SUPER ESPECIAL ENERGIA – 1ª PARTE – três matérias na National Geographic Brasil

Nosso desafio energético

O mundo já enfrenta sua dependência de combustíveis fósseis baratos e abundantes.

Por Bill McKibben
Foto de Peter Essick
O fogo crepitante pode proporcionar uma atmosfera agradável. Em muitos países em desenvolvimento, centenas de milhões de pessoas usam lenha para obter mais de 74% de suas necessidades energéticas.

O fogo crepitante pode proporcionar uma atmosfera agradável. Em muitos países em desenvolvimento, centenas de milhões de pessoas usam lenha para obter mais de 74% de suas necessidades energéticas.

Estamos imobilizados – entre uma rocha inviável e um ambiente superaquecido. E é uma questão em aberto se vamos conseguir nos libertar. E essa questão vai definir se o século 21 será marcado pela manutenção do progresso ou pelo início de um declínio longo e debilitante. O que está em jogo é a salvação do planeta em que vivemos.

A energia, claro, não é apenas mais um aspecto da nossa economia. Para todos os fins, ela é nossa economia. O grande economista John Maynard Keynes certa vez afirmou que as condições de vida da maioria dos seres humanos haviam, na melhor das hipóteses, dobrado de qualidade ao longo dos milênios desde o alvorecer da história até a virada do século 18, quando aprendemos a usar o carvão para mover máquinas. Em um curto espaço de tempo, as condições de vida, no Ocidente beneficiado por essa fonte de energia, passaram a ter sua qualidade de vida dobrada em intervalos de poucas décadas. (Há motivo, afinal, para que as expressões “mundo industrializado” e “mundo desenvolvido” sejam quase equivalentes.)

O que aconteceu é que deixamos de ficar restritos ao excedente energético que se podia extrair dos raios solares incidentes no planeta. De um momento para outro, passamos a ter acesso ao capital lentamente acumulado num banco – resultado dos milhões de anos de depósitos de samambaias, plâncton e dinossauros em que o tempo havia transformado em carvão mineral, gás natural e petróleo. Éramos como os felizes herdeiros de alguém muito rico e falecido há muito cujo testamento fora afinal decifrado. E passamos a gastar essa riqueza sem pensar nas consequências. Foram esses gastos que fizeram de nós o que somos hoje. Todas as nossas revoluções (a industrial, a química, a eletrônica e até mesmo a da informática) devem sua força a esse sangue novo que 4 ui pelas veias de nossa economia. Acima de todas elas, porém, está a revolução do consumo. A ampliação de nossas casas e zonas urbanas revelou-se o método mais eficiente para aumentar a demanda por combustível fóssil. Nossa casa cada vez mais cheia de eletrodomésticos e unida por carros cada vez maiores e mais vazios fizeram com que nossos medidores de eletricidade e nossas bombas de gasolina girassem como nunca antes. Que imagens os Estados Unidos enviam ao resto do mundo por meio de seus filmes e programas de TV? Exatamente as imagens de conforto suburbano.

Aparentemente, não havia nenhum problema em tal anseio. O plano A para a raça humana é que todos nós acabaríamos ricos, que todos se beneficiariam da mesma energia cativa que tão bem serviu ao Ocidente. Tudo parecia estar ocorrendo como o previsto: o período de crescimento explosivo na década de 1990 testemunhou nossa prosperidade generalizada, e também nosso consumo maciço de energia, começando a se difundir pela Ásia. Mas havia dois pequenos problemas: há 20 anos, se alguém chegava a pensar em aquecimento global, era como ameaça distante e improvável. Cinco anos atrás, a maioria das pessoas jamais ouvira falar na possibilidade de o petróleo um dia acabar. Bem, hoje, essas são as duas mandíbulas que vêm inexoravelmente se fechando e restringindo nossas opções. Examinados com cuidado, esses problemas podem nos apontar como vai ser o futuro – uma época na qual estaremos esgotando parte da energia de que necessitamos e não poderemos usar a outra parte pelo temor de arruinar a atmosfera. Um futuro que, de repente, não se parece com nada do que imaginamos por tanto tempo.

