ESPECIAL NOVA ORDEM MUNDIAL – 2ª PARTE – 5 matérias sobre a Nova Ordem Mundial: seus problemas e perspectivas

A Nova Ordem Mundial e a Geopolítica do Petróleo

F. William Engdahl [*]

           Estranha e calmamente os Estados Unidos estão sendo cerceados em sua agora óbvia estratégia de controlar as maiores fontes de petróleo e energia do Golfo Pérsico, Bacia do Cáspio na Ásia Central, África e mais além.

          A estratégia norte-americana de controle global da energia, está agora claro para a maioria, foi o motivo real para a altamente dispendiosa mudança de regime no Iraque, apelidada de forma eufemística de ‘democracia’ por Washington. George W. Bush reafirmou seu mantra da democracia recentemente, em 28 de maio, na cerimônia militar de formatura em West Point, onde ele declarou que a segurança dos EUA depende de uma pressão agressiva pela democracia, especialmente no Oriente Médio. ‘Isto é apenas o começo’, disse Bush. ‘A mensagem foi espalhada de Damasco a Teerã de que o futuro pertence à liberdade, e não vamos descansar até que a promessa de liberdade alcance cada pessoa em cada país.’

          Se a tendência dos acontecimentos recentes se mantiver, não será a democracia ao estilo Bush que vai se espalhar, mas sim a influência russa e chinesa sobre as maiores fontes energéticas de petróleo e gás.

          A questão do controle energético incentivou Washington a apoiar as arriscadas ‘revoluções coloridas’ na Geórgia, Ucrânia, Usbequistão, Bielorrússia e Quirquistão nos últimos meses. Ela está por trás da atividade norte-americana nos países do Golfo da Guiné, na África Ocidental, bem como no Sudão, fonte de 7% das importações chinesas de petróleo. Ela está por trás da política dos EUA vis-à-vis a Venezuela de Hugo Chavez e a Bolívia de Evo Morales.

         Nos últimos meses, no entanto, esta estratégia de dominação global da energia, uma prioridade estratégica dos EUA, tem mostrado sinais de que está produzindo exatamente o contrário: uma espécie de ‘coalizão dos insatisfeitos,’ países que cada vez mais não vêem outra alternativa, apesar das tradicionais animosidades, que cooperar para contrapor ao que eles vêem como uma pressão dos EUA para controlar todos eles, sua segurança energética futura.

          Algumas pessoas em Washington estão começando a compreender que foram apenas ‘meio-espertos’, como é evidente nos recentes pronunciamentos tanto da China como da Rússia, duas nações cuja cooperação é em alguma forma essencial para o sucesso do projeto global de energia norte-americano.

Ofensas tanto à China como à Rússia

          Contrariando o conselho de antigos especialistas em China, inclusive o ex-Secretário de Estado Henry Kissinger, arquiteto da abertura de Nixon à China em 1972, a Casa Branca negou a honra de um jantar de estadista ao visitante presidente chinês Hu Jintao em abril, servindo no lugar um almoço rápido. Hu foi humilhado publicamente por um conhecido ativista da seita Falun Gong na conferência de imprensa da Casa Branca e por outras humilhações óbvias. Em outras palavras, a Casa Branca recepcionou Hu com um diplomático tapa na cara.

          Ao mesmo tempo, o vice-presidente Dick Cheney “esbofeteou” o presidente da Rússia, Putin, com o mais aberto ataque à política interna de direitos humanos, bem como à sua política de energia, num discurso no país báltico da Lituânia. Lá, Cheney declarou sobre a Rússia, ‘o governo tem restringido de forma imprópria e ilegal os direitos de seu povo.’ Ele acusou a Rússia de ‘intimidação e chantagem’ energética. Alguns dias depois, a Secretária de Estado Condoleezza Rice reiterou que a Rússia deveria ser ‘pressionada’ pelas reformas democráticas. Rice também agrediu diplomaticamente a China em março durante uma viagem ao sudeste asiático, chamando a China de uma ‘força negativa’ na Ásia.

          Estranhamente, Washington tem acusado repedidas vezes a China de ‘não cumprir as regras,’ em termos de sua política de petróleo, declarando que a China é culpada de ‘tentar controlar a energia na fonte,’ como se essa não tivesse sido a política de energia dos EUA por mais de um século.

          O significado de atacar simultaneamente tanto a Rússia como a China, os dois gigantes Eurasianos, um deles o maior investidor em títulos do Tesouro dos EUA, o outro a segunda maior potência nuclear mundial, reflete a compreensão em Washington de que as coisas podem não ser tão simples na questão da dominação global como prometido originalmente por vários estrategistas da e em torno da administração Bush.

A Organização para a Cooperação de Xangai ganha novo peso

          Em 15 de junho, as nações-membros da Organização para a Cooperação de Xangai (Shanghai Co-operation Organization, SCO), liderados pela China e pela Rússia, informalmente convidarão o observador, Irã, para se tornar membro pleno. Essa reunião será realizada em Xangai. Ainda que a condição de membro pleno seja postergada, como tem sido debatido, o fato é que Rússia e China desejam selar uma maior cooperação com o Irã na cooperação energética na Eurásia.

          A Organização para a Cooperação de Xangai foi fundada em junho de 2001 pela China, Rússia, Kasaquistão, Quirquistão, Tajiquistão e Usbequistão. Seus objetivos declarados eram facilitar a ‘cooperação nas esferas de assuntos políticos, economia e comércio, técnico-científicos, culturais, e educacionais, bem como nos campos de energia, transporte, turismo, e proteção ambiental.’ Recentemente, no entanto, a SCO está se tornando algo como um bloco energético-financeiro na Ásia Central, conscientemente sendo desenvolvido para servir como contraponto à hegemonia norte-americana.

          Nos últimos meses seus membros deram vários passos potencialmente estratégicos no sentido de se afastar da dependência dos EUA, tanto em energia como em dependência financeira. Uma olhada no mapa indica o potencial de uma SCO expandida.

Geopolítica energética da Rússia

          Em seu recente discurso sobre o Estado da União, o presidente Putin anunciou que a Rússia está planejando tornar o rublo conversível em outras moedas de importância, como o Euro, e usar o rubro em suas transações de petróleo e gás. O rublo conversível deve ser introduzido, de acordo com as últimas declarações russas, em 1 de julho, seis meses antes do originalmente planejado. A Rússia também expôs seus planos de transferir uma parte de suas consideráveis reservas em dólar para outras moedas, e que usaria US$40 bilhões para comprar reservas em ouro.

          A companhia estatal russa de transporte de gás natural, Transneft, consolidou seu controle sobre os gasodutos para tornar-se a única exportadora do gás natural russo. A Rússia tem de longe as maiores reservas mundiais de gás natural, e o Irã as segundas maiores. Com o Irã, a Organização para a Cooperação de Xangai controlaria a vasta maioria das reservas mundiais de gás natural, bem como uma significante parte das reservas de petróleo, para não mencionar o potencial controle do Estreito de Hormuz, o estreito corredor para a maioria dos navios petroleiros do Golfo em direção ao Japão e ao Ocidente.

          No final de maio foi relatado que a Rússia e a Argélia, os dois maiores fornecedores para a Europa, chegaram a um acordo para aumentar a cooperação energética. A Argélia deu às companhias russas acesso exclusivo aos campos argelinos de petróleo e gás, e a Gazprom e a Sonatrach irão cooperar na entrega do gás para a França. Putin cancelou o débito de $4,7 bilhões [rublos] que a Argélia tinha com a Rússia, e de sua parte a Argélia comprará o equivalente a $7,5 bilhões de caças russos de última geração, sistemas de defesa aérea e armas.

          Em 26 de maio, o Ministro da Defesa russo Sergei Ivanov anunciou também que a Rússia vai suprir definitivamente o Irã com sofisticados mísseis anti-aviação Tor-M1, segundo consta como um prelúdio para o suprimento de armamento mais sofisticado.

          Então, num dos exemplos mais fascinantes da absoluta autoconfiança geopolítica da Rússia de Putin na área de energia, o monopólio do gás controlado pelo Kremlin Gazprom entrou em sigilosas negociações com o Primeiro-ministro de Israel Ehud Olmert, através de seu amigo bilionário Benny Steinmetz, para assegurar o suprimento do gás natural russo a Israel através de um gasoduto submarino da Turquia até Israel.

          De acordo com o jornal israelense Yediot Ahronot, o gabinete de Olmert disse que vai apoiar a proposta da Gazprom. Em alguns anos Israel enfrentará o racionamento do gás das jazidas do Mar de Tethys e logo do gás do Egito. O gás do Mar de Tethys deve terminar em poucos anos. A British Gas (BG) mantém conversações para enviar o gás de Gaza, mas Israel disputa o direito de exploração da BG. Mas mesmo com o gás do Egito e Gaza os racionamentos de gás são esperados por volta de 2010, a menos que Israel consiga encontrar novas fontes. Entram a Gazprom e Putin. O gás seria desviado do gasoduto Rússia-Turquia Bluestream, subutilizado, que a Rússia construiu para aumentar sua influência sobre a Turquia dois anos atrás. Putin claramente quer levar vantagem em Israel sobre a influência unilateral dos EUA na política de Israel.

Geopolítica energética da China também em alta rotação

           De sua parte Beijing também se move para ‘garantir a energia nas fontes.’ A economia chinesa, que cresce a 9% ao ano, requer imensos recursos naturais para sustentar seu crescimento. A China se tornou um grande importador de petróleo em 1993. Em 2045, cerca de 45% das necessidades energéticas da China dependerão de petróleo importado.

          Em 26 de maio, o petróleo cru do Kazaquistão começou a fluir para a China num recém concluído oleoduto de Atasu no Kazaquistão para a passagem de Alataw, na província de Xinjiang no extremo oeste da China, uma rota de 1.000 quilômetros anunciada apenas no ano passado. Ele é a marca da primeira vez que o petróleo é bombeado diretamente para a China. O Kazaquistão é também um membro da SCO, mas desde o colapso da União Soviética havia sido parte da esfera de influência dos EUA, com a ChevronTexaco, a companhia petrolífera de Condi Rice, a maior exploradora de petróleo.

