O sal e a terra

Na depressão de Afar, na África, tribos pastoras e mercadores de sal sobrevivem em uma paisagem surreal de fissuras, falhas e um lago de lava borbulhante

por Virginia Morell Um

Antigos rios de lava lembram vertebras de um animal fossilizado

Antigos rios de lava lembram vertebras de um animal fossilizado

Parecia uma cena produzida por um estúdio de efeitos especiais em Hollywood. Em setembro de 2005, pastores afares do norte da Etiópia viram, estarrecidos, a terra abrir um bocejo e engolir suas cabras e seus camelos. Pedaços de obsidiana irromperam de cavernas e voaram pelos ares, “como enormes pássaros pretos”, disse uma testemunha. Por três dias, uma encrespada nuvem de cinzas obscureceu o sol durante a erupção do maior vulcão da região, o Erta Ale – “Montanha Fumacenta”, na língua afar.

Enxofre e algas criam fontes termais de cores vivas. A água é a condensação de gases quentes que emanam de câmaras de magma. Quando evapora, sais e minerais formam uma crosta

Enxofre e algas criam fontes termais de cores vivas. A água é a condensação de gases quentes que emanam de câmaras de magma. Quando evapora, sais e minerais formam uma crosta

O que desencadeou esses eventos assustadores? Quilômetros abaixo da superfície, um colossal arroto de magma subira por entre duas placas tectônicas. Na superfície, centenas de fissuras abriram-se ao longo de 60 quilômetros de deserto e engoliram os pobres animais. Outros sismos menores abalaram a área nos anos seguintes.

Um lago de lava borbulha no topo do ativo vulcão Erta Ale

Um lago de lava borbulha no topo do ativo vulcão Erta Ale

A depressão de Afar, na África, é uma das regiões mais hiperativas do mundo em termos geológicos. Para quem a sobrevoa de avião, ou em um paraglider motorizado, como fez inúmeras vezes o fotógrafo George Steinmetz, ela pode parecer imóvel como o gelo no Ártico. Mas a fachada atemporal de Afar esconde sua real natureza. Sob a superfície, a casca rochosa da Terra está se rasgando, e câmaras subterrâneas de magma alimentam 12 vulcões ativos, além de gêiseres, caldeiras borbulhantes e um revolto lago de lava.

A água subterrânea ferve e sobe, em forma de vapor, no campo de gêisers a nordeste do lago Abble

A água subterrânea ferve e sobe, em forma de vapor, no campo de gêisers a nordeste do lago Abble

Os terremotos de 2005 e os sacolejos subsequentes são os mais recentes de uma longa série de abalos sísmicos iniciados há 30 milhões de anos, quando o magma subiu pela crosta terrestre e começou a separar a península Arábica da África, criando o mar Vermelho e o golfo de Áden. Depois de aflorar, o magma resfria, torna-se mais denso e afunda. Algumas partes de Afar agora se encontram mais de 150 metros abaixo do nível do mar.

Em uma cena bíblica, caravanas chegam às minas de sal do lago Asele, 116 metros abaixo do nível do mar. Por séculos, blocos de sal chamados amole foram usados como dinheiro em toda a Etiópia

Em uma cena bíblica, caravanas chegam às minas de sal do lago Asele, 116 metros abaixo do nível do mar. Por séculos, blocos de sal chamados amole foram usados como dinheiro em toda a Etiópia

Por estar tão baixa, a depressão de Afar foi muitas vezes inundada pelo mar Vermelho; a última vez em que isso ocorreu foi há 30 mil anos. Depois de cada incursão, a água marinha evapora e deixa grossas camadas de sal. Esse “ouro branco” tem sido uma importante fonte de renda para os afares, que permanecem leais à sua terra de extremos, apesar de temperaturas que no verão podem superar os 49°C.

Parapeitos de sal, lama e potassa, alguns com 25 metros de altura, erguem-se em um labirinto de cânions e penhascos no flanco da montanha Dallol. As formas tortuosas são produtos de tempestades e enchentes repentinas

Parapeitos de sal, lama e potassa, alguns com 25 metros de altura, erguem-se em um labirinto de cânions e penhascos no flanco da montanha Dallol. As formas tortuosas são produtos de tempestades e enchentes repentinas

Cientistas enfrentam o deserto por outra razão. Afar é um dos poucos lugares da Terra em que uma dorsal submarina – uma saliente linha de junção por onde o magma verte e forma o novo assoalho oceânico – emerge no solo. Para os estudiosos da Terra, é uma rara chance de investigar processos geológicos que, via de regra, acontecem muito abaixo da superfície do oceano.

Esculpidas por ventos que sopram sempre de leste para oeste, dunas de areia conhecidas como barchans migram por um antigo assoalho oceânico, alcançando até 2 metros de altura e de 6 a 9 metros de largura

Esculpidas por ventos que sopram sempre de leste para oeste, dunas de areia conhecidas como barchans migram por um antigo assoalho oceânico, alcançando até 2 metros de altura e de 6 a 9 metros de largura

Com tempo suficiente – no mínimo vários milhões de anos –, esses processos geológicos produzirão mudanças drásticas na geografia da África: a depressão de Afar e todo o Grande Vale Rift serão o berço de um mar que ligará o Vermelho ao oceano Índico e separará o Chifre da África do continente.

 

Fonte: http://viajeaqui.abril.com.br/materias/afar-africa#2

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