ESPECIAL AZIZ AB’SABER – uma reportagem sobre o falecimento do grande mestre, sete entrevistas impressas e três entrevistas em vídeo, além de links para mais reportagens

Morre Aziz Ab’Sáber, decano da geografia física no Brasil

Aziz Nacib Ab’Sáber, pesquisador da USP e um dos maiores especialistas em geografia física do país, bem como uma voz ativa nos debates sobre biodiversidade e preservação ambiental, morreu na manhã desta sexta-feira, às 10h20, em São Paulo. Ele tinha 87 anos.

A informação foi dada pela SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), instituição que Ab’Sáber presidiu de 1993 a 1995 e da qual era presidente de honra e conselheiro.

Ab’Sáber morreu em casa. “Ele tomou café, sentou na cama e deu um suspiro. Morreu em seguida, foi fulminante”, disse Nídia Nacib Pontuschka, irmã do geógrafo. Ela afirma que a causa da morte ainda não foi identificada, mas suspeita-se que tenha sido um infarto ou um derrame.

A SBPC confirmou que o corpo de Ab’Sáber será velado no Salão Nobre do prédio da administração da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (Rua do Lago, 717, Cidade Universitária, São Paulo), das 19h às 22h. O velório será reaberto amanhã a partir das 8h e o enterro será às 11h no Cemitério da Paz, no Morumbi.

Ab’Sáber nasceu em São Luís do Paraitinga (SP) em 24 de outubro de 1924. Seu pai era libanês.

Foto de arquivo do geógrafo Aziz Ab'Saber, ao receber o troféu Juca Pato como intelectual do ano de 2011

Foto de arquivo do geógrafo Aziz Ab'Saber, ao receber o troféu Juca Pato como intelectual do ano de 2011

Embora já estivesse aposentado, Ab’Sáber continuava publicando livros e sendo um observador arguto das controvérsias políticas envolvendo a questão ambiental.

Envolveu-se, por exemplo, com a discussão do novo Código Florestal, que pode alterar as áreas de preservação obrigatórias em propriedades particulares, nos últimos dois anos.

Segundo a SBPC, o geógrafo criticou o texto por não considerar o zoneamento físico e ecológico de todo o país, deixando de lado a importância da diversidade de paisagens naturais no Brasil.

O estudioso também chegou a sugerir a criação de um Código da Biodiversidade para implementar a proteção a espécies da flora e da fauna.

Ab’Sáber deixa cinco filhos, seis netos e um bisneto.

LAUREADO

O site da SBPC traz uma extensa lista dos prêmios recebidos por Ab’Sáber ao longo da carreira. Destacam-se o Prêmio Jabuti em ciências humanas (1997 e 2005) e em ciências exatas (2007), o Prêmio Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia (1999), concedido pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, a Medalha de Grão-Cruz em Ciências da Terra pela Academia Brasileira de Ciências; e o Prêmio Unesco para Ciência e Meio Ambiente (2001), concedido pelas Nações Unidas.

REPERCUSSÃO

Segundo a presidente da SPBC, Helena Bonciani Nader, Ab’Sáber dava atenção especial aos estudantes e jovens pesquisadores.

“Ele era sempre ouvidos e se dedicava a todos, principalmente aos jovens. Conseguia transmitir para os estudantes a importância da ética e da moral como poucos. A gente brinca que ele era um aliciador de jovens para o saber. Perdemos um grande amigo e a ciência perde um batalhador, que sempre lutou por seus valores e pelo o que acreditava ser o melhor para o país.”

Luiz Davidovich, membro da diretoria da ABC (Academia Brasileira de Ciências), diz ter recebido a notícia da morte de Ab’Sáber com grande pesar.

“Ele era um vulto da ciência nacional. Deu grandes e importantes contribuições para a geografia. Além disso, teve presenca marcante como cidadão, lutando sempre para o desenvolvimento da ciência e tecnologia no país.”

Em nota, Marco Antonio Raupp, ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, afirmou que Ab’Sáber já fazia parte da história intelectual brasileira há muitos anos. “Agora ele entra para a eternidade, mas seu legado de centenas de trabalhos continuará a nos guiar pelos caminhos que conheceu como poucos, como os da geografia, da ecologia, da biologia evolutiva, da geologia e da arqueologia.”

Ele disse ainda que Aziz era dono de uma lucidez irrequieta e de uma formidável capacidade de lançar ideias muito à frente do senso comum.

“Bom exemplo dessa característica de Aziz Ab’Saber foi seu posicionamento nas recentes discussões do novo Código Florestal, não para repetir clichês ou acentuar antagonismos, mas sim para propor a criação de um Código da Biodiversidade –avanço que um dia o Brasil certamente consolidará.”

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva também enviou uma nota, por meio de seu instituto, lamentando a morte do geógrafo. Eles estiveram juntos nas Caravanas da Cidadania, viagens que Lula, membros do PT, além de especialistas de diversas áreas, fizeram pelo país nos anos 90.

“Aziz Ab’Saber foi, sem dúvida, um dos maiores geógrafos que o Brasil já teve. Seu profundo conhecimento da geografia e seu compromisso inabalável com o povo brasileiro foram fonte de inspiração para todos nós. (…) Sua presença sempre ativa, crítica e opinativa foi fundamental e ajudou a construir muitas das políticas públicas brasileiras. E foi assim que ele se manteve até seus últimos momentos. Aziz deixará muita saudade, mas o conhecimento que ele transmitiu a todos nós continuará, com toda certeza, presente em nossas ações.”

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/1062853-morre-aziz-absaber-decano-da-geografia-fisica-no-brasil.shtml

AZIZ NACIB AB’SABER Nova Escola

Revista Nova Escola edição 139 Janeiro de 2001.Professor emérito da USP acredita que a educação deve se basear no conhecimento regional e na descoberta de talentos
Paola GentileConhecer detalhadamente o território brasileiro foi um dos grandes objetivos de vida de Aziz Nacib Ab’Saber. Ao longo de 75 anos — 58 deles ligados ao estudo da Geografia e da Geomorfologia — ele não só conheceu cada palmo de nosso chão como ajudou a descobrir e a classificar o relevo, relacionando-o com sua história, sua economia e sua gente. Tornou-se uma das vozes mais respeitadas em Geoecologia.Professor emérito e membro do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), ele acredita que uma educação eficiente só é possível quando o aluno tem intimidade com o lugar onde mora. Filho de um imigrante libanês e natural de São Luiz do Paraitinga (SP), Aziz Ab’Saber relembra nesta entrevista a importância que alguns professores tiveram na sua vida e conta histórias de suas viagens.NOVA ESCOLA> Um dos papéis da educação é formar cidadãos. Como a Geografia pode ajudar?

Aziz Ab’Saber< A educação é o meio pelo qual a criança se integra ao processo civilizatório e à sociedade. Ela deve ter três bases: o domínio do saber acumulado, as oficinas de talentos e o conhecimento da região. É aí que entra a Geografia, com sua capacidade de ajudar o aluno a entender o local onde vive. Só assim ele poderá, mais tarde, atuar sobre esse ambiente. Por isso, todo professor precisa dominar seu entorno, sua população e seus problemas. Não basta saber o be-a-bá e usá-lo em leituras inconseqüentes de velhos livros didáticos.

NE> O que são as oficinas de talento?

Ab’Saber< São espaços didáticos cuja função é estimular as crianças em algumas direções. Eu insisto que o foco da educação deve ser o estudo de soluções para problemas regionais. Na beira do Amazonas, é fundamental pensar na melhor forma de navegá-lo; no sertão do Nordeste, cabe às oficinas refletir sobre como conseguir água o ano todo. No Pantanal, a questão é estimular as formas de economia que protegem a biodiversidade. Em todos os casos, o ideal é abrir caminho para unir o que as pessoas já sabem com o que podem descobrir, se forem incentivadas. A recuperação do conhecimento regional e um professor disposto a procurar e incentivar talentos podem mudar a realidade nacional. Esse é o papel do educador competente.

NE> Muitos professores já estão caminhando nessa direção?

Aziz Ab’Saber< No geral, ainda não. O mais comum é investir em escolas técnicas ou em alfabetização. É preciso ensinar o aluno a diferenciar, entre tudo o que se pode aprender, as questões que realmente interessam a ele a partir do ambiente em que vive. Entre os professores de Geografia, porém, vejo avanços no que diz respeito a conhecer a região.

A Educação Básica deveria preocupar-se em incentivar o aluno a construir o conhecimento da região em que vive”

NE> O senhor propõe uma regionalização do ensino, o que contraria a Lei de Diretrizes e Bases e os Parâmetros Curriculares Nacionais…

Ab’Saber< Sim, eu faço uma crítica aos mentores desses processos formais. Fazer leis baseadas em índices de repetência e regras gerais para um país de escala continental, com sociedade desigual e necessidades diferenciadas, não leva a nada. Na minha opinião, o papel do professor de Educação Básica deve ser o de incentivar os alunos a construir o conhecimento da região onde vivem, desde os limites territoriais até as características geográficas, econômicas e políticas. Essas informações servirão para ele se localizar como cidadão e sempre servirão de base para qualquer estudo de espaços maiores, as chamadas macro-regiões. Nesse sentido, um estudante da Bahia precisa conhecer as outras regiões do país. Isso é importante, claro. Na verdade, é um conhecimento acumulado e, portanto, menos fundamental que os objetos de estudo imediato. Por tudo isso, repito: o primeiro passo deveria ser incorporar a filosofia do processo que se baseia no saber local, investir na formação dos professores e, só então, exigir resultados melhores.

NE> Como, então, deve ser a formação do professor?

Ab’Saber< Eu não concordo com o academicismo das universidades, que se enchem de conteúdo para currículo. Uma questão só deve ser escolhida para análise se tiver como finalidade a busca de soluções para ela. Como eu já disse, em Geografia isso está começando a se tornar comum. Por isso sou um geógrafo entusiasmado.
NE> Quem o influenciou na escolha da profissão?

Ab’Saber< Um professor de História do ginásio. Ele me mostrou que os processos históricos não estão desligados do chão e dos alimentos cultivados. Na faculdade, História e Geografia eram ensinadas juntas. Não tive dúvidas na decisão. Eu precisava estudar as duas ciências, refletir sobre espaços que modificavam-se através dos tempos e estudar tempos diferentes no mesmo espaço.

NE> Qual foi sua primeira excursão científica?

Ab’ Saber< No primeiro dia de aula o professor Pierre Monbeig organizou um trabalho de campo. Saímos de São Paulo rumo a Itu, Salto, Campinas e Jundiaí. Até então, meu conhecimento geográfico se resumia a São Luiz do Paraitinga e arredores. Pensando melhor, aquela não foi minha primeira viagem marcante. Quando eu tinha 5 anos, meu pai nos levou até Ubatuba. Fomos a cavalo pela velha Estrada do Café, que estava abandonada. Eu ia em um lado do jacá (cesto usado para levar alimentos no lombo de animais) e meus irmãos menores, do outro. Passamos pelas fazendas que rodeavam a cidade, entramos na zona de transição, com produção agrícola de subsistência, passamos por terras particulares, mas sem uso. Na trilha, conhecemos a floresta que precede a serra do mar. Pingava muita água das folhas, pois essa é uma região úmida, como todo setor de alto de serra. Ao fazer a excursão na faculdade, senti como se fosse a continuidade de um interesse que tinha brotado naquela viagem a Ubatuba.