Para entendermos o motivo disso basta um pouco de matemática. No ano passado, a Agência de Informação sobre Energia, um órgão do governo americano, previu que, mantidas as atuais condições, o consumo mundial de energia aumentaria 50% até 2030. Esse é um bom número arredondado, resumindo o anseio das pessoas de todo o mundo por geladeiras, televisões, cubos de gelo, hambúrgueres, motocicletas e, nos trópicos, aparelhos de ar condicionado.

Todavia, não é nada claro de onde vai sair toda essa energia, pois o fato é que vivemos numa época em que o petróleo está começando a acabar. Em novembro de 2008, a Agência Internacional de Energia estimou que a produção mundial dos campos petrolíferos maduros está diminuindo 6,7% ao ano, um ritmo que provavelmente vai se acelerar ao longo do tempo. Para compensar esse declínio será preciso descobrir todos os anos o equivalente à produção atual do Kuweit, ou, se isso for possível, extrair tal volume dos campos petrolíferos já existentes. Para especialistas, nós já ultrapassamos o pico de produção de petróleo. Os mais otimistas acham que ainda pode ser uma questão de anos. Mas ninguém tem dúvida quanto ao que nos reserva o futuro, e é por isso que o barril de petróleo chegou a custar 147 dólares no ano passado. Foi necessária a ameaça de uma grande depressão para que voltasse ao patamar de 40 dólares.

E quais são as opções? Bem, existem outros combustíveis fósseis. Mas o gás natural também vai se esgotar um dia. O substituto óbvio é o carvão, o qual já exploramos bastante – o problema é que o carvão nos leva a outra ponta do dilema. Ele é o mais poluente de todos combustíveis: ao queimá-lo, lançamos toneladas de dióxido de carbono na atmosfera, o principal responsável pelo aquecimento global.

No verão de 2007, por exemplo, o gelo do Ártico derreteu. No fim do verão, a área das banquisas era 22% menor que os limites mínimos antes registrados. Um degelo comparável no verão seguinte desbloqueou simultaneamente as passagens Noroeste e Nordeste, proporcionando aos seres humanos, pela primeira vez na história, a possibilidade de circunavegar o Ártico por águas abertas. De acordo com simulações digitais sobre o aquecimento global, esse tipo de degelo só deveria ocorrer daqui a 30 anos. Foi uma confirmação de que estamos de fato aquecendo o planeta. O pior, contudo, é que se trata de um elo, entre vários, de um círculo vicioso que vai intensificar o aquecimento: em vez da conveniente camada branca de gelo que recobria o Ártico, e refletia 80% da radiação solar incidente de volta para o espaço, agora existem grandes trechos de água azul que absorvem 80% da radiação do Sol. Nós demos o chute inicial no aquecimento, mas agora a natureza está assumindo o processo e o levando adiante por conta própria. E esse não foi o único processo auto-reforçador desse tipo. O aquecimento resultou na propagação de várias pragas que dizimaram milhões de hectares de floresta no oeste da América do Norte – e os incêndios alimentados por toda essa madeira despejaram no ar novas ondas de carbono. Embora não tenhamos sido diretamente responsáveis por isso, somos nós que vamos sofrer as consequências. Nossos carros e fábricas haviam desencadeado claramente uma reação planetária, e isso, em retrospecto, não deveria nos surpreender. Afinal, estamos usando o carbono armazenado durante milhões de anos – graças a todas aquelas samambaias e todo aquele plâncton – e despejando-o na atmosfera no decorrer de poucas gerações. Por que isso não causaria problemas?

