ESPECIAL AMAZÔNIA – 4ª PARTE – 3 matérias sobre as riquezas e o desenvolvimento sustentável para a Amazônia

Uma cidade de costas para a selva. Ainda bem

A Zona Franca de Manaus é um bom exemplo de produção de riquezas e empregos sem exercer pressão sobre a floresta. Outros polos industriais semelhantes podem ser criados na Amazônia

José Edward, de Manaus

Sem mexer no mato Imagem aérea da Zona Franca de Manaus: faturamento anual de 60 bilhões de reais,  o dobro do PIB da Bolívia

Sem mexer no mato Imagem aérea da Zona Franca de Manaus: faturamento anual de 60 bilhões de reais, o dobro do PIB da Bolívia

A região amazônica é hoje pelo menos duas vezes mais rica do que há três décadas, segundo indica o PIB dos estados que a compõem. Esse crescimento econômico, no entanto, se deu em grande parte graças a atividades que têm como base a destruição da floresta – a exploração madeireira e a pecuária extensiva. Quem estuda a Amazônia a sério concorda que, para evitar que a região continue a ser explorada de forma predatória, é preciso desenvolver atividades econômicas que não exerçam pressão sobre a floresta, promovam riquezas e assegurem emprego e renda à população. A experiência mais bem-sucedida nesse sentido, até agora, é a Zona Franca de Manaus, um enclave de eficiência tecnológica na Amazônia. Criada em 1967, como parte do plano do regime militar de integrar a Amazônia ao restante do país, essa região de livre-comércio compreende uma área de 10 000 quilômetros quadrados, incluindo a capital amazonense. Para viabilizar seu projeto, o governo federal passou a conceder incentivos fiscais às empresas que se dispusessem a instalar fábricas no meio da selva.

A isenção fiscal – sobretudo do imposto sobre produtos industrializados (IPI) para mercadorias que entram e saem da área – resultou na criação de um dos maiores e mais diversificados complexos industriais da América Latina. Pouco mais de quatro décadas após sua fundação, a Zona Franca de Manaus concentra 550 indústrias modernas, que fabricam desde lentes oftalmológicas até motocicletas. No ano passado, essas companhias alcançaram, juntas, um faturamento de 60 bilhões de reais – o dobro do PIB da Bolívia. Nessa conta não estão computados os resultados obtidos pelas duas centenas de empresas dos setores de comércio e prestação de serviços que gravitam em torno das fábricas. “Toda essa riqueza é produzida sem que seja necessário derrubar uma única árvore”, diz José Alberto Machado, especialista em desenvolvimento regional e professor da Universidade Federal do Amazonas. “Temos aqui, de fato, uma indústria limpa, de costas para a floresta”, acrescenta o economista Alexandre Rivas.

Machado e Rivas são autores de um estudo recém-lançado que demonstra de forma científica o impacto virtuoso que o polo industrial de Manaus exerce sobre a proteção da Floresta Amazônica. Os pesquisadores chegaram à conclusão de que a existência do complexo industrial atenuou em pelo menos 70% o desmatamento no estado do Amazonas. O trabalho conclui que a dinâmica econômica provocada pelas indústrias instaladas na Zona Franca contribuiu de forma decisiva para que o Amazonas tenha atualmente 98% de sua área de floresta preservada. No vizinho Pará, onde a base da economia se concentra na extração madeireira e na mineração, 20% da floresta já foi destroçada. Em Mato Grosso, que tem a agropecuária como carro-chefe, esse índice chega a quase 40%. De acordo com a pesquisa, a maior parte dos 500 000 empregos – 100 000 diretos e 400 000 indiretos – que o polo industrial de Manaus cria atualmente é ocupada por migrantes do interior do Amazonas e de outros estados da região. “Não fossem essas indústrias, muitos de nós com certeza não teríamos outra opção senão ficar nas mãos das madeireiras”, constata o paraense Amauri Faria, que há quinze anos começou a trabalhar como auxiliar de produção na fábrica de motocicletas Honda e hoje gerencia uma unidade automatizada da montadora, na qual comanda 36 operários. “Na região de Óbidos, no Pará, onde nasci, o desmatamento corre solto, em plena calha do Rio Amazonas, por falta de opções de trabalho como as que temos aqui”, ele completa.

