do fim da guerra. Meses mais tarde, já com o general Reinaldo Bignone no poder, o regime ainda sente o peso da rejeição popular e acaba convocando eleições presidenciais para outubro de 1983. Era o fim do pesadelo argentino dos anos de chumbo.

Fonte: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/reportagens/20849/guerra+das+malvinas+marcou+queda+da+ditadura+argentina+e+renascimento+de+thatcher.shtml

Mais de 700 ex-combatentes cometeram suicídio após a Guerra das Malvinas

Argentinos e britânicos evitam ligar mortes a sequelas dos campos de batalha, mas casos de depressão e estresse são comuns

Há quem até hoje não consiga dormir. Coturnos afundados na lama, corpos sangrando, companheiros morrendo e o perigo iminente de um ataque protagonizaram, durante anos, os pesadelos de muitos argentinos e britânicos que participaram da Guerra das Malvinas, em 1982. Vítimas das sequelas psicológicas das frentes de batalha, muitos viram no suicídio o último recurso contra o tormento e a angustia.

Apesar da falta de dados oficiais em ambos os países, estima-se que a quantidade de veteranos que tiraram as próprias vidas ultrapasse as sete centenas. Do lado britânico, as mortes no pós-guerra teriam superado as da campanha: pelo menos 264 suicídios foram contabilizados, contra 255 mortos em combate, segundo a SAMA82 (South Atlantic Medal Association 82) – grupo que reúne cerca de 3.000 veteranos que integravam as tropas do Reino Unido.

A difusão dos dados alarmantes, há 10 anos, tinha como objetivo chamar a atenção do governo para problemas psiquiátricos entre os veteranos, especificamente o transtorno de estresse pós-traumático. Às vésperas do trigésimo aniversário da guerra, porém, a SAMA82 decidiu não divulgar e não comentar números de suicídios, afirmando que não há provas de que os casos estejam relacionados com a guerra e que o número não ultrapassa a média por habitante do Reino Unido.

“Já chegaram muitas perguntas para a associação sobre esse assunto, gente pedindo números e estatísticas. Conversamos com psiquiatras e militares, e nenhuma evidência mostra conexão entre a guerra e os casos”, afirmou ao Opera Mundi o coronel Mike Bowles, atual presidente da associação. Segundo ele, não há uma lista de nomes de ex-combatentes que cometeram suicídio.

A cifra alarmante de suicídios de veteranos britânicos não chega perto, contudo, dos casos contabilizados na Argentina: segundo organizações de ex-combatentes, as mortes auto-provocadas no pós-guerra chegariam a 450. Segundo César Trejo, fundador da Federação de Veteranos de Guerra, os maiores índices foram registrados durante o mandato do ex-presidente argentino Raúl Alfonsín (1983-1989), pouco após o conflito.

“Era uma coisa tremenda, muita gente se matou. Às vezes escutávamos sobre um ou dois suicídios a cada semana, em diferentes províncias do país. Esta etapa foi muito dura”, lembra, ressaltando que o número de suicídios supera o dos 323 compatriotas mortos durante os combates nas ilhas, apesar de ser inferior ao número total de baixas argentinas durante a guerra, que pelo afundamento do navio General Belgrano chegou a 649.

As razões que levaram a essa taxa de suicidas divergem de acordo com o país. Apesar de terem sido recebidos como heróis no Reino Unido, os veteranos vitoriosos padeceram uma série de problemas psiquiátricos. O terreno difícil, o inverno rigoroso, a falta de equipamentos, comida e abrigo e a necessidade de uso de baionetas na batalha corpo a corpo são lembranças comuns entre veteranos. Muitos deles, apesar de se dizerem preparados para a guerra, foram chamados de última hora, antes de um feriado de Páscoa que passariam com a família.

A vida no campo de batalha foi muito mais complicada do que os combatentes de ambos os países imaginavam. Agrupamentos tiveram de caminhar mais de 40 quilômetros na ilha, entre campos enlameados, com 40 quilos de equipamentos nas costas, até chegar aos arredores da capital, Port Stanley, onde ocorreram as principais batalhas. Passaram frio e fome, e sofreram com congelamentos dos pés e extremidades.

Retorno ao campo de batalha

Bowles, coronel britânico aposentado, esteve envolvido na logística da Guerra das Malvinas e não pisou nas ilhas durante o conflito. Mas como parte da SAMA82 tornou-se responsável por levar ex-combatentes ao campo de batalha. As viagens, segundo ele, são terapêuticas.