Mesmo agora, apenas duas décadas depois que se começou a falar em aquecimento global, estamos prestes a passar por sucessivos pontos de inflexão. Com base nos dados disponíveis, é possível prever rápido aumento das secas (pois o ar quente retém mais vapor d’água que o ar frio) e, consequentemente, aumento de tempestades e inundações, ampliação do âmbito de mosquitos portadores de doenças e alarmante encolhimento dos campos de gelo que fornecem água doce para cidades nos Andes e no subcontinente asiático. E, o que talvez seja ainda mais preocupante, novas pesquisas sobre os mantos de gelo na Groenlândia e no oeste da Antártica estão nos obrigando a redefinir a expressão “ritmo glacial”. Solapadas pelos mares mais quentes, as geleiras continentais começaram a se deslocar em direção ao oceano. De acordo com estudo divulgado em 2008, uma elevação no nível do mar da ordem de 2 metros não está fora de cogitação. Esse é um número que pode abalar a civilização. Vai pôr a maioria das cidades litorâneas do mundo numa situação parecida com a de Nova Orleans. Vai colocar em risco todo o esforço humano de maneiras que jamais enfrentamos antes.

Um dos principais climatologistas americanos, o cientista James Hansen, da Nasa, calculou um número que define o novo limiar para a manutenção da vida tal como a conhecemos. Ele e seus colegas estudaram o vínculo, ao longo da história, entre a quantidade de carbono na atmosfera e fenômenos como elevação no nível do mar (durante toda a história humana até a revolução industrial, o ar nunca teve mais que 275 partes por milhão de CO2), e em seguida eles examinaram os últimos dados disponíveis a respeito do planeta Terra. E a que conclusão chegaram? “Se a humanidade quiser preservar um planeta semelhante àquele no qual se desenvolveu a civilização e ao qual a vida está adaptada […] o CO2 terá de ser reduzido, de seus níveis atuais, de 385 ppm para, no máximo, 350 ppm.” Ou seja, já ultrapassamos em muito o limite máximo – e por isso o Ártico está derretendo.

De um momento para outro, 350 tornou-se o número mais importante do planeta. Segundo Hansen, essencialmente precisamos deixar de queimar carvão em todo o planeta até 2030 – e ainda antes disso no mundo desenvolvido. (Poderíamos, como alternativa, capturar o dióxido de carbono emitido pelas chaminés das termelétricas e armazená-lo no subsolo, mas essa tecnologia ainda está sendo aperfeiçoada e vai demorar para ser viável.) A desmontagem da economia baseada em combustíveis fósseis implicaria perda de enorme massa de recursos já investidos em velhas tecnologias que ainda teriam décadas de vida útil. E, a menos que alguém consiga convencer os americanos, e o resto do mundo, de que não precisam de geladeiras, isso significa que teremos de encontrar outras fontes de energia

Essa é a tarefa de nossa geração.

 

Fonte: http://viajeaqui.abril.com.br/national-geographic/especiais/energia/consumo-energia-492904.shtml?page=0

 

O custo da energia

Paisagens e vidas humanas sofrem com a busca febril por mais combustível.

Por Michelle Nijhuis
Foto de Joel Sartore
No Wyoming, o fazendeiro Leo Ankney mantém distância das chamas que se alimentam de um veio de carvão em sua propriedade. "Acho que uns 4 hectares ficaram inaproveitáveis", diz. "É perigoso demais". Dezenas de incêndios subterrâneos ocorrem em minas de carvão abandonadas nos EUA.

No Wyoming, o fazendeiro Leo Ankney mantém distância das chamas que se alimentam de um veio de carvão em sua propriedade. "Acho que uns 4 hectares ficaram inaproveitáveis", diz. "É perigoso demais". Dezenas de incêndios subterrâneos ocorrem em minas de carvão abandonadas nos EUA.

Uma década atrás, quando me mudei para uma cidade pequena no Colorado, o carvão me mantinha aquecida à noite. No porão de minha casa alugada havia uma velha fornalha que consumia incontáveis pazadas de carvão e expelia um ar quente e repleto de partículas por orifícios no andar superior. A tonelada do mineral que eu comprava a cada outono era barata, pois eu vivia perto de sua fonte. A cerca de 15 quilômetros dali, trabalhadores em três minas garantiam fluxo constante de carvão.

De algum modo, esse posto avançado da economia global baseada em combustíveis fósseis tem sorte. Além de alguns silos de carvão mais altos e estradas que cruzam as mesetas, as minas subterrâneas mal são visíveis na região. E o carvão delas tem baixo teor de enxofre.