          Por volta de 2011, o oleoduto terá uma extensão de mais 3.000 quilômetros até Dushanzi onde os chineses estão construindo sua maior refinaria de petróleo, que deve ficar pronta por volta de 2008. A China financiou todos os US$700 milhões do oleoduto e vai comprar o petróleo. Em 2005 a companhia petrolífera estatal chinesa CNPC comprou a PetroKazkhstan por US$4.2 bilhões e vai usá-la para explorar os campos de petróleo no Kazaquistão.

          A China está também em negociações com a Rússia para um oleoduto que vai levar o petróleo siberiano até o nordeste da China, um projeto que deve estar completo em 2008, e um gasoduto para gás natural da Rússia até Heilongjiang, no nordeste chinês. A China acaba de ultrapassar o Japão como o segundo maior importador mundial de petróleo depois dos EUA.

          Beijing e Moscou estão ainda integrando suas economias de eletricidade. No final de maio a companhia China State Grid Corp anunciou seus planos de aumentar em cinco vezes as importações de eletricidade da Rússia até 2010.

Nos países africanos produtores de petróelo: China por todos os lados

          Em sua incansável luta para assegurar futuros suprimentos de petróleo ‘na fonte’, a China também entrou em tradicionais domínios petrolíferos dos EUA, Inglaterra e França na África. Além de ser o maior explorador do oleoduto do Sudão, que envia 7% das importações totais de petróleo da China, Beijing tem sido muito ativa na África Ocidental, nos países à margem do Golfo da Guiné, rico em petróleo, fonte de vastos campos do valorizado petróleo com baixo teor de enxofre.

          Desde a criação do Fórum China-África em 2000, a China tem derrubado as tarifas de 190 produtos importados de 28 dos países africanos menos desenvolvidos, e cancelou US$1,2 bilhão em débitos.

          Um indicativo da maneira como a China está acabando com o costumeiro controle dos países africanos pelo FMI/ economias ocidentais, o banco de importação e exportação da China concedeu recentemente um auxílio de $2 bilhões para Angola. Em troca, o governo de Luanda concedeu à China parceria na exploração de petróleo em águas não-profundas na costa. O auxílio deve ser usado para projetos de infra-estrutura. Em contraste, o interesse norte-americano nas guerras separatistas em Angola raramente foi além do bem-guardado enclave petrolífero de Cabinda, onde a ExxonMobil juntamente com a Shell Petróleo dominaram até recentemente. Aparentemente, isso deve mudar com o crescente interesse chinês.

          Os projetos de infra-estrutura chineses em desenvolvimento em Angola incluem ferrovias, estradas, uma rede de fibra óptica, escolas, hospitais, escritórios e 5.000 unidades de moradia. Um novo aeroporto com vôos diretos de Luanda para Beijing também está planejado.

          Indiretamente, através de seu apoio ao governo sudanês, a China é também parte interessada no jogo de alto risco da potencial mudança de regime no vizinho Chade, rico em petróleo. No início deste ano, o ‘garoto truculento’ do Banco Mundial, Paul Wolfowitz, foi forçado a recuar nos planos de cortar a ajuda do Banco Mundial, depois da ameaça de uma paralisação nas exportações de petróleo pelo minúsculo Chade. ExxonMobil é atualmente a maior companhia em atividade no Chade. Mas o Sudão apóia os rebeldes no Chade, que só foram impedidos de derrubar o notoriamente corrupto e impopular regime do presidente Idriss Deby pelos 1.500 soldados franceses que sustentaram o regime Deby. Washington se juntou a Paris no apoio a Deby.

          O Sudão envolveu a China, mais do que as corporações ocidentais, na exploração de seus campos petrolíferos, em grande parte como um resultado das mal-planejadas sanções impostas pelos EUA em 1997, que impediram as companhias petrolíferas norte-americanas de fazer negócios no Sudão. Um novo regime no Chade, apoiado pelo Sudão, colocaria em risco o oleoduto Chade-Camarões e as companhias petrolíferas ocidentais.

          É possível imaginar que a China deve estar apenas esperando para entrar numa brecha e ajudar o Chade a explorar seu petróleo, especialmente se ele for para a China.

          E imediatamente depois de sua desagradável visita a Washington em abril, onde o presidente chinês foi recebido por uma diplomacia da Casa Branca de deliberados insultos, reminiscências de um trote da fraternidade da Universidade do Texas, Hu Jintao foi para a Nigéria, há tempos tida por Washington como sua ‘esfera de interesses petrolíferos.’

          Na Nigéria, o maior produtor de petróleo na África, Hu assinou um acordo com o governo nigeriano onde a Nigéria concederá à China quatro licenças de perfuração em troca de uma promessa de investimentos de $4 bilhões em infra-estrutura. A China vai comprar uma participação no controle na refinaria de Kaduna, que produz 110.000 barris/dia, vai construir ferrovias e estações de força, e, além disso, vai assumir uma participação de 45% no desenvolvimento do campo de petróleo e gás offshore nigeriano OML-130. Segundo o diretor da companhia petrolífera chinesa CNOOF, o OML-130 é ‘um campo de petróleo e gás de imenso interesse… localizado em uma das maiores bacias de petróleo e gás do mundo.’

          Quase toda a produção atual de petróleo da Nigéria é controlada por multinacionais ocidentais. Mas a situação também deverá mudar em breve em favor da China.

          Auxílios para infra-estrutura similares ou ofertas de investimento em energia estão sendo feitos pela China ao Gabão, Costa do Marfim, Libéria e Guiné Equatorial.

          A estranha acusação contra a China de ‘não respeitar as regras’ e ‘tentar garantir energia na fonte,’ começa a tomar dimensão real quando estes movimentos, junto com os movimentos feitos pela Rússia na área de energia, são tomados na sua totalidade.

A conclusão de Washington? Oops…

          É pouco surpreendente que alguns falcões de Washington estejam ficando alarmados. De repente, o mundo de ‘inimigos potenciais’ não está mais restrito à Guerra contra o Terror, centrada no islamismo. Liderança ideológica neo-conservadora, Robert Kagan escreveu recentemente um importante editorial no Washington Post. Presumivelmente, Kagan priva das discussões nas altas esferas em Washington. Sua esposa, Victoria Nuland, trabalhou como conselheira de assuntos de segurança nacional com o vice-presidente Cheney até ser nomeada embaixadora dos EUA na OTAN.

          Kagan declarou, em referência à Rússia e à China: ‘Até agora a estratégia do Ocidente liberal tem sido tentar integrar essas suas potências na ordem liberal internacional, amansá-las e torná-las seguras para o liberalismo.’ Kagan foi co-fundador do Projeto para um novo século americano (PNAC), no final dos anos 1990, para entre outras coisas advogar uma maior presença militar norte-americana e a mudança forçada de regime no Iraque, esta última um ano antes do ataque de 11 de setembro de 2001.

          Kagan continua: ‘Se, pelo contrário, China e Rússia continuarem sendo os sólidos pilares da autocracia pelas próximas décadas, persistindo e talvez até prosperando, então não se pode esperar que eles abracem a visão ocidental da inexorável evolução da humanidade rumo à democracia e ao fim da ordem autocrática.’

          Kagan fez acusações de que a China e a Rússia emergiram como os protetores de ‘uma liga informal de ditadores’- que, de acordo com ele, atualmente inclui os líderes de Bielorrússia, Usbequistão, Burma, Zimbábue, Sudão, Venezuela, Irã e Angola, entre outros – ao redor do mundo, que, como os líderes da Rússia e da China eles mesmos, resistem a quaisquer tentativas do Ocidente de interferir em seus assuntos internos, seja através de sanções ou outros meios.

          ‘A questão é o que os Estados Unidos e a Europa decidirão fazer em resposta,’ escreveu Kagan. ‘Infelizmente, a al-Qaeda pode não ser o único desafio que o liberalismo enfrenta hoje em dia, ou mesmo o maior.’ A questão, como astutamente coloca Kagan, é o que os Estados Unidos ou a Europa podem fazer em resposta. O gênio da estratégia dos falcões de Washington mostra suas velhas artimanhas.

          A principal organização de política externa nos EUA, o Conselho de Relações Estrangeiras de Nova Iorque (CFR) também ponderou sobre a questão recentemente, especialmente sobre os movimentos da China na área de energia. Num relatório recente, o CRF acusa a administração Bush de não ter nenhuma estratégia completa e de longo prazo para a África. Eles criticam o foco dos EUA em assuntos humanitários como em Darfur, ao sul do Sudão, exigindo ao contrário que os EUA ‘atuem nos seus crescentes interesses nacionais no continente.’ Quais interesses? O CFR lista petróleo e gás como número um; crescente competição com a China (fortemente relacionada com a primeira) como número dois. Oops…


[*] F. William Engdahl é editor colaborador de Global Research e autor do livro, ‘A Century of War: Anglo-American Oil Politics and the New World Order,’ Pluto Press Ltd. (Um século de guerra: Política de petróleo anglo-americana e a nova ordem mundial). Ele pode ser contatado através de seu site,www.engdahl.oilgeopolitics.net.

Fonte: http://www.geomundo.com.br/geografia-30115.htm

A Rússia na Nova Ordem Geopolítica

         A Rússia, após a derrocada do socialismo como sistema socioeconômico e da União Soviética, passou a participar de uma nova agenda internacional tanto no campo político como no militar.

         Passou a integrar o G-8(1), apesar de enfrentar uma etapa difícil de transição da economia centralmente planejada para uma economia de mercado – capitalista -, às voltas com crises econômico-financeiras, aumento da pobreza e da corrupção, concentração de renda e guerras separatistas. Mas é a segunda potência nuclear do planeta, e, em seu imenso território dispõe de grandes reservas minerais, inclusive petróleo. Além disso, mantém relações de cooperação com o Irã – país importante no contexto geopolítico do Oriente Médio – para a construção de reatores nucleares, acordos militares com a Índia e, desde julho de 2001 (quando assinou com os chineses um acordo de amizade), busca estreitar relações políticas com a China.

A Rússia na OTAN

         Em maio de 2002, a Rússia e a OTAN selaram um acordo de cooperação, com a criação do Conselho OTAN-Rússia. A partir daí, o país passou a participar das decisões dos países-membros em assuntos de interesse mútuo, como a definição de estratégias político-militares a serem aplicadas no controle da proliferação de armas nucleares e no combate ao terrorismo.

