Geopolítica e geoestratégia brasileira: Para onde vamos?

Autor: Vympel 1274

Autor: Vympel 1274

Plano Brasil

Com os recentes acontecimentos no mundo, onde supostos organismos de imposição da lei e da ordem (ONU), que deveriam fazer valer seus poderes, são ignorados ou contornados por leis que são interpretadas da maneira que melhor convier pelas grandes potências, o Brasil fica numa posição ambígua, onde sua política interna e externa não demonstra um posicionamento claro, demonstrando assim uma “imaturidade” constitucional que o desqualifica totalmente para assumir seu lugar no mundo como potência (de fato ou de direito).

A falta de uma visão clara e livre de interferências sobre países ou organizações que são ameaças ou que podem vir a serem valiosos aliados para os interesses nacionais, demonstra que o Brasil (e seu povo) tem percepções limitadas da nossa atual situação em relação ao mundo. É possível que isto seja por falta de um conhecimento histórico das relações do nosso país e daqueles que o cercam, estando no mesmo continente ou não, onde interesses históricos sempre ditaram as regras entre nações dominantes e dominadas.

Para uma análise da nossa situação atual, devemos voltar ao passado (pois a nossa atual situação se deve principalmente as nossas decisões anteriores, ou a falta das mesmas), onde o Brasil, devido a sua localização geográfica, suas características de colonização, riquezas naturais, povoamento e extensão territorial, faz dele um elemento importantíssimo no continente latino-americano e mundial.

Antes, devemos definir o que são Geopolítica e Geoestratégia:

Geopolítica

A Geopolítica é uma disciplina das Ciências Humanas que articula a Ciência Política com a Geografia. Considera o papel político internacional que os Estados desempenham em função das suas características geográficas: a localização, o território, a posse dos recursos naturais e o contingente populacional. Estuda o Estado enquanto organismo geográfico, ou seja, é o “estudo da relação intrínseca entre a geografia e o poder”. É o método de análise que utiliza os conhecimentos da geografia física e humana para orientar a ação política do Estado.

Geoestratégia

A Geoestratégia é um subcampo da geopolítica. É um tipo de política externa guiada principalmente por fatores geográficos, e como eles informam, restringem ou afetam o planejamento político e militar. Como em todas as estratégias, a geoestratégia está preocupada com a correspondência entre os meios e os fins, neste caso, um país com recursos (se eles são limitados ou extensos) e seus objetivos geopolíticos (que pode ser local, regional ou global), podendo ser este o nosso país ou outra nação estrangeira. Defendem estratégias proativas e abordagens geopolíticas de um ponto de vista nacionalista.

O que isso quer dizer?

Quer dizer que para toda decisão comercial, econômica, politica, militar ou social que o país deve tomar, devem ser feitos estudos relativos ás características geográficas e históricas entre nosso país e o chamado “país alvo” e o que pode advir destas características. São exemplos disso:

a) Se nos encontramos numa localização geográfica em relação á este referido país que possa influir em suas decisões (se nos encontramos dentro ou não de sua esfera de influência);

b) Nossos recursos minerais (se temos algo que eles querem);

c) Os recursos naturais do país-alvo e a necessidade deles (se possuem em quantidade suficiente ou precisam adquiri-los em outros locais através de vários métodos);

d) Prováveis ações militares futuras deste mesmo país (se possuem capacidade de projeção de força para nos invadirem e as características peculiares desta mesma força);

e) Proporção do seu “poder de combate” em relação ao nosso, o que implica na escolha do tipo de enfrentamento (convencional ou assimétrico);

f) Suas políticas atuais e passadas em relação á nós mesmos e outros países do mundo, visando preparar condições futuras para novas ações (se possuem bases nas proximidades do nosso território, se impedem o desenvolvimento de tecnologias-chave para a indústria de defesa nacional ou se mantém políticas que visam nos debilitar á longo prazo, facilitando assim uma possível ação militar futura);

g) As políticas do país-alvo em relação á nós no passado (se esta política era predatória, construtiva ou irrelevante).

h) Se a penetração da mídia deste país-alvo em nosso próprio país indica predisposição a algum tipo de internacionalização ou perda de autonomia administrativa de alguma parte de nosso território (trabalho de convencimento e operações de desestabilização).

i) Se a história passada entre nosso país e o país alvo é marcada por intervenções (militares ou não) em nossa política externa e qual é a causa destas mesmas intervenções.