Em 2007, no aniversário de 25 anos da guerra, cerca de 250 veteranos do conflito pisaram de novo nas Malvinas para prestar homenagens aos mortos e reencontrar amigos. “A maioria sofria de transtorno de estresse pós-traumático, e a viagem serviu para minimizar o estresse. Achamos que foi bastante importante leva-los para a área do conflito. A recepção dos moradores da ilha, que é um lugar bastante pacífico, também ajudou”, explica Bowles.

“Naquele ano”, continuou o coronel, “um companheiro veio falar comigo que não dormia direito há 25 anos, com pesadelos. Sonhava com lama, sangue, morte e perigo. Ao voltar, ver o lugar e conhecer as pessoas que foram ajudadas pela sua ação mudou tudo. As Falklands hoje são um lugar bastante pacífico.”

A ONG de caridade Combat Stress, cujo patrono é o Príncipe Charles, trabalha diretamente com veteranos de guerra do Reino Unido há 90 anos. A associação promove terapias alternativas para mais de 4.800 ex-combatentes britânicos.

Segundo dados da instituição, leva-se cerca de 13 anos para que um ex-militar com problemas psicológicos busque ajuda. Um acordo assinado em 2010 garantiu à ONG mais 350 mil libras esterlinas (cerca de 1 milhão de reais) para tratar veteranos. Todos os serviços de acompanhamento são gratuitos.

Derrotados e esquecidos

Para descrever a situação dos veteranos argentinos no pós-guerra, o capitão de navio Juan Carlos Ianuzzo utiliza um fenômeno do futebol argentino como base de comparação: “Fomos tratados do mesmo jeito com que a sociedade se relaciona com o Maradona. Se ele faz gol, comemora, mas se não faz, dizem que ele é ruim”, garante.

O paralelo utilizado pelo veterano da marinha exemplifica a mudança de humor na recepção dos combatentes antes e após a guerra. Apesar de terem partido de solo continental rumo às ilhas na condição de “heróis da pátria”, a derrota para os ingleses levou a que fossem recebidos de uma forma completamente antagônica: “Fomos para a guerra em contexto social e cultural de entusiasmo, euforia, algaravia popular e, quando voltamos, nos deparamos com um cenário de angustia da população e de negação por parte dos governos”, explica Trejo.

Secretário-geral da Associação de Veteranos da Guerra das Malvinas, Ianuzzo ressalta que os soldados que regressaram da frente de batalha sofreram um processo de “esquecimento e abandono”, que persiste até os dias atuais: “Na própria festa do bicentenário da independência, em 2010, não fomos convidados. Os veteranos que participaram do ato se enfiaram de gaiatos, quando na verdade, tinham que ter sido os primeiros a desfilar”, exemplifica.

Segundo as associações de veteranos, a falta de reconhecimento pela sociedade e pelo governo argentino derivou nas principais dificuldades sofridas no pós-guerra pelos soldados que combateram nas Malvinas. “Foi difícil principalmente para os recrutas, muitos de 17, 18 anos, que acabaram sendo dados de baixa. No começo não tinham nenhum tipo de apoio, nem médico nem econômico”, explica o capitão.

Trejo lembra que as mutilações de soldados em combate foram tratadas de acordo com a lei de acidentes trabalhistas. “Não tínhamos antecedentes de guerra e havia um desamparo jurídico e institucional absoluto. Tive muitos companheiros com dificuldades para conseguir emprego e ter atenção médica. Em algum momento o governo militar começou a se preocupar em empregar alguns no sistema público, mas isso não chegava a 15% dos combatentes”, relata.

“Muitos soldados ficaram mutilados ou morreram pela pátria. Mas muitos ficaram loucos e se suicidaram devido a esse esquecimento, por terem sido deixados de lado”, garante Ianuzzo, classificando a situação como “frustrante”.

Com a universalização das pensões para ex-combatentes, iniciada nos anos 90 e concluída na década seguinte, o cenário de reconhecimento dos veteranos melhorou. Alguns suicídios, no entanto, ainda são registrados, como no ano passado, quando um sub-oficial se jogou abaixo de um caminhão na cidade portuária de Bahía Blanca.