NE> O senhor conhece o Brasil inteiro?

Ab’Saber< Conheço todos os domínios geográficos. Só não fui ao Alto Solimões e ao Sul da Bahia. Minhas viagens sempre foram aventureiras. Num Carnaval, ainda jovem, fui de trem com o Miguel (Costa Júnior, geógrafo) para Aragarças, na divisa de Goiás com Mato Grosso. Saí do mar de morros rumo ao Brasil Central: chapadões enormes, vales em forma de veio aberto, florestas em forma de galerias imensas. Três ecossistemas formando uma família de ecossistemas dentro do corpo geral. Foi uma descoberta maravilhosa.

NE> Quando o senhor conheceu o Nordeste, a região que mais mereceu sua atenção profissional?

Ab’Saber< Foi durante uma reunião da Associação dos Geógrafos, no Recife. Todos diziam que não havia nada para ver no sertão. Era essa a visão da época. Fomos a Campina Grande e Patos, na Paraíba. Saímos dos tabuleiros, entramos na Borborema. Em seguida, o sertão dos Cariris Velhos. Descemos pela banda seca do planalto. De repente, avistamos o sertão verdadeiro. Aquela enorme planura ondulada, revestida por caatingas, com algumas rochas pontilhando os espaços. Descobri que o que se chamava de alto sertão era, na verdade, o rebaixamento dos relevos da região. Fiz questão de visitar todos os outros Estados com áreas áridas. Concentrei-me no conhecimento dessa região para analisar, discutir e, principalmente, criticar as propostas erradas.

NE> Como a vida acadêmica ajudou no desenvolvimento de suas pesquisas?

Ab’Saber< Depois de concluir a faculdade, dei aulas em alguns colégios, mas logo comecei a especialização. Participei da fundação do Centro Capistrano de Abreu, que me abriu as portas para a Associação dos Geógrafos. Isso foi fundamental, pois me permitiu viajar, expor e publicar meus estudos. Além disso, aconteceu comigo um episódio que mostra como é importante o professor estar atento aos talentos de seus alunos. Kenneth Kaster, da Cincinatti University, estava na USP para um período de dois anos como professor convidado do curso de pós-graduação em Geologia e Paleontologia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Ele era muito bom, mas tinha dificuldade de passar seu conhecimento das viagens de campo. Eu, quando repetia suas aulas para os colegas, acrescentava minhas observações. Reparando nisso, ele me chamou para conversar. Perguntou se eu era vaidoso, e, em seguida, se aceitaria o cargo de jardineiro, o único que estava vago no departamento, só para ser assistente dele. Pensei, pensei… e aceitei. Fiquei três meses no cargo, arrumando a biblioteca, aí passei para técnico de laboratório.

“A criação de vilas olímpicas nos campos onde as crianças jogam bola urbanizaria o entorno carente” 

NE> E quando o senhor assumiu o cargo de professor?

Ab’Saber< Eu tinha problemas de saúde e os exames médicos não me deixavam subir na carreira. Fui técnico de laboratório de 1946 a 1965. Já era mestre, doutor e livre-docente quando me tornei professor assistente.

NE> O senhor hoje faz um trabalho diferente para um geomorfologista, estuda a periferia de São Paulo. Por quê?

Ab’Saber< Tenho feito isso por conta própria, desde o início do ano. Depois de várias discussões sobre menores em situação de rua, desperdício de alimentos e outros temas, alguns colegas me pediram para desenvolver um projeto para a periferia, a exemplo das vilas olímpicas construídas no Rio de Janeiro. Visitando aos sábados os lugares onde as crianças jogam bola na periferia, descobri que eles têm uma geografia. São terrenos públicos ou particulares, que podem virar minivilas olímpicas sem muito dinheiro. Basta plantar algumas árvores para delimitar o espaço, marcar as quadras e criar dois ranchos: um para mães com crianças pequenas; outro para adolescentes, com espaço para a prática de dança ou capoeira, por exemplo.

NE> Quem vai adquirir e assumir isso?

Ab’Saber< A própria comunidade, com apoio dos órgãos competentes. As minivilas podem estar ligadas às escolas, que são bem distribuídas na periferia. O prédio escolar fica reservado às crianças, aos professores e à transmissão do conhecimento. Os centros de vivência passam a ser usados pela comunidade e para educação informal. Eu também instalaria um fogão para fazer uma feijoada, um sopão, um evento social. A remodelação dos campinhos é o primeiro passo para a revitalização do entorno carente. Eu mesmo promovo eventos assim para testar. E dá certo. Com pouco dinheiro é possível mudar a geografia urbana.

NE> Como são suas aulas para essas crianças de periferia?

Ab’Saber< Primeiro converso com as mães, nos campinhos. Depois, trabalho com os filhos. Certa vez levei prancheta, papel e lápis e pedi para as crianças criarem um desenho qualquer. Assim conheço a realidade local. Na segunda aula promovo um passeio pelo bairro, partindo da escola ou da praça mais próxima, para observar o entorno, suas características e problemas. Peço que as crianças escrevam tudo o que vêem. E aí emprego todos os estímulos possíveis. Esse é o princípio da filosofia da escola nova: escolher a melhor maneira de incentivar os alunos e extrair o que eles têm de melhor.

Educador Ambiental entrevista Aziz Ab’Saber
Ea nº 1: Educador Ambiental entrevista Aziz Ab’SaberO Educador Ambiental procurou o geógrafo, Aziz Ab’Saber, atual presidente da SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, para trocar idéias sobre EA, falar dos maiores desafios desta área transdisciplinar do conhecimento e como o Brasil deveria se preparar para introduzir seus conceitos no dia a dia dos currículos escolares.Educador Ambiental: Como o Sr. define Educação Ambiental?

Aziz Ab’Saber:
 É um processo que envolve um vigoroso esforço de recuperação de realidades e que garante um compromisso com o futuro. Uma ação entre missionária e utópica, destinada a reformular comportamentos humanos e recriar valores perdidos ou jamais alcançados. Trata-se de um novo ideário comportamental, tanto no âmbito individual como coletivo.

EA: 
Como integrá-la em nosso dia a dia? É fácil?AAS: É impossível falar em EA voltando-nos exclusivamente para a escala planetária ou para a escala nacional. Pelo contrário. Ela envolve todas as escalas. Começa em casa. Atinge a rua e a praça. Engloba o bairro. Ultrapassa as periferias. Repensa o destino dos bolsões de pobreza. Atinge as peculiaridades e diversidades regionais para, só depois, integrar, em mosaico, os espaços nacionais.Trata-se de um processo educativo que envolve ciência e ética e uma renovada filosofia de vida. Trata-se de mudar enfoque, ajudando a preservação da biodiversidade IN SITU; reintroduzindo a vegetação onde for possível; seqüestrando o gás carbônico liberado para a atmosfera nos últimos 100 anos da Revolução Industrial; multiplicando os bancos de germoplasmas necessários à produção de alimentos; reintroduzindo biomassas de interesse ambiental, social e econômico.

EA: Mas como se faz isso do ponto de vista prático?

AAS: EA exige método, noção de escala, boa percepção das relações entre tempo, espaço e conjunturas, conhecimentos sobre diferentes realidades regionais. E, sobretudo, códigos de linguagem adaptados às faixas etárias do alunado. É um processo que necessariamente revitaliza a pesquisa de campo, por parte dos professores e dos alunos. Implica em um exercício permanente de interdisciplinariedade – a prévia da transdisciplinariedade. Elimina teorizações elitistas e aperfeiçoa novas linhas teóricas, em bases mais sólidas e de entendimento mais amplo. É um passo fundamental para a reconquista da cidadania.
Na prática, teremos que manter por um bom tempo a educação formal como está hoje tentando introduzir a EA de forma a conquistar um espaço tal que permita que elas se misturem e a EA perpasse todas as áreas do conhecimento.

EA: O que já existe em outros países pode ser aproveitado e adaptado em EA?

AAS:
 Não há como impingir noções genéricas para habitantes da beira de um lago ou das margens de um rio na Amazônia e estendê-las para os moradores dos sertões do Rio Grande do Sul. Ou ainda pretender usar conhecimentos e posturas relacionados aos litorais do Brasil atlântico para os habitantes de favelas dos grandes centros. A EA deve gerar conhecimento local e ser trabalhada dentro dessa perspectiva sem perder de vista sua integração com o mundo.

EA: Como a universidade poderia ajudar a ampliar ou acelerar este processo?

AAS:
 Não acho que a universidade seja o lugar dos deuses, o ponto de referência único. A sociedade está mais dinâmica hoje e pode perfeitamente colaborar para que o processo seja ampliado tanto na universidade, quanto através de grupos esclarecidos. No entanto, é preciso notar que deve haver um esforço na direção de integrar o conjunto das idéias novas sobre EA ao estoque de conhecimentos disciplinares tradicionais da educação formal.

Questão hídrica: necessidade de estudos e soluções mais eficazes

Geógrafo, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, autor de diversas teorias e projetos inovadores na geografia brasileira, tendo recebido o Prêmio Santista e o Prêmio Almirante Álvaro Alberto, oferecido pelo CNPq, o prof. Aziz Ab’Saber demonstra grande preocupação com meio ambiente.

Em abril deste ano, Ab’Saber declarou que a frase mais triste que já ouviu ao longo de sua vida foi “Mãe, nós não temos mais nada nesse mundo”. A frase foi proferida por uma criança para sua mãe, cujo barraco havia desmoronado após um temporal. À época, o professor afirmou que gostaria de repetir tal frase a FHC, ACM, Covas e outros políticos no poder. “As autoridades têm que aprender a complexidade do metabolismo urbano para dar uma solução à cidade”, disse. Ab’Saber referia-se a conhecimentos básicos, como quantidades de lixo e esgoto produzidas pela população.

Antes de autoridades se darem conta, Ab’Saber já afirmava que despoluir o rio Tietê é uma grande utopia. “Não adianta querer limpar o rio, pois seus afluentes, pré-poluídos, continuarão nutrindo a insalubridade”, afirmou.

Como os grandes geógrafos, Ab’Saber não consegue discorrer sobre a questão hídrica de forma isolada. Tudo no meio ambiente interage, e o papel que se joga no chão hoje, pode ser a gota d’água para inundar as cidades amanhã.

Com Ciência – O Brasil pode ser considerado um país rico em mananciais?
Ab’Saber
 – O Brasil, por sua extensão territorial e sua posição predominantemente entre os trópicos, com “pequena grande” área subtropical, é um dos países mais beneficiados por rios perenes do mundo. Ainda assim, há uma área de cerca de 750 mil km2 – o nordeste seco -, em que as drenagens são intermitentes. Trata-se de uma região grande, cerca de três vezes o estado de São Paulo. Observado em seu conjunto, o Brasil tem riquezas de recursos hídricos importantíssimos, atingindo seu ápice na Amazônia.

