Muito jovem para se casar

O mundo secreto das noivas crianças

por Cynthia Gorney, fotos de Stephanie Sinclair
“Eu me escondia toda vez que o via. Detestava olhar para ele”, diz Tahani (de rosa), lembrando-se do início de seu casamento com Majed, quando tinha 6 anos, e ele, 25. Agora com 8 anos, ela posa para um retrato em Hajjah, juntamente com Ghada, também casada

“Eu me escondia toda vez que o via. Detestava olhar para ele”, diz Tahani (de rosa), lembrando-se do início de seu casamento com Majed, quando tinha 6 anos, e ele, 25. Agora com 8 anos, ela posa para um retrato em Hajjah, juntamente com Ghada, também casada

O casamento é ilegal e secreto, exceto para os convidados, e, no Rajastão, a cerimônia costuma ocorrer em noite alta. Por isso, só no fim da tarde, as três meninas noivas nessa árida povoação agrícola no norte da Índia começam a preparar-se para os votos sagrados. Elas agacham-se lado a lado no chão e mulheres do vilarejo, cercando-as com uma cortina improvisada de um pano de sári, despejam em suas cabeças uma panelada de água e sabão. Duas das noivas, as irmãs Radha e Gora, têm 15 e 13 anos e já entendem o que está acontecendo. Mas a terceira, Rajani, sobrinha delas, tem 5. Ela está de camiseta rosa com desenho de borboleta no ombro. Uma adulta a ajuda a despir-se para o banho.

Os noivos estão vindo de seu distante vilarejo. Ninguém pode pagar por um elefante ou pelos cavalos arreados com o luxo que a cerimônia exige para a chegada dos garotos ao local do casamento. Por isso, eles vêm de carro, e é de bom tom que cheguem bem animados e bêbados. A única pessoa ali que já conhece os noivos é o pai das duas meninas mais velhas, um agricultor esguio e grisalho, de bigodes caídos e costas aprumadas. Esse homem, que chamarei de senhor M., olha com orgulho e cautela os convidados que se afunilam pela trilha pedregosa em direção às sedas de cores vivas presas em varas para fazer sombra. Ele sabe que, se algum policial não subornável descobrir o que está acontecendo, a cerimônia pode ser interrompida. Nesse caso, haverá prisões, e a vergonha cairá sobre a sua família.

Rajani, de 5 anos, é neta do senhor M., filha da filha mais velha casada. Tem grandes olhos castanhos, narizinho largo e pele cor de chocolate ao leite. Morava com os pais. A mãe mudou-se para o vilarejo do marido, como fazem as mulheres casadas na Índia rural. O pai de Rajani tem reputação de beberrão e mau agricultor. No vilarejo dizem que o avô, o senhor M., é quem mais gosta de Rajani, pois arranjou para ela um noivo da família respeitável para a qual Radha, a tia da menina, também irá entrar. Assim ela não sentirá solidão depois de sua gauna, a cerimônia indiana da transferência física de uma noiva de sua família original para a do noivo. Quando meninas indianas se casam, a tradição manda que a gauna ocorra depois da puberdade. Assim Rajani poderá morar por mais alguns anos com seus avós; e o senhor M., dizem os moradores, fez muito bem em proteger a criança nesse meiotempo ao marcá-la publicamente como casada.

Olhamos, consternadas, para a pequenina Rajani quando compreendemos que aquela garotinha de 5 anos, correndo descalça, de camiseta e óculos cor-de-rosa, vai ser uma das noivas na cerimônia à meia-noite. O homem que nos guiou até o vilarejo, primo do senhor M., dissera que o casamento fora planejado para as duas irmãs adolescentes. Essa revelação em si já era arriscada, pois legalmente as indianas só podem se casar depois dos 18 anos. Mas as técnicas utilizadas para encorajar a se fazer vista grossa aos casamentos ilegais – conspiração dos vizinhos, súplicas pela honra da família – são mais eficazes quando as prometidas chegaram pelo menos àpuberdade. Em geral, as filhas pequenas são adicionadas com discrição. Seus nomes não constam do convite, e elas são noivas suplementares, anônimas no próprio casamento. Rajani adormece antes de a cerimônia começar. Um tio vai pegá-la na cama, carrega-a no ombro e a põe diante do sacerdote hindu e da fumaça do fogo sagrado, junto dos convidados sentados ao luar em cadeiras de plástico e de seu futuro marido, um menino de 10 anos de turbante dourado.