         Também em maio de 2002 a Rússia acertou com os Estados Unidos um acordo para a redução de armas nucleares. O acordo, no entanto, leva em conta apenas as armas estratégicas disponíveis, sem especificar se elas devem ser desmontadas e armazenadas ou destruídas, e define que cada país deve determinar a maneira como cumprirá as metas. Mesmo com os cortes, que correspondem a cerca de 10% do arsenal existente no auge da Guerra Fria, ambos os países ainda dispõem de armamento nuclear capaz de destruir o planeta. Além disso, muitos desses cortes podem ser revistos em função da política de aumento de gastos militares dos norte-americanos.

         A participação da Rússia na OTAN ocorreu após o aval que esse país deu à intervenção armada norte-americana no Afeganistão, em 2001. Essa intervenção foi considerada o primeiro embate dos Estados Unidos com base nos princípios que seriam consolidados posteriormente na Doutrina Bush(2) e justificada pela necessidade de combater o terrorismo internacional. Em contrapartida, a Rússia também não foi reprovada pela violenta repressão empreendida ao movimento separatista na Chechênia, uma república islâmica que faz parte da Federação Russa.

         A Rússia, no entanto, não concordou com as ações militares dos Estados Unidos no Iraque e é contra qualquer ação no Irã e na Coréia do Norte. Esses países, em especial o Irã, são tradicionais aliados dos russos, com os quais mantêm acordos de cooperação econômica e científica. Em 2003, na guerra anglo-americana contra o Iraque, a Rússia posicionou-se contra a intervenção militar no Iraque, mas sua posição é delicada: ao mesmo tempo que não concorda com os avanços nem com a política intervencionista dos Estados Unidos, não se coloca em confronto direto, pois conta com o apoio dos norte-americanos, nos organismos internacionais, para resolver os problemas econômicos que enfrenta.

(1) G-8: grupo formado pelos sete países mais ricos do planeta (EUA, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Canadá), e a Rússia, que tem PIB bem menor que os demais, mas, do ponto de vista político-militar, constitui a segunda maior potência nuclear da Terra.
(2) Doutrina Bush: Conjunto de princípios e ações para consolidar a hegemonia dos Estados Unidos.

 

Fonte: http://www.geomundo.com.br/geografia-30127.htm

Terrorismo e Nova Ordem Mundial – alguns comentários(*)

José William Vesentini, de 17 a 21 de outubro de 2001.

1. Colocando o problema

O terrorismo é o grande assunto do momento. Ele afetou as bolsas de valores e as perspectivas de crescimento das economias, a começar pela norte-americana — a mais poderosa do globo — e vem suscitanto uma série de discussões sobre como evitá-lo, com algumas propostas que, se adotadas, vão certamente alterar algumas de nossas rotinas do dia a dia. E também a ordenação geopolítica mundial começa a sofrer significativas modificações em função do desenrolar dos acontecimentos, em especial da luta contra o terrorismo. Tudo começou, como se sabe, com os recentes atentados do dia 11 de setembro deste ano, que destruíram as duas torres do World Trade Center, em Nova Iorque, e parte das instalações do Pentágono, em Washington. A reação norte-americana, ao contrário do que temiam alguns — e do que sugeriam as primeiras declarações atabalhoadas do Presidente George W. Bush –, foi relativamente cautelosa na medida em que essa superpotência militar procurou, antes de iniciar uma contra-ofensiva, cimentar toda uma aliança internacional de apoio. Quase um mês após os atentados, as forças armadas estadunidenses — com o aval da ONU e com a colaboração ativa (envio de tropas) ou passiva (apoio logístico) de inúmeros outros países — iniciaram uma série de fortes bombardeios sobre o Afeganistão, país onde se localizam o quartel general e vários campos de treinamento do grupo terrorista El Quaeda [A base], liderado pelo milionário saudita Osama Bin Laden, considerado pelas organizações de inteligência dos Estados Unidos, do Reino Unido e de outros Estados como o responsável pelo planejamento daqueles atos destrutivos. Bin Laden nega qualquer envolvimento naqueles atentados — algo, por sinal, coerente com o posicionamento do terrorismo atual ou pós-moderno, que quase nunca assume a autoria de suas ações –, mas o seu envolvimento com o terrorismo é patente (algo que ele próprio admite, inclusive as ameaças que fez contra os Estados Unidos no início deste ano, prometendo uma onda de atentados caso o novo governo desse país continuasse com a sua política de abandonar os palestinos e deixar Israel à vontade) e ele já foi exaustivamente apontado como o responsável por alguns outros violentos atentados ocorridos anteriormente.

O objetivo destes comentários é analisar o que é o terrorismo atual ou pós-moderno e realizar algumas inferências a respeito do seu significado na nova ordem mundial, que mais uma vez se redefine neste momento. Não pretendemos analisar exaustivamente este episódio específico — os atentados de 11 de setembro e a reação norte-americana –, que por sinal ainda não chegou ao seu término (nem mesmo no que diz respeito ao futuro do Afeganistão). Provavelmente o governo deste país vai mudar, com a saída do Teleban e a entrada de uma coalisão formada pela Liga do Norte e por representantes do antigo rei, do Paquistão, do Irã (afinal 20% da população afegã é constituída por muçulmanos xiitas, que foram fortemente reprimidos no governo do Teleban; e o apoio iraniano é fundamental para amenizar os protestos islâmicos) e talvez até da facção moderada do Teleban, que nestes últimos dias vem procurando se distanciar do terrorismo e passou a denunciar o “exagerado poder” do El Quaeda no Estado afegão. Mas isso não é o fundamental — e nem mesmo o futuro de Bin Laden e do seu grupo terrorista (que provavelmente vai continuar mesmo sem ele). O essencial são as mudanças permanentes que todo esse episódio deverá ocasionar nas relações (econômicas, político-diplomáticas e militares) internacionais. O terrorismo — que constitui verdadeiras redes (CASTELLS, 2001) e não se resume a este grupo referido — passou a ocupar o antigo papel do “comunismo”, o de “inimigo” ou ameaça maior à continuidade do sistema global. Qualquer que seja o desfecho deste episódio específico, a luta do e contra o terrorismo, infelizmente, deverá prosseguir por anos ou talvez até décadas. E, mais uma vez (pois isso já ocorreu anteriormente, em outros momentos nos quais ocorreram sucessivos atentados ou “ondas” terroristas), o movimento terrorista deverá produzir um efeito contrário ao que almeja: ao invés de desestabilizar as instituições dominantes (em especial o Estado), as fortalecerá; ao invés de gerar mais pânico, insegurança e desestruturação social (algo que de fato produz, a curto prazo), ele deverá a médio e a longo prazo fortalecer e até legitimar novas e mais severas medidas de segurança e de vigilância sobre a vida cotidiana das pessoas em geral.

2. O que é o terrorismo pós-moderno?

O terrorismo é uma forma violenta de protesto (e de tentativa de desestabilizar algum regime) conhecida desde a antiguidade. Existem referências a atos terroristas desde a Grécia antiga, passando pelo Império Romano e por inúmeros outros momentos da história. Uma primeira e intensa “onda terrorista” ocorreu no final do século XIX e inícios do XX. Naquele momento ninguém se sentia seguro e a salvo do terrorismo, confome relata um estudioso do assunto, Walter LAQUEUR (1996). Em 1894 um anarquista italiano assassinou o Presidente francês Sai Carnot; em 1897 anarquistas mataram a punhaladas a imperatriz Elizabeth da Áustria e assassinaram o Primeiro-Ministro espanhol Antonio Canovas; em 1900 o rei Humberto I, da Itália, foi vítima de outro ataque terrorista e, no ano seguinte, um anarquista matou o Presidente norte-americano William McKinley. E não podemos nos esquecer que a Primeira Guerra Mundial foi deflagrada após o assassinato, em 1914, de um arquiduque austríaco por um terrorista sérvio. O terrorismo, assim, é uma ação desesperada e violenta, feita por grupos (ou eventualmente por um indivíduo) que almejam mudar alguma coisa na vida política e social — derrubar um regime, lutar contra uma potência colonialista ou imperialista, alterar radicalmente os valores de uma sociedade, alcançar uma independência nacional — e ele costuma ser diferenciado da guerra (choque entre Estados) e da guerrilha (na qual um grupo almeja controlar um território). A principal finalidade dos atos terroristas é semear o pânico, desestabilizar as instituições e com isso suscitar mudanças radicais. Talvez estejamos vivendo uma segunda “onda terrorista” neste momento, pois existem centenas de grupos terroristas no mundo e os atentados, ao que parece, estão ficando mais freqüêntes.

Mas o terrorismo atual — chamado de pós-moderno ou de global — é diferente das formas anteriores. E os atentados terroristas do dia 11 de setembro último, ao contrário do que escreveu CHALLIAND (2001), simbolizam muito bem este “novo terrorismo”, em especial pelo planejamento e pelos objetivos, pela natureza globalizada e pelo uso inteligente da mídia. O “velho terrorismo”, em especial aquele do final do século XIX e inícios do XX, era formado por organizações anarquistas ou nacionalistas que tinham propostas políticas bem definidas e em geral assumiam os seus atos. Elas inclusive tinham orgulho de suas ações — normalmente assassinatos de autoridades do regime que combatiam — e acreditavam que uma boa parcela da população os apoiava. Já o “novo terrorismo”, o pós-moderno ou global, não tem um objetivo político preciso e normalmente as organizações que o praticam não fazem muita questão de assumir a autoria de inúmeros atos terroristas (LESSER, 2001), embora ocasionalmente o façam após uma premeditada demora. O “velho terrorismo” procurava eliminar figuras estratégicas do regime que combatia, evitando atingir inocentes. Já para o “novo terrorismo” não há inocentes, todos devem sofrer as consequências dos atos do regime sob o qual vivem e eventualmente apoiam. (Nem mesmo as populações que em tese seriam “libertadas” ou “esclarecidas” pelos terroristas são afinal inocentes que devem ser poupados, pois na lógica de sua argumentação existe a idéia de que “quem morre pela causa” deve se sentir realizado). Além disso, a destruição de edifícios símbolos (como as torres do WTC ou o Pentágono, dentre outros) e a matança de centenas ou milhares de pessoas é algo que chama a atenção da mídia e justamente esta é uma das grandes preocupações do terrorismo pós-moderno. Ele busca a cobertura por parte da mídia internacional, suas ações só têm sentido no contexto de sociedades democráticas onde a mídia em geral e em especial a televisão (que transmite imagens e sons e influencia uma parcela maior da população) é mais ou menos livre e procura dar uma cobertura imediata aos acontecimentos considerados “quentes” ou de grande importância. Podemos até dizer que existe uma relação simbiótica entre o “novo terrorismo” e a “nova mídia”: ambos são globalizados e visam a opinião pública internacional (que logicamente é mais intensa e influente nos países desenvolvidos), sem a qual não existiriam; ambos preocupam-se com o sensacionalismo, com acontecimentos trágicos que têm que ser (re)produzidos constantemente para prender a atenção do público (como se sabe, “dá muito mais ibope” uma notícia sobre uma chacina do que uma outra sobre o avanço da unificação européia ou sobre o perdão da dívida externa de alguns países pobres). Basta atentar para o fato de que, nos dias e semanas que se seguiram aos recentes atentados terroristas nos Estados Unidos, algumas redes de televisão alcançaram altíssimos e atípicos índices de audiência (algo que permite cobrar mais pelo minuto de propaganda e conseqüentemente amplia os lucros), em visível contraste com os preços das ações das empresas em geral (principalmente das companhias aéreas e de seguros), que cairam bastante nesse período.