Enfim, os estudos de geopolítica e geoestratégica definem os nossos possíveis adversários ou aliados em situações atuais ou futuras, com base nas análises de vários fatores que não são levados em conta pelo público mais leigo, os quais se baseiam quase que sempre em seus desejos pessoais ou empatia desmedida, esquecendo que devemos sempre nos lembrarmos que somos brasileiros e devemos construir nosso próprio caminho, ao invés de sonharmos em ser como os outros.

Espaço Vital, Destino Manifesto e a Doutrina Monroe

Através da história, temos exemplos de nações que detinham uma sociedade mais organizada e desenvolvida e que entendiam possuir o direito de conquistar e assimilar outras sociedades menos desenvolvidas. Isto sempre fez parte da história e sempre fará, não podemos mudar isto. Por isto mesmo devemos como país organizado e desenvolvido ter condições de impedir a intromissão de estrangeiros (a até de brasileiros) nas nossas decisões estratégicas.

No século 19 (apesar do mesmo conceito existir a séculos), surgiram várias crenças que se tornaram estratégias oficiais que justificavam o imperialismo e a anexação de territórios através da guerra ou dominação econômica, sendo estes utilizados pelas grandes potências do período, e que hoje ainda influenciam o pensamento econômico das grandes potências atuais;

O conceito de Espaço Vital (Lebensraum), foi concebido pelo geógrafo e etnólogo alemão Friedrich Ratzel onde acreditava que toda a sociedade, em um determinado grau de desenvolvimento, deve conquistar os territórios onde outras culturas são menos desenvolvidas. O espaço vital seria a colonização e anexação de territórios de outros povos considerados inferiores, onde as necessidades de recursos minerais, humanos e naturais desta sociedade dominadora seriam supridas. Devido ao fato da Alemanha estar atrasada na corrida da expansão marítima europeia, esta não possuía vastos impérios coloniais como a Inglaterra e França. Tal pensamento foi aproveitado por Hitler, na segunda guerra mundial para justificar sua invasão do leste europeu.

A teoria de Espaço Vital pode muito bem explicar o expansionismo japonês, britânico, francês, russo, belga, holandês e de outros países (inclusive o Brasil), ávidos por novos territórios, recursos minerais e novos mercados para seus produtos.

E na América do Sul e Central?

O chamado Destino Manifesto era uma crença em que os Estados Unidos estavam destinados a se expandirem por todo o continente americano e além deste. Tal manifesto sempre foi uma noção geral ao invés de uma política específica, gerando várias interpretações durante a história. Acreditava-se inclusive que era um “preceito divino” com base em valores como igualdade, consciência livre e liberdade, sendo que os Estados Unidos seriam os únicos a disporem de tais virtudes, justificando sua expansão nas Américas, como demonstrou a expansão americana de 1803 – 1912, onde foram anexados ou incorporados os territórios do Texas, Califórnia, Novo México, Nevada, Arizona e Utah (anteriormente pertencentes ao México), além de antigas possessões espanholas nas Américas Central e Sul.

A crença em uma divina missão americana para promover e defender a democracia em todo o mundo, apesar de ter sido substituída a muito tempo por interesses econômicos, militares e políticos, continua a ter uma grande influência na ideologia política americana. A ambição e o interesse econômico ganharam um arrebatador apelo religioso que legitimava os conflitos e massacres que marcaram esse episódio na história norte-americana.

A Doutrina Monroe

A América Central e latina sempre foram consideradas pelos EUA como sua área de influência, principalmente depois da independência destas possessões em relação aos países europeus. Com a possibilidade de assimilar estes territórios, se não no plano territorial, mas no plano econômico, foi instituída a Doutrina Monroe, afirmando que novos esforços por europeus para colonizar países ou interferir com assuntos internos destes mesmos países das Américas, seriam vistos como um ato de agressão contra os próprios Estados Unidos. Complementando esta doutrina, surgiram o que vieram a serem conhecidos como “Big Sister” e o “Corolário Roosevelt“. Com essas doutrinas, foi definida aEsfera de Influência que até hoje dita as regras para a América Central e Sul.