No entanto, minha fornalha e as dos meus vizinhos envolvem o vilarejo em uma nuvem medonha todo inverno, e contribuem para aquecer o planeta com suas emissões exageradas de dióxido de carbono. E o aquecimento de minha casa também tem um custo humano, que noto toda vez que olho pela janela da cozinha. Do outro lado da rua, na beira de um parque, há uma estátua de bronze representando um mineiro com uma picareta na mão. Logo abaixo de suas botas, uma placa lembra os quase 70 homens que morreram nas minas locais ao longo do último século. Hoje, com as máquinas substituindo os homens, tais mortes são mais raras, mas acontecem: a última fatalidade no vale ocorreu em 2007, e o monumento tem espaço para outros nomes.

Faz tempo que troquei minha pá de carvão por painéis solares, mas os mineiros do vale continuam se esfalfando no subsolo, e a geologia continua determinado o destino da região. A demanda por combustíveis menos poluentes despertou o interesse pelo gás natural das Montanhas Rochosas -incluindo o metano aprisionado entre os veios de carvão -, e um surto de exploração do gás agora se estende desde Montana até o Novo México. Dezenas de milhares de poços e a resultante rede de estradas novas, dutos e cercas perturbam a fauna e destroem os pastos, deixando furiosos tanto fazendeiros como caçadores. “O setor de petróleo e gás imiscui-se em toda a comunidade, em toda a paisagem”, comenta Duke Cox, militante ambiental no oeste do Colorado.

Esses relatos têm seus ecos no outro lado do país, nos Apalaches, onde o topo dos morros é removido com explosivos de modo a expor os veios de carvão. Julia Bonds, a última pessoa a mudar-se de seu vilarejo – Marfork Hollow, na Virgínia Ocidental -, há oito anos, ainda se recorda das nuvens de pó de carvão, dos peixes mortos no riacho e da ameaça representada por um reservatório de escória viscosa a alguns quilômetros acima da cidadezinha. Outras pequenas cidades na região sofrem o mesmo destino. “Aqui é uma zona de guerra”, diz Julia, hoje diretora do grupo ambientalista Coal River Mountain Watch.

Em Alberta, no Canadá, um grupo de empresas está explorando imensos depósitos de areia betuminosa, extraindo uma substância parecida com melaço que pode ser transformada – por meio de procedimentos que requerem muita energia – em petróleo cru refinável. A extração e o processamento da areia betuminosa canadense resultam em mais de 1 milhão de barris de petróleo por dia, fazendo com que as exportações desse produto para os Estados Unidos sejam atualmente superiores às da Arábia Saudita.

Nas lavras de areia betuminosa são usados os maiores caminhões e tratores do planeta, que revolvem o terreno, multiplicam as crateras e abrem um conjunto de tanques de rejeitos que ocupa uma área superior a 130 quilômetros quadrados. No verão passado, as crianças de Fort Chipewyan, remoto vilarejo ocupado por índios crees e chipewyans e situado a jusante da área de exploração da areia, capturaram um peixe com duas mandíbulas. Os moradores desconfiam de que toxinas liberadas pelos rejeitos estejam por trás de um surto local de vários tipos de câncer.

A América do Norte, evidentemente, é responsável por apenas uma parte do custo global da energia. Na China, onde o setor de mineração de carvão emprega 3 milhões de pessoas, milhares de mineiros – muitos deles trabalhadores migrantes, forçados a arriscar a vida em troca de salário regular – morrem em inundações, incêndios, desmoronamentos e explosões nas minas a cada ano. Apesar do endurecimento do governo, as tragédias continuam a acontecer. As doenças respiratórias são corriqueiras, e as chuvas ácidas, resultantes da queima do carvão, vêm devastando as florestas e as áreas de cultivo no país. Ainda mais terrível é a situação no delta do rio Níger, na Nigéria, uma área rica em petróleo na qual os vazamentos de óleo, as chuvas ácidas e a frenética construção de canais e oleodutos destruíram um dos maiores manguezais do mundo. Em vez prosperidade, o surto petrolífero do país resultou em corrupção política e miséria.