Para quem é de fora, é difícil resistir ao impulso de imaginar um enredo cinematográfico de salvamento: pegar a criança, nocautear os adultos em volta e correr. Impedir a todo custo. Colei na parede atrás da minha escrivaninha uma foto de Rajani na noite de seu casamento.

Na imagem, tirada ao pôr do sol, seis horas antes da cerimônia, ela fita a câmera, despreocupada, de olhos bem abertos, esboçando um sorriso. Nessa noite, fico remoendo minhas fantasias de salvamento – não só de Rajani, que eu poderia ter carregado sozinha nos ombros, mas também das irmãs de 13 e 15 anos, que estavam sendo transferidas de uma família para outra, como mercadoria encomendada, porque um grupo de homens adultos negociou o futuro delas.

As pessoas que se dedicam em tempo integral a combater o casamento infantil e a melhorar a vida das mulheres em sociedades de costumes rígidos são as primeiras a rechaçar a impertinente ideia de que esse assunto tenha qualquer coisa de simples. O casamento forçado de crianças prospera até hoje em muitas regiões do mundo. É arranjado pelos pais, em geral viola leis nacionais e é considerado pela comunidade um modo apropriado de uma menina crescer quando todas as alternativas são inaceitáveis, sobretudo se ela corre o risco de perder a virgindade para alguém que não seja seu marido.

O casamento infantil existe em vários continentes, línguas, religiões e castas. Na Índia, as meninas costumam ser comprometidas com garotos quatro ou cinco anos mais velhos; no Iêmen, no Afeganistão e em outros países com altos índices de matrimônio precoce, o marido pode ser um rapaz ou um viúvo de meia-idade ou ainda um sequestrador que primeiro estupra e depois reivindica a vítima como esposa, como é prática em certas regiões da Etiópia. Alguns desses casamentos são meras transações comerciais, e nunca se preocupam em aparentar ser algo mais. Uma dívida quitada em troca de uma noiva de 8 anos, uma rixa familiar resolvida com a entrega de uma prima virgem de 12 anos: esses são casos que, quando vêm a público em terras distantes, sempre viram notícia e motivo de indignação. O drama de Nujood Ali em 2008, a menina iemenita de 10 anos que procurou sozinha um tribunal na cidade e pediu divórcio do homem de mais de 30 anos com o qual seu pai a obrigara a se casar, foi manchete no mundo todo e há pouco tempo tema de um livro já traduzido em 30 idiomas: Moi Nujood, 10 Ans, Divorcée (“Eu Sou Nujood, 10 Anos, Divorciada”).

Ela tem 11 anos e é o dia de seu casamento. Em Hajjah, província no noroeste do Iêmen, Sidaba põe maquiagem pela primeira vez e usa um véu de noiva bordado à mão

Ela tem 11 anos e é o dia de seu casamento. Em Hajjah, província no noroeste do Iêmen, Sidaba põe maquiagem pela primeira vez e usa um véu de noiva bordado à mão

Mas, em algumas comunidades em que o casamento infantil arranjado pelos pais é prática comum, parece bem mais difícil isolar as causas das iniquidades perpetradas contra essas meninas. A educação delas será truncada não só pelo casamento mas também pelos sistemas de ensino rural, muitos dos quais só oferecem uma escola próxima até a quinta série – depois disso é preciso viajar todo dia até a cidade em ônibus lotados, cheios de homens predadores. A escola secundária no fim da viagem pode não ter banheiro privativo para a adolescente cuidar de sua higiene íntima. E educação custa dinheiro, o que uma família prática guarda para os filhos homens, cujo valor é percebido de imediato. Na Índia, onde grande parte das recém-casadas vai morar com a família do marido, o termo paraya dhan designa as filhas que ainda moram com os pais. Significa “riqueza de outro”.