Futuras pretensões para com a América Latina

O Brasil é o maior país da América do Sul. Seu PIB é quase o mesmo que de todas as economias da região somadas e temos os maiores recursos naturais da região, numa posição geográfica de destaque e dominância do atlântico sul. Quem controlar o Brasil controlará a América do Sul.

Nosso país foi, durante a década de 80, pressionado por entidades não governamentais (ONG’s), e outros países a respeito da nossa floresta tropical, onde pregava-se a internacionalização desta parte de nosso território visando “preservar a floresta amazônica da destruição”, sendo na verdade mais um exemplo de “operações de convencimento e desestabilização interna” visando justificar uma intervenção motivada realmente pela posse de recursos minerais. A melhor maneira de se combater esse tipo de ação é preservar o meio ambiente de exploração predatória indiscriminada, mantendo-se dentro dos padrões especificados por organismos internacionais íntegros, mesmo que os estrangeiros auto proclamados “defensores do meio-ambiente” não o façam, como quando não quiseram ratificar o protocolo de kyoto, no Japão.

Somente não sofremos pressões internacionais concluídas com uma invasão de nosso território (principalmente no período pós-guerra fria) devido ao fato de apesar de tudo, o Brasil ser uma democracia plena no modelo ocidental e plenamente aceita pelo seu povo, com enorme capacidade latente de desenvolvimento do país e juntamente com a característica humanitária do povo brasileiro. Além disso, existem outros alvos mais compensadores, como governos autoritários e odiados pelo sua própria população, o que os tornam vulneráveis á “trabalhos de convencimento” e “operações de desestabilização” por estas nações dominantes (como ocorre atualmente com alguns países do oriente médio).

Exemplo de frases ditas no referido período por organizações não-governamentais e países defensores da internacionalização:  http://planobrasil.com/2010/08/10/paranoia/

O fato de décadas de imposições, intervenções veladas ou não na política destes países e desmandos por parte dos EUA em relação a região (mesmo que isto tenha acontecido devido a nossa própria incapacidade de nos autogovernar), causou um ressentimento nestes países, o que levou a governos de esquerda atualmente assumirem o poder em países chaves na região, com uma evidente conotação anti-americana e a um distanciamento dos EUA.

Os EUA reagiram com a reativação da 4ª Frota da Marinha dos Estados Unidos na região, demonstrando uma reedição da chamada “diplomacia do porrete” (Big Stick) de Theodore Roosvelt em relação á America do Sul e Central no século 19. Seria uma reedição de uma velha política?

Desenvolvimento militar do Brasil e da região

O Brasil ao romper com o acordo de cooperação militar com os EUA em 1977, devido a pressões de Washington relativas ao acordo nuclear firmado com a Alemanha Ocidental, buscou uma indústria militar nacional, fato que foi combatido pelos EUA desde o seu nascimento, culminando com a falência da Engesa na década de 90 (embora sofresse de má administração, foi também muito prejudicada pelo “lobby” americano na venda de carros de combate para a Arábia Saudita) e no atraso de décadas do programa espacial brasileiro (devido a falta de fundos e a pressões internacionais relativas a transferência de tecnologias críticas para o Brasil).

As Américas latina e Central sempre serão consideradas o “quintal” dos EUA, enquanto estas nações não se afirmarem capazes de definir seu próprio futuro, tanto internamente quanto perante o mundo. Esse “quintal” deve ser mantido a todo custo e sempre vigiado. Qualquer tentativa de se opor aos seus desígnios é imediatamente combatida (exemplo dos golpes militares financiados pela CIA na região, durante as décadas de 50, 60 e 70, que alguns vieram a ser conhecidos como PBSUCCESS (Guatemala),FULBELT (Chile) e BROTHER SAM (Brasil).

O crescimento das forças armadas da região é monitorado a todo momento e o equipamento americano no “estado da arte” é vetado a ser fornecido ao continente, e quando isso acontece, o mesmo é “rastreado” ou “degradado” por seus fabricantes. Surgiram comentários na imprensa especializada sobre os F-16 Block 52 paquistaneses serem rastreados por GPS pelos EUA. E vocês acreditam que os F-18 Super Hornet possivelmente vendidos ao Brasil serão diferentes?