Mas a corrida pelos combustíveis fósseis prossegue acelerada, em parte para satisfazer uma voracidade mundial por energia – e em parte porque oferecem às populações locais um irresistível pacto diabólico. Para muitos vilarejos isolados, o setor de mineração oferece tentações: graças aos tributos pagos por uma companhia de gás, os alunos de uma escola pública de Pinedale, em Wyoming, têm acesso a um centro recreativo que custou 20 milhões de dólares e a salas de aula equipadas com avançados equipamentos.

O trabalho nas minas e nos equipamentos de perfuração, embora arriscado, é bem pago. E muitos trabalhadores têm orgulho em cumprir tarefas perigosas, levar adiante tradições familiares ou comunitárias e prover um produto essencial a seus concidadãos. Às vezes, eles consideram as mudanças não como saída, mas como ameaça a seu modo de vida.

Mas as mudanças já estão ocorrendo, e algumas delas implicam em opções mais amenas. Sob uma nova lei do Colorado, até 2020 as principais companhias elétricas do estado devem obter de fontes renováveis um quinto de toda a energia que fornecem. Turbinas eólicas e painéis solares estão sendo instalados em fazendas e sítios do Colorado, e postos de trabalho em setores poluentes agora estão migrando para atividades menos agressivas ao meio ambiente. Na pequena cidade em que vivo, à beira da área de extração de gás, a antiga escola secundária ainda é usada para treino de segurança dos carvoeiros. Mas, a 1 quilômetro dali, em um campus recém-construído da Solar Energy International, uma organização sem fins lucrativos, especialistas em energia renovável orientam empreiteiros, eletricistas e ocasional trabalhador aposentado dos setores de petróleo e gás para que tirem proveito financeiro desse novo tipo de corrida energética.

A geologia continua influenciando o destino, mas não por muito tempo.

 

Fonte: http://viajeaqui.abril.com.br/national-geographic/especiais/energia/combustivel-fossil-492962.shtml?page=0

 

Trilha para o futuro

Não há solução única. A matriz energética do futuro vai exigir um conjunto de tecnologias.

Por Bill McKibben
Foto de Robert Kakarigi
Embora moinhos de vento sejam usados há séculos para bombear água e moer cereais, hoje geram eletricidade, como nestas turbinas perto de Pamplona, na Espanha. Em 2008, nos EUA, 42% da nova capacidade de geração veio de turbinas eólicas.
Embora moinhos de vento sejam usados há séculos para bombear água e moer cereais, hoje geram eletricidade, como nestas turbinas perto de Pamplona, na Espanha. Em 2008, nos EUA, 42% da nova capacidade de geração veio de turbinas eólicas.
Estou escrevendo este artigo em um computador acionado pela energia gerada por painéis solares instalados no teto de minha casa – e essa é uma ótima notícia. Estamos aprendendo, como vimos nestas páginas, algumas maneiras novas pelas quais poderíamos satisfazer as necessidades energéticas de nosso cotidiano. Não vai ser fácil essa transição, mas o mundo em que vivemos não será mais o mesmo. Para entender o motivo, é preciso considerar as vantagens intrínsecas do combustível fóssil: ele pode ser obtido com facilidade, pode ser transportado e é rico em energia calórica. Um barril de petróleo, por exemplo, contém cerca de 5,8 milhões de btu – o equivalente à força exercida por um lavrador trabalhando no campo durante 3 625 horas, ou seja, nada menos que 15 meses de trabalho. O combustível fóssil é, portanto, algo mágico.

A energia renovável, por outro lado, é abundante. A qualquer hora, o Sol envia mais energia para a Terra que a consumida por toda a população humana durante um ano. O problema é que ela está no polo oposto do carvão ou do petróleo: em vez de ser muito concentrada, ela está muito difusa. Há um pouco dela por toda parte, exceto à noite, quando não é disponível. O mesmo se dá com o vento e várias outras alternativas. Isso não as torna inviáveis. Podemos não ter uma solução única definitiva, mas talvez tenhamos várias soluções parciais. Mesmo assim, ainda é difícil vislumbrar de que modo vamos obter energia para o mundo em que estamos habituados a viver. Basta atentarmos para todos os equipamentos que compõem nossa sociedade: todos dependem da queima de líquidos oleosos e fragmentos sólidos de antigos organismos que agora estão se esgotando e ameaçando destruir nosso clima. De algum modo, temos de mudar tudo isso a fim de obter uma matriz energética com outras fontes – e precisamos fazer isso sem que haja colapso da economia global.

