ESPECIAL QUESTÃO PALESTINA – 2ª PARTE – três matérias sobre a formação do Estado de Israel e os conflitos decorrentes deste processo

BATISMO DE SANGUE

Depois de uma espera de 1.878 anos, os judeus ganham um país. Mas a independência de Israel não encerra a longa marcha:  a diplomacia fracassou e a guerra com os árabes continua

O nascimento de uma nação: palco improvisado, estrelas de Davi e a histórica declaração do patriarca David Ben-Gurion

O nascimento de uma nação: palco improvisado, estrelas de Davi e a histórica declaração do patriarca David Ben-Gurion

As cadeiras vieram emprestadas de cafés vizinhos. Os microfones, de um empório musical. Dois carpinteiros chamados às pressas ergueram o palco de madeira em tempo recorde. Um retrato do pioneiro sionista Theodor Herzl foi colocado em posição de destaque no salão principal, ladeado por duas bandeiras gigantes com a estrela de Davi (símbolo ancestral do povo judeu), lavadas e passadas de forma expedita para a ocasião. Em um piscar de olhos, o Museu Nacional de Tel-Aviv transformou-se para sediar uma cerimônia aguardada pelos hebreus há exatos 1.878 anos – desde que a destruição do Segundo Templo pelos romanos, em 70 d.C., acabou com a soberania dos judeus em Jerusalém e deu início à segunda diáspora dos seguidores de Isaac. No compromisso deste 14 de maio de 1948, porém, a história seria finalmente reescrita: a terra prometida estava voltando às mãos dos judeus.

Os convites para a reunião, marcada para as 16 horas, foram impressos na véspera e distribuídos apenas na manhã do dia do evento, com um pedido de segredo aos cerca de 250 convidados para evitar qualquer interferência externa. Entre os locais, porém, foi impossível segurar a alvissareira notícia, que rapidamente se espalhou por Tel-Aviv e levou, já por volta do meio-dia, uma multidão a cercar o local da congregação. De qualquer forma, poucas horas depois de o mandato britânico na Palestina ter se encerrado, sem maiores sobressaltos, em uma cerimônia célere, demarcada pelas firmes batidas do martelo de nogueira de David Ben-Gurion, presidente do Conselho Provisório de Estado sionista, a criação da nação judaica na Palestina – o estado de Israel – foi solenemente anunciada aos quatro ventos.

O troco árabe: destruição em Tel-Aviv

Lida por Ben-Gurion e assinada pelos 24 dos 37 membros da assembléia presentes ao histórico evento, a declaração de independência do mais novo país do globo buscou no passado histórico e no presente político as bases morais e legais para sua fundação. O documento notificava que a Terra de Israel era o local de nascimento do povo judeu e que o movimento sionista era testemunho do papel representado pela Palestina em sua história e religião. Dizia também que a declaração de Balfour e a partilha das Nações Unidas, além do sacrifício dos pioneiros sionistas e da tormenta sofrida com o Holocausto, davam aos judeus o direito inalienável de estabelecer seu estado no Oriente Médio. A cerimônia, transmitida pela Kol Yisrael, “a voz de Israel”, tornada rádio oficial do novo estado sionista, provocou uma explosão incontida na população hebraica em todos os rincões da Palestina. Enquanto dentro do Museu Nacional de Tel-Aviv o público, emocionado, entoava a plenos pulmões aHatikvah (tradicional canção judaica que celebra a esperança), do lado de fora do recinto, assim como em diversas cidades da nova nação – à exceção de Jerusalém, que se encontrava sem eletricidade –, populares ganhavam as ruas para congratular-se uns aos outros.

Combates ferrenhos – Em meio aos festejos, contudo, era possível notar no semblante de David Ben-Gurion que o calejado líder não comungava do regozijo de seus pares. Antes de sair do local, acompanhado da mulher, Paula, confidenciou, diligente, a um de seus auxiliares: “Não sinto alegria dentro de mim. Apenas uma ansiedade profunda, como no último 29 de novembro [data do anúncio da partilha da ONU, aceita pelos judeus mas rejeitada pelos países árabes], em que eu mais parecia um lamentador num banquete.” Se, para muitos, o dia 14 de maio marcava o fim de um périplo de dois mil anos por um lar nacional, para Ben-Gurion era apenas o começo. E a história não demorou a prová-lo correto.

Os ataques árabes vieram de imediato. Exércitos de cinco países – Líbano, Síria, Egito, Iraque e Transjordânia (a Legião Árabe, treinada pelos britânicos) – acometeram, naquela mesma tarde, o território então dominado pelos judeus em diversos pontos de suas fronteiras. Combates ferrenhos se seguiram nas duas últimas semanas deste mês, com os defensores buscando manter suas posições contra as investidas na maioria das vezes desorganizadas dos vizinhos. A diferença na quantidade e qualidade de armamentos é abismal – o arsenal judeu é escasso e antiquado, por conta da restrição britânica de importação de armas durante o mandato, enquanto o árabe é mais moderno e volumoso, arrematado em boa parte da própria Grã-Bretanha. Ainda assim, os hebreus, com suas forças bem coordenadas, lograram importantes êxitos militares, frustrando a previsão de um acachapante massacre árabe.

O conde Bernardotte: missão espinhosa

No calor da guerra, com a comunidade internacional clamando por uma solução pacífica e os exércitos chegando ao limite de suas forças, o Conselho de Segurança das Nações Unidas apresentou, no dia 20, uma proposta de trégua – bem recebida por ambos os lados e aprovada nove dias depois. O cessar-fogo, negociado pelo conde sueco Folke Bernardotte, mediador da ONU, entra em vigor no dia 11 de junho e é válido por um mês – período em que nenhum imigrante poderá ser recrutado, e que todos os combatentes estarão proibidos de receber qualquer tipo de armamento. Enquanto isso, o Conselho de Segurança prepara um novo plano de conciliação – que, seja qual for, miseravelmente estará fadado ao fracasso. A partir de agora, não há dúvidas, apenas as armas falarão por árabes e judeus.

Corrida contra o tempo – Legitimada tanto pela declaração de Balfour, em 1917, como pela partilha aprovada pelas Nações Unidas, no ano passado, a instalação de um estado judeu na Palestina esteve perigosamente ameaçada nos dias que precederam o anúncio em Tel-Aviv. E não somente por conta da batalhas entre árabes e judeus pelo controle das cidades deixadas para trás pelos britânicos, às vésperas do encerramento do mandato. Nem por causa da ameaça de invasão dos países árabes, cuja oposição à idéia já era conhecida de cor e esperada pelos sionistas. Reunidas em palácios de governo e nas Nações Unidas, as grandes potências mundiais buscaram até o último suspiro evitar a independência de Israel – cada uma, claro, visando resguardar seus interesses no Oriente Médio.