“Teve gente que ficou muito mal, com muitos temores, não pode escutar um barulho e já se afeta. No fim da guerra não se sabia muito sobre os efeitos do stress pós-traumático, que tem efeitos terríveis”, diz Ianuzzo, que relata ter tido pesadelos com submarinos britânicos espionando seu barco, à espreita de um ataque durante a guerra, mas que hoje agradece por suas boas noites de sono.

Fonte: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/reportagens/20890/mais+de+700+ex-combatentes+cometeram+suicidio+apos+a+guerra+das+malvinas.shtml

Familiares dos argentinos mortos recordam luta para permanência dos corpos nas Malvinas

Os restos dos combatentes falecidos foram reunidos no cemitério de Darwin pelos britânicos

“Se a embarcação avançar, será bombardeada”, escutou o capitão do Lago Lakar, que se dirigia rumo às Malvinas, naquele ano de 1983. A guerra com o Reino Unido pela soberania das ilhas havia terminado e o navio não levava soldados, mas a viagem estava sendo realizada sem autorização britânica ou intermediação de nenhum organismo internacional.

A incerteza a bordo era grande, mas a necessidade daqueles 50 passageiros argentinos em luto de chegar às ilhas pelas quais lutaram e morreram seus familiares fazia com que o medo fosse sublimado. Foram chamados de loucos e irresponsáveis, mas o objetivo não era iniciar um conflito, era somente chegar, conhecer as ilhas onde haviam morrido e estar perto dos filhos, maridos ou irmãos.

Decidiram seguir viagem, apesar dos comunicados à tripulação de que o governo argentino não se responsabilizava pela segurança do navio e de que a embaixada inglesa considerava a empreitada como uma “provocação”, já que as relações diplomáticas com a Argentina foram interrompidas após a guerra.

Detalhe do cemitério de Darwin, local onde está enterrada parte dos 649 argentinos mortos na Guerra das Malvinas

Detalhe do cemitério de Darwin, local onde está enterrada parte dos 649 argentinos mortos na Guerra das Malvinas

O mau tempo, no entanto, se encarregou de impedir um mal maior: a ferocidade das ondas durante um forte temporal quase virou a embarcação, e os tripulantes decidiram voltar ao continente. Na impossibilidade de pisar no solo localizado a 550 quilômetros da Argentina e 14.400 quilômetros do Reino Unido, reivindicado como pátrio por ambos os países, os passageiros jogaram suas oferendas em alto mar.

A viagem não foi concretizada, mas a ideia permaneceu: ir ao local onde estava enterrada parte dos 649 argentinos que morreram durante os 74 dias de guerra com a coroa britânica no ano anterior. Os restos mortais dos combatentes, antes espalhados pelos 90 quilômetros do frente de batalha, haviam sido reunidos no chamado cemitério de Darwin, após algumas tentativas britânicas de transladar os corpos à Argentina.

“Como os argentinos tinham sido enterrados no mesmo lugar em que foram mortos,  este solo passa a ter um caráter inviolável, segundo a legislação internacional e a mentalidade britânica. Então é claro que os ingleses se incomodavam com o fato de que quase toda a ilha estivesse ocupada simbolicamente pelos argentinos, que se espalhavam por lá”, explica ao Opera Mundi César Trejo, veterano da guerra e representante da Comissão de Familiares dos Caídos nas Malvinas e nas Ilhas do Atlântico Sul.

Frente à pergunta de uma jornalista sobre a “repatriação” dos corpos – termo britânico utilizado para definir o desejado envio dos restos mortais dos combatentes à Argentina – uma mãe respondeu: “como você me faz essa pergunta se eles estão em sua pátria?”

Sem anuência do governo argentino ou dos familiares, que decidiram que os falecidos “descansariam” no local pelo qual lutaram, os corpos foram reunidos. O Reino Unido apelou à fiscalização do CICV (Comitê Internacional da Cruz Vermelha) para a exumação dos corpos e a instalação no cemitério construído na parte traseira da ilha. “Muitas tumbas ficaram sem nome, porque cadáveres já identificados pela parte argentina não foram identificados pelos britânicos”, conta Trejo.