CC- A Amazônia possui reservas de água gigantescas – o suficiente para abastecer 500 milhões de pessoas durante cem anos. Que condições favorecem essa riqueza de recursos?
Ab’Saber
 – As precipitações dentro do território brasileiro são suficientes para garantir a perenidade de quase 7,5 milhões de espaços territoriais, sobretudo na Amazônia, onde as chuvas anuais variam entre 1600 e 3500 mm por quase 4 milhões de km2. Há regiões mais chuvosas, como Baixo-Amazonas e noroeste da Amazônia, e menos chuvosas, como a faixa transversal que vai de Roraima até as proximidades do Araguai. Mesmo assim, não houve impecilhos para se formar a floresta contínua, devido à colaboração do clima quente e úmido.

CC – Esse fenômeno não ocorre em regiões próximas à Amazônia, como nordeste seco e Brasil central. Quais as diferenças essenciais entre o cerrado (Brasil central) e a caatinga (nordeste seco)?
Ab’Saber 
– As variedades climáticas em regiões próximas apresentam características próprias. O nordeste seco apresenta drenagens intermitentes sazonais e abertas ao mar e o Brasil central caracteriza-se por clima tropical com uma estação chuvosa e outra relativamente seca, mas rios perenes – essa é a grande diferença entre os domínios dos cerrados e o das caatingas. As médias anuais de chuva no cerrado chegam a ser de duas a três vezes mais que as da caatinga. Para comparar, a região que recebe menos chuva no nordeste seco possui média pluvial anual de 268mm, sendo 850mm o máximo registrado.

CC – Como se comportam as chuvas na região tropical atlântica?
Ab’Saber
 – No Brasil tropical atlântico, que começa na faixa dos climas tropicais úmidos, na região costeira do nordeste, e vai se alargando na direção da Bahia, os rios são longos e muitas vezes nascem em climas secos e passam para o úmido. A partir do sul de Minas Gerais, essa área se interioriza muito, passando pelo Estado de São Paulo e do Paraná – viabilizando o clima subtropical e úmido deste estado e encerrando-se na porção oriental de Santa Catarina. Quando chega no planalto das araucárias, continua havendo chuva suficiente para manter cursos d’água importantes e perenes.

CC – O Sr. acha que, entre outros motivos, a riqueza hídrica da Amazônia é pólo de atração de interesses estrangeiros?
Ab’Saber 
– Sim. Uma das razões por que existe grande interesse em fazer o Brasil perder sua soberania sobre a Amazônia é essa. Muitos países não têm mais recursos hídricos disponíveis e, não sei porquê, acham que poderiam transportar para suas terras as águas da Amazônia – o que implicaria um custo imenso.

CC – Mas se há tanta água no Brasil, por que estamos passando por problemas tão sérios, como o racionamento de água da cidade de São Paulo?
Ab’Saber
 – Não basta verificar as condições de existência de águas em função da natureza climática e da perenidade das drenagens. O problema é mais sério. Trata-se da questão da distribuição de populações urbanas, indústrias, e espaços agrícolas mais importantes, que precisam de água natural e de água para realizar pivô para irrigação em terras mais secas, tornando-as produtivas. Essa distribuição anômala faz com que falte água em muitos lugares, sobretudo nas áreas metropolitanas. A grande São Paulo, por exemplo, tem cerca de 17 milhões de habitantes, enquanto Cuba e outros países têm por volta de 3 milhões. São Paulo, então, requereu, requer e requererá tanta água, que é difícil pensar em uma solução adequada.

CC – Por que o racionamento de água foi adotado? Quais os problemas que o Centro-Sul enfrenta que levaram a essa medida emergencial?
Ab’Saber
 – As águas nessa região destinam-se a quatro campos: água potável, água para fins industriais, água para serviços e limpeza pública e água para atender ao período de estiagem – entre agosto e setembro. Em função da grandiosidade espacial da região metropolitana e da exeqüibilidade de recursos locais – cabeceiras e manaciais que são diversos, mas não muito importantes -, toda a região está ameaçada. São Paulo nasceu na cabeceira do rio Tietê, mas de repente a cidade estorou e até a Cantareira corre perigo, devido à má administração e ao mal gerenciamento da serra tombada. Pessoas ricas estão subindo de Mairiporã para a Cantareira, de forma a olhar para São Paulo como se fosse um belvedere. No entanto, a única vista que terão será a da poluição. O problema hídrico deixou de ser uma questão associada apenas às taxas de precipitações, mas ao balanço entre as precipitações e a quantidade de água necessária para manter a população metropolitana, as indústrias, os serviços etc. Assim, São Paulo vai buscar água em locais cada vez mais distantes. É o caso de águas em regiões além-Cantareira, como Campinas, que já precisam capturar recursos de Minas Gerais, pois as águas disponíveis nas regiões mais próximas já foram capturadas pela Grande São Paulo. De modo geral, as capturas de água foram feitas das aguadas da Cantareira e do Alto Rio Grande e nas cabeceiras dos rios Pinheiros e Tietê. Mas isso é insuficiente para atender às necessidades da metrópole. Estamos, portanto, em um impasse: temos que buscar água além da bacia de São Paulo, mas muitos casos exigem altos custos e energia para fazer a transposição de águas de terrenos mais baixos para a cidade.

CC – O Sr. disse certa vez que despoluir o rio Tietê é uma prática inviável. Por quê?
Ab’Saber
 – As águas que são fundamentais para abastecimento são poluídas devido ao crescimento urbano caótico e envolvimento de algumas áreas de represamento de água que deveriam doar água permanentemente para São Paulo e, hoje, são poluídas antes de ser tratadas. O próprio tratamento tem muitos problemas – excesso de cloro e outras substâncias, principalmente no período em que as águas começam a secar – e a qualidade do recurso cai muito. Sendo os afluentes poluídos previamente, é impossível despoluir um rio como o Tietê.

CC – A situação de emergência em relação à poluição de recursos hídricos é uma questão apenas brasileira?
Ab’Saber 
– Em algumas partes do mundo a situação é até pior. Em certas cidades da Europa ocidental, os chafarizes históricos tradicionais estão soltando águas com espuma. Mas se levarmos em conta o volume de espumas que sai do Tietê a partir do alto vale do Tietê até pouco depois da cidade de Salto, tem-se um dos maiores valores de poluição hídrica do mundo. São águas fora de qualquer possibilidade de uso. Isso ocorre porque a drenagem tropical é muito densa e tem muitos córregos que estão entremeados por vida urbana, favelas e bairros carentes etc, e recebem, então, uma carga poluente que desemboca nos rios Tietê e Pinheiros.

CC – Como São Paulo deve pensar o futuro para solucionar essa questão?
Ab’Saber
 – A cidade deve pensar em muitas estratégias para resolver o problema. Água subterrânea é muito pouco. Serviria para um ou outro lugar na bacia de São Paulo, oferecendo poucos metros cúbicos por segundo de água. O lençol de água subterrânea mais importante hoje é o chamado lençol Guarani, mas esse lençol começa bem para dentro da depressão periférica, dirigindo-se à bacia do Paraná, ao oeste, o que é longe de São Paulo. Talvez algum dia haja uma idéia tecnocrática de fazer perfurações no lençol Guarani para trazer água a São Paulo sem grandes gastos de energia. A situação é altamente preocupante e pede estudos permanentes e soluções com hierarquia de prioridades.

Fonte: http://www.comciencia.br/entrevistas/aziz/aziz01.htm

UM BREVE FUTURO DA NATUREZA
UM DOS MAIS ATIVOS GEÓGRAFOS DO PAÍS DEFENDE A NECESSIDADE DE UM MEGAGERENCIAMENTO ECOLÓGICO EM LONGO PRAZO COMO ÚNICA ALTERNATIVA PARA ATENUAR A DEVASTAÇÃO AMBIENTAL NO BRASIL

POR SIMONE SAYEGH FOTO SOFIA MATTOS

Projetar o espaço construído só é possível com o entendimento do espaço natural. E essa questão é absolutamente intrínseca ao trabalho atual dos arquitetos. Ao entender o que acontece no espaço natural é possível projetar o futuro e medir suas conseqüências – afinal, é no futuro que existe a obra construída, assim como o impacto causado na cidade e em seus habitantes. E é exatamente esse impacto que o professor Aziz Nacib Ab’Sáber conhece como ninguém. Ab’Sáber iniciou suas primeiras atividades em 1945, como professor em diversos colégios de São Paulo e logo passou a lecionar em faculdades. Em 1965 finalizou seus trabalhos de mestrado e doutorado. Foi assistente do geólogo e paleontólogo Kenneth Caster. Entre 1979 e 1983 atuou como diretor do Instituto Bio-Ciências e Ciências Exatas da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e publicou trabalhos em várias áreas científicas da geografia. Mais conhecido como geomorfologista, seus estudos abrangem desde considerações acerca das condições climáticas de eras geológicas do passado até preocupações bem atuais, como a geografia urbana de metrópoles subdesenvolvidas, estratégias de proteção da biodiversidade, paisagismo ecológico e toda gama de trabalhos e artigos sobre o impacto do desenvolvimento urbano no ecossistema de uma determinada região. Apesar do caráter científico de suas pesquisas, participou de diversas lutas pela preservação ambiental, tendo contribuído pelo tombamento da Serra do Mar, no Estado de São Paulo, em 1986. A seguir, trechos da entrevista concedida por Ab’Sáber no IEA (Instituto de Estudos Avançados) da USP.

aU NOTÍCIAS SOBRE DESMATAMENTO E PREJUÍZOS À FLORESTA AMAZÔNICA são quase diárias. ATÉ QUE PONTO O ECOSSISTEMA DA AMAZÔNIA ESTÁ COMPROMETIDO? HÁ MOTIVOS PARA O CONSTANTE ALARME DAS ORGANIZAÇÕES NÃO-GOVERNAMENTAIS?

AZIZ NACIB AB’SÁBER A situação do centro-sul do Pará é gravíssima. Devido a uma série de processos, ampliou-se o desmatamento em índices superiores a 60%. E isso vem acontecendo desde 1975, quando se iniciam as construções de estradas sem a menor previsão de impacto ambiental, pois na época não se fazia isso, não se conheciam métodos. É dramática a situação da Terra do Meio, como é chamada a região, e motivos para preocupação não faltam.

aU OU SEJA, HÁ MAIS DE 30 ANOS ESSA REGIÃO DO PARÁ É AGREDIDA E NÃO EXISTEM MECANISMOS DE CONTROLE?

AB’SÁBER O que aconteceu foi que a partir das estradas foram sendo abertas ramificações quase ortogonais até o coração da selva, algumas vezes com muitos quilômetros de extensão, e dessas ramificações foram surgindo sub-ramais tangentes à estrada, como uma grande espinha de peixe, que formaram quadrângulos com espaço até para os aviões dos grandes especuladores. Essas áreas devastadas são muito extensas, quarteirões inteiros, e até hoje não existem medidas restritivas.

aU ESSAS ESTRADAS E RAMAIS SERVEM PARA QUÊ E PARA QUEM?