A Grã-Bretanha, que desde o anúncio da partilha havia adotado uma política de não-cooperação com as Nações Unidas na questão Palestina para não melindrar seus aliados árabes, recorreu de forma esbaforida ao órgão no final de abril, quando os hebreus consolidaram sua vitória em Haifa. A mera sugestão de ameaça à soberania árabe trouxe arrepios aos súditos da rainha, que, poucas semanas antes, ainda manifestavam a certeza de que os árabes rapidamente conquistariam os territórios destinados às comunidades judaicas. No início daquele mesmo mês, o comandante das forças britânicas na Palestina, general sir Gordon Macmillan, havia dito que os árabes “não teriam dificuldade em dominar todo o país”. (De forma menos técnica, o secretário das Relações Exteriores bretão, Ernest Bevin, prevera ainda no ano passado que os judeus teriam suas “gargantas cortadas”.)

Com a demonstração de força dos judeus nas batalhas pré-14 de maio, porém, Arthur Creech-Jones, secretário colonial da Grã-Bretanha, propôs em 23 de abril que a Assembléia Geral da ONU pensasse em um objetivo “mais modesto” do que a partilha – uma solução paliativa sem a pretensão de resolver o conflito entre árabes e judeus. Desta vez, garantia o dignitário, a coroa ofereceria todo seu auxílio. Os diplomatas consideraram que o súbito desejo de engajamento britânico era por demais tardio e ignoraram o apelo.

Na resistência: integrantes da Haganá resgatam homem ferido em bombardeio egípcio

As ações de bastidores dos Estados Unidos da América, por sua vez, geraram desdobramentos até à véspera da retirada britânica – e reverberaram, curiosamente, menos nas Nações Unidas do que entre o Conselho Provisório de Estado sionista. Até o início deste ano, os americanos acreditavam que a divisão da Palestina aconteceria de forma cirúrgica. Contudo, a escalada das hostilidades e a pressão da Liga Árabe em Washington e nas companhias de petróleo – que controlavam, em dados do ano passado, 42% das reservas do Oriente Médio e desenvolviam planos de expansão – levaram os americanos a rever paulatinamente sua posição pró-sionista e recomendar, em 19 de março, a suspensão da partilha, para horror da Agência Judaica. Warren Austin, embaixador dos EUA no Conselho de Segurança, sugeriu que fosse adotada uma administração conjunta da ONU na Palestina.

Mal recebido pelas outras delegações, o plano foi considerado um ataque à autoridade das Nações Unidas. A União Soviética, mantendo sua posição pró-partilha, protestou, argumentando que os Estados Unidos estavam preocupados apenas com o petróleo árabe e que não havia bases legais para sustar o plano aprovado em novembro. Indignado, o secretário-geral da ONU, o norueguês Trygve Lie, propôs que tanto ele como o representante americano renunciassem aos respectivos postos em protesto à afronta – ação negada por Austin. Na virada do mês, a Liga Árabe e a Agência Judaica rechaçaram oficialmente o plano de administração conjunta por um ano – mas os Estados Unidos não desistiram, clamando ainda por uma trégua temporária.

Pulga atrás da orelha – No início de maio, Dean Rusk, secretário-assistente de Estado, mandou um recado aos sionistas. A declaração de independência deveria ser ao menos protelada; caso contrário, Washington poderia bloquear as transferências de fundos filantrópicos dos judeus americanos para a nação caçula. Impressionado, o chefe da Agência Judaica na América, Nahum Goldmann, transmitiu as informações à central – Ben-Gurion, contudo, não se deixou intimidar, e, no dia 4, devolveu um cabograma a Rusk negando o adiamento. Quatro dias depois, o secretário de Estado George Marshall e o subsecretário Robert Lovett encontraram-se na capital com Moshe Shertok, ministro das Relações Exteriores da administração provisória judaica. Desta vez, não houve ameaças: os americanos apenas ponderaram que a invasão dos árabes era iminente, e que, se os judeus insistissem na emancipação imediata, não deveriam recorrer à ajuda dos Estados Unidos – que ainda mantinham, apesar dos protestos em diversas cidades, o embargo de armas ao Oriente Médio.

O norueguês Lie, da ONU: uma afronta

Shertok lamentou o fato de os americanos não terem mantido o apoio à resolução da partilha, e atribuiu de antemão boa parte do futuro derramamento de sangue na Palestina ao recuo dos Estados Unidos, que teria encorajado os árabes em sua beligerância. E, nesse ponto, a resposta de Marshall colocou uma pulga atrás da orelha do judeu. “Compreendo o peso de suas palavras. Não sou eu quem devo dizer-lhe o que fazer. Porém, como militar, gostaria de alertá-lo: não confie em seus consultores militares. Sim, eles acabaram de registrar alguns sucessos. Mas o que acontecerá se houver uma invasão prolongada? Isso irá enfraquecê-los. Tive esta experiência na China. No começo, foi uma vitória fácil. Agora eles estão lutando há dois anos e perderam a Manchúria”. As palavras de Marshall ainda ecoavam nos ouvidos dos líderes sionistas na Palestina quando os membros da Administração Nacional – embrião de um gabinete recém-criado pelo conselho provisório – reuniram-se para decidir, em 12 de maio, pela proclamação imediata ou não do estado judeu. As deliberações duraram nada menos do que onze horas. Golda Meyerson, diretora do departamento político da Agência Judaica, relatou o fracasso de sua negociação com o rei Abdullah da Transjordânia, em uma viagem secreta àquele país – a derradeira tentativa de um compromisso pacífico entre as partes.

O jovem oficial Yigael Yadin, comandante de operações da Haganá, força de defesa judaica, apresentou seu relatório sobre o teatro de operações aos membros. As tropas hebraicas haviam garantido o controle das linhas de comunicação no interior da Palestina, mas em algumas regiões a situação era crítica. Metade de Jerusalém, por exemplo, estava nas mãos dos árabes – incluindo a malha rodoviária dos arredores, pela qual a Legião Árabe naquele momento marchava rumo à cidade. Yadin também demonstrava preocupação quanto à escassez do arsenal judeu. Pessoalmente, o comandante acreditava que, com a evacuação britânica programada para dali a dois dias, armas e material humano poderiam ser rapidamente integrados às tropas, com 50% de chances de sucesso contra o assalto árabe. Cauteloso, não descartava que uma trégua temporária fosse interessante, para possibilitar o reforço das tropas judaicas sem sacrificar os objetivos políticos.

Ben-Gurion, porém, acreditava que a proclamação da independência fortaleceria o ânimo e o espírito não somente dos combatentes, mas também da população, que precisaria estar preparada para a inevitável perda de territórios e vidas. Já o adiamento poderia representar um anticlímax e abalar o moral das tropas. Ao final da assembléia, convocou-se o sufrágio que definiria o próximo passo. Por uma apertada margem de seis votos a quatro, o gabinete decidiu rejeitar a proposta americana de trégua e declarar, assim que a Union Jack fosse baixada em Jerusalém, dali a dois dias, a criação do estado judeu na Palestina. Contatado por telefone em Nova York, o tarimbado Chaim Weizmann, chefe da Agência Judaica, assentiu. “Proclamem o estado, não importa o que aconteça.” Após dar sua sentença, o veterano explodiu, em iídiche. “O que estão esperando, os idiotas?”