Na Índia, a maioria dos casamentos é arranjada pelos pais. Um casamento forte é visto como a união de duas famílias, não de dois indivíduos, E isso, acredita-se, exige cuidadosa negociação entre gente mais velha – e não entre jovens, que seguem os volúveis impulsos do coração. Assim, em comunidades muito pobres, nas quais a perspectiva de casamento para moças não virgens é considerada nula, e tem sido assim há muitas gerações, é possível perceber por que até o mais dedicado militante contra o casamento infantil pode hesitar, sem saber por onde começar. “Um de nossos funcionários foi procurado por um pai frustrado”, conta Sreela Das Gupta, especialista em saúde de Nova Délhi que já trabalhou para o Centro Internacional de Estudos sobre as Mulheres (IC RW, na sigla em inglês), uma das várias ONGs que combatem o casamento infantil. “Esse pai disse: ‘Se eu concordar em casar a minha filha só quando ela estiver mais velha, vocês se responsabilizarão pela proteção dela?’ O funcionário desmoronou: ‘O que vou dizer a esse homem se ela for estuprada aos 14 anos?’ Não temos resposta a uma pergunta dessas.”

Certo dia no início do verão, semanas depois de começar a investigar o mundo das meninas que devem se casar muito novas, ouço a história da ratinha e do elefante. Estou no banco de trás de um pequeno carro no remoto oeste do Iêmen, viajando com um homem chamado Mohammed, que se ofereceu para nos levar a um vilarejo distante. “O que aconteceu nesse vilarejo me incomodou”, diz ele. “Havia lá uma menina chamada Ayesha.” (A esposa mais nova do profeta Muhammad, ou Maomé, também se chamava Ayesha, mas isso agora não vem ao caso para este Mohammed.) Ele está colérico. “Ela tem 10 anos”, diz. “Um tiquinho de gente. O homem com quem se casou tem 50 anos e um barrigão deste tamanho” – e faz um grande arco com os braços abertos na altura do umbigo. “Era uma ratinha casando com um elefante.”

Em seguida, ele descreve o trato chamado shighar, no qual dois homens fornecem noivas um ao outro, trocando entre si mulheres da família. “Cada um deu sua filha ao outro como esposa”, conta Mohammed. “Acho que ninguém teria denunciado não fosse a diferença de idade entre os noivos. Mas uma menina não deve se casar aos 9 ou 10 anos. Talvez aos 15 ou 16.”

Nas casas de pedra e concreto do vilarejo que visitamos vivem 50 famílias entre pés de cacto e ressequidos terrenos arados. O xeque, líder local, é baixote, de barba ruiva, e anda de celular no cinto ao lado da tradicional adaga iemenita. Ele nos leva até uma casa de teto baixo abarrotada de mulheres, bebês e meninas. Estão sentadas no chão atapetado e nas camas, e cada vez chegam mais e se espremem na multidão depois de passar agachadas pela mesma porta que atravessamos. O xeque, acocorado no meio do grupo, ralha com elas, carrancudo. Ele me olha desconfiado. “E você, tem filhos?”, pergunta.

“Dois”, respondo. “Só dois!”, exclama consternado. Aponta com a cabeça uma jovem que amamenta um bebê enquanto afasta duas crianças pequenas com o outro braço. “Aquela moça fez 26 anos”, diz ele. “E tem dez.”

Ela chama-se Suad. É filha do xeque. Tinha 14 anos quando o pai a casou com um primo que ele escolhera. “Gostei dele”, diz Suad, em voz baixa, sob o olhar fixo do xeque. “Fiquei contente.”

O xeque então faz várias declarações sobre o casamento. Diz que nenhum pai força uma filha a se casar contra a vontade. Diz que os riscos do parto para as muito jovens não são tão grandes como se apregoa por aí. Ressalta que a iniciação na vida matrimonial não é necessariamente fácil para a noiva, mas que não adianta fazer barulho por causa disso. “Claro que toda garota sente medo em sua primeira noite”, pondera ele. “Porém, ela se acostuma. A vida continua.”

O telefone trina. O xeque vai atender lá fora. Tiro o lenço da cabeça, imitando o que vi minha intérprete fazer quando os homens se retiram e as mulheres enfim podem conversar a sós. Perguntamos depressa a elas como são preparadas para a noite de núpcias, se lhes explicam o que vai acontecer. Elas olham para a porta onde o xeque está absorto no telefonema. Inclinamse para mim. “As meninas não sabem”, diz uma. “Os homens sabem, e as forçam.”