O terrorismo de inspiração anarquista, intenso no final do século XIX e no início do XX, praticamente não existe mais. Uma possível exceção seria a figura isolada do Unabomber, terrorista que agiu durante cerca de 18 anos nos Estados Unidos e foi capturado em 1996. Mas mesmo ele pouco se identifica com o anarquismo clássico (a não ser talvez com o individualismo de inspiração stirneriana), pois este não é contra o progresso (a eletricidade, as máquinas, a tecnologia moderna) e sim contra o Estado e as desigualdades sociais. E os anarquistas atuais — ou neoanarquistas –, por sua vez, preferem as manifestações de massas, sejam pacíficas ou até violentas, as quais também se apóiam na mídia internacional e fazem amplo uso da internet, tais como aquelas rotuladas equivocadamente como antiglobalização: Seattle, Toronto, Genebra, Praga, Davos, Porto Alegre, Gênova, etc. Mas eles não são cúmplices nem simpatizantes do “novo terrorismo”, pois este prejudica a sua causa ao confundir protestos com matanças indiscriminadas e ao contribuir para a legitimação de novas e mais severas medidas de segurança e de repressão por parte dos aparatos estatais. Já o terrorismo de cunho nacionalista ainda sobrevive e é importante em algumas regiões do mundo, em especial na Espanha — o ETA — e na Irlanda do Norte (com reflexos na Inglaterra) — o IRA. Mas a princípio ele não é global(1) e sim circunscrito à região (ou nação) que pretende libertar e à(s) outra(s) que a domina(m). E ele também não mata civis de forma indiscriminada, pois uma de suas maiores preocupações é obter o apoio da opinião pública para a sua causa(2).

As principais modalidades do terrorismo pós-moderno são as seitas ou organizações fundamentalistas, apocalípticas e tradicionalistas (LIFTON, 1999; FLYNN, 2000; LAQUEUR, 1996). Essa é mais uma diferença essencial entre ele e o “velho terrorismo”. Este último — em especial o terrorismo anarquista — era de “esquerda” (e se considerava como “progressista”) no sentido de lutar por uma maior igualdade social, de se opor violentamente não ao progresso em si, mas sim ao seu usufruto por somente uma minoria da população. Já o terrorismo pós-moderno é essencialmente conservador e, ao contrário do que muitos pensam, é radicalmente contrário aos ideais de igualdade e liberdade para todos. A bem da verdade, normalmente ele combate esses ideais democráticos, taxando-os de “ocidentais” (num sentido pejorativo) ou então de”artificiais” e “anti-naturais”. Ele não está nem um pouco preocupado com as desigualdades internacionais ou com a pobreza ou a exclusão de inúmeros povos e sim com a ameaça a certos valores tradicionais (religiosos ou não) que considera absolutos: por exemplo, a superioridade masculina e outros princípios do Islão, a superioridade do homem branco anglo-saxônico e protestante (no caso de Timothy MacVeigh, o terrorista de Oklahoma, que praticou o maior atentado terrorista já visto nos EUA até o dia 11 de setembro último), a destruição da ordem atual das coisas com vistas à construção de um mundo novo alicerçado em determinadas crenças religiosas (no caso da seita apocalíptica japonesa Aum Shinrikyo, que há alguns anos espalhou o gás sarim no metrô de Tóquio) etc. Sem dúvida que a situação precária dos palestinos, que piorou muito com os novos governos de Israel (Sharon) e dos Estados Unidos (Bush), serviu como motivo mais imediato destes recentes atos terroristas nos EUA, que foram praticados por grupos (uma verdadeira rede) extremistas islâmicos. Mas confundir isso com um protesto furioso contra a globalização ou contra as exclusões e desigualdades em geral, como fizeram muitos recentemente, é não entender nada sobre tais grupos terroristas e as suas motivações.

Uma outro traço característico do terrorismo pós-moderno é que ele não se limita a assassinatos ou explosões isoladas, que eram as tônicas no “velho terrorismo”. Ele é global — ele convive com e se alimenta da globalização — e dispõe de todo um sofisticado arsenal de financiamento e de artefatos: novos meios de destruição (químicos, biológicos, tecnológicos), contas bancárias numeradas na Suiça ou em “paraísos fiscais” e membros recrutados em vários países (e treinados em outros), alguns inclusive com um nível educacional elevado (pós-graduação ou até doutorado em microbiologia, química, eletrônica, sistemas de redes etc.). Ele é financiado tanto por contribuições dos membros e principalmente dos simpatizantes — muitos dos quais arquimilionários, pessoas muito bem inseridas no sistema global e que reconditamente combatem a atual supremacia de determinados valores que detestam — como também em alguns casos pela associação com o tráfico de drogas. Ele dispõe do indispensável apoio de alguns Estados que os escondem ou até que permitem (ou financiam em parte) os seus campos de treinamento: como se sabe, nos anos recentes esse papel foi desempenhado, em maior ou menor proporção, pelo Sudão, pela Somália, pela Líbia, pela Síria, pelo Iraque e pelo Afeganistão. E o terrorismo pós-moderno dispõe de novos e mais potentes instrumentos de ação: não somente os assassinatos e as explosões, mas também gases nocivos (como o sarim), agentes biológicos patogênicos (como o antraz) e talvez até, desde que exista a ajuda de algum Estado com essa tecnologia, material radioativo e no limite armamentos atômicos. Devido à grande sofisticação dos atuais meios de destruição, que mais cedo ou mais tarde acabam ficando à disposição de grupos que têm recursos para adquirí-los, o terrorismo torna-se, pelo menos potencialmente, cada vez mais letal ou até catastrófico (CARTER, DEUTCH e ZELIKOW, 1998).

3. As redefinições na ordenação geopolítica mundial

Ao que tudo indica, as conseqüências dos atos terroristas do dia 11 de setembro serão variadas e permanentes. Os bombardeios sobre o Afeganistão e a provável troca de seu regime político constituem apenas uma pequena amostra delas. Um novo sistema de alianças deverá ser construído a partir desse episódio. É algo que já estava latente desde o final da guerra fria, mas que precisava de uma iniciativa deflagradora. A tradicional rivalidade entre Estados — e principalmente entre as grandes potências –, mesmo sem deixar de existir, deverá se enfraquecer e dar lugar a um sistema de apoio interestatal e uma luta contra outras alternativas (contra as redes terroristas, em primeiro lugar, e também contra as máfias, o tráfico de drogas, determinadas organizações não governamentais que desestabilizam o poder dos Estados etc.).

A aceitação da Rússia como parceira do Ocidente — ou talvez até como parte deste num futuro próximo — é o exemplo mais significativo dessas mudanças. Isso foi favorecido pela perspicaz política externa de Vladimir Putin, que ao invés de se opor aos bombardeios norte-americanos sobre um país estrangeiro (posição tradicionalmente adotada por Moscou), colaborou com a coalisão liderada pelos Estados Unidos oferecendo assessoria (e até tropas) e pressionando as ex-Repúblicas soviéticas que fazem fronteira com o Afeganistão — o Turcomenistão, o Tajiquistão e a Quirguízia — a aceitarem o uso de seus territórios como bases de apoio nessa guerra. Com isso cessaram as críticas do Ocidente em relação aos massacres russos na Chechênia e esta república rebelde passou a ser vista pelos norte-americanos e pelos europeus não mais como uma vítima das atrocidades russas e sim como uma área onde há muitos fundamentalistas e grupos terroristas. E também algo que até há alguns meses parecia impossível de ocorrer, hoje tornou-se numa hipótese viável para os próximos anos ou no máximo para a próxima década: uma futura inserção da Rússia na OTAN (WINES, 2001). Somente depois de 10 anos do final do império socialista soviético, o Ocidente capitalista começa a eliminar a sua antiga desconfiança frente à Rússia e começa a ver esse Estado-nação como um membro de fato do sistema global e inclusive da Europa. Nesse sentido, o terrorismo no final das contas pode ter sido benéfico para os interesses econômicos e estratégicos russos.

Um outro provável ganhador dessas redefinições geopolíticas é a China. Ela também adotou um posicionamento de realpolitik, isto é, de perseguir os seus interesses específicos e esquecer o seu antigo discurso anti-capitalista e de “simpatia para com os oprimidos”. Nesse sentido, ela procurou ganhar algo em troca de sua aceitação dos bombardeios sobre o Afeganistão e do seu apoio no combate aos grupos terroristas. Ela até aproveitou o momento para intensificar a repressão sobre os grupos islâmicos que existem na parte oeste do seu território, na região de Xinjiang. E o governo Bush começou a esquecer o seu discurso anterior, de considerar a China como o grande “competidor estratégico”, e passou a vê-la como um parceiro na luta contra o terrorismo e os demais fatores de instabilidade do sistema global. Com isso fica mais fácil a assimilação da China na OMC e tendem a diminuir as críticas da mídia ocidental contra a brutal repressão promovida pelas tropas chinesas no Tibete e em outras áreas onde há etnias que almejam uma libertação nacional. Mas o grande sonho ou objetivo geoestratégico da China ainda está distante e, pelo menos até o presente, não foi incluído na pauta das negociações entre Washington e Pequim: a incorporação de Taiwan.