Presidentes: Truman e Weizmann (à dir.)

Êxitos e temores – Horas depois da cerimônia de proclamação de independência em Tel-Aviv, Chaim Weizmann foi nomeado presidente de Israel, e Ben-Gurion, primeiro-ministro. Em seguida, o Conselho de Estado revogou por unanimidade o Livro Branco de 1939, documento inglês que regulava a imigração de judeus para a Palestina. Ainda no dia 14 de maio, por intercessão direta do presidente Harry Truman, os EUA, apesar de toda a oposição à independência, foram os primeiros a reconhecer o estado de Israel, causando surpresa entre os diplomatas das Nações Unidas. Andrei Gromyko, representante da União Soviética, criticou os americanos, por colocar a assembléia em uma “posição ridícula”. Fontes próximas a Truman garantem que o comandante-em-chefe andava descontente com as trapalhadas de seus assessores e que sentiu a importância estratégica de se antecipar a Moscou no reconhecimento dos sionistas – além de tudo, não custa lembrar que este é um ano eleitoral na América, e os votos da enorme comunidade judaica podem ser decisivos.

A União Soviética reconheceu Israel dois dias depois – a confirmação dos comunistas já era esperada, tendo em vista que a criação de um estado judeu moderno, com forte espírito nacionalista, era mais interessante para as pretensões históricas de Moscou de ter uma base no Oriente Médio do que a consolidação de um regime árabe retrógrado, dependente da Grã-Bretanha. A Coroa, por sua vez, comunicou apenas que a Palestina não mais fazia parte da Comunidade Britânica, e, acenando seu pendor em direção aos antigos aliados, garantiu que iria cumprir seus tratados de fornecimento de armas aos árabes – a menos que as Nações Unidas afirmassem que estes estivessem agindo ilegalmente de alguma forma.

Crucial para a nação caçula, a batalha diplomática só não era mais importante do que a contenda bélica que se descortinava na Palestina. Desde a aprovação da partilha, a Haganá concentrava-se em dois objetivos: o primeiro, a segurança da comunidade judaica durante o período da retirada britânica, e o segundo, a defesa do território contra a possível e provável invasão árabe em larga escala a partir do dia 14 de maio. O êxito das tropas judaicas na primeira questão, registrado ao longo das últimas semanas com a tomada de cidades estratégicas como Haifa – subjugada em 21 de abril após três dias de embates contra os árabes – foi coroado com a conquista da Galiléia setentrional, no início de maio. Na última peleja, em Safed, remota comunidade montanhesa em que 1.400 judeus viviam cercados por dez mil árabes, as tropas do comandante Yigal Allon repeliram os mercenários sírios comandados por Adib al-Shishakli, causando a fuga dos habitantes árabes.

Sob nova direção: judeus trocam placa

Dessa forma, o norte da Palestina estava controlado, assim como o litoral: Jaffa, última cidade dominada pelo inimigo, caiu na manhã do dia 14 de maio – mais uma vez, 70.000 árabes deixaram suas casas em terror. Livre da responsabilidade de proteger seus enclaves (à exceção de Jerusalém, o cenário parecia todo favorável aos judeus), a Haganá pôde finalmente concentrar todas as suas forças na contenda contra os exércitos invasores.

Rumo à Galiléia – Às vésperas do início da guerra, as forças árabes, somadas, eram pouco maiores que as de Israel – aproximadamente 32.500 homens contra 30.000. A vantagem dos atacantes, porém, era seu maior poder de fogo, que incluía forças aéreas à disposição. Divididas em nove brigadas pelo chefe da Haganá, as forças de Israel foram distribuídas em quatro fronts: três unidades no norte, duas na costa (para proteger Tel-Aviv), duas no sul e duas nas montanhas da Judéia, a fim de defender Jerusalém e conquistar a posse das estradas nas redondezas da cidade.

No norte, os libaneses que seguiam rumo à Galiléia, assim como os iraquianos e sírios que atacaram colônias judaicas no vale do rio Jordão, não têm se mostrado ameaças sérias para as forças da Haganá. Suas investidas estão sendo facilmente controladas pelos israelenses. As mais duras batalhas são disputadas na Judéia – onde permanece o cerco da Legião Árabe do rei Abdullah a Jerusalém – e no sul. Ali, os egípcios, avançando com duas brigadas, já conquistaram Gaza, e agora seguem, a despeito de feroz resistência, a passos largos rumo a Tel-Aviv. Pelos últimos relatos do front, o brigadeiro Muhammad Naguib, comandante da Segunda Brigada egípcia, está a perigosos 25 quilômetros da periferia da urbe.

Perder o controle da espetacular cidade de 250.000 habitantes, berço e sede do recém-criado estado de Israel, será um golpe quase fatal para os judeus, em que pese todo e qualquer outro sucesso no teatro de operações. Por isso, o general Yadin já convocou reforços vindos de Jerusalém, e, de acordo com fontes militares israelenses, poderá a qualquer momento engendrar uma emboscada noturna contra os egípcios, extraindo da escuridão e da surpresa a força necessária para derrotar os inimigos. Manter Tel-Aviv em segurança antes da trégua programada para 11 de junho é condição sine qua non para que, no período de cessar-fogo, Israel reorganize seu exército e planeje com cautela os próximos passos na guerra contra os árabes. Sem isso, o estado de Israel corre o risco de se esvair pouco tempo depois do nascimento – e David Ben-Gurion e seus pares sionistas estarão mais distantes do sonho de desfrutar do solo sagrado que, acreditam, foi prometido por Deus a seus antepassados.

Fonte: http://veja.abril.com.br/historia/israel/especial-capa-independencia-israel.shtml

A Questão Palestina e o Estado de Israel

Ricardo da Costa (Ufes)
Palestra proferida no dia 09 de agosto de 2002
no curso de Relações Internacionais no Centro Universitário Vila Velha,
a convite da Diretoria de Extensão e Seqüenciais.

Imagens 1 e 2

 
O ataque de 11 de setembro de 2001 às torres gêmeas em Nova York.

Os acontecimentos de 11 de setembro nos Estados Unidos trouxeram à tona a questão religiosa para o centro das discussões intelectuais em todo o mundo. Entramos no século XXI com um antigo dilema existencial: fé versus razão. Com efeito, pensávamos que esse debate tivesse sido sepultado desde pelo menos o século XIII, quando os universitários medievais discutiam acaloradamente a possibilidade de unir as verdades da religião e da filosofia.

Por outro lado, durante algum tempo, a intelectualidade brasileira acreditou que toda análise da vida humana passava necessariamente pelo crivo da economia: o homo economicus prevalecia nas mentes dos acadêmicos como um tipo ideal pujante e necessário ao entendimento da História.