Protestando contra o costume de seu vilarejo no Nepal, Surita, de 16 anos, deixa a casa dos pais aos gritos, coberta por um guarda-sol tradicional até ser levada de carroça ao povoado onde mora o marido

Protestando contra o costume de seu vilarejo no Nepal, Surita, de 16 anos, deixa a casa dos pais aos gritos, coberta por um guarda-sol tradicional até ser levada de carroça ao povoado onde mora o marido

Pedimos que nos contem sobre a pequena Ayesha e o marido-elefante de 50 anos. A dimensão do episódio fica mais clara quando todas desatam a falar ao mesmo tempo. Sim, foi uma coisa horrível, concordam. Deveria ser proibido, mas elas nada puderam fazer. A pequena Ayesha gritou quando viu o homem com quem seria casada, diz uma moça chamada Fatima, que, descubro, é a irmã mais velha de Ayesha. Alguém avisou a polícia, mas o pai de Ayesha mandou que ela calçasse sapato de salto para parecer mais alta e escondesse o rosto com um véu. Avisou que, se o prendessem, mataria Ayesha quando saísse da cadeia. A polícia foi embora sem incomodar ninguém, e agora – as mulheres falam mais depressa e mais baixo ainda, pois o xeque parece estar terminando a conversa – Ayesha está casada e mora em um vilarejo a duas horas dali.“Ela tem um celular”, diz Fatima. “Todo dia me liga chorando.”

“Se Casar-se cedo oferecesse algum risco, Alá teria proibido”, diz um parlamentar iemenita chamado Mohammed Al-Hamzi na capital do país, Sanaa. “O que o próprio Alá não proibiu não podemos proibir.” Al-Hamzi, um conservador religioso, é ferrenho opositor dos esforços legislativos no Iêmen para proibir o casamento de meninas até certa idade (17 anos, em uma versão recente). Até agora, esses esforços têm sido em vão. O Islã não permite relações conjugais antes que a menina esteja fisicamente pronta, diz ele, mas o Alcorão Sagrado não menciona nenhuma restrição de idade – portanto, essa decisão é da alçada da família e da orientação religiosa, e não da lei nacional. Além disso, há a questão da amada esposa do profeta Maomé, Ayesha, que, segundo a interpretação convencional, tinha 9 anos quando o casamento foi consumado.

Outros muçulmanos iemenitas me falaram da interpretação acadêmica segundo a qual Ayesha, na verdade, era mais velha quando teve relações conjugais. Talvez fosse adolescente; talvez tivesse uns 20 anos ou mais. De qualquer modo, a idade exata dela não interessa, acrescentaram com severidade. Qualquer homem hoje em dia que reivindique o casamento com uma menina desonra a fé. “No Islã, o corpo humano é muito valioso. Como uma joia”, explica Najeeb Saeed Ghanem, presidente do Comitê de Saúde e População do Parlamento iemenita. Ele enumera algumas das consequências físicas de forçar garotas a ter relações sexuais e partos antes da maturidade do corpo. Dilaceramento da parede vaginal. Fístulas, rupturas internas que podem acarretar incontinência urinária para o resto da vida. Meninas em pleno trabalho de parto a quem as enfermeiras têm de explicar a mecânica da reprodução humana. “As enfermeiras começam perguntando se ela sabe o que está acontecendo”, revela uma pediatra em Sanaa. “Sabe que é um bebê que está crescendo dentro de você?”

Na sociedade iemenita não se fala às claras sobre sexo. Nem mesmo entre mães instruídas e suas filhas. A realidade desses casamentos – o conhecimento velado de que alguns pais estão mesmo dispostos a entregar suas meninas a homens adultos – raramente era comentada com liberdade até três anos atrás, quando Nujood Ali, a menina de 10 anos, ganhou súbita fama mundial por se rebelar contra o casamento infantil. Para os iemenitas, a grande surpresa na história de Nujood não foi o fato de ela ter sido obrigada pelo pai a desposar um homem com o triplo de sua idade nem que o homem a forçou a ter relações sexuais na primeira noite, apesar de supostas promessas de esperar até que fosse mais velha – um ato que mereceu a aprovação da sogra e da cunhada de Nujood quando foram examinar os lençóis ensanguentados antes de levantarem a menina da cama pela manhã e lhe darem banho. Não. Nada disso era de espantar. A surpresa foi Nujood ter reagido.

