Mudanças necessárias

por Silvio Caccia Bava

A crise financeira internacional está demonstrando que as grandes corporações transnacionais, sejam elas financeiras ou não, não se importam com os territórios em que operam, só se preocupam em maximizar seus lucros. Quando os custos sobem em um lugar, elas apenas se mudam para onde esses custos são mais baixos, deixando um rastro de desemprego e de degradação ambiental, forçando governos a competirem entre si na destituição de direitos. Suas políticas são globais e se assentam na exploração de circuitos longos de produção e consumo, nas ditas vantagens comparativas de países que aviltam a remuneração do trabalho e nem mesmo protegem o meio ambiente.

Tomemos o caso da soja. Sua produção em grande escala é projeto para grandes empresas, com grande capital, tecnologia, financiamento; demanda infraestruturas e logísticas complexas para acessar o mercado, muitas vezes do outro lado do mundo. Vamos detalhar isso: esses empreendimentos exigem grandes áreas de plantação, o que vem gerando uma ainda maior concentração de terras no Brasil; uma enorme quantidade de água é usada para a irrigação do plantio; tudo se faz de forma mecanizada, com colheitadeiras e outras máquinas que requerem grandes investimentos e mão de obra qualificada para sua operação; o uso intensivo dos agrotóxicos nessas culturas tornou o Brasil o maior consumidor mundial desses produtos, com todos os efeitos nefastos da contaminação das águas e da mortandade que provocam quando as chuvas carregam esses pesticidas para os rios; colhida a soja, ela precisa de trens para levá-la aos portos, e navios para entregá-la, por exemplo, na China, do outro lado do mundo. Não vamos nem comentar a enorme quantidade de energia que esses trens e navios têm de consumir para dar conta de suas tarefas.

Essa lógica só serve ao lucro das grandes empresas transnacionais. Todos os demais perdem. Nem mesmo o resultado financeiro dessas operações fica no território em que a soja é produzida. Esse dinheiro é literalmente aspirado do plano local (a riqueza produzida) e jogado nos circuitos internacionais de especulação. É um modelo insustentável que transforma o território, o local, em um espaço pauperizado, contaminado, exaurido de seus recursos naturais, sem emprego para a população local. Os pequenos produtores, os pequenos negócios, a agricultura familiar, a produção de alimentos, tudo isso é penalizado por esse modelo.

É em razão de situações como essa que atualmente as sociedades nacionais demandam um maior papel regulador e fiscalizador do Estado. Agora já sabemos que a lógica do livre mercado só pode levar à devastação da qualidade de vida das maiorias. Mas não basta regular e fiscalizar esses empreendimentos; estão na sua natureza mesmo, no seu DNA, nos seus objetivos, os problemas sociais e ambientais que acarretam. Esse modelo de produção desafia toda a humanidade, anunciando ciclos de fome, a escassez de água potável, o aprofundamento da exclusão social, a contaminação ambiental e, no limite, a própria sobrevivência no planeta. É preciso mudar. E a crise atual abre oportunidades para que outros modelos de produção se afirmem, disputem o território com o modelo dominante.

Há saídas, há outros modelos, mas eles servem a outros objetivos e interesses. Chama a atenção uma infinidade de experiências no âmbito do que chamamos de economia solidária, comércio justo, as experiências de cooperativas, em que as relações econômicas não são de exploração do trabalho pelo capital, mas relações de outro tipo, fundadas na solidariedade, e não na competição.

Quais são os efeitos se adotarmos um novo enfoque de desenvolvimento, no qual os principais agentes sejam os agentes locais e os objetivos sejam a melhoria da qualidade de vida no território em que vivem?

O mapeamento de experiências inovadoras de desenvolvimento tem permitido reconhecer, por exemplo, as virtudes do que estamos chamando de circuitos curtos de produção e consumo. Explorando as potencialidades do território, os agentes locais de desenvolvimento engajam-se na produção de coisas que serão consumidas no próprio território em que são produzidas. São, em geral, pequenos produtores, sem grande capital disponível para financiar suas iniciativas; utilizando-se de baixa tecnologia; contratando a mão de obra local, sem grande especialização; o resultado financeiro da sua comercialização fica no território, estimulando um círculo virtuoso nos negócios locais. Estamos nos referindo a inúmeros tipos de experiências, que inclusive articulam o urbano ao rural. É o caso das feiras “direto do produtor”, é o caso do fornecimento de 30% da merenda escolar de fontes locais; é o caso das indústrias de doces cristalizados; é o caso da produção de vinho e aguardente, entre outros.

Na fase atual, não se trata de contrapor um modelo ao outro. As grandes empresas estão aí, e toda estratégia de desenvolvimento do território tem de estabelecer novos pactos com esses atores. O que importa é aproveitar essa necessidade de dinamizar o mercado interno para enfrentar a crise internacional e dar força a essas novas alternativas para o desenvolvimento local.

 

Silvio Caccia Bava é editor de Le Monde Diplomatique Brasil e coordenador geral do Instituto Pólis.

 

Fonte: http://diplomatique.org.br/editorial.php?edicao=55

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