No entanto, a persistência do homem-bomba palestino, do mártir em prol da fé, do suicida-crente na destruição final tanto do capitalismo quanto do imperialismo norte-americano e de Israel mostrou à opinião pública mundial que o tema da religião permanece no centro da existência humana e que a chamada Questão Palestina e o Estado de Israel são itens obrigatórios da pauta de discussão nas relações internacionais. Como se chegou a este ponto? Qual a história da questão árabe-israelense? Esta palestra de hoje tenta responder a estas duas perguntas. Assim, farei um breve histórico do contexto da fundação do Estado de Israel para que possamos compreender melhor o tema e suas possibilidades (ou não) de resolução.

O estado de Israel nasceu sob o signo da morte em escala industrial. A Solução final nazista – especialmente a partir de 1942 – mostrou aos judeus europeus que a única alternativa era buscar a proteção de um estado próprio. Esse movimento sionista e nacionalista fora iniciado no final do século XIX pelo judeu vienense, Theodor Herzl (1860-1904), que percebeu a Palestina como uma concreta possibilidade territorial para a fundação de um estado judeu. Em seu livro O Estado Judeu, ele disse: “A Palestina é nossa inolvidável pátria histórica. Esse nome por si só seria um toque de reunir poderosamente empolgante para o nosso povo.” (HERZL, 1954: 67) Herzl passou a estimular a imigração para a Palestina, então sob o domínio do Império Otomano.

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Theodor Herzl (1860-1904).

Ali já viviam cerca de 25 mil judeus. Em 1914, com o início da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), imigraram 60 mil nacionalistas judeus, que passaram a viver com cerca de 650 mil não judeus, a maioria árabes.

A comunidade judaica européia conseguiu o apoio da Inglaterra para o estabelecimento de uma pátria nacional na Palestina. Em 1917, Arthur Balfour (1848-1930), ministro do exterior, emitiu um importante documento, que ficou conhecido como Declaração Balfour, onde aprovava a idéia, sem, no entanto, citar a palavra estado – isso para não ferir o apoio dado também aos árabes contra os turcos (SOLIMAN, 1990: 28). A Declaração Balfour foi sancionada em 1922 pela então Liga das Nações: a Inglaterra administraria provisoriamente a Palestina e incentivaria o movimento sionista.

Os árabes reagiram com violência. No mesmo ano de 1922 morreram 50 pessoas de cada lado. Com o fim do Império Otomano os árabes também aspiravam sua independência e o apoio inglês lhes parecia uma intromissão indesejável. No entanto, quando os nazistas chegaram ao poder na Alemanha em 1933, a imigração judaica para a Palestina não parou de aumentar: de cinco mil imigrantes por ano em 1929 para 60 mil só em 1935! Em 1936 os árabes pressionaram os ingleses para que limitassem a imigração, sem sucesso. Aconteceram então greves e ataques de árabes contra oficiais britânicos e judeus.

Nesse momento, com o apoio britânico, surgiu a Haganah, uma força de defesa judaica paramilitar com o objetivo de proteger os civis judeus contra os ataques árabes. Uma facção mais radical daHaganah chamada Irgun se organizou como grupo terrorista. Assim, já antes da Segunda Guerra estava bastante claro que os ideais da Declaração Balfour eram impraticáveis.

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Tropas da Haganah.

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Cartaz do Irgun.

Durante o conflito mundial, as autoridades britânicas admitiram limitar a imigração judaica para a Palestina, pois dependiam do petróleo árabe para seu esforço de guerra. Ao completar as quotas, os imigrantes adicionais eram repatriados. Os extremistas judeus também agiram com violência. Em 4 de novembro de 1944, o Ministro de Estado no Oriente Médio foi assassinado por dois membros do grupo Stern, outra facção do Irgun.

No mês seguinte, o Partido Trabalhista britânico tomou a dianteira e firmou um compromisso permitindo a imigração judaica ilimitada para a Palestina. Por outro lado, Anthony Eden (1897-1977), Ministro do Exterior, assegurou que o governo britânico daria total apoio à união árabe, fato que mostrava as diferenças entre os políticos britânicos a respeito da questão palestina.

Em março de 45 os árabes organizaram a Liga Árabe da Sete Nações, mas tinham poucos pontos em comum, com exceção do anti-sionismo. Quando, poucos meses depois, o líder do Partido Trabalhista se tornou Primeiro-ministro, encontrou a Liga Árabe determinada a impedir a imigração judaica a qualquer custo. Estava claro que os ingleses perdiam cada vez mais o controle da situação. Cada tentativa de reprimir a desordem gerava ainda mais violência. Em junho de 1946 a Haganah dinamitou todas as pontes sobre o rio Jordão. Líderes sionistas foram presos. Em 22 de julho, a Irgunretaliou, dinamitando uma ala do hotel Rei Davi, quartel-general do exército britânico em Jerusalém, matando 91 pessoas, entre ingleses, judeus e árabes.

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Ataque do Irgun ao Hotel Rei David.

Finalmente, o Primeiro-ministro decidiu retirar-se, a exemplo do que fizera na Índia. Ernest Bevin (1881-1951), Ministro do Exterior, declarou (fevereiro de 1947) que os ingleses entregariam às Nações Unidas, sucessora da Liga das Nações, seu mandato sobre a Palestina. Em junho, um comitê especial da ONU chegou à Palestina para estudar a futura divisão política, mas o cenário político palestino estava em pé de guerra: três terroristas da Irgun estavam condenados à morte por enforcamento e dois soldados ingleses eram mantidos como reféns pelos terroristas judeus para forçar sua libertação.

Ao mesmo tempo, muitos refugiados judeus dirigiram-se à Palestina clandestinamente. Em 1947, um navio vindo de Marselha, o President Warfield, rebatizado de Êxodo, transportava 4.500 sobreviventes do campo de concentração de Bergen-Belsen na Alemanha foi interceptado em Haifa por navios de guerra britânicos. A história correu o mundo porque os imigrantes a bordo divulgaram o fato através do rádio. No entanto, o Êxodo rendeu-se e retornou a Marselha, onde foi negado asilo aos refugiados que, por fim, desembarcaram em Hamburgo.

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President Warfield.

Nesse mesmo dia, os três terroristas da Irgun foram enforcados e em represália os dois soldados ingleses reféns dos terroristas judeus também foram enforcados e seus cadáveres foram dinamitados com minas explosivas. Menahen Begin (1913-1992), futuro primeiro-ministro de Israel e então um dos líderes da Irgun disse: “Nós retribuímos na mesma moeda” (WILLMOTT, 1993: 104).