“A demanda dela na Justiça foi a pedra que perturbou a superfície das águas”, diz um dos jornalistas iemenitas que começou a escrever sobre Nujood depois que apareceu sozinha em um tribunal em Sanaa. A menina fugiu do marido e voltou para a casa dos pais. Contestou quando o pai lhe disse aos gritos que a honra da família dependia de que ela cumprisse suas obrigações conjugais. A mãe, intimidada, não interferiu. Foi a segunda esposa do pai que enfim deu a Nujood a bênção e o dinheiro para o táxi, e lhe disse para onde ir. Quando o juiz, pasmo, lhe perguntou o que estava fazendo sozinha no tribunal da cidade grande, Nujood respondeu que viera pedir o divórcio. Uma eminente advogada iemenita incumbiu-se da ação judicial de Nujood. Novas reportagens começaram a ser publicadas em inglês, primeiro no Iêmen, depois mundo afora; tanto as manchetes como a própria Nujood eram irresistíveis, e, quando ela enfim obteve o divórcio, uma multidão no tribunal de Sanaa irrompeu em aplausos. Ela foi convidada a ir aos Estados Unidos para ser homenageada por um público bem maior.

Todos os que conheceram Nujood ficaram desconcertados com a perturbadora combinação de seriedade e segurança da garota ienemita. Eu a encontro na redação de um jornal em Sanaa; ela veste uma abaya preta de tamanho infantil – o traje com que muitas mulheres iemenitas se cobrem dos pés à cabeça depois da puberdade. Embora ela agora tenha viajado para o outro lado do Atlântico e sido sabatinada por dezenas de adultos inquisitivos, Nujood responde às minhas perguntas com tanta meiguice e prontidão como se as ouvisse pela primeira vez. No almoço ela senta-se perto de mim em um tapete de oração e me mostra como molhar o pão árabe na panela de guisado partilhada com todos à mesa. Conta que está morando novamente com os pais e indo à escola (seu pai, criticado, aceitou a filha de volta com relutância). E orgulha-se em dizer que, em seus cadernos, está agora escrevendo uma carta aberta a todos os pais iemenitas: “Não deixem que suas crianças se casem. Vocês arruinarão a educação delas, e também a infância, se permitirem que se casem tão novas”

A teoria da mudança social tem uma denominação imaginosa para indivíduos com o comportamento de Nujood Ali: “desviantes positivos”. São agentes isolados em uma comunidade que, por alguma combinação pessoal de circunstância e coragem, conseguem desafiar a tradição e tentar algo novo, talvez radical. Agora as campanhas internacionais contra o casamento infantil incluem, entre os desviantes positivos, um punhado de mães, pais, avós, professoras e assistentes de saúde comunitária, entre outros.

Ainda no Iêmen, conheço Reem, uma menina de 12 anos que obteve o divórcio alguns meses depois de Nujood. Ela acabou conquistando uma juíza, antes hostil, que insistira, de forma memorável, que uma esposa tão nova ainda não tinha maturidade para tomar qualquer decisão sobre divórcio. Depois, na Índia, sou apresentada a Sunil, de 13 anos. Aos 11, jurou aos pais que recusaria o noivo que estava a caminho; se tentassem obrigá-la, declarou, os denunciaria à polícia e racharia a cabeça do pai. “Ela veio nos pedir ajuda”, conta uma vizinha admirada. “Disse que iria partir a cabeça dele com uma pedra.”

Asia, de 14 anos, banha a filha mais nova em sua casa em Hajjah enquanto sua menina de 2 anos brinca. Asia está com hemorragia desde o parto, mas não tem educação nem acesso a informações sobre como se cuidar

Asia, de 14 anos, banha a filha mais nova em sua casa em Hajjah enquanto sua menina de 2 anos brinca. Asia está com hemorragia desde o parto, mas não tem educação nem acesso a informações sobre como se cuidar

O esforço para beneficiar muitas outras meninas e suas famílias por meio de programas educacionais e esparso apoio de governos e entidades pretende abranger mais que os casamentos de pré-púberes, que provocam com mais facilidade a indignação do público. “As pessoas adoram esse tipo de história, em que o certo e o errado são inequívocos”, diz Saranga Jain, especialista em saúde do adolescente. Mas a maioria das garotas que se casam muito cedo tem entre 13 e 17 anos. Queremos reformular a questão para que não englobe só as meninas muito novas.”