Felizmente, há alternativas promissoras. Para começar, desperdiçamos energia demais: em média, cada americano consome o dobro da energia usada pelos habitantes da Europa Ocidental, mesmo considerando que o padrão de vida é equivalente em ambas as regiões. Os belgas não recorrem a nenhuma fórmula secreta: apenas vivem numa região em que os preços dos combustíveis se mantiveram elevados durante meio século e, por isso, aprenderam a economizar. Os europeus acostumaram-se a usar transporte coletivo, em vez de carro, a se deslocar segundo o fluxo de suas comunidades, e não quando têm vontade. Quem deixa o carro na garagem e vai ao trabalho de trem pode aproveitar a viagem lendo um livro.

Depois disso, contudo, surgem os dilemas. Alguns são monumentais: qual é o risco aceitável para se ter usinas nucleares? Outros são estéticos: a oposição das comunidades à instalação de turbinas eólicas no alto de morros ou à beira de praias. Alguns sacrifícios são muito pessoais: e se tivermos de reduzir o consumo de carne? (A criação de rebanhos para abate produz tantos gases do efeito estufa quanto o uso de automóveis.) E se precisarmos alterar nossa dieta de modo a comprar alimentos produzidos perto de casa, desistindo daqueles morangos em janeiro, trazidos do outro lado do planeta? Férias no exterior? O avião para outros continentes irá emitir mais carbono que qualquer outra coisa que fizermos durante um ano.

A verdade, todavia, é que nenhuma dessas escolhas individuais vai ser adotada com rapidez suficiente para afetar de forma significativa a quantidade de carbono na atmosfera ou a quantia de petróleo que resta nos grandes campos do Oriente Médio. Não há suficiente quantidade de gente preocupada com a questão. A inércia de nossa economia é forte demais. Há pouco Rajendra Pachauri, presidente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) – que, em 2007, recebeu o Nobel da Paz junto com Al Gore -, afirmou que, a menos que mudanças fundamentais estejam em andamento até 2012, os mecanismos de autorreforço associados às mudanças climáticas iriam adquirir impulso próprio e inexorável.

Em função desse prazo restrito, só duas coisas poderiam mudar de forma radical nossa trajetória. Uma delas é um esforço de mudança tecnológica comparável ao ocorrido na Segunda Guerra Mundial – em vez de passarem a produzir tanques e aviões, as companhias automobilísticas começariam a fabricar carros híbridos e motores de locomotivas elétricas. E, se vamos eletrificar a frota de veículos, como propôs Al Gore, será preciso uma reforma completa na rede de transmissão. Não é nada parecido com o programa Apollo, no qual concentramos toda nossa capacidade com o objetivo de levar três homens à Lua. O desafio agora é mais parecido com o de levar todo o mundo à Lua. A vantagem desse enorme esforço é que ele pode ser o estímulo mais promissor para reativar uma economia desaquecida. E a maior parte dele terá de ser feita dentro de nossas fronteiras.

A expansão dos investimentos em tecnologia é só a metade da resposta. Também precisamos acertar o conjunto de incentivos econômicos que impelem nosso setor de energia para que o capitalismo possa começar a funcionar de modo a nos ajudar a resolver o problema. Até agora, o livre mercado contribuiu apenas para piorar a situação, não para melhorá-la. E isso se deve ao fato de que não levou em conta o fator do carbono: como não há custo para lançá-lo na atmosfera, não há maneira de os mercados atuarem na promoção da sustentabilidade. No entanto, um tratado internacional que estabelecesse cotas para a quantidade de carbono que podemos emitir acabaria, na verdade, atribuindo um preço ao CO2, e um valor alto o bastante para refletir os danos que ele provoca. (Alguns especialistas sugeriram que também fosse cobrado um imposto ecológico sobre cada barril de petróleo, com a arrecadação destinada a iniciativas que nos preparassem para um futuro pós-petróleo.)