O assassinato dos soldados ingleses foi recebido com indignação na Europa, dando origem a vários distúrbios anti-semitas em várias cidades inglesas – Londres, Liverpool, Glasgow e Manchester -, fatos que não aconteciam na Inglaterra desde o século XIII. Uma sinagoga em Derby foi incendiada e destruída (JOHNSON, 1989: 521). Isso tudo a apenas dois anos após o fim da Segunda Guerra e a abertura dos campos de concentração na Alemanha! Apesar disso – ou exatamente por isso – a política de Menahen Begin teve êxito: os britânicos decidiram sair o mais rápido possível da Palestina.

No final de 1947, as Nações Unidas propuseram a única solução plausível: o fim do mandato britânico e a divisão da Palestina em dois estados, um judeu e outro árabe; a cidade de Jerusalém permaneceria sob administração internacional, idéia defendida por Theodor Herzl no século XIX. Os sionistas aceitaram, mas dessa vez a voz discordante veio do mundo árabe, que começou a se preparar para a guerra. Os Estados Unidos e a União Soviética votaram a favor da resolução da ONU; a Grã-Bretanha votou contra, mas não tinha mais como controlar os acontecimentos.

Mesmo assim a violência não diminuiu e, em dezembro de 1947, os ingleses anunciaram sua retirada da Palestina para o dia 15 de maio de 1948. Até lá morreriam mais de mil pessoas, entre árabes e judeus.

Um dia antes do término do mandato, 200 líderes judaicos reuniram-se no Museu de Arte Moderna de Telaviv para ouvir o novo Primeiro-ministro da nação, o socialista Ben Gurion (1886-1973), ler uma curta declaração proclamando o estabelecimento do Estado de Israel. O novo país foi logo reconhecido oficialmente pelos Estados unidos e pela União Soviética.

Na manhã seguinte, Israel foi invadido pela Liga Árabe – Líbano, Síria, Iraque, Jordânia e Egito. A desvantagem, tanto em equipamento militar quanto em efetivo de soldados era de Israel: 40 mil muçulmanos contra 35 mil israelenses. Em junho, os sírios avançaram sobre a Galiléia, os iraquianos para oeste, chegando a 15 quilômetros do Mediterrâneo; os jordanianos assediaram Jerusalém, capturando a Cidade Velha e seu bairro judeu. Os egípcios ameaçavam Jerusalém pelo sul.

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Mapa da Guerra de 1948 (chamada pelos israelenses de guerra de independência).

Um mediador da ONU, o conde Folke Bernadotte (1895-1948), famoso por haver tentado uma trégua entre a Alemanha nazista e os Aliados (sem sucesso), conseguiu uma trégua de um mês. Os israelenses foram rápidos e aproveitaram a oportunidade para comprar armas (na França e na Checoslováquia) e em julho lançaram uma ofensiva bem sucedida.

Uma nova trégua foi acertada em julho, mas Bernadotte foi assassinado por membros da Stern. Com receio da condenação da opinião pública, Ben Gurion dissolveu a Stern e a Irgun.

De qualquer modo, os israelenses lançaram sua ofensiva, agora melhor equipados e preparados. Em contrapartida, sírios e iraquianos haviam retornado à suas fronteiras; jordanianos estavam dispostos a um cessar-fogo, após terem tomado a Velha Jerusalém; egípcios perderam o sul de Jerusalém para os israelenses. A união árabe durou apenas até o final do primeiro mês de guerra. O Conselho de Segurança das Nações Unidas declarou o cessar-fogo em dezembro de 1948 e no início de 1949 terminou a guerra de independência de Israel, que tinha agora cerca de 20% a mais de terras do que a resolução da ONU de 1947. Mais de 500.000 árabes buscaram refúgio na Faixa de Gaza, no Egito, no Líbano e na Jordânia. Israel tinha um milhão de judeus agora dispostos a defender seu país.

*

Tracei até aqui em breves linhas o surgimento do Estado de Israel e a oposição sistemática do mundo árabe. Grosso modo, esse foi o tom da história do Oriente Médio de 1947 até os dias de hoje. Guerra e morte, invasões e retaliações, ressentimentos e desprezo profundo de ambos os lados. Uma possível explicação para isso é, por um lado, o fato de o Estado de Israel ser uma nação teocrática. Forte economicamente, com o apoio norte-americano, os israelenses possuem uma linha dura de assentamentos já há alguns anos e que tem provocado ainda mais o ódio muçulmano, pois famílias inteiras de islâmicos são desalojadas e entregues à própria sorte.

Por outro lado, os movimentos palestinos recusam-se a reconhecer a existência do Estado de Israel, fato hoje incontestável, e insistem em um discurso que mescla um discurso de expulsão dos judeus da Palestina com outro ainda mais radical, isto é, seu extermínio. Além disso, o apoio irrestrito dos Estados Unidos à política israelense e a ojeriza popular a tudo o que se refere à cultura islâmica (especialmente após os atentados ao World Trade Center e ao Pentágono) provocam ainda mais os nacionalismos muçulmanos, da Líbia até o Iraque – em que pese o apoio de boa parte das monarquias árabes aos EUA, como vimos durante a Guerra do Golfo. No entanto, é fato que as populações árabes são francamente anti-semitas, por vezes opondo-se publicamente a seus governos.

Assim, concluo esta palestra com bastante pessimismo. A curto/médio prazo não percebo a menor possibilidade de entendimento de ambas as partes. Enquanto existir o binômio Estado/Religião em um país moderno não haverá possibilidade de convivência pacífica multi-étnica ou religiosa dentro de suas fronteiras. A história do ocidente provou que é necessário separar as esferas do poder das verdades da fé. Foi assim que a cultura ocidental conseguiu progresso tecnológico e desenvolvimento econômico, em que pese os problemas existenciais da Modernidade – ou Pós-modernidade. O problema não é religioso ou a religião, pois o homem é um ser que busca e necessita algo transcendental, e sim a utilização que alguns radicais político-religiosos fazem do Estado teocrático para seus próprios fins. Nem o Corão nem a Torah defendem os massacres perpetrados por ambas as partes.

Para que vocês tenham uma idéia das propostas pluralistas e harmoniosas que os religiosos já propuseram ao longo da história humana, termino esta palestra com uma bela citação do Livro do Gentio e dos Três Sábios, um texto escrito por volta de 1274 pelo filósofo Ramon Llull (1232-1316). Um judeu, um cristão e um muçulmano dialogam em uma bela floresta com um ateu sobre as verdades de suas fés. No fim, se despedem

…um do outro muito amável e agradavelmente. Cada um pediu perdão ao outro caso tivesse dito contra a sua Lei alguma palavra vil. Um perdoou o outro e, no momento da partida, um sábio disse: Da ventura que nos ocorreu na floresta, não se seguiria para nós algum proveito? Parecer-vos-ia bem que, por meio das cinco árvores e seguindo as dez condições significadas por suas flores, todos os dias e uma vez por dia disputássemos seguindo as instruções que a Dama Inteligência nos mostrou, e que nosso debate durasse até todos nós três termos uma só fé e uma Lei, e até que tivéssemos entre nós uma maneira de honrar e de servir uns aos outros que nos fizesse concordar? Porque a guerra, o trabalho e a malevolência, e o fazer dano e ultraje impede que os homens concordem em uma crença.