Segundo o IC RW, qualquer casamento de menor de 18 anos é casamento infantil. E, embora seja impossível calcular com exatidão, estudiosos estimam que, por ano, nos países em desenvolvimento, entre 10 milhões e 12 milhões de meninas nessa faixa etária se casam. Os esforços para reduzir esse número levam em conta que várias forças impelem uma adolescente ao casamento e aos filhos, anulando assim suas chances de se educar e ser bem remunerada.

A coerção nem sempre vem na forma de pais dominadores. Algumas meninas abrem mão da infância porque isso é esperado delas ou porque sua comunidade não lhes oferece alternativas. O que parece funcionar melhor nos programas bem-sucedidos para retardar o casamento é o incentivo local, não o castigo: estímulos diretos para que as meninas sejam mantidas na escola, além de instituições de ensino com melhores condições. Na Índia são treinadas agentes de saúde comunitária chamadas de sathins, que fazem acompanhamento voltado ao bem-estar das famílias de sua região; entre suas tarefas está lembrar os moradores de que casamento infantil não só é crime mas também prejudica suas filhas.

Porque a grande falha na fantasia de pegar a menina e fugir é: e depois? “Se separarmos uma menina e a isolarmos de sua comunidade, como será sua vida?”, pergunta Molly Melching, fundadora da Tolstan, uma organização com sede no Senegal respeitada em todo o mundo por promover programas comunitários que motivam as pessoas a abandonar o casamento infantil e a mutilação genital feminina. Os militantes da Tolstan estimulam as comunidades a fazer declarações públicas sobre seus critérios com as crianças para que nenhuma garota seja considerada diferente se não a casarem na infância.

“Não queremos encorajar as meninas a fugir”, acrescenta Molly. “Para mudar as normas sociais, o certo não é tentar exterminá-las. Nem humilhar as pessoas chamando-as de retrógradas. Notamos que uma comunidade inteira pode acolher a mudança naturalmente. Isso é inspirador.”

Quem me explicou de forma mais eloquente o excruciante malabarismo necessário para se crescer independente e respeitável em uma cultura em que vigora o casamento infantil foi uma jovem de 17 anos do Rajastão chamada Shobha Choudhary. Na primeira vez em que a vi estava de uniforme escolar: blusa branca por dentro da saia escura pregueada. De porte ereto e sobrancelhas severas, trazia o cabelo preto brilhante preso em um rabo-de-cavalo. Tinha a aparência de uma aluna exemplar. Estava no último ano do ensino médio, e era uma excelente estudante. Fora descoberta em seu vilarejo anos antes pelo Projeto Veerni, que envia agentes a todo o norte da Índia em busca de meninas inteligentes cujos pais talvez permitam que elas deixem o lar e tenham educação gratuita em um colégio interno para meninas na cidade de Jodhpur.

Shobha, contudo, é casada desde os 8 anos. E tenta me fazer imaginar a ocasião: uma cerimônia coletiva com mais de dez meninas do vilarejo. “Todas com belas roupas novas”, me conta com um sorriso amargo. “Eu não sabia o que significava casamento. Estava feliz da vida.

Sim, diz ela, encontrara-se com seu jovem marido depois do casamento. Mas por pouco tempo. Ele é alguns anos mais velho, e até agora ela conseguira adiar a gauna. Shobha desvia os olhos quando pergunto sua opinião sobre o marido, e revela que ele não tem estudo. Nos entreolhamos, e a jovem balança a cabeça: não, não há nenhuma possibilidade de trazer desgraça a seus pais ao retardar a gauna para sempre. “Tenho de viver com ele. É o destino. Eu o farei estudar e compreender as coisas. Mas não o deixarei.”