Até o início da década de 1990, a Zona Franca de Manaus funcionava basicamente como um entreposto para a importação de produtos, sobretudo eletroeletrônicos. Na maior parte dos casos, os equipamentos eram apenas montados lá e, depois, distribuídos para o resto do país. Após a abertura da economia brasileira ao mercado internacional e a redução generalizada das alíquotas de importação, antes restrita à Zona Franca, as indústrias locais tiveram de se reinventar para sobreviver. Graças aos investimentos em tecnologia e à intensa qualificação da mão de obra, elas conseguiram agregar valor à produção e tornar-se competitivas. Atualmente, uma média de 30% dos componentes de seus produtos são fabricados na própria região. Outros 20% são produzidos em outros estados brasileiros. No ano passado, as compras de insumos feitas dentro do Brasil pelas indústrias do polo ultrapassaram a casa dos 14 bilhões de reais. Em algumas fábricas, o índice de nacionalização da produção é muito superior. É o caso da Honda, que tem mais de 90% das peças de suas motocicletas fabricadas no país – no modelo CG 150 Titan, o mais vendido, esse índice chega a 99%. A Honda brasileira é hoje campeã de produtividade: a cada vinte segundos sai uma moto de sua linha de montagem – metade do tempo médio registrado nas outras oito unidades que a multinacional possui fora do Japão.

Obrigada a importar mais da metade dos componentes que integram seus aparelhos celulares – já que o Brasil não dispõe de fábricas de semicondutores –, a finlandesa Nokia, por sua vez, vem investindo para que sua filial em Manaus se transforme em um centro de desenvolvimento de tecnologias para o setor. Para isso, patrocina uma escola profissionalizante de nível médio aberta à comunidade. Mantendo aulas em regime integral, nos últimos dois anos a instituição ficou em primeiro lugar no ranking do MEC para a Região Norte. A Nokia mantém também um instituto de pesquisas onde 300 funcionários, entre os quais mestres e doutores, se dedicam exclusivamente a buscar inovações tecnológicas para seus produtos e processos. Foi de lá que saiu, por exemplo, o equipamento que testa a resistência de aparelhos celulares utilizado atualmente em todas as fábricas da multinacional ao redor do mundo. Várias tecnologias presentes nos aparelhos vendidos mundialmente pela Nokia também foram desenvolvidas aqui, sobretudo na área de softwares.

Para que o polo industrial de Manaus se consolide, falta desatar alguns nós. Um deles é o da infraestrutura logística da região. Manaus é ainda hoje uma cidade praticamente isolada: o acesso a ela só é possível de avião ou por meio de longas viagens de barco ou navio. Há também o gargalo da energia, que, a exemplo do que acontece no restante do estado, é alimentada pelo poluente e caro óleo combustível. Ainda no capítulo da logística, é necessário que a estrutura portuária da cidade seja modernizada. A orla de Manaus, ao longo do Rio Negro, é um verdadeiro caos, com o engarrafamento diário de centenas de embarcações de passageiros e de cargas.

A consolidação da Zona Franca de Manaus passa também pela capacidade das indústrias locais de agregar mais valor a seus produtos. Para isso, ajudaria atrair uma indústria de semicondutores para a região. Atualmente, esses dispositivos, que funcionam como o “coração” de diversos equipamentos, são todos importados – o que encarece muito os custos. “Esse melhoramento só será possível se houver uma decisão política de transformar o polo em um centro de produção de ciência e alta tecnologia, como ocorre no Vale do Silício americano”, diz o economista José Alberto Machado. Entre os produtos que utilizam a microeletrônica estão os marca-passos, os aparelhos destinados a suprir deficiências motoras e sensoriais, os vinculados à defesa e à gestão de território e os associados aos conversores da TV digital. A ampliação da Zona Franca de Manaus em direção à alta tecnologia produziria empregos suficientes para modificar a vida de milhares de habitantes da Amazônia.

A criação de polos semelhantes aos de Manaus poderia transformar a economia da Amazônia. Com investimentos maciços em educação e formação de mão de obra, estados cuja economia se baseia no extrativismo e na pecuária poderiam deslanchar como centros industriais capazes de desviar da floresta a atenção de seus habitantes. Em Rondônia, um novo polo que alcançasse metade do sucesso da Zona Franca de Manaus seria suficiente para triplicar o PIB do estado. Em estados menores, como Acre e Amapá, um polo industrial os faria produzir doze vezes mais riquezas do que agora. É o desenvolvimento de costas para a floresta.