Durante a campanha para a Presidência dos Estados Unidos, no ano passado, ambos os candidatos se declararam favoráveis a um sistema de cotas para as emissões de carbono, o que teria o efeito de elevar os preços do carvão, do gás e do petróleo, e, portanto, de reduzir a demanda. Essa estratégia é eficaz. No ano passado, quando os preços do barril de petróleo alcançaram níveis sem precedentes, de repente os americanos passaram a andar menos de carro. Mas também é algo doloroso em termos políticos. Para que um sistema de cotas tenha alguma chance de ser aprovado, seria preciso descobrir uma maneira de repassar aos contribuintes os recursos arrecadados com a venda de licenças para poluir, uma estratégia que foi mencionada pelo presidente Obama em sua campanha.

Até aqui estivemos falando basicamente dos países do Ocidente. Porém, por mais dolorosa que seja a perspectiva de nova matriz energética no mundo desenvolvido, isso não se compara nem de longe com o problema enfrentado pelos chineses, por exemplo. Eles estão em pleno surto de industrialização, e o carvão é o principal combustível para levar adiante esse processo de modernização. O carvão é abundante e barato, com um custo de alguns centavos para a extração e a queima de cada quilowatt-hora. Toda essa queima de carvão está lançando enxofre e fuligem no ar, transformando a cidade típica chinesa em um local cinzento e sem sol. Esse é o valor que eles se dispuseram a pagar, tal como os países hoje desenvolvidos pagaram alto preço em um momento similar de sua história.

O ritmo de inauguração de duas termelétricas a carvão por semana, contudo, também está produzindo quantidade assombrosa de dióxido de carbono. Em 2006, a China ultrapassou os Estados Unidos como o maior emissor de CO2 no planeta. A população chinesa é quatro vezes maior que a americana, e eles estão usando essa energia para tirar as pessoas do nível de pobreza, não para construir novos condomínios de luxo nos subúrbios. Estão criando condições para que as pessoas vivam melhor, tal como nós mesmos fizemos no passado, e, na verdade, estão mais atentos aos danos ambientais implicados nesse processo. (A China é líder mundial no uso de energia renovável, em grande parte porque foram instalados milhões de aquecedores solares de água em telhados urbanos.) Portanto, em termos morais, não há como criticá-los.

Mas, para a atmosfera, pouco importa a moralidade: o que faz a diferença é a quantidade de carbono. De alguma maneira temos de chegar a um acordo – com a China e com o resto do mundo em desenvolvimento. Um acordo que os ajude a financiar as novas formas de energia para que o mundo não corra o risco de viver com reservas declinantes de petróleo, ou seja, aquecido de forma catastrófica.

A melhor perspectiva para um pacto desse tipo talvez seja delineada no segundo semestre deste ano na Dinamarca. Representantes de todas as partes do planeta vão se reunir em Copenhague para discutir novo tratado que deverá substituir os acordos de Kyoto. Eles tentarão reduzir o uso de combustíveis fósseis no mundo desenvolvido e canalizar recursos dos países mais ricos para os mais pobres de modo que estes últimos possam se desenvolver sem recorrer a suas reservas de carvão barato

Por outro lado, estamos diante de um conjunto de desafios que requer a reação mais dura que os seres humanos já tentaram articular. Mesmo estando diante desse ponto crucial, a demanda por energia continua a crescer – por mais óbvio que pareça hoje de que precisamos mudar de rota logo. Qualquer adiamento, mesmo de poucos anos, será catastrófico. É um exame com prazo fixo e, em algum ponto no futuro próximo, vamos ter de colocar de lado o lápis e simplesmente viver com o que já tivermos respondido. E, como a natureza não dá notas relativas, isso vai exigir toda a engenhosidade – tecnológica, econômica e social – que pudermos reunir.

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