AB’SÁBER Esses ramais foram sendo abertos por trabalhadores contratados por míseros salários para extração de madeiras nobres – portanto as madeireiras se beneficiam. Após a extração, a área devastada é ocupada pela agropecuária, ou seja, serve para pastagem de gado. Nos últimos anos vem sendo ocupada pela cultura da soja. E a mão-de-obra da região, pobre e sem cultura, serve a esses grandes especuladores que exploram os trabalhadores a ponto de, depois de realizada a extração ilegal, abandoná-los, quilômetros e quilômetros adentro, sozinhos, sem água ou comida. É um verdadeiro estado paralelo, onde fazendeiros tomam conta de tudo sem o menor gerenciamento governamental.

aU O QUE PODERIA SER FEITO PARA ACABAR COM ESSE “ESTADO PARALELO”?

AB’SÁBER Em primeiro lugar não existem respostas fáceis. Assim como a questão da seca não será resolvida com a transposição do rio São Francisco, como alguns políticos eleitoreiros e populistas querem nos fazer crer, o problema da devastação na Amazônia só será controlado quando for efetivamente conhecido. Em primeiro lugar é preciso dividir a região em quarteirões e enviar grupos de estudo a cada setor, e, a partir do conhecimento das atividades econômicas de cada vila, é que poderemos formular respostas e implantar programas. Existe uma frase de um amigo que resume bem a questão. Ele diz: “é preciso um desenvolvimento com um máximo de floresta em pé”. Sem um gerenciamento ecológico não há saída. E sem vontade política também não.

aU O QUE PODEMOS ESPERAR DA TRANSPOSIÇÃO DO SÃO FRANCISCO?

AB’SÁBER Com relação a isso, tem acontecido uma fantástica parafernália de argumentos parciais e desintegrados, que servem para embaralhar o entendimento da mídia e provocar decisões arbitrárias dos governantes. Em alguns casos, são formulados relatórios antiéticos, totalmente tendenciosos, para respaldar este ou aquele interesse – e no caso da transposição são muitos os interessados: as grandes construtoras, os políticos estadualistas e grandes empresas. Para que a pretensa transposição possa receber um primeiro aval de cientistas e intelectuais esclarecidos, o projeto deve atender aos diferentes segmentos das populações sertanejas residentes na região.

aU DE QUE FORMA ISSO PODE SER FEITO?

AB’SÁBER Temos que exigir uma reforma agrária regional capaz de prevenir os destinos dos eventuais setores irrigáveis que possam ser elaborados ao longo das bacias hidrográficas da região. Além disso, deve-se prever um sistema de compensação para os “vazenteiros”, pessoas que produzem alimentos nos leitos dos rios nos meses de seca. Essa obra deve ser pensada caso a caso, e contar com recursos para implantar programas regionais diferenciados.

aU MAS AFINAL, A TRANSPOSIÇÃO RESOLVERIA O PROBLEMA DA SECA NO NORDESTE?

AB’SÁBER Há que saber que a transposição das águas do São Francisco para o semi-árido nordestino não tem qualquer força para resolver os problemas que afligem o Polígono das Secas. Por favor, espero que não digam que a transposição vai resolver o espaço social total do semi-árido nordestino. Não basta verificar as condições de existência de águas em função da natureza climática e da perenidade das drenagens. O problema é mais sério. Trata-se da questão da distribuição de populações urbanas, indústrias e espaços agrícolas mais importantes, que precisam de água natural e de água para realizar o pivô para irrigação em terras mais secas. Essa distribuição anômala faz com que falte água em muitos lugares, sobretudo nas áreas metropolitanas. A grande São Paulo, por exemplo, tem cerca de 17 milhões de habitantes, enquanto Cuba e outros países têm por volta de 3 milhões. São Paulo, então, requereu, requer e requererá tanta água que é difícil pensar em uma solução adequada.

aU NÃO SÓ O ESPAÇO NATURAL APRESENTA PROBLEMAS AMBIENTAIS. A CIDADE GERA INÚMEROS PROBLEMAS QUE FOGEM DA ÓTICA ECOLÓGICA. É POSSÍVEL HAVER UM CRESCIMENTO URBANO CONTROLADO?

AB’SÁBER As cidades estão crescendo em área e em altura, e se esse crescimento não for controlado e retardado, será um desastre no futuro. A população cresce junto com a especulação imobiliária e as pessoas que estão no poder só conseguem enxergar o futuro a um mandato de distância. E, mais que nunca, o futuro deve ser visto a diferentes profundidades de tempo, percebido ao longo de 50, 100, 200 anos. O Estado de São Paulo, por exemplo, tem uma área de 250 mil quilômetros quadrados onde vivem 40 milhões de habitantes distribuídos em 570 municípios. Mas esse espaço corresponde somente a 3,45% da área total do Brasil e representa uma das mais densas redes urbanas do hemisfério sul. Como será quando as áreas cultiváveis e os rios forem todos tomados pelo urbano? Como será quando as cidades se emendarem? Teremos água e comida para todos? A megaconurbação é uma possibilidade real que exige um imediato planejamento.

aU SE O PROBLEMA DA CONURBAÇÃO DAS CIDADES É UMA POSSIBILIDADE, QUAIS AS CONSEQUÊNCIAS IMEDIATAS DE TODA ESSA AVALANCHE URBANA?

AB’SÁBER Inúmeras e gravíssimas. A desmesurada supressão de florestas para a produção de espaços agrários, a poluição hídrica por dejetos urbanos e industriais e a poluição do ar provocada pela liberação cumulativa de gases e partículas e por uma frota gigantesca de automóveis. Somente esses fatores já contribuem para a acentuada mortalidade infantil, a alta incidência de doenças pulmonares e o envelhecimento precoce de trabalhadores braçais, com forte diminuição na expectativa de vida da população mais carente. Para atenuar as numerosas questões envolvidas é necessário enfrentá-las de modo permanente, integrado e flexível.

aU EXISTEM SOLUÇÕES A CURTO E MÉDIO PRAZO?

AB’SÁBER Ainda são válidas campanhas a favor da coleta seletiva de lixo e da proteção das árvores das vias urbanas. Ou ainda campanhas para evitar que córregos e praças públicas virem depósitos de lixo. A educação ecológica é necessária pois garante pequenas atitudes de uma maior consciência. Agora, em um segundo nível, estão as questões ligadas ao saneamento básico que dependem da vontade política: a coleta organizada do lixo urbano, o transporte e a destinação terminal de resíduos e materiais perigosos, a extensão e ampliação de redes de esgoto, a captação e tratamento de água potável, a diminuição forçada e dosada de agrotóxicos e produtos químicos em áreas de agricultura comercial extensivas, enfim, o uso correto e adequado de todas as posturas de engenharia ambiental.

aU MAS E O CONTROLE DO CRESCIMENTO PROPRIAMENTE DITO? COMO CONSTRUIR O ESPAÇO HABITADO DE MANEIRA A CAUSAR O MÍNIMO DE IMPACTO POSSÍVEL NO ESPAÇO NATURAL?

AB’SÁBER A união entre espaço natural e ações cumulativas feitas por gerações e gerações de humanos é chamada espaço total. Para entender suas relações e a influência da implantação de novos planos e projetos é necessária a utilização de todos os dispositivos de medição de impactos físicos, ecológicos e sociais disponíveis. Ao mesmo tempo devemos combater os modelos predatórios de comportamento. Há que moderarmos e, sobretudo, sermos criativos, a fim de obtermos lucros sem destruirmos o capital ecológico e ambiental.

Fonte: http://www.revistaau.com.br/arquitetura-urbanismo/150/o-geografo-aziz-ab-saber-fala-sobre-ecologia-cidades-e-29370-1.asp

É urgente conter o aquecimento global

O papel das universidades é crucial. Elas precisam recuperar e produzir conhecimentos que nos permitam entender a realidade em cada território e enfrentar as mudanças climáticas nos diversos ecossistemas

por Maíra Kubík Mano

Le Monde Diplomatique Brasil – Como a universidade se coloca diante de questões prementes, como as mudanças climáticas?

Aziz Ab’Saber – Uma das questões mais importantes na atualidade é a universidade. Nos últimos tempos houve mudanças, protecionismos especiais, de tal maneira que muitas escolas superiores foram criadas. Estou preocupado com a qualidade do ensino superior, com a pesquisa e com uma espécie de projeção necessária dos conhecimentos a favor do país em termos de sociedade, território, natureza etc.

Meu conceito de universidade é válido para podermos aplicar aos mais diferentes casos de escolas superiores existentes no Brasil e se resume a dizer que uma instituição desse porte tem algumas preocupações fundamentais. A primeira, que depois se desdobra em numerosas outras, é a recuperação do conhecimento acumulado em todos os setores possíveis. Na física, na química, na biologia, na geografia, na geologia, nas ciências humanas essenciais, antropologia cultural, psicologia etc. E com ênfase na tecnologia, por vivermos em um país tão grande e com crescimento rápido, mas muito desigual. Isso significa que a universidade que não tiver um bom conceito em tecnologia certamente é fraca.

Além da recuperação do conhecimento feito pelos homens em todas as épocas e em todos os lugares do mundo há a questão da produção científica. Aí então é que o problema se torna mais sério: universidade que não tem capacidade de produção científica nos diversos ramos do conhecimento não é universidade. Apenas toma um nome que alguém lhe deu eleitoreiramente e economicamente. E essa é a maioria, infelizmente. Não quero atacar nenhuma dessas escolas mais novas porque elas foram muito favorecidas por governantes e por programas como o ProUni (Programa Universidade para Todos, do governo federal), mas é a realidade.

A produção científica passou a ser o básico para avaliar uma universidade. Enquanto a recuperação do conhecimento popular é o passado, a pesquisa científica é o presente visando o futuro. E é esse retorno que as instituições de ensino superior devem dar para a sociedade, temos problemas inumeráveis, alguns inacreditáveis.

Eu sei de um caso em que uma pessoa formada na Universidade de São Paulo, numa área importantíssima em termos de estudo da natureza, a fitogeografia, que conseguiu, através de grande esforço pessoal, os aparelhos necessários para estudar as plantas. Mas até agora esses equipamentos literalmente estão trancados, pelas mãos de terceiros. Além disso, algumas escolas que pretendem ser muito operantes em pesquisas, em setores de grande necessidade para o país, têm apenas um profissional.

Isso ocorre em áreas como fitoquímica, o que não é suficiente para, por exemplo, estudar os ecossistemas: o que implica em trabalho sobre o suporte ecológico do ecossistema, que é o solo, com todos os seus componentes, mais a água e elementos biogênicos, as raízes, os micro-organismos.

O mesmo ocorre com uma biota, o conjunto dos seres animais e vegetais de uma região. Completíssima, a biota tem componentes vegetais, animais e micro-orgânicos, e cada um deles é estudado por pessoas diferentes. É preciso haver equipes, em primeiro lugar, e que elas sejam capazes de estudar essas partes diferentes, mas de forma coordenada.

Isso vale também para algo muito caro: a dinâmica climática mantenedora do ecossistema. O mesmo acontece no caso das ações antrópicas. É preciso estudar os impactos do homem, que se alteram a depender se constrói cidades fantásticas ou caóticas, se o uso do transporte coletivo ou do carro é incentivado etc. Hoje, no Brasil, qualquer pessoa pode comprar um carro – não sei se consegue pagar o financiamento depois – e o resultado é que entre 70% e 80% desses automóveis transportam apenas um passageiro. Pessoas sozinhas, que não levam amigos, familiares, nada. Felizmente os carros se tornaram menores, se eles fossem como há 50 anos seria bem pior.