Oxalá chegue o dia que judeus e muçulmanos sentem à mesa, andem pelas ruas e comemorem suas festas e dias sagrados em paz.

*

Bibliografia

HERZL, Theodor. O Estado Judeu. Rio de Janeiro: Mercaz-Wizo-Brasil, 1954.

JOHNSON, Paul. História dos Judeus. Rio de Janeiro: Imago, 1989.

SOLIMAN, Lotfallah. Por uma História Profana da Palestina. São Paulo: Editora Brasiliense, 1990.

WILLMOTT, H. P. “Regresso à Terra Prometida”. In: ALLAN, Tony (dir.). História em Revista – A Sombra dos Ditadores (1925-1950). Rio de Janeiro: Abril Livros, 1993, p. 102-105.


A formação do Estado de Israel

Ricardo Alvarez

Com a proclamação do Estado de Israel, o povo judeu realizou seu sonho de voltar à terra dos seus antepassados, acalentado durante anos. No entanto, a fundação do Estado de Israel, comandada por Ben Gurion, intensificou o conflito entre judeus e árabes.

Por volta do ano 1020 a.C., o rei Saul fundou a primeira nação de Israel, que viveu o apogeu entre os anos 1000 a.C. e 926 a.C., na época dos reis Davi e Salomão. Foi nesse período que, depois de conquistada, a cidade de Jerusalém se transformou em capital política e religiosa. Após a destruição do templo de Jerusalém por tropas romanas, no ano 70 d.C., e a sufocação da revolta dos judeus contra os romanos, encabeçada por Bar Kochba (133-135), milhares de judeus perderam a vida e um grande número deles fugiu da Palestina. Começou assim o exílio, chamado por eles de “galut”. Durante séculos os judeus se viram obrigados a viver em meio a outros povos, sofrendo expulsões e perseguições. Apesar de tudo, continuou viva a esperança de regresso.

Quando o anti-semitismo se fortaleceu, em meados do século XIX, muitos judeus chegaram à conclusão de que uma vida livre e independente só seria possível num Estado próprio. A expressão dessa esperança se materializou no livro “O Estado Judeu” (1896), de Theodor Herzl, fundador do Movimento Sionista. A partir dos primeiros anos do século XX, os colonos judeus começaram a emigrar em massa para a Palestina, com a intenção de se estabelecer na terra dos seus antepassados, apesar dos protestos dos árabes. Não demorou para o sionismo entrar em confronto com o nascente nacionalismo dos árabes, povo que confiava na independência desde a queda do Império Otomano, em 1918. Em 1920, dois anos depois de a Grã-Bretanha conquistar a Palestina dos otomanos, que a haviam ocupado em 1517, os britânicos receberam o mandato da Liga das Nações para administrar o território.

A Grã-Bretanha, que buscava o apoio tanto dos árabes como dos judeus durante a Primeira Guerra Mundial, prometera aos dois povos respeitar suas reivindicações. Arthur James Balfour garantia aos judeus que os apoiaria suas aspirações de criar um “lar nacional” na Palestina (Declaração Balfour). No entanto, deixou bem claro que a colonização só seria possível se fossem reconhecidos os direitos civis da população restante e respeitada a sua religião. Os palestinos opuseram-se ao plano de criação de um Estado judeu independente e a resistência conduziu a uma revolta em 1936.

Em 1937, a comissão britânica de pacificação da Palestina apresentou um plano que previa a divisão do território, com a criação de um Estado judeu e de outro árabe. O Sul da Palestina e as cidades de Belém, Jerusalém e Nazaré permaneceriam sob mandato britânico. O Congresso Mundial Sionista e o I Congresso Pan-Árabe rejeitaram o projeto de divisão.

O anti-semitismo nazista provocou o aumento da emigração de judeus de tal forma que os britânicos tiveram de controlar a entrada de imigrantes na Palestina. Após a guerra, anunciaram sua intenção de impedir a imigração ilegal. Em 1947, a Grã-Bretanha apresentou nas Nações Unidas a questão da Palestina. A Assembléia Geral decidiu nesse mesmo ano a divisão do território em dois Estados, um judeu e outro árabe, além do controle internacional de Jerusalém.

Guerra dos seis dias (1967)

A ocorrência de uma terceira guerra no Oriente Médio parecia inevitável. No entanto, o fato de ser Israel a dar o primeiro passo, em 1967, surpreendeu tanto os seus inimigos árabes como a opinião pública mundial.

Imediatamente após a fundação do Estado de Israel, em 1948, registraram-se os primeiros confrontos com os seus vizinhos árabes. Contra toda a lógica militar, Israel conseguiu impor-se a seus inimigos, contrários à fundação do Estado judaico e equipados com um vasto arsenal bélico. Durante a Segunda Guerra entre Israel-árábe, as unidades israelenses conseguiram conquistar, em 1956, a região do Sinai, embora tenham sido mais tarde obrigadas a retirar-se da referida península.

Em 1966 já se previa um novo confronto no Oriente Médio, devido aos incidentes fronteiriços cada vez mais freqüentes. Em abril de 1967, bombardeiros israelenses abateram seis “Mig21” sírios no espaço aéreo da Síria. Pouco depois, o Egito punha suas tropas em estado de alerta.

O primeiro-ministro egípcio Gamal Abdel Nasser pediu então a retirada da força de paz da ONU da faixa de Gaza, oficialmente instalada por razões de segurança. O secretário geral da Organização, Sithu U Thant, cedeu. Imediatamente concentraram-se fortes contingentes de tropas egípcias e israelenses de ambos os lados da fronteira. Nasser bloqueou o acesso dos navios israelenses ao golfo de Acaba, impedindo assim o abastecimento de Israel por esta via marítima.

No dia 5 de junho, um grupo de bombardeiros israelenses, que decolou de Telavive, em vôo rasante fora do alcance dos radares inimigos, penetrou no espaço aéreo egípcio e destruiu muitos aviões no solo. Numa ação simultânea, a aviação israelense atacou os aeroportos da Síria e da Jordânia e os tanques ocuparam, numa ofensiva-relâmpago, vastos territórios da Jordânia e do Sinai. No dia 6 de junho conquistaram Gaza e, um dia mais tarde, chegavam ao Suez. Após novos confrontos no Sinai e um ataque à Síria, os combates foram suspensos em todas as frentes no dia 10 de junho. Israel utilizou com êxito a estratégia de um ataque preventivo contra seus adversários árabes, muito superiores em número. Deste modo, ao terminar esta guerra em três frentes, Israel controlava uma área quatro vezes mais vasta do que o seu território original. A chave desta vitória surpreendentemente rápida e contundente foi o planejamento minucioso dos ataques iniciais, que garantiu a Israel, ao fim do primeiro dia de guerra, uma importante superioridade aérea. A direção estratégica destas operações esteve a cargo do antigo comandante do Exército, Moshe Dayan, nomeado ministro da Defesa poucos dias antes do início da guerra. O êxito israelense deveu-se também à moderna tecnologia de seu armamento, à existência de unidades blindadas muito bem treinadas e à excelente preparação militar de seus soldados. O mundo inteiro ficou impressionado com esta rápida e inequívoca vitória de Israel, que, apesar de sua situação geográfica desfavorável, conseguiu novamente impor-se ao mundo árabe.