A ONU, paradoxalmente (pois afinal ela foi criada para evitar as guerras e não para lucrar com elas), deverá ser mais uma ganhadora com o desenrolar da luta contra o terrorismo. Os Estados Unidos em meados de setembro último de repente pagaram as suas dívidas para com essa organização internacional e solicitaram a sua intermediação no sentido de legitimar os bombardeiros contra o Afeganistão. Os estrategistas norte-americanos perceberam afinal que não podem dominar o mundo sozinhos, nem mesmo via OTAN, e que é necessário haver uma base legal de sustentação, um fórum internacional que legitime determinadas medidas duras, que ferem a soberania de inúmeros Estados, na luta contra o terrorismo. Além disso qualquer ação com o aval da ONU sempre será mais palatável para os demais povos do que uma outra decidida exclusivamente pelos Estados Unidos ou mesmo pela OTAN. E como todos os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU estão atualmente alinhados nessa luta contra o terrorismo, fica mais fácil usar essa organização internacional. Mas o preço ou a condição para isso é fortalecê-la, o que a longo prazo poderá ser uma faca de dois gumes na medida em que algumas resoluções lá aprovadas poderão não corresponder aos interesses norte-americanos.

Também a Europa deverá redefinir ao menos parcialmente a sua política de expansão e construção de um continente unificado. Como observou muito bem ASH (2001), existem na Europa cerca de 20 milhões de muçulmanos, portanto bem mais que nos Estados Unidos, e, além disso, o continente está praticamente cercado pelo mundo islâmico. Isso significa que a Europa deverá se empenhar muito mais no apaziguamento do descontentamento islâmico, talvez até encararando com mais seriedade as pretensões da Turquia de ingressar na União Européia e procurando se envolver com mais afinco nos conflitos ainda pendentes na região dos Balcãs. Mas o tema da segurança e do controle sobre as fronteiras, com vistas principalmente a selecionar quem entra no continente, deverá ocupar um privilegiado papel que não tinha antes deste episódio. Isso poderá retardar a expansão da União Européia. É bastante provável que primeiro ocorra uma expansão da OTAN para o leste e, só depois de muitos anos ou décadas, é que poderá ocorrer a incorporação na União Européia daqueles países não ocidentais ou não cristãos.

Quando aos prováveis perdedores desse episódio, a curto prazo evidentemente é o regime do Taleban no Afeganistão. Mas a longo prazo outros participantes do cenário mundial poderão sofrer algumas conseqüências da ação preventiva contra o terrorismo, em especial aqueles Estados que escondem terroristas e/ou permitem a existência de campos de treinamento terroristas no seu território. Eles deverão ser objeto de uma pressão muito maior — e agora não apenas decidida pelos Estados Unidos e sim pela ONU –, que pode chegar desde a boicote econômico até a bombardeios localizados. E ao contrário do que ocorria até há pouco, eles não deverão mais contar com o apoio — mesmo que indireto — de países como a China ou a Rússia, cada vez mais afinados com o Ocidente, e talvez nem mesmo com os recursos financeiros oriundos da Arábia Saudita e de outras economias árabes exportadoras de petróleo, pois a pressão sobre elas será imensa e também haverá um maior controle sobre as transações bancárias internacionais. E provavelmente Israel deverá ser alvo de uma intensa pressão norte-americana e européia no sentido de negociar seriamente com a OLP e aceitar a existência de um Estado palestino autônomo. Isso inclusive já começou a ocorrer com as recentes declarações de Colin Powell a respeito da “falta de vontade” das autoridades israelenses em promover a paz na região. Mas o caso de Israel é complicado devido ao poderoso lobby judaico nos Estados Unidos e também em face de todo o seu poderio militar, inclusive a posse de armamentos nucleares. Além disso, os grupos radicais de ambos os lados, em especial os fundamentalistas islâmicos que fogem ao controle da OLP e promovem atentados nos momentos de negociações ou de trégua, dificultam sobremaneira a resolução da questão palestina. As pressões ocidentais para Israel ser mais transigente certamente ocorrerão, mas ainda não se sabe a intensidade delas — que será maior no caso dessa guerra contra o terrorismo continuar gerando intabilidades na região e no globo e menor se a situação se acalmar em poucas semanas — e nem se os radicais de ambos os lados deixarão que elas surtam algum efeito. Uma outra possível mudança é um golpe de Estado com a troca do governo — ou talvez até o final da monarquia — na Arábia Saudita. A família real saudita encontra-se bastante enfraquecida e pressionada por dois lados fortes: pelos fundamentalistas islâmicos, que a vêm como demasiadamente atrelada aos interesses ocidentais; e pelas autoridades norte-americanas, que pensam que esse governo saudita é ambíguo e pouco confiável, pois, como assinalou LUTTWAK (2001), uma boa parte do financiamento do terrorismo islâmico sai de contas bancárias localizadas nesse país árabe e as investigações sobre ataques terroristas anteriores — contra as Khobar Towers, no litoral saudita, em 1996, e contra o US Cole, no Iêmem, em 2000 — sempre apontaram para grupos radicados ou com fortes conexões na Arábia Saudita, sendo que o governo deste país recusou-se a colaborar com essas investigações.

Finalmente, uma série de medidas deverão ser adotadas com vistas a uma maior prevenção do terrorismo e, infelizmente, muitas delas poderão restringir o direito de privacidade e as liberdades individuais. Desde um maior controle sobre aeroportos e alfândegas até uma maior vigilância sobre as transações financeiras internacionais, passando por novas medidas de segurança nos aviões (portas blindadas que vedem o acesso dos passageiros à cabina de comando, mecanismos que impossibilitem o desligamento das comunicações com as torres de controle etc.), deverão ser operacionalizadas nos próximos anos. Também a internet e as telecomunicações internacionais deverão ser objeto de novas medidas de vigilância (novos sistemas de escuta, novos softwares para detectar certas palavras chave, etc.), assim como os laboratórios e centros de pesquisas em física nuclear e em microbiologia. Isso sem contar as maiores pressões internacionais, agora com o aval da ONU, sobre os Estados que escondem terroristas e/ou sediam os seus campos de treinamento. Tudo isso, é lamentável dizer, deverá contar com o apoio de grande parte da opinião pública, em especial aquela dos países desenvolvidos, que sofreu uma espécie de paranóia com esta crise e apoia todo um clamor por mais segurança. Mas no final das contas o terrorismo não vai cessar — no máximo poderá ser mais controlado e reduzido –, pois ele é indissociável deste novo mundo globalizado com as permanências das inúmeras diversidades sócio-econômicas e alteridades culturais (as quais, é bom ressaltar, são positivas e não deploráveis) e com todo um avanço tecnológico que por um lado melhora a qualidade de vida de muitos e, por outro lado, possibilita a outros tantos o acesso a novos e mais sofisticados meios de destruição.

4. O episódio e as suas leituras

Os atentados de 11 de setembro e os bombardeios ao Afeganistão deram origem a inúmeros artigos, reportagens e entrevistas veiculados pela mídia. Alguns poucos são de excelente qualidade, porém, a maioria tão somente reproduziu determinados estereótipos que via de regra pouco elucidam a questão e tão somente refletem determinados valores de quem os profere. Uma boa parcela deles é maniqueísta: ao invés de procurar analisar os diversos aspectos (ou pelo menos algum deles) da problemática, eles imediatamente assumem um lado (visto como o “correto” ou o “bem”) e passam a desancar o outro lado (o “incorreto”). Muitos afirmaram reiteradamente que os atentados seriam uma decorrência das desigualdades internacionais ou do capitalismo globalizado. Outros proclamaram que o seu significado estaria numa “vingança dos excluídos” da globalização ou do império norte-americano. Alguns ainda, uma minoria de evangélicos, os exorcizaram como uma decorrência do “excesso de liberdade” e dos exageros das conquistas feministas, homossexuais e de outras minorias. Também se enxergou nesse episódio mais um capítulo do “choque de civilizações”, com o islamismo enfrentando à sua maneira o Ocidente. E um professor de estratégia e política internacional chegou a proclamar, numa entrevista televisiva, que eles foram uma consequência da “nova política isolacionista de Washington”, na qual os Estados Unidos teriam deixado de atuar como uma superpotência na resolução dos problemas mundiais e inclusive teriam “diminuído os gastos militares”. E, por fim, muitos dos que comemoraram, discreta ou ruidosamente, os ataques kamikazes que vitimaram milhares de pessoas e levaram à destruição de edifícios simbólicos, argumentaram que eles foram suscitados pela “arrogância” da política externa estadunidense, mencionando a falta de interesse dessa grande potência mundial em “resolver” os problemas planetários do meio ambiente, das desigualdades, das epidemias e da fome, das inúmeras guerras etc.

Alguns desses posicionamentos são tão absurdos que nem vale a pena refutá-los. Outros são equivocados pelo seu exagero. Examinemos, em primeiro lugar, a idéia de que esta guerra seria, em última instância, um “choque de civilizações”. O próprio autor dessa polêmica tese segundo a qual os principais conflitos da nova ordem mundial são culturais — idéia que já dissecamos num escrito anterior (VESENTINI, 2000) –, numa entrevista sobre o assunto, afirmou que “Claramente, Osama Bin Laden deseja que seja um choque de civilizações entre o Islã e o Ocidente. A principal prioridade do nosso governo é tentar impedir que se transforme em um” (HUNTINGTON, 2001). Ou seja, os acontecimentos não são “fechados”, não estão completamente determinados a priori, mas são “abertos” ou relativamente indeterminados no sentido de se redefinirem constantemente, de adquirirem novas nuances dependendo do entrecruzamento das ações de cada participante. Seria uma completa vitória de Bin Laden e dos extremistas islâmicos se eles conseguissem transformar esses atos terroristas numa “guerra santa” e, conseqüentemente, a reação norte-americana numa “cruel retalização contra o Islã“. Mas essa versão, ao que tudo indica — principalmente pelo repúdio de inúmeras autoridades políticas e religiosas do mundo islâmico, que afirmaram que o terrorismo é algo inaceitável pelo Alcorão –, não vai prevalecer. E toda a diplomacia dos EUA (depois que as primeiras reações de Bush foram corrigidas pelos seus assessores, que inclusive promoveram uma visita dele a uma mesquita em Washington), e também de seus aliados (a começar por Tony Blair), foi planejada com vistas a isolar os fundamentalistas e estreitar os laços com as lideranças islâmicas moderadas. Assim, a idéia que começa a vingar, e que deverá prevalecer no final das contas, é a que esta é uma “luta contra o terrorismo”, promovida não apenas pelo Ocidente mas pelos Estados em geral — inclusive a maioria dos islâmicos –, em especial por aqueles mais comprometidos ou mais ativos na construção de uma ordem internacional menos instável e na qual os negócios possam prosseguir e até se expandir.