Em 1991, os familiares finalmente conseguiram a intermediação da Cruz Vermelha e do governo argentino para uma visita ao cemitério de Darwin. As condições estipuladas para a viagem, segundo a comissão, foram excessivamente restritas: placas de homenagem, virgens com água benta no interior, bandeiras argentinas, e outros itens que seriam deixados nas tumbas, até então só adornadas com cruzes brancas, foram barrados no aeroporto.

“Partimos às nove da manhã. O voo durou aproximadamente duas horas e meia e quando estávamos chegando, nos pediram para que fechássemos as janelas. Não podíamos ver nada, nem tirar fotos”, relata Salvador Antonio Vargas, pai de um recruta morto na guerra. O grupo de familiares foi “escoltado” durante todo o dia em que permaneceu nas ilhas.

Marcas argentinas

Anos mais tarde, a recepção aumentou e na primeira vez que puderam abrir as janelas do avião, todos os passageiros choraram ao ver como o terreno verde das ilhas era delimitado pelo oceano azul. Nas novas viagens, que duravam até uma semana, percorreram pontos onde permaneciam restos de trincheira, itens de batalha e pertences pessoais de soldados, aproveitando para coletar terra, areia e água dos de lugares onde seus parentes combateram os britânicos.

O aspecto do cemitério, no entanto, provocava desconforto. Era uma região descampada e os visitantes oravam sobre tumbas onde o único símbolo religioso eram as longas filas de cruzes brancas das tumbas que abrigavam os restos mortais dos soldados. Chegou-se então à conclusão de que se deveria haver uma homenagem aos mortos, um símbolo da religião predominante na Argentina e alguma proteção do vento frio que, intenso, castigava os visitantes.

Após cinco anos de negociação com o governo britânico, que administra as ilhas, a comissão viu um monumento, projetado por dois arquitetos argentinos, ao redor do cemitério, que ostentava o nome dos 649 combatentes mortos durante a guerra e uma virgem que passou por uma procissão por todas as províncias do país.

Questões abertas

Recentemente, uma polêmica foi levantada pelo pedido de exumação dos corpos, feito por familiares ligados a um centro de ex-combatentes, para a realização de exames de DNA que comprovassem a identidade dos enterrados no cemitério de Darwin. A proposta é motivo de lágrimas entre muitos integrantes da comissão: “ninguém vai mexer no corpo do meu filho para identificar outro. Já sabemos que os 649 morreram”, queixa-se um deles.

As esperanças alimentadas sobre a possível sobrevivência de combatentes é compreensível. Houve casos em que a notícia da morte foi recebida pelas famílias através de entrevistas televisivas com regressados das ilhas, que contavam onde atuaram, com qual oficial e em qual tropa. Relatos transmitidos com a utilização de verbos no passado para se referir a soldados eram motivo de desespero e em alguns casos somente objetos pessoais trazidos por companheiros de batalha foram a prova decisiva da morte de um combatente.

“Passei os 74 dias da guerra na igreja, ajoelhada dia, tarde e noite, rezando o rosário”, lembra Delmira de Cao, presidente da Comissão de Familiares, que recebeu um falso alarme de que o filho Julio teria voltado ao continente e estaria internado em um quartel, ainda durante a guerra. “Mas ele não estava na lista de feridos”, disse ela, que como muitos outros familiares, mantinha a esperança do regresso, com vida, do filho.

“Passei os 74 dias da guerra na igreja, ajoelhada dia, tarde e noite, rezando o rosário”, lembra Delmira (na foto, com a neta Julia)

“Passei os 74 dias da guerra na igreja, ajoelhada dia, tarde e noite, rezando o rosário”, lembra Delmira (na foto, com a neta Julia)

Em seu livro Malvinas: histórias breves e sentimentos, Vargas conta como ao longo do tempo foi reconstruindo, por meio de relatos fragmentados de companheiros de seu filho, o episódio que interrompeu a vida de Alejandro Pedro. Ao lado de outros soldados, “Ale” foi atingido por uma mina anti-tanques após entrar em uma casa vazia de um habitante das ilhas, em busca de alimentos e casacos para se proteger do frio. Anos depois, Vargas voltou às ilhas para pedir desculpas aos descendentes do morador que teve um pulôver roubado.

O relato de sobreviventes que atuaram ao lado de falecidos foi essencial para que muitos dos familiares pudessem realmente acreditar na perda que acabavam de sofrer. Em muitos casos, as versões oficiais durante e após a guerra eram contraditórias e pouco precisa em relação às mortes. Pais, irmãos e esposas recorriam às informações diárias publicadas nos jornais na esperança de encontrar alguma referência sobre seus seres queridos.