O que definir de tudo que foi exposto acima?

Como o Brasil é um alvo dos interesses das grandes potências na região, qualquer tentativa de independência no setor militar será combatida, com os dizeres “corrida armamentista”, “desestabilização regional” (como ocorre atualmente com a China) ou invocando-se as chamadas “ferramentas de controle”, o MTCR (Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis) e o TNP (Tratado de Não-Proliferação Nuclear), isso sem falar em pressões econômicas. Qualquer ameaça a supremacia militar e política dos EUA na América Latina será combatida desde sua concepção.

Que o Brasil, de posse da maior floresta tropical do mundo, a maior biodiversidade existente, as maiores reservas de água potável do mundo, com bilhões de barris de petróleo do pré-sal, recursos minerais ainda não explorados em todo seu território e um mercado consumidor de milhões de pessoas com poder de compra, é simplesmente o maior alvo existente para as grandes potências no continente, pois as futuras guerras serão travadas pela posse de recursos minerais, petróleo e água, sendo que tais riquezas não se encontram no território das grandes potências e se escasseiam rapidamente no resto do mundo que eles já exploram. É conveniente que o Brasil permaneça desarmado, subdesenvolvido e sem uma indústria militar nacional de peso, visando estar sem condições de representar uma ameaça aos interesses de países estrangeiros na região, pois facilitaria enormemente uma intervenção futura visando tomar posse ou controlar seus recursos naturais;

Na compra de qualquer tipo de armamento, deve ser levada em consideração sua origem, e se o país que o produz, de acordo com as análises geopolíticas e geoestratégicas, pode vir ou não em um futuro a curto, médio ou longo prazo, a se tornar uma ameaça real para nós em busca de nossas riquezas, pois a tecnologia empregada neste tipo de equipamento seria controlada pelos mesmos países que nos ameaçam;

Devemos buscar cooperação militar e científica com parceiros que não tenham interesse (pelo menos imediato) no nosso território, evitando assim de dependermos de uma tecnologia controlada por nossos possíveis adversários futuros, como fizeram China e Índia assimilando equipamentos de origem Russa / Soviética e desenvolvendo seus próprios projetos a partir destes e voltados para enfrentar o mesmo tipo de organização militar que possivelmente os ameaça.

Conclusão

Tais pensamentos expansionistas sempre foram parte do caráter humano e somente deixarão de existir se algum dia, a humanidade evoluir de tal modo que os conflitos bélicos sejam extintos. A grande questão é quando o Brasil, como país soberano, irá adquirir condições para assumir seu lugar de fato e de direito entre as grandes potências mundiais. Para tanto, é necessário além do desenvolvimento do país, também definirmos quais são as ameaças presentes e futuras e nos prepararmos para enfrentá-las. Isto não significa adotar uma postura agressiva para com estes países, mas sim estar em condições dissuadir qualquer aventura que possam promover em terras brasileiras.

Os EUA ainda serão por muitas décadas a principal referência ocidental e mesmo mundial (da mesma maneira que Roma fez com o resto do mundo em seu auge), pois sua economia e cultura estão de tal forma enraizadas no nosso modo de vida que seria um grande erro se nos desfizéssemos delas, mesmo que isso fosse possível (as quais nos trazem enormes benefícios, se soubermos como aproveitá-las corretamente). O que possivelmente ocorrerá é uma diluição do poder global com alguns países (possivelmente os BRICS).

Relações internacionais amistosas com os EUA/OTAN sempre serão mais que bem-vindas e é o meio mais inteligente de crescimento em todos os setores de nossa sociedade, pois só temos a ganhar com as mesmas. Entretanto, em um mundo onde por várias vezes foi mostrado o compromisso de um pequeno grupo de nações, que se apoiam mutuamente em seus interesses, existe a real necessidade de se impor perante estas mesmas nações, pois quem não se impor nunca será respeitado. Estas relações futuramente deverão ser excepcionalmente realizadas dentro de termos genuinamente brasileiros.

 

Fonte: http://planobrasil.com/2011/09/02/geopolitica-e-geoestrategia-brasileira-para-onde-vamos/

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