Diplomatique – Houve também o impulso dos biocombustíveis, que melhoraram um pouco a situação.

Aziz Ab’Saber – Sim. A questão da circulação em relação ao meio ambiente, no caso de veículos que usam biodiesel, e no Brasil, particularmente o álcool, está num patamar um pouco melhor do que no resto do mundo. Eu já estive em cidades na América do Sul em que o cheiro principal era de gasolina. Contudo, pela quantidade dos carros que transitam nas cidades e estradas brasileiras, posso dizer que a situação ainda é muito problemática. Há ainda muita poluição pela emissão de combustíveis.

Diplomatique – Quais outras questões estão postas para os centros urbanos?

Aziz Ab’Saber – Bem, outro conceito fundamental que a universidade deveria cuidar melhor é o de metabolismo urbano. Nos Estados Unidos, na década de 1960, se fez uma conceituação de dados integrativos que ocorrem no mundo urbano.

Trata-se de um estudo sobre a problemática ambiental que está sendo aplicado na prática apenas agora. Diziam que no mundo urbano existia o in up, o flow up e o out up, ou seja, aquilo que entra, o que transita e o que é deletado para os solos, a água, o ar. Essa noção integrativa é importante, mas é preciso melhorá-la, pois o que entra já traz consigo a penetração de poluentes. Por exemplo, cada estrada que vem para São Paulo já é um eixo de poluição antes de chegar ao centro da cidade. E essa poluição é exagerada por duas razões. Primeiro, pela massa de veículos que chega e vem liberando gases. Segundo, pelos gases das indústrias que atingem o centro urbano. Todo mundo se lembra da crise climática em Cubatão (SP), município que fica a menos de 60 quilômetros da capital. Aquilo foi muito grave e ocorreu porque as torres das usinas de tratamento de petróleo e das fábricas iam até 1.300 metros, 1.400 metros de altura e o vento úmido empurrava as nuvens para dentro da cidade.

Ou seja, é uma demonstração de que não houve planejamento para que a cidade se desenvolvesse. Isso é importantíssimo. É preciso haver um senso de planejamento. Esse tipo de tarefa pode ser feita com cursos interdisciplinares nas universidades.

Hoje esses estudos ocorrem, mas são pesquisas isoladas, não têm uma visão do todo e não consegue prever impactos locais, regionais e em especial de maior alcance do desenvolvimento. Prever impactos é ter a condição de fazer análises de um projeto ao longo do tempo. E isso é um dever da universidade.

Diplomatique – Mas também falta diálogo com os governos para formular políticas públicas e com o Brasil crescendo cada vez mais, segundo o discurso econômico atual, isso não é urgente?

Aziz Ab’Saber – Sim, falta diálogo e vontade. De fato, está havendo aquecimento global. A temperatura de São Paulo, por exemplo, subiu consideravelmente nos últimos tempos, resultado principalmente da somatória do calor da superfície, decorrente da industrialização que se expandiu. Claro, muitas indústrias têm saído de São Paulo atualmente, mas o problema do aquecimento não é dependente de uma situação nova, mas da somatória das áreas. Daí entra a discussão sobre o óptimum climático, que aconteceu num período entre 6 mil e 5 mil anos atrás. Naquela época também houve um aquecimento do planeta, mas foi natural, e não causado pelo acúmulo dos gases na atmosfera, como hoje. O aquecimento chegou a tal ponto que elevou o nível do mar em 2,9 metros do registrado hoje. Isso ficou evidente no mar Mediterrâneo, na costa do Líbano, por exemplo. Agora, não. A questão hoje é o excesso de gases jogados pelo homem. É urgente reduzi-los.

Diplomatique – Como o Brasil deve lidar com esse cenário?

Aziz Ab’Saber – Para mim, o principal problema que o Brasil tem que enfrentar é o desmatamento na Amazônia, que é decorrência do neocapitalismo. Fala-se em redução, em desmatamento zero a partir de agora, e evita-se entrar no debate do que já aconteceu. É preciso bloquear o desmatamento, não negociar porcentagens, e isso significa impedir que os espaços virem mercadoria.

Maíra Kubík Mano é jornalista e editora de Le Monde Diplomatique Brasil.

Fonte: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/entrevista-de-ab%E2%80%99-saber-ao-le-monde-diplomatique-em-2009

Uma voz contra a corrente

Um dos maiores intelectuais do Brasil, o geógrafo Aziz Ab‘Saber confronta as conclusões sobre mudanças climáticas feitas pelo IPPC e critica a postura do governo federal na área do meio ambiente

Por Glauco Faria, Anselmo Massad e Mouzar Benedito

Prestes a completar 83 anos, o geógrafo Aziz Ab’Saber exibe em seu discurso uma vitalidade invejável. Um dos maiores estudiosos de sua área no planeta, sua capacidade de análise o deixa bastante à vontade para, por exemplo, confrontar especialistas como os que fazem parte do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). “Não sabem nada, são pessoas da Física, engenheiros e outros. Não dá para confiar neles”, ataca.

Na entrevista abaixo, concedida em sua sala no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP), o professor falou sobre meio ambiente, as soluções hídrícas para o sertão nordestino, e não poupou o presidente da República. “O Lula é um grande esperto. Para poder se reeleger, fez várias reuniões com intelectuais. Uma no Rio de Janeiro foi uma coisa séria, trouxe todos os intelectuais em um restaurante muito rico, todos favoráveis. Depois, ‘até logo'”. Confira um trecho do publicado na revista. A íntegra está na edição em bancas.

Fórum – Muito se discute hoje que, para frear o processo de  aquecimento global, a única alternativa que de fato resolveria seria optar por uma mudança de matriz energética. Nesse caso, pelas condições do país, a escolha seria a energia hidrelétrica mesmo?

Aziz Ab’ Saber – A mais limpa e saudável alternativa é a energia hidrelétrica, mas estamos em um dilema. Ou fazemos essas usinas, ou caminhamos de novo para a energia nuclear, como outros países do mundo vão ser obrigados a fazer. Nem todo país tem os recursos hídricos que o Brasil tem. Aqui, são 78% de drenagens abertas para o mar e perenes. Nossa situação de usar primeiramente as barragens para geração elétrica é favorável do ponto de vista ambiental. Mas, do ponto de vista biológico, no caso da ictiofauna fluvial, vamos ter problemas, mas não dá para resolver tudo. Os ambientalistas que lutam contra essas usinas não estão fazendo o balanço das vantagens da usina. Há desvantagens, mas não é com isso que eles trabalham, e sim com as dificuldades de preservação da fauna fluvial no trecho a montante da barragem.

Fórum – Outro problema para a população ocorre quando não retiram a madeira. Em Tucuruí, por exemplo, aconteceu isso…

Ab’Saber – Mas são obrigados. São obrigados. No projeto, se não houver a remoção lateral da madeira vai ser um problema infernal que você não pode imaginar. É preciso ter ido a um lugar como esse para saber o que é o mau cheiro. Se vai realmente construir a usina, tem que deixar um espaço limpo na floresta. Aí entra outra questão: a área desmatada é muito grande, não é simples. Além disso, é uma área que tem ainda alguns agrupamentos indígenas pequenos, mas extremamente bravios em termos de uso de seu espaço florestal por atividades inundadoras.

Mas ao observar o rio Madeira, entre os confins das terras ligeiramente mais acidentados e os grandes tabuleiros florestados, não é muito fácil encontrar lugares para fazer barragens com certeza de que vai haver sucesso. As empreiteiras não querem saber disso, já há algum tempo pensam fazer dinheiro com essas obras. E o governo faz de conta que não há problemas. É complicado, não sigo diretamente a linhagem de argumentação dos ambientalistas rígidos, que se fixam um pouco demais na piracema do Madeira. Sabe-se que o rio está muito poluído por causa da exploração de ouro e o uso de uma série de produtos químicos perigosos. O rio já tem problemas, e a barragem vai se somar a eles. E, ao mesmo tempo, há outros processos que não serão atendidos no projeto de construção, como a questão da distância. A usina do
Madeira fica muito longe do Centro-Sul do país, o que exigiria obras grandes de transmissão, muito custosas. Acontece que o governo sempre quer fazer obras gigantescas, faraônicas. Quer transpor as águas do São Francisco, fazer barragens no Madeira, que nem conhece direito, nem sabe a distância, tem pouco conhecimento geográfico.

Fórum – O presidente Lula, que viajou tanto com o senhor, modificou a visão que tinha a respeito do país?

Ab’Saber – Nem quero falar nisso, o Lula está em um momento de vaidade tão grande que pensa apenas no currículo do político que ele é para o futuro. “Todo mundo falou em transpor as águas do São Francisco, mas eu fiz as obras.” É muito complexo.

Escrevi muito sobre o assunto na minha coluna na Scientific American. O governo fala que não é a transposição do rio, mas de águas, só que não diz que as águas do São Francisco estão poluídas devido à descarga de tudo à beira do rio – inclusive ao que atende a região de Belo Horizonte [rio das Velhas], e os resíduos sídero-metalúrgicos. Tudo vai para o São Francisco. Descobriram isso tardiamente e decidiram “revitalizar” o rio. Vocês que conhecem a região de São Paulo sabem que tudo o que foi feito para “revitalizar” o Tietê tem sido uma brincadeira de péssimo gosto e demosntra a incapacidade de entender a poluição hídrica. Lá, é pior ainda, são 2 mil quilômetros desde a serra da Canastra até o ponto onde vão se fazer as primeiras obras para a transposição de águas.

E há mais uma coisa. O sistema climático é o mesmo da área de cerrado. Quem vai a Brasília sabe: tem um inverno em que chove muito pouco e, depois, um verão em que chove muito. No Nordeste, durante o inverno astronômico, é muito quente, a água evapora, os rios ficam intermitentes. As chuvas são muito poucas, um quinto das do Brasil central. Elas refrescam o conjunto cheio de calor do sertão, então a população local inverte o nome. O tempo seco é verão, e o de chuvas é inverno. Não é o primeiro lugar no mundo onde isso acontece, no Norte da África também é assim. Um dia desses, falei que o período em que se precisaria de mais água para além-Araripe é exatamente aquele em que o São Francisco está mais baixo. E é preciso manter um nível mínimo para fornecer água para as hidrelétricas de Paulo Afonso, Itaparica e Xingó. Sabe o que o Ciro Gomes disse? Que é exatamente o contrário do que eu disse, porque ele usou os nomes regionais [riso irônico]. Mas não é: astronomicamente, o período de inverno é de muito calor e evaporação e perda de perenidade dos rios. São rios de intermitência sazonária, seis meses para cada um dos períodos bem contrastados. Os outros rios, assim como o São Francisco, também estarão mais baixos, secos até, precisarão de mais água.