Vejamos agora determinadas opiniões simplistas, que foram bastante divulgadas nos últimos dias, a respeito da “impossibilidade de se vencer essa guerra no Afeganistão”. Algumas delas foram propagadas por pessoas que se intitulam “especialistas” em estratégia ou em geopolítica. Conforme já demonstrou de forma pertinente RADU (2001), são improcedentes e até míticos os argumentos do tipo “o terreno impossibilita o uso de tecnologia avançada” ou que “tal como nos exemplos britânico (1838-42) e soviético (1979-89)”, ou “tal como na guerra do Vietnã”, os norte-americanos “certamente sairão derrotados desse país aguerrido e com uma natureza hostil”. Sobre isso cabe apenas lembrar uma lição elementar sobre a guerra, que foi reproduzida tanto por Sun Tzu quanto por Clausewitz: ela é antes de tudo um choque entre vontades, entre sociedades diferenciadas, o que significa que a coesão social normalmente é mais importante para a vitória a longo prazo do que os combates no front. Não foram os terrenos (as montanhas, num caso, e as florestas tropicais, no outro), e nem mesmo um “maior conhecimento do terreno” pelos nativos, o que determinou as derrotas da ex-União Soviética, no Afeganistão, e dos Estados Unidos, no Vietnã. Foi a coesão social desses países na luta contra o invasor — algo que não existe hoje no Afeganistão, onde, pelo contrário, a imensa maioria da população gostaria de se livrar do Taleban –, isto é, todo um extenso apoio e suporte popular aos guerrilheiros. E também o auxílio militar — armamentos, treinamento, assessoria — fornecido pela outra superpotência da época (pelos soviéticos aos vietnimitas e pelos norte-americanos aos guerrilheiros afegãos, inclusive ao Taleban) foi fundamental no desfecho dessas duas guerras. É por isso que a grande chance de vitória do El Quaeda ou do Taleban nesta guerra não está no relevo montanhoso, nem mesmo nos armamentos ou nas milhares de minas encravadas no solo afegão, mas sim na propaganda via mídia. O principal front — se é que podemos usar aqui este conceito militar — desta guerra, não se iludam, não está no território afegão e sim na mídia internacional, em parte na opinião pública das nações desenvolvidas internacional e de outra parte na consciência das populações islâmicas. Só um temor generalizado de revoltas populares em países islâmicos, algo tão forte que pudesse desestabilizar os regimes políticos atualmente vigentes nesses Estados, especialmente naqueles produtores de petróleo ou naquele que detêm armas nucleares (Paquistão), é que poderia levar os Estados Unidos e seus aliados a transigir, a cessar os bombardeios sobre o Afeganistão e inclusive realizar inúmeras outras concessões (maiores pressões sobre Israel com vistas a criar um Estado palestino independente e talvez até o desmantelamento da base militar norte-americana no território saudita). Provavelmente foi por esse motivo que nos últimos dias Bin Laden concentrou os seus esforços na tentativa de conceder várias entrevistas aos principais canais de televisão do Oriente Médio e dos EUA e, segundo alguns jornais, ele chegou a veicular a hipótese de se entregar desde que seja para um país “neutro” e onde ele possa ter um julgamento “isento” (isto é, podendo falar à vontade e assim prosseguir com o seu combate via mídia). E também é por esse motivo que a principal frente desta “guerra contra o terrorismo” por parte dos Estados Unidos e de seus aliados não se encontra no Afeganistão — esta é apenas uma frente provisória — e sim em primeiro lugar na consciência das populações muçulmanas, procurando tornar vitoriosa a idéia de que “esta não é uma guerra contra a religião ou a civilização islâmica”, e, em segundo lugar na opinião pública e nas organizações internacionais, procurando legitimar e operacionalizar novas medidas de proteção (das fronteiras, dos aeroportos e aviões, dos edifícios símbolo etc.) e de vigilância (sobre contas bancárias, sobre laboratórios que manipulam bactérias ou virus, sobre determinadas instalações químicas ou laboratórios de física nuclear, sobre “atividades suspeitas” de alguns indivíduos ou grupos etc.).

E, por fim, existem aqueles, que por algum dos motivos apontados acima, festejaram os atos terroristas e torcem para uma derrota norte-americana e uma vitória do Taleban no Afeganistão (além de exultarem com os protestos populares contra seus governos e contra o Ocidente, promovidos por religiosos fundamentalistas, no Paquistão e na Indonésia). Cabe apenas indagar se eles são movidos pela razão ou por um ódio irracional e até mesmo fascista. Pois por mais que o capitalismo globalizado e os Estados Unidos tenham promovido ou sido coniventes com determinadas desigualdades e injustiças, a alternativa oferecida por esses grupos extremistas é muito pior. É uma completa destruição da frágil democracia — que, apesar de incompleta, deve ser preservada e inclusive expandida (e não combatida) — e um predomínio da intransigência, de uma rígida hierarquia que não admite contestações e de um caminho único que não aceita a pluralidade ou sequer o diálogo com o(s) outros(s). Basta lembrar dos massacres e das severas proibições promovidos pelo Taleban — fuzilamento de pessoas sem julgamento, interdição de qualquer música ou arte que não seja islâmica, fechamento de todos os cinemas, canais de televisão e jornais independentes etc. –, da destruição das estátuas gigantes de Buda (um rico patrimônio histórico-cultural do Afeganistão) e da incapacidade desse regime em gerenciar minimamente a economia e alimentar a população (a maior parte dos alimentos que a população afegã consumiu nestes últimos anos veio da ajuda humanitária promoviada pelas organizações internacionais). Basta lembrar ainda do ódio intenso que todos esses militantes fudamentalistas — e não apenas o Taleban ou o El Quaeda — alimentam contra as conquistas (mesmo que ainda incompletas) feministas no Ocidente, contra alguns direitos mínimos concedidos aos homossexuais, contra a liberdade de expressão, contra a idéia de um sistema judiciário independente, contra as eleições e a rotatividade dos partidos no poder, enfim contra toda uma filosofia de direitos dos homens e dos cidadãos, que é a base da democracia. Esse tipo de posicionamento — a identificação com os terroristas porque eles atacaram o “centro do imperialismo” — lembra muito aquela imagem, sugerida por Hannah Arendt num escrito sobre a “crise da educação”, a de uma criança serrando o galho da árvore sobre o qual está sentada. Ele se assemelha ainda ao equívoco cometido por alguns na Alemanha da década de 1920 e inícios dos anos 30, que detestavam (com alguma razão) a República de Weimar e manifestavam uma certa complacência ou até alegria frente à baderna e aos atos violentos promovidos pelo partido nacional-socialista de Hitler. O resultado é conhecido por todos. Convem aqui recordar a lição de que nem sempre o inimigo do meu adversário é meu amigo. Muitas vezes ele é pior ainda que o adversário, em especial quando não respeita as regras do jogo democrático, quando semeia o pânico, o terror e a intolerância, quando nos considera a todos infiéis que têm que ser convertidos pela força.

NOTAS:

(*) Esta é uma versão inicial e provisória de um texto que estamos escrevendo a pedido de uma revista especializada em relações internacionais.
1. Parece que isso começa a mudar, pelo menos no que diz respeito do IRA, pois instrutores dessa organização foram encontrados neste ano (2001) na Colômbia, onde estavam assessorando e treinando grupos terroristas locais.
2. No que diz respeito ao ETA isso também parece estar mudando nos últimos anos: o desespero ocasionado pela baixa popularidade tem levado essa organização a praticar atos de matança indiscriminada. Tanto este exemplo como aquele da nota anterior sugerem que talvez esta “velha” ou clássica forma de terrorismo esteja mudando e se identificando cada vez mais com o terrorismo “novo”, global ou pós-moderno.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Fonte: http://www.geocritica.com.br/geopolitica03-1.htm

A ONU e a nova ordem mundial

José Augusto Guilhon Albuquerque

DURANTE A MAIOR PARTE de sua existência a ONU cumpriu papéis que derivavam diretamente da ordem internacional resultante da Guerra Fria. Entre suas principais funções estava a de constituir um fórum de convivência pública entre as duas superpotências. Nele, os EUA e a URSS, diretamente ou por intermédio de seus aliados, protagonizaram a bipolaridade que caracterizou o período, vivendo momentos de rivalidade e confrontação, mas também de cooperação.

A notável expansão das Nações Unidas em organizações setoriais, comissões especializadas, conferências etc.; a universalidade de sua agenda; o constante aumento do número de seus Estados-membros, indicam o quanto a dimensão cooperativa sobreviveu, apesar de tudo, ao caráter polarizado da Guerra Fria. Ao contrário, todas as tentativas de torná-la um instrumento para a derrocada de um dos lados, ou para aprisionar ambas as superpotências à chantagem dos não-alinhados, conheceram um sucesso apenas mitigado. De modo que é possível sustentar a hipótese de que a ONU, no período da Guerra Fria, manteve-se essencialmente a serviço da mútua contenção das superpotências. Nesse sentido, terão podido avançar os temas da agenda não conflitante com os interesses de uma ou de ambas as superpotências, prevalecendo o impasse com relação aos temas ou conflitos cuja resolução implicasse, ao contrário, alterar o equilíbrio existente entre elas.

Sendo verdadeira esta hipótese, não será difícil entender por que o sucesso das nu numa ordem internacional bipolarizada aparece como fracasso. Por um lado, quanto mais a agenda de temas e conflitos capazes de romper a estratégia de mútua contenção fosse neutralizada, mais bem sucedida teria sido a Organização, porém, maior seria a frustração resultante entre aqueles que não se sentissem diretamente concernidos pelo risco de ruptura da contenção. Neste caso poderíamos incluir tanto os que apostavam mais na confrontação do que na mútua contenção, quanto aqueles que se julgavam beneficiários de um direito de chantagem contra os dois lados.