Guerra do Yom Kippur (1973)

Quando, em outubro de 1973, tropas egípcias e sírias efetuaram um ataque de surpresa contra Israel, o Estado judaico enfrentou pela primeira vez a possibilidade de uma derrota. Um contra-ataque dos israelenses conteve a ofensiva.

Durante a festividade judaica mais importante, o dia da confissão dos pecados e da purificação, Yom Kippur, os vizinhos árabes atacaram Israel de surpresa. Assim se iniciou a quarta guerra árabe-israelense desde 1948. Os combates concentraram-se principalmente na península do Sinai e nas colinas de Golã. O 2° e 3° Exércitos egípcios atravessaram o canal de Suez e avançaram para o interior do Sinai, onde travaram duros combates com unidades blindadas israelenses. Ao mesmo tempo, as unidades sírias chegaram às colinas de Golã e penetraram nos trechos ocupados por Israel, onde saíram vitoriosos. A contra-ofensiva israelense iniciou-se só 48 horas depois, com bombardeios aéreos sobre o Cairo e Damasco.

Após sérios confrontos, as unidades israelenses conseguiram fazer recuar as tropas sírias, nas colinas de Golã, até o outro lado da linha de cessar-fogo que se estabeleceu em 1967. Entretanto, prosseguia o avanço do exército egípcio no Sinai, apenas detido quando as tropas de Israel abriram uma brecha entre os dois exércitos egípcios.

O Egito e a Síria recebiam armas e munições da União Soviética, enquanto os Estados Unidos forneciam material bélico a Israel através de uma ponte aérea. Uma vez estabilizada a situação em ambas as frentes, o Egito e Israel aceitaram a princípio o cessar-fogo exigido pelo Conselho de Segurança da ONU. No entanto, Israel não o respeitou e suas tropas cercaram o 3° Exército egípcio, sem se deter senão quando a ONU enviou tropas de intervenção para vigiar o cumprimento do acordo de cessar-fogo.

Os árabes celebraram o final das hostilidades como se tivessem ganho a guerra, embora o conflito terminasse sem um verdadeiro vencedor. Mas era a primeira vez que os Estados árabes vizinhos de Israel conseguiam levar seu adversário à beira da derrota militar.

Imediatamente depois da fundação do Estado de Israel, em 1948, os países-membros da Liga Árabe invadiram o novo país, que, graças à superioridade tática, conseguiu repelir o inimigo. Em 1956, depois de negociar com a Inglaterra e a França (crise de Suez), Israel empreendeu uma ação preventiva contra o Egito, país líder no mundo árabe, ocupando a faixa de Gaza e a península do Sinai, embora mais tarde tivesse de se retirar. E, em 1967, ao circularem rumores de uma nova ofensiva dos exércitos sírio e egípcio, Israel adiantou-se aos adversários e em apenas seis dias as tropas conseguiram efetuar ataques decisivos contra os árabes.

Terminada a guerra do Yom Kippur, em 1973, os Estados Unidos e a União Soviética esforçaram-se por conseguir o desarmamento no Oriente Médio. Acordou-se no recuo dos exércitosegípcio e árabe, prevendo-se a retirada das tropas dos territórios em disputa.

O Acordo de Camp David

Em Camp David, residência de verão de Jimmy Carter, presidente dos Estados Unidos, aconteceu um fato histórico: Israel e Egito, em confronto durante décadas, abriram caminho para a normalização de suas relações.

Desde a fundação do Estado de Israel, em 1948, ocorreram quatro guerras entre esse país e seus vizinhos árabes que envolveram muitos dos Estados do Oriente Médio e tornaram a região uma das mais inseguras do mundo. O primeiro confronto militar aconteceu em 1948-1949. Em 1956, 1967 e 1973, houve mais três guerras, nas quais Israel, apoiado pelos Estados Unidos, conseguiu vencer os países árabes, que, por sua vez, recebiam ajuda logística da União Soviética.

Em 17 de setembro de 1978, graças à mediação do presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, o dirigente egípcio Anuar Sadat e o primeiro-ministro israelense Menahem Beginassinaram, após 13 dias de intensas negociações, dois tratados que facilitaram a aproximação entre os dois países.

Num dos documentos previa-se a assinatura de um armistício no prazo de três meses, comprometendo-se Israel a retirar suas tropas do Sinai nos três anos seguintes. Os convênios contemplavam também o estabelecimento de relações diplomáticas entre os dois adversários em confronto havia tantos anos.

O segundo documento incluía as condições para a consecução de uma paz global no Oriente Médio. Para isso, Israel devia instaurar uma administração autônoma nos territórios ocupados da Cisjordânia e na faixa de Gaza e comprometia-se a retirar as tropas que tinha nessa zona. Planificou-se também a realização de negociações de que deviam participar, juntamente com Israel e Egito, delegados jordanianos e palestinos. Por último, Israel renunciava ao estabelecimento de mais colonatos nos territórios ocupados.

Tanto em Israel quanto no Egito a maioria da população recebeu com alívio os tratados de Camp David. No entanto, os nacionalistas egípcios e a maioria dos países árabes interpretaram como uma traição à causa árabe a predisposição mostrada por Sadat para cumprir seus compromissos. Os vizinhos árabes distanciaram-se, assim, do Egito, excluindo-o da Liga Árabe. Após o sucesso alcançado com os acordos de Camp David começaram as verdadeiras negociações de paz em Washington. No entanto, devido principalmente à inflexível posição israelense sobre os colonatos, as conversações não avançaram. Por fim, em março de 1979, Israel e Egito assinaram o tratado de paz. O Estado judaico retirou progressivamente suas tropas do Sinai e os dois países reconheceram as fronteiras existentes, assim como o estatuto privilegiado da faixa de Gaza. Além disso, tanto Israel quanto o Egito comprometeram-se a respeitar a carta das Nações Unidas e o direito internacional nas relações bilaterais.

Apesar das esperanças depositadas no processo de negociações, a verdade é que os acordos de Camp David não conduziram a uma paz global no Oriente Médio, uma vez que ficou pendente a questão palestina.

As negociações de paz

Os acordos de Gaza e Jericó, assinados em 1993 por Yasser Arafat e Yitzhak Rabin, lançaram as bases para a paz no Oriente Médio, mesmo que extremistas de ambos os lados tenham feito tudo para a impedir.