A policial Malalai Kakar, de Kandahar, prende um homem que apunhalou a esposa, de 15 anos, por desobedecê-lo. “Nada”, responde Malalai quando lhe pergunto o que aconteceria com o marido. Malalai seria mais tarde morta pelo Talibã

A policial Malalai Kakar, de Kandahar, prende um homem que apunhalou a esposa, de 15 anos, por desobedecê-lo. “Nada”, responde Malalai quando lhe pergunto o que aconteceria com o marido. Malalai seria mais tarde morta pelo Talibã

O grande sonho de Shobha é ir para a universidade. Seu plano, depois de formada, é ser aceita na polícia indiana e se especializar na execução da lei que proíbe o casamento infantil. Escreve um diário desde que começou o ensino médio. Uma das anotações, em caprichosos caracteres hindis, diz: “Diante de meus olhos jamais permitirei que aconteçam casamentos de crianças. Salvarei cada uma das meninas”.

Toda as vezes em que vou ao vilarejo de Shobha, seus pais servem chai, um chá com especiarias, em suas melhores xícaras, e as histórias sobre a garota vão ganhando densidade sob as camadas de orgulho, inquietude e desconfiança quanto às intenções da visitante estrangeira. Não, não foi casamento! Foi só uma festa de noivado! Está bem, foi casamento, mas aconteceu antes de o pessoal do Veerni ter feito sua generosa oferta, assombrados com a capacidade intelectual de Shobha. Foi a menina, dizem, quem descobriu como conseguir instalação elétrica em casa para que ela e seus irmãos mais novos pudessem estudar depois de escurecer. “Hoje eu sei assinar”, diz a mãe de Shobha. “Ela me ensinou a escrever o meu nome.” Mas agora seus pais davam a entender que esse belo episódio na vida da família estava terminando. Chegara a hora. O marido vem telefonando para o celular de Shobha; ele exige uma data. E a avó sempre quis que a gauna acontecesse antes de a neta ficar velha.

As aulas em Jodhpur são ao mesmo tempo a paixão de Shobha e sua tática de postergação, mas a bolsa do Veerni só cobre o ensino médio. Para continuar os estudos e arcar com os custos da faculdade, ela precisa de um doador. O e-mail chega depois que já estou de volta aos Estados Unidos. “Como tem passado? Estou com saudade. Vou cursar letras. No primeiro ano, gostaria de estudar também inglês e computação. Por favor, responda sem demora, pois a data da matrícula na faculdade está próxima.”

“Vejamos o que acontece”, me fala Shobha na última vez em que nos encontramos na Índia. “Venha o que vier, precisarei me adaptar. Porque as mulheres têm de fazer sacrifício.” Estamos na cozinha de sua família naquela tarde, e minha voz sai mais alto do que eu pretendo: por que as mulheres é que têm de se sacrificar, pergunto, e o jeito como Shobha me olha sugere que só uma de nós, naquele momento, entende o mundo em que ela vive. “Porque neste país as coisas são feitas para os homens”, diz ela.

Meu marido e eu decidimos fazer a doação para que Shobha fosse para a faculdade.Hoje ela já tem mais de um ano de estudos depois do ensino médio: computação, preparação para os exames de admissão na polícia. De vez em quando, me manda um e-mail. Seu inglês ainda é vacilante, mas está progredindo. Um dia, minha intérprete em hindi de Jodhpur pede emprestada uma videocâmara e conversa com ela em meu nome em um café. Shobha conta que está estudando para um exame. Mora na cidade, em uma pensão segura para moças. Seu marido ainda telefona com frequência. A gauna ainda não se concretizou. Ela fita a câmera e, com um sorriso largo, anuncia em inglês: “Nada é impossível, dona Cynthia. Tudo é possível”.

Dois dias depois de eu ter recebido esse vídeo, chega um comunicado do Iêmen. Saiu nos jornais que uma noiva de um vilarejo deu entrada no hospital em Sanaa quatro dias depois de seu casamento. Sofrera ruptura de órgãos internos por relações sexuais, disse o pessoal do hospital. Morreu de hemorragia. Ela tinha 13 anos.

Fonte: http://viajeaqui.abril.com.br/materias/o-mundo-secreto-das-noivas-criancas?pw=5#7

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