Sem usar uma folha da floresta
Fábrica de motocicletas da Honda: a mais produtiva entre as nove que a empresa mantém fora do Japão

O empurrão das multinacionais

O polo industrial de Manaus abriu perspectivas para milhares de trabalhadores progredirem na vida. Muitos fizeram carreira nas multinacionais que se estabeleceram na região. Nascido em Manaus,Fernando Melo, de 35 anos, é um deles. Ele fez o 2º grau em uma escola técnica patrocinada pela fábrica de celulares finlandesa Nokia. Posteriormente, cursou graduação em engenharia elétrica e mestrado em engenharia da produção. Há onze anos, ingressou na fábrica que a companhia tem na capital amazonense como engenheiro júnior e, desde 2007, é gerente de suprimento e distribuição, um cargo alto no qual responde diretamente ao diretor-geral. “A empresa abriu todas as portas para mim”, ele diz.

A natureza é ótima comar-condicionado

O advogado e economista Átila Denys, nascido em São Paulo há cinquenta anos, sente-se perfeitamente adaptado à vida na Amazônia. Depois de 32 anos morando em Manaus, incorporou hábitos da região. “Às vezes saio para pescar tucunaré com amigos, navegando pelos rios Negro ou Madeira”, conta. Mas, para ele, vida selvagem tem limite. “A proximidade com a natureza é ótima quando se tem ar-condicionado e todo tipo de conforto em volta. A floresta é bonita de ver ali do outro lado do rio”, diz. Dono do maior escritório de advocacia do Amazonas, Denys garante que não trocaria Manaus por nenhum outro lugar do Brasil. “Sofro um pouco com o calor. Mas aqui ninguém precisa andar com carro blindado.”

3 exemplos de riqueza sem devastação

1 petróleo verde no interior do Pará

Vida nova
Colheita de dendê na Agropalma: renda para famílias que antes viviam
de derrubar árvores

Promover o desenvolvimento da Amazônia e o bem-estar de seus habitantes por meio do extrativismo artesanal tem se revelado uma ilusão. Quando a industrialização de uma matéria-prima da floresta é feita de forma extensiva, porém, os resultados podem ser espetaculares. Desde a década de 80, a empresa Agropalma cultiva e processa em larga escala no município paraense de Tailândia, na região conhecida como arco do desmatamento, a palmeira de dendê. Essa planta é originária das florestas tropicais africanas, mas tem características típicas de palmáceas amazônicas como o inajá e o açaí. A empresa – que pertence ao banqueiro Aloysio Faria, dono do Banco Alfa – instalou-se na região no início da década de 80 e hoje é a maior produtora de óleo de dendê da América Latina. A gordura bruta é extraída em cinco usinas instaladas na própria área de plantação. De lá, é transportada numa balsa pelo Rio Pará até Belém, onde é processada em uma refinaria. O óleo de dendê é usado, basicamente, nas indústrias alimentícias e de cosméticos. Os ácidos graxos que restam após o refinamento são utilizados para fabricar biodiesel. Hoje, metade do óleo de dendê consumido no Brasil é importada. A Agropalma faturou 650 milhões de reais no ano passado e já investiu quase o mesmo valor em todo o empreendimento.

Cerca de 40% da área de 106 000 hectares que a Agropalma tem na região amazônica é voltada para o cultivo de dendezeiros. Desde 2000, as novas plantações ocorrem somente em áreas já desmatadas. Apenas na colheita e no processamento primário do dendê são criados 3 500 empregos diretos. A refinaria e a usina de biodiesel abrem outros 500 empregos. A empresa desenvolve ainda parcerias com dezenas de famílias da região que antes viviam da extração ilegal de madeira e hoje se dedicam ao cultivo de dendezeiros. Os pequenos agricultores recebem assistência técnica e têm mercado assegurado para sua produção. Muitas famílias tiveram a renda média mensal aumentada em dez vezes.