Fórum – A transposição tiraria água do São Francisco para levar a outras regiões, mas há projetos da Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (Codevasf) que já retiram água do rio em volumes consideráveis para loteamentos, no modelo de Petrolina e Juazeiro. Há uma série em funcionamento e outros em construção, mas… 

Ab’Saber – O de Petrolina é muito bom, é o único que deu certo, mas não atende socialmente à população. Isso eles escondem. Não dizem quem teve vantagens socioeconômicas com a irrigação de Petrolina. E, por outro lado, no caso do Jaguaribe, que conheço bem, há dois açudes. Vão levar a água para o alto para descer até o Jaguaribe, que é o principal do eixo Leste, o  resto é invenção para mostrar que se pode atender áreas mais remotas. E a água vai cair no açude de Orós, que está salinizado. Águas poluídas em um açude salinizado somente podem ser usadas para irrigação. O discurso de “água para todos”, usado para tapear a população sertaneja, é uma mentira.

Fórum – A estratégia mais correta seria a de pequenos açudes?

Ab’Saber – Não sou eu quem deve estabelecer os pequenos e médios projetos para isso. O governo tinha que pensar na área como um todo. Não ia falar nisso, mas você perguntou. Quando o Lula assumiu, fiz uma carta muito grande, à mão – escrevo à mão, por causa dos olhos – e mandei para ele. Resposta zero. Alguém jogou fora. Nela, eu dizia como atender a regiões de um conjunto territorial muito grande. Para a Amazônia fiz esta proposta: quando o governo assumir, deve reunir em Brasília técnicos, cientistas e pesquisadores honestos e bem-preparados para discutir a floresta. A comissão tem que organizar um método de trabalho para conhecer todas as partes da área. Tinha feito um mapinha no Instituto, com 23 células espaciais da floresta, esquecendo estados, com certa homogeneidade e dentro de um quadrante mais ou menos bem posicionado. Seria organizado um método de trabalho para as pessoas que formariam de quatro a seis equipes para visitar três células espaciais iferentes, para comparar as realidades. Não dá para dizer que a realidade do Alto Rio Negro e o rio Uaupés [noroeste do Amazonas] seja igual ao que está acontecendo na área dos fazendeiros, madeireiros para o Centro-Sul do Pará. Depois, se reuniriam, não em Brasília, nem em capital para não sofrer influências dos governadores, para discutir propostas variadas e diferenciadas para cada local, levando em conta as formuladas pela própria população, durante as enquetes. Gastando menos e fazendo mais. Trabalhei uma semana para escrever uma carta desse tipo [risos]. A gente que trabalha na universidade tem que contestar os cretinos. Dividi a carta em quatro partes e publiquei na minha coluna na Scientific American. Quando ele souber que a carta está publicada, vai ficar p. da vida [risos]. Azar dele.

Fórum – Outros intelectuais reclamam também por não serem ouvidos. O governo não oferece canais de diálogo?

Ab’Saber – O Lula é um grande esperto. Para poder se reeleger, fez várias reuniões com intelectuais. Uma no Rio de Janeiro foi uma coisa séria. Trouxe todos os intelectuais a um restaurante muito rico, todos favoráveis. Depois, “até logo”. Só serviu para dar voto. Fez isso na primeira eleição. Na segunda reuniu também muitos intelectuais.

Fórum – Na questão do aquecimento global, o senhor deu entrevistas falando do Optimum Climático…

Ab’Saber – Optimum Climático é o período há 6 ou 5 mil anos, em que o calor aumentou muito e degelou muita massa de gelo dos pólos, e o mar subiu até três metros. Isso está bem representado nas áreas praianasbrasileiras. Há uma costeira que não encosta no nível da água de hoje, formada quando o mar estava três metros acima.

Fórum – O senhor tem uma visão discordante do IPCC sobre o aquecimento global…

Ab’Saber – É porque eles ficam dizendo que quando o mar subir vai derruir a Amazônia e entrar o cerrado etc. Não sabem nada, são pessoas da Física, engenheiros e outros. Não dá para confiar neles. Mesmo porque, quando o mar estava mais alto três metros, não destruiu a floresta, pelo contrário, houve mais evaporação, mais calor e mais umidade para a Amazônia e muito mais para o Brasil Tropical-Atlântico, sem o que, aqueles redutos de mata, que resistiam apesar do clima frio, não teriam se ampliado e se emendado. É a teoria dos redutos e refúgios. Tenho moral para falar isso, porque sou autor da teoria dos redutos e o [Paulo] Vanzolini da dos refúgios. As florestas estavam se reduzindo e as caatingas se estendendo muito, então a fauna foi se concentrando. E com excesso de fauna numa área pequena, houve processos evolutivos de formação de subespécies. Depois, durante a retropicalização, de 10 mil anos para cá, essas florestas se emendaram e constituíram as matas atlânticas. E as correntes quentes que estiveram a leste do Brasil desde há 11 mil anos favoreceram o ambiente da tropicalidade. Basta dizer que, quando estava o mar mais alto, a corrente quente foi até o Rio Grande do Sul e favoreceu a implantação complexa da floresta da serra Gaúcha, de Taquara até Santa Maria da Boca do Monte.

Fórum – O principal ponto de sua crítica ao relatório do IPCC são as correntes marítimas? 

Ab’Saber – Correntes marítimas, periodicidades climáticas – falaram apenas, mas não levaram bem em conta, de fenômenos como o El Niño – nem os jogos das massas de ar —   equatorialcontinental, tropical-atlântica, polar, polar-atlântica. Correntes marítimas, zero. Puseram nos jornais um mapinha de como iria ficar com o aquecimento global sem considerar dois fatos essenciais. Primeiro, em quanto tempo vai ficar assim? Em 50, 200, 300, mil anos? Não levaram em conta a temporização. Segundo, não levaram em conta a periodicidade climática atual. Estou muito contente com esses dias agora, de frio [em São Paulo]. As discussões todas foram feitas em dias muito quentes, no período do verão, até chamei a atenção para isso. Agora, como se vê, está frio [a entrevista foi concedida no dia 31 de maio]. É uma estupidez levar em conta um momento do clima ao longo do ano. Estou pouco ligando por ter criticado um físico da USP que, bobalhão, entrou nessa história de que os cerrados vão aumentar esquecendo as formas de devastação promovidas pelo homem. São 500 quilômetros quadrados somados de devastação da Amazônia. É equivalente a duas vezes o estado de São Paulo. Não tem sentido falar das mudanças climáticas e esquecer do que os homens estão fazendo “savanizando” tudo.

Fórum – Mas o relatório aponta o desmatamento como um problema, em termos de emissão de gases do efeito estufa.

Ab’Saber – Sim, no caso brasileiro são dois fatores. O industrial do Sudeste, com Cubatão, Votorantim, Volta Redonda e outros lugares, juntamente com o excesso de veículos. O outro é a queimada na Amazônia.

Fórum – A pergunta é se o senhor, então, concorda com a premissa de que a emissão desses gases promove o aquecimento global.

Ab’Saber – Claro, está havendo aquecimento global, não discordo disso. Minhas razões são diferentes das deles. Eles nãoentendem bem o que é metabolismo urbano. É um conceito que
apareceu nos Estados Unidos na década de 1960, e que não foi usado como método nem lá. Estabeleceram que, no metabolismo urbano, há problemas de entradas, fluxos e saídas. Numa cidade grande como São Paulo, entram carros, ônibus, caminhões, treminhões, passam pelo território e se reúnem com o que já está na atmosfera. A massa que vai para o ar é muito grande. Mas também levei em conta coisas mais amplas. Fui a Cubatão falar com o pessoal da Petrobras, conhecidos meus. Ficaram meio quietos, porque não querem que se diga que eles fazem poluição. Mas olhe bem, em Cubatão, a pluma vai a 1.500 metros de altitude. Isso registrado por eles; sem querer me contaram. O vento do leste e do sudeste empurra para dentro do planalto Paulista. Aí, o ABC tem uma emissão verticalizada para cima, que se reúne com a de Cubatão. Depois vem a do Centro Expandido de São Paulo, que é uma tragédia do ponto de vista de emissão de gases. Tudo isso vai bater na Cantareira. A Cantareira tem problemas muito sérios para resistir como ecossistema florestal serrano.

Tudo o que subiu – os gases de Cubatão, ABC, cidade etc. – vai até a troposfera, não consegue passar para a estratosfera, e descai para os lados. Chama-se “domo de poluição”. Pois bem, no relatório do IPCC, não se fala nisso, não se entra em casos especiais desse fenômeno como é o de São Paulo e de outros locais, mais interiores. Buenos Aires tem menos esse problema, porque está numa posição perto do rio da Prata e do mar. O domo existe em São Paulo, muito violento, e menos no médio vale do Paraíba, onde as cidades estão se emendando. Na zona costeira, as chuvas o os ventos eliminam. Mesmo em São Paulo, as chuvas violentas fazem baixar a poluição, o domo é desfeito, o que tampouco  é dito pelo IPCC. No começo do século XX, a temperatura média em São Paulo era de 18,6oC, correspondente ao centro expandido. Hoje, é 22,7oC dentro do domo. Levando em conta a área mais ampla, dá 21,8oC. O relatório do IPCC é feito por pessoas das mais diferentes partes do mundo, vaidosas por terem ido a Paris e a outros lugares, e não grandes conhecedores. O maior climatologista dinâmico do Brasil é o Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro. Ele não é chamado para discutir,
mas apenas físicos sem saber nada de efeito estufa nem metabolismo urbano
nem nada. A questão de periodicidade climática, vocês teriam de destacar…

Fórum – Um dos físicos a que o senhor se refere é o Paulo Artaxo…

Ab’Saber – Não falei nomes, você que falou.

Fórum – Sim, mas ele, quando confrontado, diz que o modelo considerado pelo IPCC trabalhava de forma acoplada, tanto com a área de oceano quanto de atmosfera.

Ab’Saber – A tese do João Dias da Silveira parte do princípio de que as baixadas litorâneas quentes e úmidas são as do leste; do outro lado da América do Sul, há a corrente fria de Humboldt, que determina os semidesertos detoda costa do Chile e do sul do Peru. Como pensar o oceano em conjunto? A corrente marítima quente vem do Atlântico e se divide em dois braços. Vem para o sul, e até Santa Catarina tem influência grande. No Optimum Climático, ela ia até o Rio Grande do Sul e favoreceu o adensamento das florestas nas serras. Por que ficaram lá depois que as correntes deixaram de chegar? Porque ali tem o melhor solo de todo o Rio Grande do Sul, oriundos da decomposição dos basaltos. É uma mentira dizer que o pessoal do IPCC considera tudo ao mesmo tempo. Não considera nem as duas faces da América do Sul. E outra coisa, o perigo que criaram para as pessoas é muito grande.

Na véspera de uma reunião em Ribeirão Preto, o Carlos Nobre estava gritando na televisão que ia derruir a Amazônia e ia entrar o cerrado. Ele não tem capacidade para dizer isso, porque não conhece. A história do Optimum Climático é muito séria. Porque o aquecimento para subir três metros o mar foi muito grande e não derruiu nada. Geleiras muito grandes e volumosas faziam crescer o nível do mar. Na hora em que o mar estava descendo, a corrente fria estava subindo da linha subtropical de hoje para o Nordeste. A maior prova disso é que encontrei, na Bahia, solos de clima tropical úmido, vermelhos, “de cobertura”, em cima de chão de pedra, formados em outro período. Descobri isso em três lugares. Ao lado de Campina Grande há a mesma coisa, uma das ilhas de umidade que mantiveram pequenas florestas. Foram essas ilhas que me fizeram pensar na teoria dos refúgios, que outras pessoas também apontaram. O que o Artaxo pode falar dessas coisas se não conhece? O esquema que há no Nordeste foi o da fragmentação em redutos.