Por outro lado, quanto mais avançasse a agenda de temas não-sensíveis e o equacionamento de determinados conflitos, isto é, aqueles cuja resolução não era suscetível de alterar o equilíbrio bipolar, maior seria também a frustração dos que esperassem resultados relevantes, já que tais temas e conflitos eram resolvidos na proporção direta de sua irrelevância para a ordem internacional. É preciso frisar que, na ordem polarizada da Guerra Fria, todos os temas e conflitos são potencialmente politizáveis e suscetíveis de polarização, tornando ínfima a margem de irrelevância para a estratégia de mútua contenção, por mais que tais temas e conflitos pudessem ser vitalmente relevantes para setores consideráveis da humanidade.

Ao avizinhar-se o final da década de 80 e, com ela, da Guerra Fria, esse quadro tende a tornar-se menos suportável por diferentes razões, dentre as quais gostaria de destacar alguns aspectos. Em primeiro lugar, a estratégia de contenção da expansão do adversário, em que estavam engajadas ambas as superpotências, passou a incluir uma dimensão crescente de cooperação direta, que avançou rapidamente e prescindiu das nu. Isso provocou um sentimento de exclusão não apenas entre países não alinhados, como em aliados secundários e até entre os principais aliados de ambas as superpotências. Prevaleceu, no entanto, o sentimento oposto, isto é, de que o aumento da cooperação redundaria nos chamados dividendos da paz, entre os quais se incluiria, além das hipotéticas transferências orçamentárias provenientes da redução dos gastos com defesa e segurança, maior capacidade resolutiva com respeito à agenda internacional.

Entretanto, os dividendos da cooperação nos campos da defesa e da segurança, em termos de custos de informação e de transação, não fluíram para outros campos tão naturalmente como se poderia esperar. Assim, por exemplo, a considerável redinamização do Conselho de Segurança não correspondeu a um aumento da eficiência no tratamento da agenda não-relativa à defesa e à segurança, particularmente no que diz respeito à Assembléia Geral.

Em conseqüência, a agenda continuou se expandindo ao mesmo tempo em que aumentava a expectativa de resolução. A eficiência no tratamento da agenda, entretanto, não somente não aumentou, mas pode ter diminuído. De fato, a necessidade de resolução das questões não diretamente relacionadas com defesa e segurança das superpotências diminuiu, à medida em que a probabilidade de tais questões se tornarem um risco para a paz mundial reduziu-se drasticamente.

Além disso, a agenda também cresceu devido a fatores autônomos. O principal deles é a transnacionalização, fenômeno permanente na história do mundo civilizado, mas que se acelerou e tomou dimensões globais nas últimas décadas. A transnacionalização é a propriedade que têm certos fenômenos de projetar seus efeitos através das fronteiras nacionais. Sua generalização e aceleração vertiginosa, que a tornam instantânea para todos os efeitos práticos, golpeiam profundamente as prerrogativas dos Estados nacionais como atores exclusivos das relações internacionais.

À transnacionalização de determinados efeitos das atividades econômicas e sociais, corresponde hoje a transnacionalização dos processos de formação de opinião pública e de organização de interesses e circulação de idéias. Com isso, os Estados não somente perderam o monopólio da definição da agenda internacional mas, em grande, parte esta é hoje determinada pela opinião transnacional, no sentido de que seus temas e idéias, quando não avançados por organizações e movimentos não-governamentais, só prosperam ao contar com seu beneplácito.

Esse conjunto de circunstâncias contribuiu para simultaneamente expandir a agenda das nu e inflar as expectativas com relação ao seu papel, sem que a isso correspondesse um aumento proporcional de sua capacidade de resolução. Precipitou-se, assim, uma grande insatisfação com a Organização, tanto em seu aspecto político quanto administrativo. Desde a década de 80 essa insatisfação se manifestou em termos de uma demanda de reforma. Quanto à necessidade de reforma, o consenso é amplo, mas aí também ele cessa. Quanto ao que reformar, com quais objetivos e com que extensão, tudo está sujeito a divergências de fundo.

Parte significativa dessa indefinição deve-se ao fim da Guerra Fria, e à indefinição sobre a função que as nu deveriam desempenhar no novo contexto. Isto, a meu ver, coloca um problema intransponível, já que nos encontramos em um período de transição, de uma ordem internacional polarizada e dominada pela estratégia de mútua contenção entre as superpotências, para um contexto cujo ordenamento ainda não está dado. Nesse sentido, a conclusão óbvia é de que seria prematuro, enquanto uma tal nova ordem não se materializar, definir as bases para uma reforma de fundo da Carta das Nações Unidas, isto é, uma reforma que implique a redefinição do seu papel na ordem mundial.

Por isso mesmo, meu objetivo aqui não é o de discutir um novo perfil para a ONU na nova ordem internacional que se desenha mas, antes, o de examinar alternativas de reordenamento das relações internacionais e, dentro delas, o papel que as nu poderiam desempenhar.

Alguns aspectos do atual período de transição devem ser considerados, à medida em que apontam possíveis limites para o desenvolvimento dessa mesma transição. Três deles vêm sendo por mim ressaltados em diversos contextos e publicações: trata-se dos fenômenos de despolarização, de dissociação hegemônica e detransnacionalização, este último já abordado.

Os dois primeiros resultam da forma como se desfez a chamada bipolaridade que determinava o modo de ordenamento das relações internacionais na Guerra Fria. O mundo em que vivemos na maior parte deste século foi um mundo bipolarizado ou, mais precisamente, de hegemonia polarizada. Dois protagonistas exerceram, entre o final dos anos 40 e o final dos anos 80, uma hegemonia completa sobre pólos opostos, no conjunto das dimensões que importam para descrever a ordem mundial. Assim, uma polaridade basicamente política ou estratégica, entre os EUA e a URSS, dividia os Estados em economias opostas, formas opostas de organização da sociedade, ideologias e valores opostos e excludentes.

Longe de redundar em monopolaridademultipolaridade ou outros atentados ao vernáculo, a transição pela qual estamos passando resultou na persistência de apenas uma superpotência com recursos globais de liderança política e supremacia militar, os EUA. Do ponto de vista econômico, entretanto, não somente a única superpotência restante já não detém a primazia da competitividade, mas a compartilha com um grupo de países, sem cuja cooperação, nem mesmo sua supremacia militar poderia ser exercida em caráter permanente.

Como vemos, portanto, nem os EUA constituem um pólo político e militar, nem o fim da Guerra Fria resultou na criação de um novo pólo oposto aos americanos, processo que, se não pode ser afastado a longo prazo, tampouco se encontra delineado no horizonte visível. Por outro lado, ainda, as potências capazes de rivalizar com os EUA no plano econômico não constituem um pólo oposto à superpotência em qualquer sentido da palavra, nem em termos políticos e militares, nem em termos comerciais, nem em termos de organização da economia, nem em termos ideológicos ou de valores.

Menciono estes dois últimos campos – da ideologia e dos valores – apesar da hipótese de Samuel Huntington a respeito do conflito entre civilizações como sendo o princípio que determinaria cooperação e conflito na nova ordem mundial. Quaisquer que sejam as vantagens e limitações dessa hipótese, que são ambas inúmeras, ela não implica uma polarização do tipo da que caracterizou a Guerra Fria. Ao contrário, a oposição civilizacional apontada por Huntington teria caráter excludente, prevalecendo sobre as demais diferenças e semelhanças, políticas, ideológicas ou econômicas, porém, na medida que não está associada a elas, mas as cruza, não atrairia tais diferenças e semelhanças em direção a pólos igualmente opostos e excludentes de organização da economia e da sociedade.

É essa situação que chamo despolarizada. À hegemonia dissociada correspondem dois aspectos implícitos no quadro exposto. Por um lado, a perda da supremacia econômica restringe a capacidade dos eua para tornar a liderança política e militar em hegemonia. Ao mesmo tempo, a persistência da liderança política e militar compromete, em função dos compromissos globais que ela implica, sua capacidade de recuperar a competitividade econômica. Por outro lado, as potências capazes de rivalizar com a superpotência americana em termos comerciais e financeiros não parecem dispostas a pagar os custos da liderança política e da capacidade de decisão militar que uma disputa pela hegemonia global poderia implicar.

Gostaria de acrescentar aqui outro fenômeno, este com repercussões maiores na ordem da percepção, embora com considerável impacto sobre a realidade: trata-se do que poderíamos chamar de descontenção. Um breve recuo ao contexto da Guerra Fria se impõe para melhor ilustrar o ponto de vista que estou defendendo.

Que a estratégia da mútua contenção presidia a atuação externa das duas superpotências, não parece sujeito a controvérsias. Menos clareza subsiste, entretanto, sobre o objetivo dessa estratégia. Para uns, ela estava a serviço de um princípio, para outros, a serviço de interesses econômicos.

Para muitos eram as identidades e oposições ideológicas que inspiravam a cooperação e provocavam o conflito. Entre estes inclui-se Huntington, para quem tal papel caberia, hoje, às identidades civilizacionais ou, mais precisamente, religiosas. Outros tantos atribuem à necessidade de expansão dos mercados a lógica excludente que levou à hegemonia polarizada.

Depois que o fim da Guerra Fria eliminou consideravelmente a barreira retórica que envolvia o estudo das relações Leste-Oeste, tornou-se evidente que nem o interesse econômico nacional, nem os princípios ideológicos, tais como a defesa da democracia, da liberdade dos povos, ou dos valores cristãos, prevaleceram contra os interesses políticos implicados na contenção da expansão do bloco rival. Com efeito, enquanto os exemplos de sacrifício do interesse econômico nacional, ou dos princípios e valores de cada uma das superpotências podem ser facilmente enumerados, não se conhece caso em que o objetivo da contenção da expansão do bloco oposto tenha sido sacrificado ao interesse econômico nacional ou a princípios e valores de uma das superpotências. De tal maneira que se pode dizer que a resultante geral da mútua contenção era a estabilidade das relações internacionais e, particularmente, do equilíbrio de poder existente entre as duas superpotências.

Se tal era a resultante, isto equivale a dizer que, qualquer que fosse a motivação – seja em termos de interesses ou de princípios – que deu origem à estratégia de mútua contenção, o objetivo efetivamente atingido foi aestabilidade do sistema de relações internacionais. Afirmar ter sido a estabilidade o objetivo efetivamente atingido não quer dizer que, em determinadas circunstâncias, um lado não obtivesse sua própria expansão, como ocorreu com a União Soviética em Cuba, expansão que, no entanto, permaneceu restrita ao objetivo geral de contenção da expansão do adversário.