Os acordos de Gaza e Jericó nasceram sob os auspícios e a mediação da Noruega. Foram assinados em setembro de 1993, em Washington, e entraram em vigor no dia 1º de outubro desse ano, constituindo um passo histórico para um novo entendimento na região do Oriente Médio. Após as negociações, os palestinos recebiam, sob a forma de territórios autônomos, a faixa de Gaza e Jericó, durante um período transitório, até 7 de julho de 1999. O acordo estabelecia claramente que, até 7 de julho de 1994, deveriam ser realizadas eleições para um Conselho Autônomo que governasse os territórios palestinos e se encarregasse do desenvolvimento econômico, da proteção do meio ambiente e das questões sociais e fiscais. Israel comprometia-se, até abril de 1994, a retirar seus exércitos dos territórios de Gaza e Jericó. A partir dessa data, a segurança na região ficaria a cargo de um corpo de polícia palestino.

Embora a maior parte da população do Oriente Médio tenha festejado a assinatura do acordo, houve setores que se opuseram. Benjamin Netanyahu, político israelense da oposição e futuro primeiro-ministro, definiu o acordo como “motivo de humilhação nacional”. Grupos radicais palestinos e israelenses anunciaram imediatamente que resistiriam à aplicação das decisões do acordo. O governo israelense, no entanto, estava determinado a prosseguir no caminho da paz. A 14 de setembro de 1994, foi assinado o acordo de paz com a Jordânia.

Muito cedo, porém, ficou patente a dificuldade em cumprir as medidas estabelecidas pelos acordos. A retirada das tropas israelenses, cuja data estava claramente estabelecida, acabou sendo adiada. O controle das fronteiras, a área que deveria ocupar o território autônomo de Jericó e a segurança dos colonos israelenses transformaram-se em pontos de atrito. Em maio de 1994, Israel e Arafat, líder da OLP, assinavam o tratado de autonomia dos palestinos dos territórios ocupados por Israel, preconizado pelos acordos de Gaza e Jericó. Em setembro de 1995, os israelenses e as autoridades autônomas da Palestina assinavam um acordo sobre a retirada das tropas israelenses da Cisjordânia. Abria-se, assim, o caminho para a eleição do futuro Parlamento palestino.

A administração autônoma e o Comitê Executivo palestino manifestaram a sua aprovação do acordo, no mês de setembro. Também o Parlamento israelense ratificou o acordo, com uma maioria de 61 votos a favor e 59 votos contra. Os inimigos do acordo continuaram, no entanto, a tentar impedir uma aproximação entre árabes e israelenses. A 4 de novembro de 1995, o primeiro-ministro Yitzhak Rabin morreu, vítima de um atentado, perpetrado por um estudante de Direito, Jiral Amir. Netanyahu foi, então, eleito como sucessor de Rabin e, durante o seu mandato, as possibilidades de uma paz duradoura diminuíram consideravelmente.

As guerras árabe-israelenses

Data

Fatos

1948/1949

Primeira guerra

ü       Egito, Iraque, Líbano e Síria tentam impedir a fundação do Estado de Israel.ü       A Jordânia recebe a parte oriental da Palestina, o Egito passa a controlar a Faixa de Gaza, Jerusalém fica dividida entre Israel e a Jordânia.

1956

Campanha do Sinai

ü       Durante a crise do Canal de Suez, tropas israelenses invadem o Egito, antecipando-se ao ataque já esperado dos árabes.ü       Israel devolve a Faixa de Gaza e a península do Sinai.

1967

Guerra dos Seis Dias

ü       Israel ataca o Egito e a Síria e destrói a força aérea egípcia.ü       A Faixa de Gaza, as colinas do Gola, a Cisjordânia e a península do Sinai voltam ao controle de Israel, que ocupa a parte oriental de Jerusalém.

1973

Guerra do Yom Kippur

ü       O Egito e a Síria atacam Israel, que se defende com sucesso.ü       Em 1974, os Estados Unidos intermediaram um tratado de redução de tropas no Sinai e nas colinas do Golã.

A OPEP e o Petróleo

A criação da Opep constituiu uma virada nas relações entre os países produtores e compradores de petróleo. Pela primeira vez, os estados exportadores tinham a possibilidade de determinar o montante das suas receitas.

Em setembro de 1960, alguns países árabes produtores de petróleo (Iraque, Irã, Kuwait e Arábia Saudita) associaram-se à Venezuela, fundando em Bagdá a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), com sede em Viena desde 1965. O número de membros foi crescendo progressivamente, chegando aos 13 Estados que a constituem atualmente. O objetivo da Organização era, inicialmente, uma estabilização dos preços do petróleo.

A indústria do óleo mineral surgiu no final do século XIX. Graças ao baixo preço, o petróleo tornou-se rapidamente o recurso energético mais importante nos países industrializados, devido, sobretudo, à crescente difusão dos motores a gasolina. Com a criação da Opep, os países extratores pretendiam dispor de uma maior percentagem dos lucros resultantes das exportações de petróleo, que registravam um aumento espetacular e constituíam para a maioria destes estados a principal fonte de divisas. Pouco a pouco, os países da Opep foram assumindo também o controle da produção do óleo. A partir dos anos 70 conseguiram também autonomia na fixação dos preços, fato que, aliado à escassez da oferta, fez com que, entre 1972 e 1980, o preço do óleo chegasse a decuplicar. As companhias estrangeiras que se dedicavam à extração foram diretamente estatizadas, por expropriação ou por confisco. Esta nova situação transformou os estados árabes do deserto nos países mais ricos do mundo. Em 1973, o mundo ocidental percebeu, pela primeira vez, a importância do óleo como meio de pressão política. O Egito e a Síria desencadearam a guerra do Yom-Kippur e o fornecimento de petróleo aos estados que tomaram partido por Israel foi imediatamente cortado, enquanto os que se mantiveram neutros viram as suas importações reduzidas. Este boicote acentuou ainda mais a recessão nos países industrializados, que tiveram de enfrentar a primeira grande crise do petróleo. Entre 1980 e 1988, o óleo passou a constituir o principal meio para financiar a compra de armamento nos conflitos do Oriente Médio. Na guerra do Golfo, entre o Iraque e o Irã, ambos os países ultrapassaram as quotas de exportação que lhes tinham sido impostas, provocando uma forte queda nos preços do petróleo. A grande importância do controle das reservas petrolíferas ficou bem patente durante a segunda guerra do golfo, entre 1990 e 1991. Com a conquista do emirado do Kuwait, o Iraque passou a ser, sob o comando do ditador Saddam Hussein, a potência dominante em toda a região petrolífera árabe. Os EUA e os seus aliados ocidentais viram-se obrigados a ordenar o ataque, com o apoio da ONU.

Neste final do século XX, a importância da Opep diminui, graças ao aparecimento no mercado mundial de novos países extratores de petróleo.

Fonte: http://geografiaeconjuntura.sites.uol.com.br/orientemedio/oriente08.htm

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