2 O minério que cria empregos

Passo à frente
Fábrica de alumínio da Albras: processar a bauxita produz mais riquezas
do que vendê-la in natura

Quase toda a produção mineral da Amazônia é exportada de forma in natura, ou seja, sem nenhum processamento industrial. A industrialização do minério é um modo de criar alternativas de emprego e renda para pessoas que vivem do desmatamento da floresta nos arredores das jazidas. Um exemplo nessa linha ocorre em Barcarena, no Pará, onde a Alunorte e a Albras transformam parte da bauxita produzida no estado em alumínio. O processamento do minério é responsável por 6 000 empregos diretos – o dobro do que é criado na etapa de extração. Não estão incluídos nessa conta os 20 000 postos de trabalho indiretos formados por fornecedores e prestadores de serviço que atuam ao longo do processo de produção. As duas indústrias injetam anualmente cerca de 1 bilhão de reais na economia paraense com a compra de insumos, o pagamento de salários e o recolhimento de impostos. A agregação de valor da bauxita também resulta em mais divisas para o país. O alumínio exportado pela Albras é vendido em média por 2 600 dólares a tonelada – valor 75 vezes superior ao preço de exportação da tonelada de bauxita bruta.

A redenção do Projeto Jari

O desmatamento caiu
Serraria da fábrica de celulose do Grupo Orsa: manejo florestal
com auditoria alemã

A lendária fábrica flutuante de celulose que o magnata Daniel Ludwig instalou nas margens do Rio Jari, na década de 60, finalmente se transformou num exemplo de empreendimento sustentável no meio da floresta. O Grupo Orsa, que atualmente está no comando da indústria, investiu 200 milhões de dólares em sua modernização tecnológica e ambiental. Foram implantados filtros para redução de poluentes e equipamentos que proporcionam reutilização da água. A companhia desenvolve também um projeto de manejo florestal numa área de mata nativa e se submete a auditorias periódicas comandadas pela ONG alemã Forest Stewardship Council (FSC). Juntos, os empreendimentos criaram 3 500 empregos diretos e são responsáveis por cerca de 80% da movimentação econômica de uma região habitada por mais de 100 000 pessoas. A companhia desenvolve programas de geração de renda para pequenos agricultores que moram em comunidades localizadas na ampla área que está sob sua administração. Depois da implantação desses projetos, o desmatamento ilegal foi reduzido drasticamente na região. “Os moradores transformaram-se em guardiães da floresta”, entusiasma-se Sergio Amoroso, presidente do Grupo Orsa.

Fonte: http://veja.abril.com.br/especiais/amazonia/uma-cidade-costas-para-selva-ainda-bem-p-058.html

Um tesouro a explorar

Sob o grande tapete verde esconde-se riqueza mineral que segue, em grande parte, ainda intacta

Lourival Sant’Anna

Riqueza mineral da região ainda foi pouco explorada.

Riqueza mineral da região ainda foi pouco explorada.

MANAUS – A floresta vasta e impenetrável que cobre a maior parte da Amazônia tem um efeito quase hipnótico sobre quem a contempla. É praticamente impossível pensar noutra coisa que não a sua espantosa biodiversidade, e a presença humana que interage com ela. Mas a Amazônia não é só isso. Debaixo de sua superfície, esconde-se ainda uma riqueza mineral, talvez ainda mais intacta e inexplorada.

Chamada de geodiversidade pelos técnicos da área, ela é o equivalente subterrâneo da biodiversidade. Ouro, nióbio, bauxita, tório, cassiterita, ferro e gás natural fazem parte de uma lista de 23 minérios presentes em quantidades consideráveis no subsolo amazonense, de acordo com a Secretaria Executiva de Geodiversidade e Recursos Hídricos do Amazonas (Segrha).

No leste do Estado, onde o Rio Madeira desemboca no Amazonas, uma área pertencente à Petrobrás nos municípios de Nova Olinda do Norte e Itacoatiara tem vastas quantidades de potássio. A estatal está negociando seus direitos com grandes empresas do setor. Hoje, o Brasil importa 90% do potássio que consome, destinado à fabricação de fertilizantes, gastando com isso mais de US$ 1 bilhão ao ano, diz o geólogo Daniel Nava, da Segrha, citando dados apresentados pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM).

De acordo com Nava, a posição dessas reservas, perto das fronteiras agrícolas, é estratégica, porque o uso de fertilizantes fabricados com esse potássio aumentaria a produtividade nesses pólos e reduziria a pressão pelo desmatamento da floresta, em busca de mais áreas de cultivo. E ressalta: “Trata-se de um projeto de mina subterrânea, com pequeno impacto na cobertura florestal.” Sua exploração também geraria emprego e renda – substituindo atividades econômicas que degradam o meio ambiente.