Com o desaparecimento da ameaça representada pela expansão do adversário, a estratégia de mútua contenção perdeu sua razão de ser. E, com ela, a consciência da ameaça à paz mundial representada pelo risco de instabilidade das relações internacionais. O que chamo descontenção é essa espécie de euforia que acometeu parte das lideranças e da opinião internacional: malcomparando e parafraseando Nietzsche, “se o Diabo não existe, tudo é permitido”.

O que chamo descontenção é bem-representado pelo fato de que não se tenha notícia de um momento sequer de consideração dada à idéia de manter-se a estabilidade das relações internacionais como o interesse vital comum das nações, capaz de erigir um sistema global de segurança coletiva e redefinir as funções das nu para além da Guerra Fria. Em comparação, quanta tinta já não se gastou em tentativas de justificar o reordenamento das relações internacionais em função, não de interesses vitais, mas de princípios, como a democracia, o mercado, os valores da civilização cristã, o desenvolvimento etc.

Para tanto, contribuiu o forte impulso principista representado pela crescente capacidade da opinião transnacional de influir na formação da agenda global. Como os movimentos e organizações transnacionais são o oposto dos grupos de pressão clássicos, isto é, tendem a formar-se em torno de fins abstratos, e não de interesses imediatos, sua agenda é uma declaração de princípios, e sua índole ativista.

Dentro desse quadro, gostaria que permanecesse como contribuição à reflexão de hoje a consciência do risco que o avanço de uma agenda ativista e principista pode representar para o interesse nacional e a segurança global, quer na definição da grande estratégia das principais potências, quer na do papel das nu. Qualquer que seja o princípio adotado, dentre os que têm aflorado na agenda transnacional – da preservação ambiental à solidariedade humanitária, passando pelo ativismo na ampliação da democracia – levará inexoravelmente a um mundo intervencionista, beligerante, inseguro.

Num tal mundo, dependendo do princípio adotado e da premência do ativismo, longas seriam as listas de candidatos à intervenção. E a China estaria em todas elas. Dentre os menos votados, o Brasil provavelmente disputaria inúmeros quesitos, desde o risco ambiental, à violência contra menores, passando pela pobreza e pelo tráfico. Mesmo no quesito abertura do mercado, em que o país se tem esmerado ultimamente, sua inclusão na lista de espera, em decorrência da volatilidade de suas políticas, seria mais do que certa.

A escolha dos dois países é proposital porque pode proporcionar um bom teste para qualquer hipótese de reordenamento das relações internacionais. Qualquer princípio que exclua a China, ou que faça dela alvo de ingerência, pode constituir um impulso vigoroso na direção de uma nova polarização, sem falar no risco imediato de confrontação. Qualquer princípio que exclua o Brasil, ou o torne alvo de ingerência externa aberta, dificilmente poderá ser aceito como convergente com o interesse nacional. Isso deveria valer para qualquer país, mas obviamente se deixa ver melhor quando se trata do nosso.

Assim, tudo se passa como se devêssemos buscar um reordenamento das relações internacionais, cujo objetivo – além de ser minimalista no sentido de estreitar e não de estender a lista de princípios considerados – seja construído a partir do interesse vital dos Estados. Se assim for, o mais indicado, no que diz respeito a uma reformulação da Carta das NU, será a adoção de uma agenda igualmente minimalista, voltada para esse objetivo estratégico, centralizado no Conselho de Segurança e na Assembléia Geral, que assim deixaria de ser o fórum universalista, retórico e consideravelmente inoperante em que se transformou.

Quanto à ampla gama de questões setoriais e à expansão de direitos resultante da transnacionalização, nada impede que continuem florescendo fóruns paralelos, desde que rigorosamente subordinados ao objetivo estratégico central da Organização. Tais fóruns jamais pecarão demasiado por irrelevância. Mas poderão pecar, ao contrário, se se tornarem instrumentos relevantes de neutralização ou de reversão do objetivo central do sistema. Tal objetivo deveria ser, a meu ver, o mesmo da Guerra Fria, isto é, a estabilidade da ordem internacional.

Por estabilidade da ordem internacional estou entendendo não somente a ausência de ruptura da legalidade vigente nas relações internacionais bilaterais e multilaterais, como também a ocorrência de alterações consensuais ou negociadas dessa legalidade. Por corolário, estariam incluídos nesse escopo a vigilância sobre aqueles elementos que sabidamente constituem fatores determinantes de instabilidade externa e, em primeiro lugar, a instabilidade política doméstica. Aí estariam incluídos, portanto, muitos dos fenômenos transnacionais que hoje aspiram à função de reordenar as relações internacionais, tais como os grandes riscos ambientais, sociais e econômicos – como por exemplo o risco que a volatilidade dos capitais provoca para as economias nacionais – sempre da ótica da ameaça que podem representar para a estabilidade doméstica e, portanto, para a estabilidade externa dos Estados.

Sei que isto tudo soa pouco excitante e conservador. Mas, entre as poucas coisas que aprendi sobre as relações internacionais, está a noção de que o mundo, e a onu como parte dele, é o que pode ser, e não o que gostaríamos que fosse.

José Augusto Guilhon Albuquerque é professor titular da USP, onde liderou a criação do Departamento de Ciência Política e do Núcleo de Relações Internacionais, e atualmente preside a Comissão de Cooperação Internacional. Foi professor visitante na Cátedra Jacques Leclerq, da Université Catholique de Louvain (Bélgica), e na Georgetown University (EUA).
Palestra feita pelo autor no Colóquio A Carta de São Francisco: 50 anos depois, organizado pela Área de Assuntos Internacionais do Instituto de Estudos Avançados na Sala do Conselho Universitário da usp no dia 23 de junho de 1995.


Fonte: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141995000300013

A ordem mundial na próxima década

Entrevista com Steven Weber

Professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley, o americano Steven Weber é especialista em política internacional e segurança. Em 2000, Weber foi consultor para a Comissão de Segurança Nacional do governo americano, meses antes dos atentados de 11 de setembro. Em um de seus livros mais recentes, O Fim da Arrogância: os Estados Unidos na Competição Global de Ideias, publicado no ano passado em seu país, ele discute o declínio do poder americano. Weber falou à repórter Tatiana Gianini:

Os Estados Unidos estão perdendo a hegemonia econômica e cultural?

Nos últimos quinze anos, os Estados Unidos viveram um período de crescimento relativamente baixo, se comparado ao resto do mundo, e sua influência política e cultural caiu na mesma proporção. Há trinta anos, o estilo de vida e os valores americanos tinham um grande impacto em todos os pontos do planeta. De maneira positiva ou negativa, os Estados Unidos sempre eram o centro da discussão. Hoje, já não é assim, e a tendência é que a influência americana continue em declínio. As fontes de difusão cultural e de ideias serão mais descentralizadas. Mas não resta dúvida de que o país continuará a ser uma potencia formidável.

Tal perda ocorrerá na política internacional?

Sim. A atual crise da dívida pública americana e as guerras no Afeganistão e no Iraque são exemplos de como o país está perdendo o seu poder. As dificuldades em lidar com os problemas de ordem geopolítica podem ser interpretadas como um indicador precoce da perda do senso de direção dos Estados Unidos.

Como será a ordem mundial daqui a dez anos?

Na próxima década, seremos surpreendidos pelo modo rápido como os chineses começarão a exercer poder, influência e atração. Isso não significa que a China se tornará inimiga dos Estados Unidos. A expressão mais apropriada é “rival”. Não entraremos numa competição com a China ao estilo da Guerra Fria, tampouco vamos guerrear com os chineses pelo território de Taiwan. Os dois países vão disputar influência de maneira pacífica, mas constantemente tensa.

Depois dos ataques de 11 de setembro, o combate ao terrorismo tornou-se prioridade da politica externa americana. Esse tema seguirá dando o tom na próxima década?

O terrorismo já está se tornando um tema menos relevante, mas continuará no rol de prioridades da agenda americana. Outras questões se consolidarão no topo das preocupações. Mas, se houver mais um atentado de grandes proporções, o terrorismo voltará a liderar a lista, é claro.

Qual questão ocupará o centro das atenções americanas?

A China já tem um papel crucial na agenda americana, mas a prioridade número 1 será o Oriente Médio. Essa é a região onde os temas mais sensíveis para os Estados Unidos convergem: petróleo, democracia e demografia. Atualmente, estamos vivendo uma espécie de lua de mel com o Oriente Médio, assistindo à queda do regime de Kadafi, entre outras ditaduras, mas não sabemos como ficará a situação quando essas revoluções acabarem. Elas podem ou não resultar em regimes democráticos, mas tudo leva a crer que o Oriente Médio será um lugar menos amigável aos interesses americanos. Nesse cenário, é evidente que encontrar um papel nessas transformações será o maior desafio global para os Estados Unidos nos próximos dez anos.

A China poderá sobrepujar o poderio militar americano?

Não creio que os chineses aspirem a superar os americanos nesse campo. Eles querem ter um tipo diferente de liderança, menos focado na capacidade militar e mais voltado para o investimento estrangeiro direto. Isso também é poder. No futuro, as grandes potências mundiais, como a China, procurarão outras formas de dar as cartas na ordem global, o que inclui cuidar das atividades básicas de populações estrangeiras, como investir em plantas de dessalinização no Oriente Médio. Hoje, a China importa mais petróleo da Arábia Saudita do que os Estados Unidos. Os chineses estão ampliando sua presença na região, a fim de expandir sua influência e aumentar o acesso ao petróleo.

A incapacidade do serviço secreto americano de se antecipar aos atentados de 2001 é um indício também da dificuldade estratégica dos Estados Unidos no campo internacional?

A comunidade de inteligência como um todo tem sido criticada injustamente. Os agentes têm um trabalho enorme para tentar decifrar as tendências de longo prazo e prever o que pode acontecer a curto prazo. Devemos lembrar também que eles servem aos interesses do presidente e da cúpula política em Washington. Ou seja, não têm liberdade de ser completamente objetivos em suas análises.

Fonte: http://rio-negocios.com/a-ordem-mundial-na-proxima-decada/

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