Fórum – Dá para prever em termos históricos as conseqüências do aquecimento atual?
Ab’Saber –
 É isso que eles não discutem. Alarmaram a população, mas não falam sobre questões importantes. As coisas são tão feias no que está sendo transmitido para a imprensa, que os jornalistas escolhem os que acham que compreendem mais as coisas. Então, reproduzem coisas boas e muitas bobagens. Essa de que a Amazônia vai ser derruída e os cerrados vão entrar, note bem a gravidade. Os cretinos dos fazendeiros agropecuaristas da região, se alertados de que vai haver esse fenômeno pelo aquecimento global, vão dizer: “se é assim, vamos derrubar mais, a nosso favor!”. E saiu em um caderno agrícola de um jornal
paulista um produtor de milho que dizia que o aquecimento global tinha prejudicado a safra dele [risos].

É preciso dizer isso. As previsões de quanto o nível do mar subiria foram muito diferentes. Um falou de um milímetro por ano, outro falou de 34, outro de 64 milímetros. Um último, estupidamente, apontou um centímetro por ano. Em dez, 50 e 100 anos, a partir daí, é uma incógnita, porque não haveria continuidade plana, mas vamos imaginar mais, por curiosidade. Em 50 anos, muitos dos que vivem hoje continuarão vivos, e os prédios altos vão estar de pé, mesmo que haja inundações. Se os prefeitos de cidades litorâneas seguirem o que dizem esses técnicos, não aprovariam prédios altos e pesados na planície. Se fosse subir um milímetro por ano, 34 ou 64, não seria tão grave. Acontece hoje de o mar subir e entrar pelas ruas de cidades beira-mar, mas em média, não seria grave. Se fosse um centímetro por ano,
é um desastre completo, em 100 anos, é um metro. Se continuasse assim, no ritmo Bush, em 200 anos Ubatuba viraria Veneza, o que exigiria adaptações caríssimas.

Para mil, 10 mil ou 20 mil, se o aquecimento continuasse indefinidamente, sempre subindo, as geleiras iriam ser todas fundidas, entrar pelo mar e destruir todas as costas do mundo. Eu era estudante quando vi isso em uma revista de literatura, meio fantástica, sobre a Guerra Fria. Dizia que os Estados Unidos descobriram que os russos estariam subindo as cidades para lugares mais altos. Começaram a pensar, e descobriram que os russos poderiam bombardear o Pólo Norte e o Sul e fazer subir rapidamente o nível do mar [risos]. Nunca me esqueci disso. É uma coisa de ficção, mas na hora foi feito esse cálculo. E sabe quantos metros subiria o mar
se todas as geleiras se derretessem? Seriam 34 metros, o equivalente a um prédio de 11 andares, que seriam todos inundado.

Fórum – E quanto ao biodiesel?

Ab’Saber – Vamos falar do biodiesel. A questão depende de saber o que foi o Protocolo de Quioto. Os países pobres achavam que os ricos tinham de pagar alguma coisa por poluírem e incentivarem o aquecimento global. O resultado é que os Estados Unidos não quiseram assinar o documento por uma série de argumentos. Mas o Protocolo era uma coisa também errada. Porque eles pretendiam que os poluidores pagassem para os não-poluidores e que ficasse tudo a mesma coisa, emitindo dióxido de carbono e tudo. Aí os dirigentes vão, pegam um dinheirinho para fazer obras por vaidades.

O Bush quis inventar alguma coisa para diminuir essas críticas fantásticas que se fizeram aos Estados Unidos. Algumas pessoas do Banco Mundial falaram que uma mitigação tem que ser feita, seja país pequeno, seja médio, seja grande, industrializado ou não. Depois, falou-se em adaptações. O pessoal daqui ficou furioso com o termo. É que, na medida em que o aquecimento pudesse provocar problemas nas áreas costeiras, teria que se pensar, ao longo do tempo, em obras planejadas para evitar o pior. É obrigatório que se faça mitigação por todos os processos possíveis e, do outro lado, adaptações, em função de cada caso invadido pelo mar etc. O que faz o Bush? Percebeu que o Brasil está avançado há muito tempo em biocombustíveis, no caso, o álcool, e veio ao país. Mas não foi a Brasília, mas a São Paulo. Nas imagens de satélite, a área do interior onde só havia café, hoje, só tem cana. Fantástica a transformação da paisagem rural lá. Ele está visando a obter ampliações da produção de cana e etanol e outros subprodutos para justificar a estupidez dele de não querer nem discutir o Protocolo de Quioto e não ter assinado. Por isso ele veio a São Paulo, onde tem as maiores extensões contínuas de canaviais. Ribeirão Preto, Sertãozinho, São Carlos. O problema é mitigar, segundo a expressão do Banco Mundial. É uma crítica grande aos Estados Unidos, que fazem emissões muito grandes de dióxido de carbono. É isso que tenho para dizer, não quero falar mais sobre o assunto.

Fórum – No Sul do Maranhão, Sul do Piauí, Rondônia e Roraima, a soja avança com desmatamento. Além da exportação, há o biodiesel…

Ab’Saber – Isso é em função do incentivo que o Lula está dando, que falou que os canavieiros são heróis. Acho que os heróis são os cortadores de cana, talvez um milhão de pessoas que saem de suas regiões só para cortar cana, num país que não tem emprego. Mas alguém vai dizer que os canavieiros são heróis por terem mantido o corte braçal. É verdade, em alguns locais, fazem uso de maquinário de cortes especiais, mas deixam um trecho grande para os cortadores, porque senão seria uma crise socioeconômica muito grande. Outra questão é que, se os usineiros são heróis, então o espaço principal é o da cana. Onde vão ficar o feijão, o milho, a mandioca e outras coisas? Eles são tão pretensiosos que dizem que se não houver áreas aqui, vão à Amazônia. Entra um fator a mais. Temos os agropecuaristas, fazendeiros, madeireiros, loteadores.

Não sei se vocês conhecem esse tema. Há várias estradas que cortam a selva Amazônica. Em pouco tempo, elas foram sendo dominadas, invadidas, com áreas depois registradas como propriedades deles etc. Eram espaços públicos. Depois, de cada rodovia, vêm os ramais, que cortam a floresta. Depois os sub-ramais, e a mesma coisa. Muitos dos que trabalham numa empresa na construção compram um terreno para si. Os loteadores são os homens mais perigosos do Brasil. Vão desenhando quarteirões, fazendo trilhas e vão vendendo para os incautos que não sabem nada da Amazônia. Não é só o pessoal do IPCC que é idiota. Vão vendendo os pedacinhos. As pessoas compram e pensam que vão instalar uma fazendinha, mas não conseguem chegar até lá, porque o preço para se chegar até lá é maior do que o pago pelo terreno. Forma-se o que os amazônicos chamam de espinguela de peixe. Se vocês vissem as imagens de satélite de áreas iniciais disso, onde o loteamento aconteceu há algum tempo, não há mais nada, apenas árvores isoladas.

Fora isso, os mais espertos fazem os linhões e cortam uma enorme área de floresta para instalar agropecuária, buscam gente na estrada para trabalhar. O sujeito se muda para a região e, dois meses depois, não tem mais onde trabalhar. Alguns têm aeroportos para chegar de São Paulo, Paraná e Minas Gerais até lá. E há os capatazes, independentes, para o controle geral. E vendem o espaço na hora de desmatar para os madeireiros. Há áreas que haviam sido reservadas para, um dia, favorecer a exploração auto-sustentável. Só que as áreas foram reservadas quando tudo era floresta, agora, é estupidez fazer concessões para uso. Uma pessoa inteligente vai dizer “o que se separou no passado deve ser transformado em áreas de proteção integradas”. E a Marina Silva manda, por meio do [João Paulo] Capobianco, um enviado à Suíça para oferecer concessões para as ONGs estrangeiras.

Devo dizer para vocês que são jornalistas que esse negócio de ONGs estrangeiras foi o maior bizarrio do mundo. Deram um jantar para a Marina Silva antes da eleição, na alameda Santos. Só ONGs. Eu e minha esposa não sabíamos. O [senador Eduardo] Suplicy, que gosta muito dela, também estava. Como respeito muito ele, achei que era sério. Ela passou um vídeo sobre sua trajetória no Senado. Pagamos mais pelo jantar para sustentar a campanha. Aí, foi reeleita, e nomeada ministra. Ela chamou todas as ONGs para Brasília e nenhum pesquisador, nenhum cientista, nenhum técnico. E o seu Lula, muito quieto. Nomeou-a dos Estados Unidos, onde ela estava. O pessoal gostou muito da fala dela, muito simplória, bonitinho, lá do Acre, com origem do sertanejo. Mas não entende de outras coisas.

Fonte: http://www.revistaforum.com.br/conteudo/detalhe_materia.php?codMateria=597/uma-voz-contra-a-corrente

Aziz Nacib Ab’Sáber – Opinião divergente

por Dante Grecco

Aziz Nacib Ab'Saber tem cerca de 300 artigos publicados, escreveu oito livros e deu aulas em várias universidades

Aziz Nacib Ab'Saber tem cerca de 300 artigos publicados, escreveu oito livros e deu aulas em várias universidades

Desde que o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC) divulgou seu terceiro relatório, em maio, as discussões sobre o aquecimento global pegaram fogo. Alguns cientistas afirmaram que o painel da ONU foi cauteloso demais – o futuro do planeta pode ser ainda mais sombrio. Outros discordam dessas conclusões e advogam contra o exagero e o alarmismo. Nesse time joga o geógrafo brasileiroAzizNacib Ab’Sáber. “É claro que não nego o aquecimento global. Mas há muito desconhecimento sobre como suas conseqüências podem afetar o Brasil”, adverte ele. Formado em geografia pela USP em 1944, especialista em geomorfologia e considerado um dos mais importantes ambientalistas do país, o professorAzizconhece como poucos a paisagem natural do Brasil e suas relações com o clima. Às vésperas de completar 83 anos, tem cerca de 300 artigos publicados, escreveu oito livros, deu aulas em várias universidades e, entre outros cargos na academia, foi presidente executivo da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) entre 1994 e 1995. Mesmo aposentado, todas as noites comparece ao Instituto de Estudos Avançados da USP, onde é professor honorário, e vibra como um pesquisador iniciante ao mostrar mapas e imagens do Nordeste feitas por satélite.

Por que o senhor afirma que o aquecimento global não destruirá a Amazônia nem a mata Atlântica?

Houve muito alarmismo nessa questão. Embora algumas afirmações tenham sido feitas por bons cientistas,muitas conclusões foram divulgadas de forma equivocada. Logo me irritou a afirmação de que a Amazônia desaparecerá e o cerrado tomará conta de tudo. Como há décadas estudo o problema dasflutuações climáticas e o jogo do posicionamento parcial dos grandes domínios geográficos brasileiros, senti-me ofendido culturalmente. Não havia ciência na afirmação.