A cerca de 40 quilômetros de Manaus, no Distrito Agropecuário da Suframa, há também 3,3 bilhões de toneladas de caulim, matéria-prima das cerâmicas branca e refratária, de cosméticos e de medicamentos, entre outros. Dessas, cerca de 70 milhões são de caulim do tipo coating (utilizado na cobertura de papéis especiais), “altamente competitivo para exportação”, afirma Nava.

Segundo o especialista, existem ainda pesquisas de bauxita (minério de alumínio) “com grandes indícios de viabilidade econômica” desenvolvidas pela Companhia Vale do Rio Doce e pela Alcoa no nordeste do Estado do Amazonas, nos municípios de Presidente Figueiredo, Urucará, São Sebastião do Uatumã e Nhamundá.

Hoje, a principal atividade de mineração do Estado é a Mina do Pitinga, localizada nos municípios de Presidente Figueiredo e Urucará, na qual se explora cassiterita (minério de estanho). A mina atende a cerca de 70% da demanda nacional.

No oeste de Roraima, o projeto Catrimâni-Urariqüera revelou muitas ocorrências de cassiterita e de ouro. E há, evidentemente, Carajás, no Pará, que contém as maiores reservas de ferro do mundo, além de consideráveis volumes de manganês, ouro, cobre e níquel.

A mineração na Amazônia está associada à degradação, por causa de desastrosos projetos dos anos 70, e do garimpo clandestino que poluiu alguns de seus rios e causou desmatamento e problemas sociais. Mas, segundo um estudo feito por geólogos da Superintendência Regional de Manaus do Serviço Geológico do Brasil (conhecido por sua antiga sigla CPRM), um projeto de exploração de minérios de grande porte ocupa no máximo 15 km², de maneira que 20 grandes projetos não representariam nem 0,01% dos mais de 5 milhões de km² da Amazônia.

“Para sobreviver, a indústria extrativa mineral e de óleo e gás foi obrigada a se reciclar, com a aplicação dos conceitos de desenvolvimento sustentável”, argumenta o geólogo Marco Antonio Horbe, gerente de Relações Institucionais e Desenvolvimento do CPRM em Manaus, e um dos autores do estudo. E recursos para investimentos nessa área existem. Segundo o estudo, há US$ 2,5 bilhões disponíveis para a exploração mineral, dos quais US$ 500 milhões em busca de destinação.

Para que esses recursos sejam devidamente explorados, no entanto, são necessárias novas pesquisas. Atualmente, cerca de 60% da região, referente às Bacias do Amazonas e do Solimões e ao Estado do Acre, dispõe de levantamentos geológicos na escala adequada à logística da Amazônia (1:100.000 e 1:250.000), afirma o estudo do CPRM. Mas são dados de três décadas atrás, colhidos pelo Projeto Radam Brasil e pelos Programas de Levantamentos Geológicos Básicos realizados pelo CPRM, em convênio com o DNPM.

“É premente a necessidade de investimentos públicos e privados na produção do conhecimento geocientífico sobre a região, a exemplo do que ocorreu nas décadas de 70 e 80”, enfatiza o estudo. “A atualização do conhecimento sobre a geodiversidade passa obrigatoriamente pelo mapeamento da região em escala de detalhe, bem como pela retomada dos levantamentos geoquímicos sistemáticos. Este é um trabalho de pelo menos uma década.”

 

Fonte: http://www.estadao.com.br/amazonia/radiografia_um_tesouro_a_explorar.htm

Amazônia ainda busca modelo sustentável de desenvolvimento

É difícil encontrar na Amazônia quem defenda um modelo predatório de ocupação e desenvolvimento. De caboclos a fazendeiros, passando por multinacionais e políticos, o apoio à preservação e à idéia de desenvolvimento sustentável permeia quase todos os discursos.
Mas a região vive um grande descompasso entre discurso e ação. O desmatamento voltou a crescer nos últimos 12 meses, há conflitos fundiários sérios, muita violência e problemas ecológicos, sociais e econômicos com o crescimento dos agronegócios ou da exploração predatória da selva.

“A Amazônia precisa de um novo modelo de desenvolvimento”, acredita Paulo Adario, diretor da Campanha Amazônia do Greenpeace Brasil. “Acho que ainda existe uma discussão falsa, em que se contrapõem desenvolvimento e preservação. A visão de que a floresta é uma barreira ao desenvolvimento é antiga, dos anos 70, e é falsa.”