Quando Delmira finalmente recebeu a versão oficial do falecimento do filho, foi através de um capitão de relato hesitante. “Exigi saber se ele tinha sido enterrado, se ficou jogado, se foi socorrido. Ele me disse que era muito difícil contar o que aconteceu a uma mãe e eu disse que não importava quão dura fosse a verdade, que queria saber de tudo”, relata.

Professor de primário em bairros carentes e com uma mulher grávida, Julio foi às ilhas apesar de muita resistência dos pais. “Como você acha que eu poderia dar aulas, falar aos meus alunos sobre a pátria, sobre San Martín e Belgrano, se me esconder embaixo da cama e não defender minha bandeira?”, disse o jovem à mãe, dando fim às discussões.

Nos dias de batalha, o soldado enviou à diretora da escola uma carta, onde desabafou sobre as circunstâncias da guerra: “Vivemos em poços de 1 x 2 metros aproximadamente (poços de raposa), de dois em dois soldados, a umidade da terra é nossa maior companheira”, escreveu, explicitando aspectos e combates que preferiu não relatar à família para evitar preocupações.

Em uma mensagem que foi lida aos alunos, conta: “(…) logo vamos estar juntos novamente, fechar os olhos e vamos a subir no nosso imenso condor e vamos dizer-lhe que leve a todos nós para o país dos contos, que como vocês sabem, fica muito perto das Malvinas. E agora que o professor conhece muito bem as ilhas, não vamos nos perder.”. Julio foi atingido nas costas por um projétil que “o partiu no meio” quando descia do Monte Logdon, no dia 14 de junho.

Heróis x vítimas

Entre os familiares de soldados mortos em combate, é difícil encontrar algum que concorde com a hipótese de que a guerra foi apenas mais um episódio da ditadura militar argentina (1976-1983), que se via imersa em uma crise de apoio popular quando as tropas do país desembarcaram nas ilhas do Atlântico Sul no dia 2 de abril, há 30 anos, içando a bandeira pátria.

“Muitos soldados eram críticos ao regime, mas se apresentaram para ir à guerra. No dia em que reconquistamos as ilhas e uma multidão lotou a Praça de Maio, muita gente descontente com o governo gritava ao general Leopoldo Galtieri que ele era um bêbado, que não podia estar discursando na sacada de Perón. Era a comemoração pelas tropas que estavam lá, não ao regime”, diz Delmira, sobre os insultos ao presidente da ditadura em 1982, malfadado por sua embriaguez.

Como exemplo de que os argentinos apoiaram espontânea e massivamente a reconquista das Malvinas, mencionam os milhares que se candidataram para ir à guerra, a iniciativa de milhares de pessoas de escrever cartas de apoio aos soldados e de doar dinheiro, jóias, alimentos e cachecóis, luvas, pulôveres e gorros tricotados pessoalmente para que os combatentes enfrentassem as dificuldades nas ilhas.

A mobilização foi tamanha que a junta militar teve que emitir um comunicado, em 1º de maio, pedindo à população para que suspendesse o envio de doações, já que “a capacidade de armazenamento se fazia dificultosa”, por superar a capacidade de carga dos transportes disponíveis. A arrecadação das doações foi de 54 milhões de dólares, quase o dobro do utilizado para o envio das tropas, segundo o então ministro da Fazenda.

“A história da guerra deve ser contada por seus protagonistas”, dizem os veteranos, que frequentemente afirmam que a Argentina passou por um processo de “desmalvinização” no pós-guerra. Segundo ele, isso foi alimentado por um discurso ideológico que deixa de lado o reconhecimento aos combatentes e a reivindicação pelas ilhas, dando lugar a uma aventura militar promovida pela ditadura, que maltrata e tortura jovens de 17 anos, que são seus próprios soldados.

“Em algum momento tem que se reivindicar a luta pelas Malvinas e isso requer a ‘remalvinização’. E isso também implica em não mais tratar os combatentes como vítimas, e sim como heróis nacionais. A guerra não se deveu somente a um bêbado.”, salienta Trejo.

Fonte: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/reportagens/20869/familiares+dos+argentinos+mortos+recordam+luta+para+permanencia+dos+corpos+nas+malvinas.shtml

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