Sua teoria envolve uma mudança fundamental nas correntes marítimas, certo?

Em nosso litoral existe a chamada corrente tropical sulbrasileira. É uma corrente de águas quentes que desce desde o Nordeste oriental até o sudeste de Santa Catarina. Essa corrente tem um contrafluxo representado pela corrente das Malvinas, ou Falklands, que vem da Argentina, é composta de águas muito frias e segue quase até o Rio Grande do Sul. Uma das conseqüências do aquecimento global é que essa corrente tropical sul-brasileira ficará mais larga, ocupará uma área mais afastada da costa e irá avançar mais para o sul do Brasil sobre a corrente fria. Portanto, essa corrente quente levará mais calor para as regiões localizadas entre a Argentina, o Uruguai e o Rio Grande do Sul, que hoje vivem um conflito entre águas frias e quentes. Com essa massa de água quente que chegará, a evaporação será mais intensa. Podemos deduzir que vai haver maior penetração de umidade no continente.

O que isso significará?

Com maior umidade, choverá mais. Por isso, nesse caso o aquecimento global não representará um aspecto negativo do ponto de vista da climatologia da fachada atlântica do Brasil. Portanto, não se pode dizer que a mata Atlântica será atingida por ele. Ao contrário. A tendência é que tanto a mata Atlântica como a Amazônia cresçam, e não que sejam reduzidas. Isso já aconteceu antigamente, num período entre 6 mil e 5 mil anos atrás chamado de optimum climático.Naquela época também houve um aquecimento do planeta, mas foi natural, e não causado pelo acúmulo dos gases na atmosfera, como hoje.

O que houve naquela época?

Entre 20 mil e 12 mil anos atrás, o planeta passou por um período de glaciação. Devido ao congelamento de águas marinhas nos pólos Norte e Sul, o nível dos oceanos era cerca de 90 metros mais baixo do que o registrado hoje. Depois disso, por volta de 11 mil anos atrás, houve um período de transição entre um clima frio e um mais ameno e ocorreu um ligeiro aquecimento da Terra. O frio intenso deu lugar a um clima mais tropical, como ocorria antes da glaciação. Com isso, as grandes manchas florestais, que haviam ficado distantes umas das outras naquele clima frio e seco, cresceram e se emendaram. A esse processo, que aconteceu principalmente na costa brasileira, eu dei o nome de retropicalização.

E o que aconteceu depois?

O planeta continuou a esquentar, embora houvesse variações de temperatura para cima ou para baixo. Com isso, boa parte do gelo que estava concentrado nas regiões polares se derreteu. O auge desse aquecimento se deu entre 5 mil e 6 mil atrás, no optimum climático. O aquecimento foi tal que o nível dos oceanos se elevou cerca de 2,90 metros acima do registrado hoje. Em minha interpretação, quando o mar subiu em conseqüência daquele aquecimento do planeta, ele trouxe mais umidade para dentro do continente.Houve mais chuvas, o que favoreceu a continuidade das florestas. O optimum é uma fase da história climática do mundo que vários cientistas e o próprio IPCC não consideraram. Como naquele período nem a mata Atlântica nem a Amazônia desapareceram do mapa, não é certo dizer que até 2100 a Amazônia vai virar cerrado. O problema não é o que acontecerá daqui a 90 anos, e sim o que ocorre hoje.

Por quê?

A região amazônica tem 4 milhões de quilômetros quadrados e, em menos de 25 anos, perdeu 500 mil quilômetros quadrados de florestas. Isso significa que uma área equivalente a duas vezes o estado de São Paulo já foi destruída. É muita coisa. Ou seja, hoje a Amazônia está tendo problemas de savanização devido à ação antrópica. Ocorrem desmatamentos ao longo das rodovias, dentro das selvas e junto das chamadas espinhelas de peixe, nome que os amazônidas dão aos imensos quarteirões ocupados por especuladores, os quais se mudaram de lá e venderam pedaços da mata a pessoas de muito longe que imaginaram ter uma fazendinha na região. Depois, essas pessoas liberaram as terras para os madeireiros, que arrasaram com tudo.

O senhor tem alguma outra divergência em relação ao que foi divulgado sobre o aquecimento global?

Sim. Uma coisa é o aquecimento global, outra é sua continuidade ou não ao longo dos anos. Os cientistas dizem que vai ser sempre assim. O planeta ficará cada vez mais quente. Com isso, o calor provocará mais derretimento de geleiras, o que aumentará ainda mais o nível do mar. E assim sucessivamente. Esse raciocínio é muito simplista. Não temos comosabernos próximos anos como o mar vai subir. Portanto, também não temos como avaliar quanto ele irá se elevar daqui a 100 ou 200 anos.Nesse período os continentes podem até abaixar mais e as águas do mar, inundar zonas costeiras bem maiores. Ou o contrário. Eles podem subir, como ocorreu depois do Plioceno. E com isso o mar irá recuar.Didaticamente, eu fiz os cálculos para dez, 50 e 100 anos. Depois parei.Ainda há a questão das diferenças entre as marés baixa e alta. Na costa do Maranhão, por exemplo, essa diferença é de 8 metros. Tudo isso não foi considerado.

Mas não se pode negar que uma das piores conseqüências do aquecimento global será o aumento do nível das águas do mar.

A ascensão do nível das águas dos oceanos provocada pelo derretimento das geleiras polares e das geleiras das altas montanhas vai criar graves problemas na zona costeira do Brasil. São 8 mil quilômetros de litoral. A água deverá invadir diversas cidades litorâneas, como Santos, Rio de Janeiro e Recife, entre outras, criando mini-Venezas. Será preciso fazer pontes e diques na frente das praias e nas margens dos rios. A água vai também tomar conta das barras dos rios e alagar planícies rasas e manguezais, com prejuízos ambientais e econômicos.

O que o senhor sugere, diante do problema atual?

Disso tudo eu tirei uma conclusão. Primeiro, é preciso reduzir a emissão de gases particulados na atmosfera para mitigar o efeito estufa. Que fique bem claro que eu não discuto o aquecimento global. Depois, devem-se acompanhar os fatos ao longo de um certo espaço de tempo para avaliar todas as variações. A seguir, é fundamental um bom planejamento para evitar maiores conseqüências sobre as regiões costeiras, que serão as áreas mais atingidas. O extremo sul do Brasil, por exemplo, vai ser pouco afetado, já que, com a suspensão das águas, deve acontecer o que ocorreu durante o optimum climático. A corrente marítima quente irá descer mais para o sul, levando maior umidade e, conseqüentemente, mais chuva para o interior do território.

Em junho, iniciaram-se as obras da transposição das águas do rio São Francisco, em Cabrobó, em Pernambuco. O senhor crê que ela vai matar a sede da população do Nordeste seco?

Fala-se que essa obra beneficiará cerca de 12 milhões de pessoas. Não acredito. Ela vai beneficiar principalmente os pecuaristas. O mais triste é que os donos das fazendas nem moram lá, mas sim em capitais como Fortaleza e Recife. A região do São Francisco é muito complexa.No Nordeste chove muito no verão e pouco no inverno, embora digam o contrário. É evidente que o Nordeste seco vai precisar de mais água quando o rio São Francisco, que passa em grande parte pelo cerrado de Minas Gerais e da Bahia, estiver mais baixo. Será justamente nessa época que o rio precisará jogar mais água para os eixos norte e leste que serão construídos até ela cair no açude de Orós. Aí surge um problema. As águas do São Francisco são poluídas e vão se encontrar com águas salinizadas do próprio açude. Ou seja, nessa época será preciso fazer uma transposição de águas maior do que a planejada.

Como assim?

Quem é a favor da transposição diz que o rio vai perder apenas 1,4% de suas águas após o término das obras.Mas é claro que no futuro essa porcentagem deve aumentar. Ou seja, serão transferidas mais águas do rio para os futuros eixos que vão ser construídos. Outro problema será manter as usinas hidrelétricas de Paulo Afonso, Itaparica e Xingó funcionando. Então, a época em que o rio receberá menos água vai ser a mesma em que ele deverá enviar águas para além da chapada do Araripe. Isso é um contra-senso, pois, quando estivesse chovendo lá, não seria preciso enviar água para a mesma região.

Quais são os impactos ambientais que a transposição pode causar?

Talvez o principal seja a poluição das águas. Vários afluentes do São Francisco vêm de Belo Horizonte, uma das maiores cidades do Brasil, e passam pela região industrial sidero-metalúrgica. Um deles é o rio das Velhas, por exemplo.O São Francisco tem 2170 quilômetros de extensão. Imagine a poluição que ele carrega nessa distância. Técnicos disseram que iam revitalizá-lo antes de fazer a transposição.Outro erro, pois não se pensou naqueles que têm só as margens do rio para plantar, como na zona semiárida das cidades de Ibotirama, Barra e Xique-Xique, na Bahia. Com a revitalização, eles perderão esses espaços.

Qual é a sua opinião sobre a afirmação do presidente Lula, em maio, de que os usineiros de cana são “uns heróis”?

Heróis são os cortadores de cana, que levam uma vida quase de escravo, e não os donos da terra. Por que o presidente Bush veio a São Paulo e não foi a Brasília? Porque os Estados Unidos sabem que o interior de São Paulo sempre teve culturas agronômicas importantes, hoje controla as maiores plantações de cana-de-açúcar do Brasil e que o etanol de cana vem sendo usado nos carros como combustível. Eles não têm esse knowhow. Na verdade, os Estados Unidos precisavam incentivar o Brasil a ampliar sua área canavieira para poder vender mais tarde. Quem vai controlar o preço depois? Eles, é claro.

O que pode acontecer em termos ambientais se o governo incentivar a produção de cana para depois produzir etanol?

É simples. Se o governo facilitar, a cana-de-açúcar será o mais novo produto a tentar se estabelecer na Amazônia. Sempre que se deseja ampliar as fronteiras agrícolas do país se fala na Amazônia. É como se lá houvesse um solo polivalente. Se o preço do etanol subir, vão tentar fazer novas penetrações na floresta. Além da agropecuária, dos madeireiros, dos loteadores e dos plantadores de soja, a Amazônia também poderá ter daqui a algum tempo os cultivadores de cana. Será que ela resiste?

Fonte: http://viajeaqui.abril.com.br/materias/aziz-nacib-absaber-opiniao-divergente

O repórter Rodrigo Caruso entrevistou o cientista e geógrafo Aziz Ab’Saber sobre o lançamento de seu livro “A Obra de Aziz Nacib Ab’Saber” na PUC-Rio. O livro reúne todos os grandes artigos do professor.

Aziz AbSaber é hoje um geógrafo de prestígio internacional. Ele fala sobre a maior floresta tropical do mundo — a Amazônia — e a atenção que todo o planeta dedica a esta área brasileira.

Entrevista completa de Aziz Ab’Saber ao Programa Roda Viva da TV Cultura em 1992.

Entrevistas de Aziz Ab’Saber ao Instituto de Cultura Árabe

O pensamento de Aziz Ab’Saber nas páginas do Estadão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s