No entanto, a busca por um novo modelo de desenvolvimento ainda é embrionário e a maior parte do crescimento econômico da região amazônica (que é maior do que média nacional) continua baseado na expansão de atividades tradicionais, como a exploração de madeira, a mineração, a criação extensiva de gado e a agricultura.

“A grande questão é como fazer a floresta valer mais em pé do que cortada”, resume Virgílio Viana, coordenador do Fundo Amazônia Sustentável (FAS), uma ONG criada para gerenciar o Bolsa Floresta, um programa de transferência de renda a famílias e comunidades que protegem a mata em áreas de preservação.

Idéias

Segundo especialistas, existe um ciclo bem estabelecido de exploração econômica na Amazônia. O primeiro passo em geral é a exploração da madeira.

A segunda fase depende da capacidade do produtor. No caso de agricultores de menor porte, essa fase é a de exploração do solo para o plantio. Quando esse solo se esgota, em geral por causa da falta do uso de tecnologia agrícola, entra o gado.

Há locais em que o gado pode ser substituído pela agricultura industrializada, como tem acontecido em áreas de soja no Pará, onde fazendeiros de maior porte e com mais capital limpam as pastagens para transformá-las em plantações mecanizadas.

Para romper esse ciclo vicioso, há muitas propostas na região, a maioria ainda no nascedouro. Um exemplo é o Bolsa Floresta. O programa criado pelo governo do Amazonas prevê o pagamento de R$ 50 como compensação para famílias que vivem em áreas de reservas estaduais e não desmatem. O plano também prevê ajuda às comunidades na criação de alternativas de renda e infra-estrutura social.

O plano, porém, é recente e esbarra na falta de documentação da população local. “Um dos problemas é que a pessoa precisa ter CPF para se inscrever, e o plano está andando devagar já que muita gente não tem”, diz o governador do Estado, Eduardo Braga.

Na opinião de Everaldo de Souza Martins Filho, secretário de Planejamento de Santarém, no Pará, é preciso encontrar um equilíbrio entre fortalecer a agricultura familiar e explorar de forma sustentável as áreas que já estão alteradas.

“Apenas no município de Santarém temos um enorme área que já foi mexida, mas que não é explorada. Podemos aumentar muito a nossa produção agrícola sem cortar mais nada”, ele diz.

Representantes do Sindicato dos Produtores Rurais da cidade defendem a mesma coisa. Eles afirmam que o município de 2,5 milhões de hectares tem cerca de 600 mil já sem floresta (alguns estimam que esse número seja menor, cerca de 400 mil hectares).

“Dessa área, só usamos para plantação e gado 200 mil hectares”, afirma João Clóvis Duarte, vice-presidente do Sindicato. O restante está abandonado.

Segundo Adario, do Greenpeace, o problema é que usar e recuperar áreas abertas que já foram exauridas pela agricultura intensiva pode ser até 6,5 vezes mais caro do que abrir novas áreas.

Barreiras

A lista de receitas e idéias sobre o que pode ser feito na região é longa. ONGs e governos locais defendem desde a exploração sustentável da madeira até o desenvolvimento de produtos de alto valor agregado a partir de plantas e árvores amazônicas. No entanto, além do aumento das áreas de preservação e do desenvolvimento de alguns projetos pontuais, vê-se pouca mudança.

A incipiência das alternativas econômicas tem várias explicações. Na visão do ministro de Assuntos Estratégicos da Presidência, Roberto Mangabeira Unger, existem três problemas básicos que impedem a criação de uma nova dinâmica econômica na região.

“A primeira é a questão da propriedade da terra, já que falta a definição de quem são os proprietários. A segunda é a falta de um zoneamento ecológico e econômico da Amazônia. E a terceira é ausência de um regime regulatório e fiscal que garanta que a floresta em pé valha mais do que a floresta cortada”, diz Unger.
Como coordenador do Plano Amazônia Sustentável (PAS), um projeto para desenvolver a região de forma equilibrada, ele diz que está buscando soluções no curto prazo para resolver esses problemas e poder implementar projetos que ajudem a região a se desenvolver.

O desafio poderá ser maior do que o ministro está antecipando. Em Santarém há agricultores com terras de mil hectares que estão esperando há 15 anos pela regularização de suas propriedades. Na Amazônia, os projetos e as políticas de mudança têm sempre sido muito mais lentos do que as motosserras.

 

Fonte: http://verde.br.msn.com/artigo-bbc.aspx?cp-documentid=19302744


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s